LAGES 2045 – Um Projeto para uma Terra de Potencial Incomparável

LAGES 2045 – Um Projeto para uma Terra de Potencial Incomparável

Eu nasci e vivo em uma cidade que muita gente ainda subestima. Quando digo que sou de Lages, às vezes percebo no olhar de quem me escuta uma certa hesitação, como se desconhecesse a grandeza desta terra. Mas eu conheço sua história, suas riquezas, sua capacidade de superação e seu povo trabalhador. Por isso escrevo estas linhas: porque penso que Lages não precisa de favores nem de lamentações. Precisa de planejamento, liderança e união para construir um futuro à altura de seu potencial.

Mais do que discutir os próximos quatro anos, precisamos pensar nos próximos vinte. As cidades que prosperaram não cresceram por acaso. Cresceram porque souberam sonhar, planejar e perseverar.                                                                                                                                         

“O desenvolvimento não acontece por acaso: é fruto de um projeto que atravessa governos e gerações.” Celso Ramos

Lages é o maior município de Santa Catarina em extensão territorial, com 2.644 km². Sua história está profundamente ligada à formação econômica e política do Estado. Foi berço de lideranças que ajudaram a construir Santa Catarina, entre elas Nereu Ramos, que chegou à Presidência da República, além de diversos governadores que tiveram suas raízes fincadas nesta terra.

Durante décadas, a economia regional prosperou impulsionada pela madeira, pela pecuária e pelo comércio. Teatros, cinemas, clubes sociais e indústrias de papel e celulose demonstravam a vitalidade de uma cidade que exercia influência sobre toda a região serrana. Com o declínio do ciclo da araucária e o fechamento de importantes empreendimentos, parte desse protagonismo foi perdida. Entretanto, a história demonstra que os povos que prosperam não são aqueles que nunca enfrentam dificuldades, mas aqueles que transformam desafios em oportunidades.

Exemplo de sucesso — Gramado e Canela: Há cinquenta anos, Gramado e Canela possuíam uma economia modesta baseada na agricultura e no comércio local. Com planejamento contínuo, integração regional e investimentos em turismo, transformaram-se em referências nacionais e internacionais. O Natal Luz, os parques temáticos, a infraestrutura hoteleira e a valorização da identidade cultural são resultados de um projeto construído ao longo de décadas.


A Floresta que Pode Mover a Economia

Da tora ao produto: o potencial bilionário do pinus

A Serra Catarinense abriga a maior reserva de pinus do Sul do Brasil. Grande parte dessa riqueza, no entanto, ainda sai da região na forma de madeira bruta — toras e pranchas sem beneficiamento. É como exportar ouro em pó quando se poderia exportar joias.       

“Quem vende apenas matéria-prima está condenado a ser coadjuvante na própria riqueza.” Roberto Rodrigues

Transformar esse recurso em produtos de alto valor agregado — móveis, esquadrias, pisos, painéis de MDF e OSB, estruturas de Mass Timber para construção industrializada e pellets de biomassa — poderia gerar bilhões de reais e milhares de empregos qualificados na região.

A mesorregião serrana concentra mais de 480 estabelecimentos madeireiros e moveleiros, empregando perto de 10 mil trabalhadores. O polo moveleiro de São Bento do Sul já domina mais da metade das exportações catarinenses de móveis. Essa expertise tecnológica e logística pode — e deve — ser espelhada e complementada pela Serra Catarinense, que possui a floresta na porta.

A proposta é um conjunto integrado de ações: criação de Zonas de Processamento de Exportação com incentivos fiscais; atração de fabricantes de painéis e indústrias de construção industrializada em madeira; criação de um Hub de Inovação Florestal no Orion Parque Tecnológico; fomento a marcas próprias com o selo ‘Made in Serra Catarinense’; e geração de energia a partir dos resíduos industriais. A Serra Catarinense não precisa exportar árvores — precisa exportar inteligência.


