Al Neto: Um Lageano à Frente do Seu Tempo

Al Neto: Um Lageano à Frente do Seu Tempo

Ao longo da vida, tive o privilégio de conhecer muitas pessoas que deixaram marcas profundas na história de Lages. Algumas receberam o reconhecimento que mereciam; outras, apesar de suas extraordinárias contribuições, foram sendo esquecidas pelo tempo. Entre essas figuras singulares está Afonso Alberto Ribeiro Neto, o inesquecível Al Neto. Minha ligação com ele vai além da admiração: quando ainda jovem, tive a oportunidade de conhecer um pouco de sua trajetória – alguém que contribuiu para o desenvolvimento econômico, cultural e social de nossa terra, a de Antonio Correia Pinto de Macedo.

Minhas primeiras lembranças de Al Neto remontam aos anos 1960.

Na época, meu pai havia adquirido um comércio, e eu frequentemente passava em frente à Mercantil Akyles Marin, importante revendedora de produtos agroveterinários, quando ia trabalhar. Chamava minha atenção uma Rural Willys azul e branca que exibia, em diversos pontos, o número cinco. Quase sempre, ao volante, estava um senhor de postura impecável, elegante e serena. Funcionários da Mercantil descreviam-no como disciplinado, correto, educado e extremamente respeitado. Sem saber, eu estava observando uma das personalidades marcantes da história lageana.

Como afirmou Coco Chanel: “A verdadeira elegância está na simplicidade.” Essa frase cabia perfeitamente a Al Neto. A memória coletiva não pode permitir que homens de sua dimensão desapareçam no silêncio. Por isso, neste artigo, recupero um pouco da sua  rica história.


Origens Familiares e Formação Intelectual

Afonso Alberto Ribeiro Neto nasceu em Lages, em 19 de agosto de 1917, e faleceu em Porto Alegre, em 13 de fevereiro de 2000, aos 82 anos. Seus restos mortais repousam no Cemitério Cruz das Almas. Era filho do Dr. Walmor Argemiro Ribeiro Branco, considerado o primeiro médico formado nascido em Lages. Cresceu em ambiente de elevado estímulo intelectual, recebendo formação rara para os padrões do interior catarinense da época.

Sua trajetória acadêmica foi notável: formou-se em Direito no Rio de Janeiro, estudou Filosofia em Buenos Aires e frequentou a tradicional Escola de Jornalismo da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos. Viveu na Inglaterra e percorreu diversos países da Europa e da América do Norte. Quando retornou definitivamente a Lages, já maduro, não o fez por falta de oportunidades, mas por escolha consciente: decidiu colocar sua experiência internacional a serviço da terra onde nasceu. Como observou o historiador Licurgo Costa, o tropeiro lageano poderia ter hábitos de finura, de cavalheirismo” – frase que parecia descrever o próprio Al Neto, unindo refinamento intelectual e profundo vínculo com o campo.


O Símbolo do Cinco em Flor

Al Neto contratou um profissional para criar uma marca pessoal que traduzisse sua visão de mundo. Nasceu então o famoso Cinco em Flor: cinco pontos organizados como pétalas, formando uma flor estilizada. Esse símbolo tornou-se sua assinatura permanente, presente em cheques, documentos, papelaria, veículos, cercas, propriedades rurais, na fivela de prata com detalhes em ouro de seu cinto, na sela de seu cavalo e em diversos objetos associados à sua identidade. Longe de ser apenas uma marca, o símbolo sintetizava os princípios que orientavam sua trajetória: organização, disciplina, identidade e coerência entre o que pensava e o que fazia. Por isso, permaneceu associado à sua imagem durante toda a vida.


O Império Charolês Construído por Al Neto

“A genética é a arte de preparar hoje o rebanho do amanhã.”

Sob a liderança de Al Neto, a Estância do Pinheirinho – localizada a aproximadamente doze quilômetros do centro de Lages, após a travessia da ponte sobre o Rio Caveiras – transformou-se em uma das propriedades rurais mais avançadas do Sul do Brasil.

Entre as inúmeras realizações de Al Neto, nenhuma alcançou tanta projeção nacional quanto sua contribuição para o desenvolvimento da raça Charolês no Brasil. Na Estância do Pinheirinho, transformou uma atividade pecuária tradicional em um verdadeiro centro de excelência genética.

Visionário, investiu em inseminação artificial, seleção rigorosa de reprodutores e modernas técnicas de melhoramento animal quando tais práticas ainda eram desconhecidas pela maioria dos criadores brasileiros. Sua atuação ajudou a elevar os padrões da pecuária nacional e projetou o nome de Lages nos principais eventos agropecuários do país.

