Um Lageano muito além do seu tempo

Um Lageano muito além do seu tempo

Ao longo da vida, tive a oportunidade de conhecer pessoas que deixaram marcas profundas na história de Lages. Algumas receberam o devido reconhecimento; outras, apesar da grandeza de suas contribuições, acabaram sendo gradativamente esquecidas pelo tempo. Entre essas figuras notáveis está Afonso Alberto Ribeiro Neto, o inesquecível Al Neto. Sempre que revisito sua trajetória, fortalece-se em mim a convicção de que ele foi um dos mais completos e visionários lageanos de sua geração.

Nascido em Lages em 1917, Al Neto cresceu em um ambiente de intensa valorização do conhecimento. Sua formação intelectual impressionava para os padrões da época. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro, estudou Filosofia em Buenos Aires e aperfeiçoou-se em Jornalismo na Universidade do Missouri, nos Estados Unidos, uma das mais prestigiadas instituições da área. Viveu no exterior, conheceu diferentes culturas e acompanhou transformações que moldavam o mundo do século XX.

Poderia ter construído carreira em grandes centros nacionais e internacionais. No entanto, fez uma escolha rara: retornou à sua terra natal para colocar seu conhecimento a serviço do desenvolvimento regional. Essa decisão revela uma característica que considero uma das maiores virtudes de sua personalidade: a capacidade de transformar conhecimento em ação concreta.

Sua atuação foi marcante em diferentes áreas. No jornalismo, trabalhou para importantes organizações internacionais e produziu conteúdos que aproximavam os brasileiros dos grandes acontecimentos mundiais em uma época de comunicação limitada. No campo, tornou-se um dos principais responsáveis pela modernização da agropecuária regional, introduzindo conceitos e técnicas inovadoras quando ainda eram desconhecidos pela maioria dos produtores.

Foi na Estância do Pinheirinho que sua visão de futuro encontrou plena realização. A propriedade transformou-se em um verdadeiro laboratório de inovação rural. Ali, Al Neto investiu em melhoramento genético, manejo racional de pastagens, recuperação de solos, planejamento produtivo e preservação ambiental muito antes de esses temas se tornarem prioridades nacionais.

Sua contribuição para a raça Charolês merece destaque especial. Como primeiro presidente da Associação Brasileira de Criadores de Charolês, ajudou a estruturar e fortalecer uma atividade que contribuiu significativamente para a evolução da pecuária brasileira. Seu trabalho projetou o nome de Lages para além das fronteiras catarinenses e consolidou a Estância do Pinheirinho como referência nacional em excelência genética.

Entretanto, limitar a importância de Al Neto apenas às suas realizações profissionais seria injusto. O que mais me impressiona em sua trajetória é a coerência entre discurso e prática. Era um homem disciplinado, culto, elegante, pontual e profundamente comprometido com valores éticos. Exercia liderança sem alarde, influenciava sem impor e orientava sem buscar protagonismo. Em uma época marcada pela valorização excessiva da imagem, sua vida demonstra a força silenciosa do exemplo.

Também chama atenção sua visão ambiental. Enquanto muitos enxergavam a natureza apenas como recurso econômico, ele compreendia a importância da preservação das araucárias, da fauna e das paisagens que formam a identidade da Serra Catarinense. Antecipou, décadas antes, conceitos que hoje são amplamente defendidos sob o nome de sustentabilidade.

Ao concluir estas reflexões, reafirmo minha convicção de que Al Neto foi um homem muito além do seu tempo. Vejo nele alguém que soube unir cultura, empreendedorismo, inovação, responsabilidade social e amor por sua terra de forma exemplar. Escrevo estas linhas porque penso a que preservar a memória de figuras como ele é um dever coletivo. Uma sociedade que esquece seus melhores exemplos empobrece sua própria história. Por isso, considero importante que as novas gerações conheçam a trajetória de Al Neto, não apenas para admirar suas conquistas, mas para compreender que o verdadeiro legado de um homem está nas transformações positivas que ele deixa para aqueles que vêm depois. Seu nome pertence, com justiça, ao patrimônio histórico e moral de Lages.

 

 

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