Schweitzer: Raízes que Atravessaram o Oceano

Schweitzer: Raízes que Atravessaram o Oceano

O sobrenome é um sinal de identidade: um fio invisível que atravessa o tempo, unindo gerações por meio de histórias de partida, resistência e reconstrução. Ao percorrer os caminhos da imigração alemã no Brasil — com especial atenção à trajetória da família Schweitzer — revela-se não apenas uma sucessão de registros, mas um vasto tecido humano, entrelaçado por sonhos, perdas e esperanças, que ajudou a moldar a própria história do país.

Cada documento, cada nome preservado nos antigos livros paroquiais, é como uma chama que se reacende, lembrando que as comunidades não nascem por acaso. Elas brotam da persistência e da memória, sustentadas pelo desejo de permanecer. Contar essa história é, assim, um gesto de escuta ao passado — uma forma de dar voz àqueles que cruzaram oceanos e, com coragem silenciosa, transformaram a terra em lar e o tempo em legado.


Etimologia do Sobrenome Schweitzer

O sobrenome Schweitzer deriva do alemão antigo Schweizer, que significa literalmente “suíço” ou “da Suíça”.
Sua origem vem de Schweiz (Suíça) + o sufixo er, que indica procedência.

Na Europa medieval, era comum utilizar sobrenomes toponímicos, ou seja, ligados ao local de origem. Assim, um homem que viesse da Suíça e se estabelecesse em território alemão passava a ser chamado de der Schweitzer — “o suíço”.

Com o tempo, o nome se espalhou pelo sudoeste da Alemanha, de onde partiram muitos dos imigrantes que chegaram ao Brasil no século XIX.


O Contexto da Imigração Alemã no Brasil

A imigração alemã para o Brasil foi decisiva na formação social, cultural e econômica do país. Iniciada oficialmente em 1824, durante o reinado de Dom Pedro I, tinha como objetivos:

  • povoar regiões pouco ocupadas;
  • garantir a defesa territorial;
  • fortalecer a agricultura;
  • substituir gradualmente a mão de obra escravizada.

 

As promessas de terras e de uma nova vida ecoaram em uma Europa marcada por guerras, fome, impostos excessivos e fragmentação das propriedades rurais.

 

Ao longo de mais de um século, cerca de 250 mil alemães vieram para o Brasil, representando aproximadamente 5% de todo o fluxo imigratório do período. Hoje, estima-se que existam cerca de 5 milhões de descendentes de alemães no país.

O Sul concentrou a maior parte desse contingente. Na década de 1930, aproximadamente 20% da população do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina já era de origem alemã. Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro também receberam núcleos importantes.


Marco Zero da Imigração Alemã em Santa Catarina

Sǎo Pedro de Alcântara,  berço da Imigração Alemã, com população estimada em 6.076 habitantes (IBGE, 2024/2025), preserva até hoje o charme das suas origens.

Casas antigas, engenhos movidos a água e a imponente Igreja Matriz de São Pedro, construída em 1929, são testemunhos de quase dois séculos de história.

 Monumento à Imigração Alemã em São Pedro de Alcântara


Trajetória de uma Colônia que virou Município

Em  1º de março de 1829, São Pedro de Alcântara é reconhecida como a “célula-mater” da imigração alemã em Santa Catarina, sendo a primeira colônia alemã do estado. A partir dela, surgiram diversas outras colônias que ajudaram a formar o território catarinense.

Em março de 2026, o município completará 197 anos de história. Foi emancipada politicamente em 16 de abril de 1994, com instalação oficial em 1997.

Hoje, ele preserva e celebra sua trajetória de quase dois séculos, mantendo vivas a cultura e as tradições germânicas na região da Grande Florianópolis.

O nome Colônia de São Pedro de Alcântara, santo padroeiro do Brasil, foi concedido em razão da devoção da Família Imperial, especialmente de Dom Pedro I.


De Onde Vieram os primeiros Alemães que Colonizaram Santa Catarina

Vista do outro lado do rio Mosela para o Castelo de Marienburg e a vila de Punderich – região vinícola do vale do rio Mosela, na Alemanha.

Em novembro de 1828, 635 imigrantes — majoritariamente camponeses católicos das regiões de Hunsrück e Eifel (Renânia-Palatinado) — vale do Rio Mosela, chegaram primeiro ao Rio de Janeiro, depois ao porto de Desterro (atual Florianópolis). Em seguida, cerca de 60 deles adentraram a mata virgem, sob a coordenação do Major Silvestre José dos Passos, para fundar a colônia, conhecida mais tarde,por São Pedro de Alcântara.

 


A Chegada dos Schweitzer e demais familias  alemãs ao Brasil

É nesse cenário de desafios e esperança que tem início a saga das famílias alemãs em solo brasileiro, entre elas a família Schweitzer, cuja trajetória será apresentada a seguir.

Heinrich Schweitzer veio da Alemanha trazendo suas duas filhas:

  • Katharina
  • Elizabetha

 

Já no Brasil, casou-se com Margaretha Braun, com quem teve mais três filhos:

  • Ana Maria
  • João
  • Matias

Assim se formou o primeiro núcleo da família Schweitzer em São Pedro de Alcântara.