Primeiro presidente da Associação Brasileira de Criadores de Charolês, Al Neto exerceu papel decisivo na organização e expansão da raça. Seu prestígio ultrapassou fronteiras estaduais, tornando-se referência para criadores e técnicos de diversas regiões.

Entre suas maiores conquistas destacaram-se os títulos obtidos em exposições nacionais e o reconhecimento alcançado por reprodutores históricos da Estância do Pinheirinho, como Chambrier e Duc Neto do Pinheirinho. Muito além das premiações e dos reconhecimentos recebidos, essas vitórias simbolizavam a consolidação de um trabalho pautado pela ciência, pela inovação e pela busca permanente da excelência.

Seu legado permanece vivo na genética de inúmeros rebanhos brasileiros e na história da pecuária nacional.


A Estância do Pinheirinho: Um Laboratório de Inovação Rural

“O progresso nasce quando a tradição encontra a inovação.”

A Estância do Pinheirinho foi muito mais do que uma fazenda de destaque. Sob a liderança de Al Neto, tornou-se um modelo de modernização agrícola e de gestão rural em Santa Catarina.

Ali foram implantadas práticas avançadas de manejo de pastagens, recuperação de solos e planejamento produtivo, transformando a propriedade em referência para produtores e técnicos do setor. O espírito inovador de seu proprietário também o levou a apostar na fruticultura, especialmente na produção de pêssegos, décadas antes de a atividade ganhar expressão econômica na Serra Catarinense.

A propriedade destacava-se igualmente pela organização de sua infraestrutura, composta por laboratórios, instalações de manejo, depósitos de forragem, áreas de cultivo e uma sede histórica que refletia o cuidado com cada detalhe.

Outro aspecto notável era o compromisso com a preservação ambiental. Uma extensa área de araucárias foi mantida praticamente intacta, protegendo a fauna nativa e preservando uma paisagem que representava a própria identidade serrana. Muito antes de a sustentabilidade tornar-se tema recorrente, Al Neto já demonstrava que desenvolvimento econômico e conservação da natureza podiam coexistir harmoniosamente.

Assim, a Estância do Pinheirinho consolidou-se como um exemplo de visão estratégica, responsabilidade ambiental e pioneirismo, refletindo a personalidade de seu idealizador: um homem que sempre esteve à frente de seu tempo.


Civilidade, Elegância e Coerência

Al Neto transformou a cortesia em um modo de viver. Na Estância do Pinheirinho, o tradicional chá das cinco da tarde tornou-se símbolo de hospitalidade. Servido sob um frondoso flamboyant nos jardins, seguia horários rigorosamente estabelecidos. Visitantes eram recebidos em elegantes móveis junto aos gramados, com produtos frequentemente importados – biscoitos finos, queijos especiais, avelãs e outras iguarias.

Sua vida demonstrava que princípios não eram apenas palavras, mas práticas cotidianas. Conhecido pela correção da linguagem falada e escrita, raramente cometia deslizes gramaticais. Metódico, reservado e extremamente disciplinado, sua pontualidade era amplamente reconhecida: reuniões, negociações e contratos obedeciam horários rigorosos, refletindo uma visão profissional pouco comum para a época.


Jornalista de Alcance Nacional e Internacional

Antes de dedicar-se integralmente ao campo, Al Neto construiu sólida carreira no jornalismo. Atuou como correspondente da United Press International (UPI) e da United States Information Service (USIS), órgão de divulgação e intercâmbio cultural norte-americano, além de manter vínculos com a BBC de Londres. Seu programa radiofônico Nos Bastidores do Mundo, produzido nos anos 1950, alcançou enorme repercussão nacional. Transmitido por dezenas de emissoras e distribuído para centenas de rádios brasileiras, aproximava o público dos acontecimentos internacionais em uma época de comunicações limitadas. Sua atuação ocorreu em pleno contexto da Guerra Fria, período marcado por intensas disputas ideológicas e geopolíticas.


Conselheiro e Líder Comunitário

Al Neto tornou-se referência para lideranças políticas, empresariais e comunitárias. Foi presidente da Associação Rural de Lages e participou da fundação do Movimento Tradicionalista Catarinense. Sua influência na sociedade, local, regional, estadual e nacional era exercida sem ostentação: preferia atuar nos bastidores, orientando e contribuindo para que outros alcançassem bons resultados.


