27 set Saudosas Vozes Lageanas em Memória
Saudosas recordações
Na minha infância, o esporte era mais do que um espetáculo – era uma experiência que vivia intensamente, dentro e fora de campo.
Quando não podia estar presente nas partidas disputadas nos Estádios Vidal Ramos Júnior ou no Vermelhão de Copacabana, sintonizava, de casa, a Rádio Semp. Era pelas vozes marcantes de Aldo Pires de Godoi e de Camargo Filho que acompanhava as transmissões do meu time do coração, o Guarani, ou do rival colorado, tanto em amistosos quanto nas competições dos campeonatos promovidos pela Liga Serrana de Futebol (LSF) e pela Federação Catarinense de Futebol (FCF).
Desde adolescente, o rádio me fascinava. Radionovelas, transmissões de futebol e análises esportivas eram minha paixão. Quase podia me imaginar como locutor. Enquanto ajudava meu pai no comércio, fazendo compras no centro da cidade, eu visitava a Rádio Diário da Manhã para observar os bastidores. Ficava impressionado com a produção das radionovelas, os comentários esportivos e a veiculação das notícias.
O rádio, tal como o telefone, o avião e o automóvel, é uma das inovações que teve um impacto significativo na sociedade do século passado, alterando a maneira como as pessoas viam o mundo ao seu redor. Era difícil imaginar que um som emitido pelo rádio poderia viajar longas distâncias, alcançando simultaneamente os ouvidos de tantas pessoas.
Programas que marcaram época
Clássicos como Repórter Esso da rádio Farroupilha – Porto Alegre, Grande Jornal Falado Tupi, Grande Jornal Falado Rádio Clube de Lages, Grande Rodeio, Alma Cabocla, Deixa que Eu Chuto, Domingo Esportivo e Mesa Redonda eram aguardados com expectativa e emoção.
O historiador Eric Hobsbawm ressaltou que, já na década de 1930, o rádio emergia como uma poderosa ferramenta informativa capaz de atingir milhões de pessoas de forma individualizada.
A voz que emociona: o papel do locutor

No rádio, a locução sempre foi essencial. O locutor não apenas descreve: ele informa, comenta e transmite emoções. Sua voz tem o poder de transformar fatos em experiências vividas.
Saudosos Personagens do Rádio
Uma voz lageana que ganhou o mundo – Al Neto (Afonso Ribeiro Neto) –
Hélio Aquino

Comentava futebol com inteligência e eloquência. Além da carreira no rádio, trabalhou no Banco do Brasil e posteriormente na Justiça do Trabalho. No Serrano Tênis Clube, dedicou-se ao esporte, especialmente o tênis, por três décadas.
Inah Oliveira Costa

Armindo Antonio Ranzolin

Em 1956, Ranzolin fez sua estreia como locutor esportivo na Rádio Diário da Manhà de Lages, cobrindo partidas da Liga Serrana de Futebol envolvendo clubes como Aliados Futebol Clube, Esporte Clube Internacional, Grêmio Esportivo Vasco da Gama e Lages Futebol Clube. No ano seguinte, dirigiu-se a Porto Alegre para cursar Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Em 1959, iniciou sua carreira jornalística na Rádio Guaíba como locutor comercial e redator. No mesmo ano, foi contratado pela concorrente Difusora como repórter e posteriormente se destacou como principal narrador esportivo.
Ranzolin foi um dos maiores locutores esportivos do Brasil. Conquistou renome nacional na Rádio Gaúcha e na RBS, narrando inclusive o histórico Grêmio x Ajax no Mundial de 1995.
Camargo Filho (Nadir Santos Camargo)
Um profissional laureado do rádio esportivo serrano. Natural de São Borja – RS, estabeleceu-se em Lages em 1950, onde exerceu a atividade de radialista esportivo até a sua aposentadoria na Rádio Clube de Lages.
Posteriormente a saída da Rádio Clube, Camargo passou e exercer a função de assessor de imprensa na Câmara de Vereadores de Lages.
Era uma figura apaixonada pelo futebol, torcedor do Inter de Lages e criador do jargão “Gua-Nal”, que marcou os clássicos locais. Foi também presidente interino do Inter em 1980 e pioneiro ao narrar os Jogos Abertos de Santa Catarina em 1960.
Camargo inaugurou uma nova era no jornalismo serrano ao transmitir partidas do Campeonato Brasileiro, narrando jogos em renomados estádios do Brasil, como o Maracanã, Morumbi, Mineirão, Olímpico e Beira-Rio.
Ele ofereceu aos ouvintes da serra experiências inesquecíveis através de entrevistas com figuras renomadas, como Pelé, além dos artistas Ângela Maria, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves. Entre os políticos que foram entrevistados pelo Camargo destacam-se Carlos Lacerda, que na época era governador do Rio de Janeiro; o Presidente João Goulart; e o Senador Tancredo Neves.
É fundamental que as novas gerações compreendam a importância de figuras como o radialista Camargo Filho, cuja atuação foi decisiva tanto para o esporte profissional quanto para o amador em nossa terra. Seu trabalho não apenas narrou jogos, mas ajudou a construir a identidade esportiva de uma comunidade inteira.
Preservar essas memórias é valorizar o passado, fortalecer o presente e inspirar o futuro.
Aldo Pires de Godoy
Aldo Pires de Godoy foi um renomado narrador esportivo e comunicador versátil, que marcou época no rádio catarinense. Reconhecido pela emoção que transmitia em suas locuções, protagonizou momentos inesquecíveis, como quando se deixou levar pela atmosfera do Estádio Vidal Ramos Júnior e do Estádio Vermelhão de Copacabana.
Além do microfone, também atuou como colunista e tornou-se referência no jornalismo esportivo de Santa Catarina.
Sua carreira profissional começou na Rádio Diário da Manhã, em Lages, onde foi narrador esportivo. Posteriormente, passou pela Rádio Princesa e pela Rádio Clube de Lages, estendendo sua atuação para diversas outras emissoras do Estado, além de experiências também na televisão.
Por muitos anos, a abertura das jornadas esportivas da Rádio Clube de Lages era marcada por um jingle que embalava o público:
“É bola no chão, é bola no pé, é bola no ar, é bola na rede pra você vibrar…
E a nossa equipe que é a mais forte vem aí pra falar de esporte…”.
Em uma partida do Internacional, sua voz inconfundível eternizou um dos lances mais lembrados pelos ouvintes:
“… Daniel chutooou, bateu no poooste!, voltou para Daniel, bateu é gol! Goooooooooooooooollll do Internacionaaallll…”.
Com seu estilo vibrante e carismático, Aldo Pires de Godoy consolidou-se como uma das vozes mais marcantes da crônica esportiva catarinense.
Luiz Zanella Sobrinho

