27 jan Revisitando a história de Lages – A Cidade que Moldou um Estado – Parte 2
Em continuidade a “Revisitando a História de Lages — Raízes Paulistas, Coração Catarinense” – Parte 1, publicado neste blog em 10/04/2025, este artigo tem como objetivo compreender como, desde 1766, Lages foi pensada como um projeto estratégico capaz de moldar os rumos de Santa Catarina. O texto acompanha sua evolução de entreposto de fronteira a centro irradiador do poder serrano, influenciando a política, a economia e a organização territorial por gerações.
“Relembrar o passado é crucial para nosso sentido de identidade: saber o que fomos confirma o que somos.” – David Lowenthal, Projeto História, 1998
“O Município é uma miniatura da Pátria, uma imagem reduzida dela; nas coisas políticas, o primeiro amor do cidadão”. – COSTA, Otacílio
Ao revisitar a história de Lages, percebo que não se trata apenas de organizar datas ou recuperar fatos, mas de compreender como uma cidade do interior foi capaz de exercer, por mais de dois séculos, um papel decisivo na formação territorial, política e econômica de Santa Catarina. Lages não nasceu por acaso: nasceu como projeto de poder, de ocupação estratégica e de integração regional.
Foi estrada antes de ser rua, foi política antes de ser prefeitura, foi capital sem título muito antes de ser apenas mais um município. Contar a história de Lages é, inevitavelmente, contar a própria história do Estado.
Antes de Lages: a presença indígena
Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, os campos do planalto serrano eram ocupados por povos indígenas, especialmente kaingang e xokleng, que dominavam vastos territórios e mantinham sistemas próprios de mobilidade, caça, coleta e circulação.
Esses povos foram os primeiros habitantes da região e deixaram marcas profundas na ocupação do território, embora sua presença tenha sido progressivamente silenciada pelos relatos oficiais posteriores.
As origens paulistas, a fundação e o projeto colonial (1766)
Os fundadores do povoado que deu origem à cidade de Lages eram, em sua maioria, bandeirantes e tropeiros paulistas. Eles partiram principalmente de três núcleos do estado de São Paulo: Santana de Parnaíba, Taubaté e a cidade de São Paulo.
A fundação de Lages está diretamente ligada à abertura da rota terrestre entre, São Paulo e o Rio Grande do Sul, dentro da estratégia geopolítica da Coroa Portuguesa de garantir a posse efetiva do Sul do Brasil e impedir o avanço espanhol.
Em 22 de novembro de 1766, o bandeirante Antônio Correia Pinto de Macedo fundou oficialmente o povoado de Nossa Senhora dos Prazeres das Lages.
Desde o nascimento, Lages não foi apenas um núcleo urbano, mas um posto avançado do poder colonial, criado para controlar caminhos, tropas, rebanhos e mercadorias.
Licurgo Costa, buscando identificar nominalmente os primeiros fazendeiros que se estabeleceram no Planalto Serrano, aponta que entre 1766 a 1790, a região era composta por 42 proprietários de terras, distribuídos entre pequenas, médias e grandes fazendas.
As fazendas eram, em sua maioria, tão grandes que se necessitava de vários dias para percorrê-las a cavalo. Em 1817, somente a área circundante a vila de Lages apresentava 56 fazendas, excluindo os sítios e chácaras.
Vila, município e cidade (1776–1860)
Em 26 de janeiro de 1776, Lages foi elevada à categoria de vila, com instalação da Câmara e autonomia administrativa. Inicialmente vinculada à Capitania de São Paulo, passou depois a integrar definitivamente a Capitania de Santa Catarina.
Em 1833, já no período imperial, tornou-se município, exercendo jurisdição sobre praticamente todo o interior catarinense.
Finalmente, em 25 de maio de 1860, foi elevada à condição de cidade, mantendo o nome Lages.
Durante todo o século XIX, Lages era:
centro do tropeirismo,
entreposto comercial,
polo político do interior,
sede informal do poder serrano.
Na prática, governar o interior de Santa Catarina significava governar a partir de Lages.
População e urbanização
A evolução demográfica foi lenta, mas contínua:
1766: cerca de 500 a 1.000 habitantes,
1872: cerca de 10.000 habitantes,
1950: cerca de 40.000 habitantes,
1970: cerca de 90.000 habitantes,
1991: 156.727 habitantes,
2010: 156.727 habitantes,
2022: 158.508 habitantes (IBGE),
2024: 160.126 habitantes (projeção do IBGE com base em tendências).
Estagnação Relativa: Os números dos últimos censos mostram um crescimento populacional muito modesto, quase de estagnação, refletindo a transição econômica e o fenômeno comum de emigração de jovens para cidades maiores ou polos regionais.
Perfil Urbano/Rural: Embora se destaque a importância histórica da zona rural Lages é hoje majoritariamente urbana. Dados do Censo 2010 indicavam que aproximadamente 90% da população já residia na zona urbana.
Maior Município da Serra: Mesmo com o crescimento lento, Lages se mantém como o município mais populoso da região serrana de Santa Catarina e um dos maiores do interior do estado.
O crescimento esteve sempre ligado aos ciclos econômicos:
pecuária (séculos XVIII e XIX),
madeira e agricultura (século XX),
serviços e educação (final do século XX).
