O Brasil que Voa Alto

O Brasil que Voa Alto

Um Exemplo Vivo Contra o Ceticismo

A sala de aula sempre foi, para mim, um espaço vivo de diálogo, onde a teoria dos livros e os documentários se encontram com a realidade concreta do Brasil. Ao lecionar Administração Pública, percebi claramente uma lacuna entre muitos acadêmicos: um distanciamento preocupante — quase uma descrença — quanto ao potencial das instituições nacionais como agentes de transformação.

Foi nesse contexto que encontrei, na história da Embraer, não apenas um caso exemplar de sucesso empresarial, mas uma poderosa demonstração de como o planejamento estatal, a visão estratégica e o investimento consistente em educação podem construir, de fato, a soberania tecnológica de um país.

Este artigo tem um objetivo claro: mostrar, a partir da trajetória da aviação brasileira, que o Estado pode ser um agente transformador quando alia ambição nacional a políticas públicas de longo prazo em setores estratégicos.


A Semente Estratégica: do Gênio Individual ao Projeto Nacional

 

O voo do 14-Bis, em 1906, consagrou Santos Dumont na história da humanidade. No entanto, foi sua carta ao presidente Afonso Pena, escrita em 1908, que plantou uma semente ainda mais profunda e duradoura. Naquele documento, Dumont não buscava reconhecimento pessoal, mas ação estatal: defendia a criação de uma Escola de Aeronáutica.

Seu argumento era essencialmente geopolítico. Para ele, a aviação não era apenas inovação tecnológica, mas um elemento decisivo para o progresso econômico e a defesa nacional. Ao afirmar que “o aeroplano não é um brinquedo… é uma máquina de guerra”, Dumont demonstrava uma visão rara para seu tempo.


 

Afonso Pena, com notável lucidez estadista, transformou essa visão individual em política pública. Sob sua liderança, iniciou-se a formação dos primeiros especialistas brasileiros em aviação. Os instrutores e professores das escolas pioneiras — como a Escola de Aviação Naval (1916) e a Escola de Aviação Militar do Exército (1919) — haviam sido formados no exterior ou trazidos ao país como especialistas estrangeiros.

 

Em minha opinião, essa passagem do talento isolado para o projeto coletivo marca o nascimento do pensamento aeronáutico brasileiro. Afonso Pena compreendeu que, sem educação técnica própria, o país permaneceria eternamente dependente. Estava lançado o princípio fundamental: inovação sem soberania é apenas importação de conhecimento.


O Divisor de Águas: o ITA como Política de Estado

 

A criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em 1950, representa, a meu ver, o investimento educacional mais estratégico do século XX brasileiro. Mais do que uma instituição de ensino, o ITA foi a materialização concreta da ideia lançada por Santos Dumont décadas antes.

Em São José dos Campos, formou-se um ecossistema singular, onde ciência, engenharia e aplicação industrial passaram a coexistir.

A excelência do ITA resultou da combinação entre talentos formados em suas próprias fileiras e a atração de profissionais altamente qualificados, com experiência acadêmica em centros de pesquisa avançados no Brasil e no exterior.

Desse ambiente surgiu, de forma quase natural, a Empresa Brasileira de Aeronáutica — a Embraer — fundada em 1969. Sob a liderança do brigadeiro Ozires Silva, consolidou-se uma visão clara de futuro. Sua célebre frase resume esse espírito: “Não existem ventos favoráveis para quem não sabe aonde ir”.

A Embraer sabia exatamente seu destino: tornar o Brasil produtor — e não apenas consumidor — de tecnologia aeronáutica. O êxito comercial que se seguiu, com aeronaves operando em mais de 80 países, comprovou que investir em educação técnica de excelência não é gasto, mas uma poderosa alavanca de desenvolvimento e inserção soberana no cenário global.


Tecnologia como Questão de Soberania

A trajetória que conecta Santos Dumont, Afonso Pena, o ITA e a Embraer vai muito além de um relato histórico. Trata-se de um verdadeiro manual estratégico, ainda plenamente atual. O alerta de Ozires Silva — “Um país que não desenvolve tecnologia própria está condenado a ser colônia” — não é retórico, mas um diagnóstico preciso.

Em minha avaliação, três pilares sustentaram essa conquista nacional:

Visão de longo prazo, capaz de atravessar governos e ciclos políticos;

Investimento contínuo em educação especializada e pesquisa permanente  de novos recursos tecnológicos, tratados como política de Estado;

Coragem para competir nos setores mais complexos da economia global.

O atual cenário de disputas tecnológicas e reconfiguração das cadeias produtivas não deve ser visto apenas como ameaça, mas como uma oportunidade histórica. A experiência da Embraer demonstra que o Brasil pode, quando decide priorizar, ocupar posições de liderança em áreas estratégicas.


Quando o Brasil Ganha o Mundo

 

Hoje, a Embraer figura entre as maiores fabricantes de aeronaves do planeta, com presença em mais de 80 países. Suas aeronaves são operadas por companhias como American Airlines, United Airlines, KLM, Air France, Azul e Copa Airlines, além de diversas forças aéreas, inclusive as do Brasil e dos Estados Unidos.

 

 

Para mim, esse sucesso vai muito além dos resultados empresariais. Ele representa geração de empregos qualificados, domínio tecnológico, projeção internacional e, sobretudo, a prova concreta de que o Brasil é capaz de competir em setores de altíssima complexidade.


Ozires Silva: quem é e o que fez?

Ozires Silva nasceu em 8 de janeiro de 1931, em Bauru (SP), e completou 95 anos em 2026. Engenheiro aeronáutico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), é reconhecido como fundador da Embraer, criada em 1969, e como principal líder do projeto do Bandeirante, aeronave que se tornou um marco da indústria aeronáutica brasileira.

Presidiu a Embraer em períodos decisivos de sua trajetória, conduzindo sua expansão e consolidação no mercado internacional. Também exerceu funções estratégicas no setor público, como ministro da Infraestrutura e presidente da Petrobras. Seu legado está profundamente ligado à inovação tecnológica, ao planejamento estratégico e à afirmação do Brasil como protagonista na indústria aeronáutica mundial.


                             

                           Conclusão: o Futuro como Escolha Estratégica                                                                                                                                                                                         
A pergunta sobre nossa capacidade técnica já foi respondida: o Brasil voa alto quando decide fazê-lo. A questão que se impõe agora é política e estratégica: teremos continuidade, planejamento e coragem para sustentar e ampliar essas conquistas?

A história da aviação brasileira ensina que a soberania não nasce do improviso, mas de decisões firmes, investimentos pacientes e da recusa em aceitar o papel de meros espectadores do progresso alheio. O legado está construído. O desafio do presente é preservá-lo e expandi-lo para novas fronteiras tecnológicas.

Quando o Estado brasileiro escolhe voar alto, ele demonstra que é possível transformar sonhos nacionais em realidade global.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com


Fontes:

  • DUMONT, Alberto Santos. O que eu vi, o que nós veremos. Paris, 1918.
  • SILVA, Ozires. A decolagem de um sonho. Rio de Janeiro: Lemos Editorial, 2000.
  • PENNA, Afonso. Discursos e mensagens presidenciais (1906–1909).
  • EMBRAER. História da Embraer.
  • BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Construindo o Estado Republicano. Rio de Janeiro: FGV, 2009.

 

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