Durante 46 anos, foi a voz emblemática do Show da Manhã e do Grande Jornal Falado da Rádio Clube de Lages. Encerrava o dia com a emocionante “Ave Maria” às 18h, tornando-se parte da rotina afetiva de milhares de ouvintes.
Servilho Ferreira (Luiz Alves Ferreira)

Com estilo irreverente, conquistou popularidade com o bordão “Servilho Ferreira, desde pequenininho, se tiver outro, é falso.” Foi repórter esportivo e policial, apresentador do popular “Onde Canta o Sabiá”, sempre polêmico e inovador.
Evaldir Nascimento

Radialista dedicado por 34 anos à Rádio Clube de Lages, liderou equipes esportivas e chegou a presidir a Fundação Municipal de Esportes. Ético e comprometido, deixou legado duradouro no rádio e no esporte da Serra Catarinense.
Cláudio Odair José de Oliveira

Atuou em várias rádios serranas e na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Lages por 20 anos, com humildade e profissionalismo.
Celso Aurélio

Versátil radialista e jornalista esportivo, trabalhou em diversas rádios e jornais. Criador do bordão “Todos passarão e eu passarinho”, marcou época também com sua coluna no Correio Lageano e a revista CA Esportes.
Conclusão – O legado do rádio lageano
Os profissionais aqui rememorados representam mais do que vozes de um período específico: constituem parte fundamental da construção da identidade cultural de Lages e da Serra Catarinense. O rádio, especialmente entre as décadas de 1930 e 1960, exerceu papel central como meio de comunicação de massa, sendo capaz de integrar comunidades urbanas e rurais, difundir valores sociais e consolidar práticas culturais.
Nesse contexto, os locutores não se limitaram à função técnica de narrar acontecimentos. Tornaram-se mediadores entre o fato e o público, responsáveis por atribuir sentido e emoção às transmissões. Seu trabalho contribuiu para a formação de vínculos coletivos, fortalecendo o sentimento de pertencimento regional.
O legado desses comunicadores permanece presente na memória social. Suas vozes, ainda lembradas, constituem registros vivos de uma época em que o rádio não apenas informava e entretinha, mas também desempenhava função estruturante na vida comunitária. Assim, o rádio lageano deve a esses profissionais parte significativa de seu reconhecimento histórico e cultural.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes:
HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
NUNES, Márcio de Souza. O rádio catarinense: história e memória. Florianópolis: Editora da UFSC, 2002.
SCHRAMM, Wilbur. Comunicação de massa e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
CORREIO LAGEANO. Diversas edições históricas. Lages, SC.
SC.RÁDIO CLUBE DE LAGES. Arquivos e registros sonoros. Lages, SC.
MEMÓRIA oral de ex-radialistas e ouvintes da Serra Catarinense.
Nota:
Considerando o amplo recorte temporal desta pesquisa — é possível que ocorram eventuais imprecisões, inconsistências ou omissões de natureza histórica.
Uma vez identificadas, tais ocorrências serão objeto de revisão criteriosa e atualização permanente, com o compromisso de assegurar a fidelidade histórica, a integridade das informações e o valor documental deste acervo.




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