Lages no fim do século XIX: política e cotidiano
No final do século XIX, Lages vivia o debate entre a pecuária tradicional e a necessidade de modernizar a agricultura. A Lei nº 42 de 1898 concedia lotes coloniais suburbanos para cultivo, mas apenas em regime de concessão. Lideranças como Vidal Ramos Júnior e o jornalista Fernando de Athayde criticavam esse modelo e defendiam a venda das terras, como forma de atrair colonos e dinamizar a economia.
Em 1891, Lages apresentava as seguintes características:
- População: aproximadamente 7.000 habitantes, dos quais entre 1.500 e 2.000 residiam na zona urbana, e os demais (5.000 a 5.500) viviam na zona rural.
- Estrutura urbana: cerca de 300 casas distribuídas ao longo de nove ruas principais.
- Serviços e cultura: contava com um teatro, quatro escolas, tipografia e jornais locais.
A cidade, ainda modesta, demonstrava sinais de organização urbana e aspirava a uma maior projeção regional.
Modernização e Belle Époque serrana (1880–1910)
Lages absorveu, em escala local, os ventos da modernidade:
ruas foram nomeadas e numeradas,
placas urbanas foram instaladas em 1888,
relógio público foi colocado na antiga matriz,
surgiram relojoarias, tipografias e bandas de música.
Imigrantes europeus, sobretudo alemães, introduziram ofícios, técnicas e hábitos urbanos. Na década de 1910, ocorreram os primeiros experimentos com energia elétrica, marcando o início da modernização tecnológica da cidade.
- Modernização e Belle Époque serrana refere-se ao período em que a região serrana de Santa Catarina — especialmente Lages — passou por transformações urbanas, econômicas e culturais (iluminação pública, comércio mais organizado, imprensa, escolas, arquitetura e vida social), inspiradas nos ideais de progresso e civilização do final do século XIX e início do século XX.
Economia: do tropeiro à madeira
Século XIX
pecuária extensiva,
comércio de gado e mulas,
couro, charque e erva-mate.
Século XX
Lages tornou-se o maior polo madeireiro do Sul do Brasil, sendo conhecida como “Capital Nacional da Madeira” nas décadas de 1950 e 1960.
Destacavam-se:
serrarias,
laminadoras,
fábricas de móveis,
frigoríficos,
curtumes.
A economia lageana sustentou grande parte da Serra Catarinense e moldou sua paisagem urbana e social.
A cidade que moldou um Estado
Do território original de Lages surgiram dezenas de municípios atuais, como:
Anita Garibaldi, Bocaina do Sul (desmembrado em 1994), Bom Jardim da Serra Bom Retiro, Campo Belo do Sul, Campos Novos (parte do antigo território), Capão Alto (desmembrado em 1994), Celso Ramos, Cerro Negro, Correia Pinto (desmembrado em 1982), Curitibanos (parte do antigo território), Otacílio Costa (desmembrado em 1982), Painel (desmembrado em 1994), Palmeira (parte do novo município de Otacílio Costa em 1982), Ponte Alta, Rio Rufino, São Joaquim, São José do Cerrito, Urubici, Urupema, entre outros.
Poucas cidades brasileiras foram tão decisivas na formação territorial de um Estado quanto Lages em Santa Catarina.
Celso Ramos e o PLAMEG: o salto catarinense
O maior legado político de Lages ao Estado foi, sem dúvida, Celso Ramos e o PLAMEG – Plano de Metas do Governo (1961–1966).
Com ele, Santa Catarina estruturou:
sistema rodoviário,
eletrificação,
universidades,
planejamento regional,
descentralização produtiva.
O modelo catarinense de desenvolvimento — hoje reconhecido como um dos mais equilibrados do Brasil — nasce diretamente da visão de um lageano que pensou o Estado como sistema e não como improviso.
Conclusão
Ao percorrer essa longa trajetória, compreendo que Lages não foi apenas uma cidade: foi uma função histórica. Foi capital sem decreto, centro de poder sem palácio, metrópole sem litoral.
Lages ensinou Santa Catarina a ocupar território, a organizar poder, a formar lideranças e a planejar o futuro. Mesmo que hoje seu protagonismo pareça menos visível, sua marca permanece gravada na estrutura política, econômica e cultural do Estado.
Entender Lages é, para mim, entender como se constrói um país longe do mar, longe das capitais e longe dos holofotes — mas profundamente próximo da essência do poder.
Princesa da Serra, teu chão guarda passos, sonhos e destinos. Mais que bela, é raiz da história Barriga-Verde.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes
- COSTA, Licurgo. História de Lages.
- COSTA, Otacílio. História de Lages: Apontamentos. Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, 1944.
- PIAZZA, Walter. Formação de Santa Catarina.
- RAMOS, Celso. Memórias do Governo.
- LOWENTHAL, David. Como conhecemos o passado. Projeto História, nº 17, 1998.
- IBGE. Séries Históricas Municipais.
- IBGE. Cidades@IBGE – Lages: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sc/lages/panorama.
- Correio Lageano. Acervo histórico.
- Arquivo Histórico Municipal de Lages.


Nenhum comentário