Conclusão

Ao concluir esta homenagem, reforço uma convicção que o tempo apenas fortaleceu em mim: algumas pessoas transcendem a própria existência e se transformam em referências permanentes para sua comunidade. Al Neto foi uma dessas pessoas. Sua trajetória me faz compreender que a verdadeira grandeza não está apenas nas conquistas alcançadas, mas na capacidade de inspirar, construir, inovar e deixar sementes que continuarão germinando muito depois de nossa passagem.

Sempre que reflito sobre sua vida, vejo um homem que soube unir inteligência, cultura, empreendedorismo, visão de futuro e profundo amor por sua terra. Vejo alguém que não se limitou a acompanhar as transformações de seu tempo, mas que ajudou a promovê-las. Seu exemplo me recorda que o desenvolvimento de uma sociedade depende da coragem de sonhar, da disposição para agir e da perseverança para transformar ideias em realizações concretas.

Tenho a convicção de que Lages ainda não dimensionou plenamente a importância de seu legado. Mais do que um produtor rural, jornalista ou empreendedor, Al Neto foi um construtor de caminhos. Sua influência ultrapassou os limites de suas atividades profissionais e alcançou a vida de inúmeras pessoas que, direta ou indiretamente, foram beneficiadas por sua visão, seu trabalho e seus ensinamentos.

Quando a memória me leva à antiga Mercantil Akyles Marin e àquela inesquecível Rural Willys azul e branca, percebo que não recordo apenas uma imagem do passado. Recordo um símbolo de uma época e, sobretudo, a presença marcante de um homem cuja elegância, inteligência e postura deixavam impressões duradouras em todos que o conheciam. Naquele tempo, eu não imaginava que estava diante de uma das personalidades notáveis que nossa terra produziu.

Escrevo estas palavras porque  penso que preservar a memória dos grandes homens é uma forma de preservar a própria história. Faço isso não por saudosismo, mas por reconhecimento e gratidão. Entendo que homens como Al Neto não desaparecem; permanecem vivos nos valores que transmitiram, nas instituições que fortaleceram, nos exemplos que deixaram e nas inspirações que continuam despertando.

Por isso, considero um dever compartilhar sua trajetória com as novas gerações. Afinal, uma comunidade que honra sua memória fortalece sua identidade e encontra, em seus melhores exemplos, motivos para acreditar no futuro.

E sempre que penso na riqueza de experiências, conhecimentos e ensinamentos deixados por homens como Al Neto, lembro-me da profunda advertência de Amadou Hampâté Bâ:

“Quando um velho morre, é uma biblioteca que se queima.”

Por minha parte, penso que algumas bibliotecas jamais deveriam ser consumidas pelo esquecimento. Ao escrever sobre Al Neto, procuro manter acesas algumas das páginas de sua história, para que sua luz continue iluminando aqueles que virão depois de nós.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Professor


Fontes

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CRIADORES DE CHAROLÊS E CARACU (ABCCC). História da raça Charolês no Brasil. Porto Alegre, 2020.
  • COSTA, Licurgo. O Continente das Lagens. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982.
  • EPAGRI. Fruticultura de Clima Temperado em Santa Catarina. Florianópolis, 2019.
  • HAUSSEN, Doris Fagundes. Rádio e Política: Tempos de Vargas e Perón. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
  • RIBEIRO, Ana Paula Goulart. Imprensa e História no Rio de Janeiro dos Anos 1950. Rio de Janeiro: E-Papers, 2007.
  • UNIVERSITY OF MISSOURI. Missouri School of Journalism: History and Mission. Columbia, 2023.VOISIN, André. Produtividade do Pasto. São Paulo: Mestre Jou, 1974.
  • Memórias do autor.

 

Nota Técnica

Considerando o amplo recorte temporal desta pesquisa — que abrange o período de 1960 a 2025 — é possível que ocorram eventuais imprecisões, inconsistências ou omissões de natureza histórica.

Uma vez identificadas, tais ocorrências serão objeto de revisão criteriosa e atualização permanente, com o compromisso de assegurar a fidelidade histórica, a integridade das informações e o valor documental deste acervo.

 

 

1 Comentário
  • Febrônia Boas reflexões para levarmos para nós... Estamos sempre fazendo julgamentos!
    Postado em 14:40h, 05 junho Responder

    Muito bom seu texto e tbem bom saber dos nossos antepassados, que marcaram história da nossa terra e que as novas gerações tenham oportunidade de conhece-lo mais este lageano!

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