03 abr Saneamento: O Progresso Invisível das Cidades
Entre o passado e o presente, a lição do saneamento
Quando observo o saneamento básico — água potável, coleta e tratamento de esgoto, manejo de resíduos e drenagem — compreendo que ele é um dos pilares mais silenciosos da civilização. Não se impõe aos olhos, não recebe aplausos imediatos, mas sustenta aquilo que há de mais essencial: a vida com dignidade.
Percebo que, quando ele existe, promove saúde, bem-estar e desenvolvimento. Quando falta, abre espaço para doenças, degrada o meio ambiente e amplia desigualdades. Para mim, portanto, é muito mais do que infraestrutura — é um indicador direto do grau de evolução de uma sociedade.
Ao longo da história, cidades como Londres, Paris e Roma enfrentaram períodos de extrema precariedade sanitária. Ruas insalubres, rios contaminados e epidemias devastadoras marcaram épocas em que o saneamento foi negligenciado. Foi justamente a dor dessas crises que despertou a consciência coletiva: não há progresso possível sem condições básicas de higiene e saúde.
Hoje, apesar dos avanços tecnológicos e institucionais, reconheço que o desafio ainda é global. Bilhões de pessoas continuam sem acesso adequado à água tratada e ao saneamento. No Brasil, os números revelam avanços importantes, porém desiguais: a água chega à maioria, mas o esgoto ainda não.
Em Santa Catarina, vejo um contraste evidente: alta cobertura de abastecimento, mas baixos índices de tratamento de esgoto.
E em Lages, esse retrato se torna ainda mais claro — uma cidade que avançou no essencial visível, mas que ainda constrói, passo a passo, o essencial invisível.
Atualmente, em 2026, observo que a SEMASA conduz esse processo de transformação em Lages. Os dados mais recentes indicam avanços significativos:
Abastecimento de Água
- Mais de 150 mil pessoas atendidas, atingindo cerca de 98% da área urbana
- Investimentos superiores a R$ 7 milhões em novos reservatórios
- Ampliação expressiva da capacidade de armazenamento, garantindo segurança hídrica
Esgoto Sanitário
- Cobertura em expansão, já superando a média estadual
- Novas obras beneficiando milhares de moradores
- Planejamento para alcançar 90% de cobertura até 2033
Ao comparar com o passado, percebo que o salto é evidente. Ainda assim, o presente revela desafios.
Entendo que uma das principais causas desse atraso no Brasil está na histórica dificuldade de priorização do saneamento por parte de gestores públicos. Trata-se de um investimento que salva vidas, mas não aparece. Está no subsolo. Não gera impacto visual imediato e, por isso, muitas vezes não se traduz em reconhecimento político.
Essa visão limitada — que desconsidera os benefícios profundos e duradouros do saneamento — ajuda a explicar por que os avanços acontecem mais lentamente do que deveriam.
A história que se repete — e ensina
Na Antiguidade, Roma já compreendia a importância da água limpa. Seus aquedutos foram símbolos de uma civilização avançada, garantindo o abastecimento de água e contribuindo para o afastamento dos dejetos por meio de sistemas de esgoto relativamente sofisticados para a época.
Mas Roma não esteve sozinha. Em Atenas, já se observava a preocupação com o fornecimento de água e com o escoamento de resíduos, ainda que de forma mais simples. Havia fontes públicas, canais de drenagem e uma percepção, mesmo que empírica, da importância da higiene para a vida urbana.
Nas Américas, civilizações pré-colombianas também demonstraram notável atenção à água e aos dejetos humanos. Os Maias desenvolveram sistemas de captação e armazenamento de água da chuva, com reservatórios que, em alguns casos, utilizavam processos naturais de filtragem, evidenciando cuidado com a qualidade da água.
Os Astecas, em sua capital Tenochtitlán, construíram aquedutos que levavam água potável à cidade e, de forma organizada, realizavam a coleta de dejetos humanos, que eram posteriormente reutilizados na agricultura — uma prática que revela não apenas preocupação sanitária, mas também eficiência no uso de recursos.
Já os Incas impressionaram pela engenharia hidráulica. Em cidades como Machu Picchu, havia sistemas de canais, fontes e drenagem que mantinham a água em movimento, reduzindo a contaminação e evitando o acúmulo de resíduos, o que demonstra clara atenção à qualidade da água e ao manejo adequado dos dejetos.
Com o tempo, porém, muito desse conhecimento se perdeu, e diversas cidades retrocederam em termos de condições sanitárias.