As Gerações da Família Schweitzer

  • Matias Schweitzer (1ª geração no Brasil)
    Casou-se com Helena Bornhausen. Tiveram nove filhos:
    Ana, Pedro, Miguel, Catarina, Matias, Maria, Helena, Gertrudes e Marcos.
  • Matias Schweitzer Filho (2ª geração)
    Casou-se com Margarida Ludwig. Tiveram oito filhos:
    Marcolino, Emílio, Filomena, Laura, José, Maria, Paulino e Rafael.
  • Marcolino Miguel Schweitzer (3ª geração)
    Casou-se com Febronia Schmitt.
    Filhos: Waldomiro, Walmor, Waldir, Waldemar, Oscarina, Osmarina, Oldacina e Odete.
  • Walmor Schweitzer (4ª geração)
    Casou-se com Terezinha Amarante.
    Filhos: Maria Helena, Waldemar, Maria Terezinha, Maria Febronia, Maria Bernadete, Maria Isabel, Fábio e Walmor Tadeu.

Expansão: do Litoral à Serra

A partir de São Pedro de Alcântara, a família expandiu-se para: Alfredo Wagner (antigo Barracão) – com destaque para Jacob Schweitzer.

Entre 1880 e 1930, muitos descendentes migraram do litoral a região serrana, dedicando-se à: pecuária; exploração da madeira; erva-mate.

Um símbolo dessa fase é o Casarão dos Schweitzer, ligado a Paulino Schweitzer, construído no final do século XIX.


Schweitzers que Ecoaram Pelo Mundo

Ao longo da minha pesquisa, percebi algo que me emocionou: o sobrenome Schweitzer não ficou restrito às colônias do Sul do Brasil. Ele atravessou continentes e ganhou significado universal por meio de pessoas que, em diferentes áreas, ajudaram a transformar o mundo. Não afirmo parentesco direto com todos, mas reconheço a mesma raiz simbólica: trabalho, serviço e compromisso com a vida.

Albert Schweitzer (1875–1965)

Teólogo, filósofo, organista e médico, Albert Schweitzer tornou-se um dos maiores humanitaristas do século XX. Fundou o Hospital de Lambaréné, no Gabão, dedicando-se ao atendimento de populações pobres da África.
Em 1952, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua filosofia do “Respeito à Vida” (Ehrfurcht vor dem Leben).
Para mim, ele simboliza a dimensão ética que um sobrenome pode alcançar: servir sem distinções.

Schweitzer Engineering Laboratories (SEL)

Fundada em 1982 por Edmund O. Schweitzer III, nos Estados Unidos, a SEL tornou-se uma das maiores empresas do mundo em relés digitais de proteção elétrica, automação de subestações e cibersegurança de redes de energia.

Se hoje falamos em redes elétricas inteligentes (smart grids), parte desse avanço passa por tecnologias desenvolvidas por Schweitzers. É o sobrenome associado à inovação que sustenta cidades inteiras.

Schweitzer Laboratories

Outra vertente tecnológica ligada ao nome está em empresas norte-americanas com a marca Schweitzer, voltadas ao desenvolvimento de componentes eletroeletrônicos, motores e sistemas industriais.
Embora independentes entre si, elas reforçam uma percepção: o nome Schweitzer passou a ser associado à engenharia, confiabilidade e progresso.

 Um Sobrenome, Muitos Caminhos

Na Europa, na África, nas Américas e também aqui, na serra catarinense, o nome Schweitzer assumiu múltiplos significados:

  • na fé e na ética, com Albert;
  • na ciência e na tecnologia, com os Schweitzers da engenharia;
  • na terra e no trabalho, com meus antepassados em São Pedro de Alcântara, Alfredo Wagner, Lages e Urubici.

Conclusão:

Na Europa, na África, nas Américas — e também aqui, na serra catarinense — o nome Schweitzer espalhou sementes de sentido pelo mundo.

Ele floresceu na fé e na ética, com Albert;
ganhou asas na ciência e na invenção, com os Schweitzers da engenharia;
e criou raízes na terra e no trabalho, com aqueles que chegaram a São Pedro de Alcântara, Alfredo Wagner, Lages e Urubici, trazendo nas mãos o esforço e no coração a esperança.

Assim, compreendo que um sobrenome não é apenas herança: é chamado.
Cada geração escreve um verso diferente, mas todas seguem o mesmo compasso — o da coragem de recomeçar.

Ao narrar esta história, não coleciono datas nem organizo nomes. Eu escuto vozes.
Ouço Heinrich cruzando o oceano, embalado pelo sonho de um novo amanhecer.
Ouço meus filhos caminhando sobre a mesma terra que um dia foi desbravada com fé, suor e silêncio.

A saga da família Schweitzer, para mim, reflete a própria travessia da imigração alemã em Santa Catarina — um percurso feito de perdas, esperança e reconstrução.

Guardar essa memória é manter acesa a chama da identidade de São Pedro de Alcântara e da riqueza cultural do nosso estado.


E, acima de tudo, é lembrar que não caminhamos sozinhos: somos parte de algo maior, uma história viva que continua a pulsar, geração após geração.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contatos: walmor1953@gmail.com


Fontes

  • CARNEIRO, Glauco. Imigração Alemã em Santa Catarina.
  • PIAZZA, Walter F. A colonização em Santa Catarina.
  • SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no sul do Brasil.
  • Arquivo Público do Estado de Santa Catarina.
  • Registros Civis e Paroquiais de São Pedro de Alcântara.
  • Placa do 1º Centenário da Colonização Alemã (1929).

 

 

 

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