Foi somente no século XIX que um novo despertar ocorreu. Em Londres, o caos sanitário levou a uma verdadeira revolução urbana. O médico John Snow demonstrou que doenças estavam ligadas à água contaminada, mudando definitivamente o rumo da saúde pública.
A partir daí, cidades como Paris, Berlim e Viena investiram fortemente em saneamento. Outras, como São Paulo, Pequim e Mumbai, ainda enfrentam o desafio de acompanhar o crescimento urbano acelerado.
A história mostra um padrão claro: toda cidade que alcançou alto nível de desenvolvimento passou, necessariamente, pela universalização do saneamento.
Impactos do saneamento
- Reduz doenças e internações
- Aumenta a expectativa de vida
- Melhora o desempenho escolar
- Valoriza imóveis e impulsiona a economia
- Preserva rios, solos e ecossistemas
Quando falta:
- Doenças evitáveis se espalham
- A pobreza se aprofunda
- O meio ambiente se degrada
- A desigualdade se amplia
O Brasil e o desafio invisível
O Brasil carrega um paradoxo: possui conhecimento técnico e capacidade institucional, mas ainda enfrenta dificuldades na execução.
Mais de 90 milhões de brasileiros vivem sem coleta de esgoto. Isso não se deve apenas à falta de recursos, mas, em grande parte, à ausência histórica de prioridade.
O saneamento não aparece. Não inaugura com placas vistosas. Não rende imagens impactantes. Está enterrado — e, com ele, muitas vezes, permanece também a percepção do seu verdadeiro valor.
Santa Catarina – avanço com lacunas
Em Santa Catarina:
- Alta cobertura de água
- Apenas cerca de 34% de esgoto tratado
- Milhares de internações ainda relacionadas à falta de saneamento
Mesmo em um estado com bons indicadores socioeconômicos, o desafio permanece.
Lages – o presente em construção
Abastecimento de água
Cerca de 96,3% da população tem acesso à água potável . A água avançou muito — esgoto ainda é o grande desafio.
Tratamento de esgosto
Cerca de 35,5% da população tem acesso ao serviço público de esgotamento sanitário. Isso representa cerca de 59 mil habitantes atendidos. Em outras palavras: quase 2 em cada 3 moradores ainda não possuem acesso à rede pública de esgoto
Reflexão – Uma escolha civilizatória
O saneamento básico não é apenas uma obra — é uma escolha de valores.
Como ensinou Leonardo da Vinci:
“A água é a força motriz de toda a natureza.”
E Aristóteles já advertia:
“A qualidade de vida de uma cidade depende de sua organização.”
Essas ideias seguem atuais: cidades que cuidam do invisível constroem um futuro sólido.
Conclusão
O futuro nasce onde poucos olham
Quando volto meu olhar para o passado, percebo que falar de saneamento nas cidades catarinenses era, muitas vezes, falar de ausência. Rios recebiam o que não deveriam, doenças percorriam caminhos invisíveis, e o crescimento urbano avançava sem o suporte necessário para proteger a vida.
Hoje, observo que esse cenário começa a mudar. Em Lages, consigo perceber esse movimento — discreto, mas consistente. Vejo obras avançando, redes se expandindo, projetos ganhando forma. Não são mudanças que saltam aos olhos, mas são daquelas que transformam silenciosamente o destino de uma cidade.
E é justamente aí que reconheço o maior desafio.
Entendo que não se trata apenas de técnica, engenharia ou recursos, mas de percepção. Durante muito tempo, o saneamento foi visto como algo secundário, justamente por não aparecer. Por estar enterrado, fora do alcance imediato da visão — e, muitas vezes, da prioridade.
Vejo que é preciso inverter esse olhar.
Porque é no subsolo que a cidade respira melhor.
É ali que a saúde se preserva.
É ali que o futuro começa a ser construído.
Se os investimentos continuarem, se a consciência amadurecer e se a prioridade for, de fato, reconhecida, vislumbro um caminho promissor: menos doenças, rios mais limpos, cidades mais organizadas, imóveis valorizados, vidas mais dignas.
Sei que não será uma transformação ruidosa.
Não virá em forma de monumentos.
Nem será lembrada por grandes inaugurações.
Mas estará presente em cada rua mais saudável, em cada família protegida, em cada criança que cresce com mais qualidade de vida.
Porque, no fim das contas,
Penso que o verdadeiro progresso não se anuncia — ele se sustenta.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes
- Organização Mundial da Saúde
- UNICEF
- Instituto Trata Brasil
- Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento
- IAS – Instituto Água e Saneamento


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