A Carne da Serra Vale Ouro — e Precisa Ficar na Serra

Pecuária de excelência: da pastagem ao mercado premium

A pecuária da Serra Catarinense produz uma das melhores carnes do país. Não é exagero — é geografia, é ciência, é história. O clima de altitude, as pastagens naturais do planalto e o manejo cuidadoso de gerações conferem ao gado serrano características que nenhuma planície consegue replicar: maciez, sabor e marmoreio que rivalizam com os melhores cortes do Brasil e do mundo.

Essa excelência não nasceu por acaso. Foi construída por produtores que dedicaram suas vidas ao aprimoramento genético do rebanho. Um exemplo notável é o de Al Neto, assim como tantos outros criadores lageanos que desenvolveram verdadeiras escolas de produção de gado de corte de altíssima qualidade. Não por acaso, sêmens produzidos em Lages foram distribuídos pelo mundo afora — do Brasil à América Latina, chegando a outros continentes. Esse é o calibre do conhecimento que existe aqui, muitas vezes subestimado pela própria região.

O problema não está na qualidade do produto. Está em onde o valor é gerado. Hoje, boa parte da renda produzida pelo processamento, frigorificação e comercialização da carne serrana fica fora da região. O boi sai — o lucro não volta. Esse ciclo precisa ser rompido.

A implantação de frigoríficos em sistema cooperativo — reunindo produtores, técnicos e lideranças locais — permitiria controlar toda a cadeia produtiva, da pastagem ao prato. Com certificação de origem, rastreabilidade e identidade de marca, a carne da Serra Catarinense poderia conquistar nichos de mercado altamente exigentes: restaurantes premium, redes de varejo sofisticadas e mercados internacionais dispostos a pagar pelo diferencial que a região oferece.

Reunir os produtores, mapear os nichos de mercado, estruturar a governança cooperativa e buscar financiamento adequado deve ser exatamente um dos pilares do Projeto Lages 2045.

A melhor carne do Brasil pode — e deve — ter o nome da Serra Catarinense.


Frutos da Serra — Sabores que o Mundo Ainda Vai Descobrir

Fruticultura de clima temperado: identidade e mercado

A Serra Catarinense guarda, entre suas montanhas e vales, um dom que poucos territórios brasileiros possuem: o clima temperado perfeito para a fruticultura de qualidade superior. Pêssegos, ameixas, kiwis, maçãs, goiaba-serrana e uma diversidade de frutas silvestres nativas encontram aqui condições excepcionais — altitude, amplitude térmica, solos bem drenados e estações bem definidas — que resultam em frutas de sabor, cor e textura inigualáveis.

A história já provou que a região é capaz de produzir com excelência. A Estância do Pinheirinha é um exemplo que merece ser lembrado com orgulho: foi uma das grandes produtoras de pêssego da Serra, responsável pelo famoso Pêssego 5 em Flor, reconhecido pela qualidade excepcional e pelo sabor inconfundível. Esse legado não pode ser esquecido — precisa ser resgatado, ampliado e modernizado.

A goiaba-serrana, praticamente desconhecida fora da região, é uma fruta rara de aroma intenso e sabor único, com todo o potencial para se tornar produto de exportação premium — assim como aconteceu com outros frutos brasileiros que conquistaram as mesas europeias e asiáticas.

Um sistema integrado de produção, beneficiamento, certificação de origem e comercialização cooperada poderia levar as frutas da Serra a nichos de alto valor: mercados gourmet, exportação para países do Mercosul e da Europa, além de cadeias de alimentação saudável em acelerado crescimento.

As frutas da Serra já têm sabor de excelência — falta embalar esse sabor para o mundo.


O Pinhão que Vai ao Mundo

Do símbolo cultural ao produto de exportação

O pinhão sempre alimentou a Serra Catarinense — nas fogueiras de inverno, nas mesas de família, na memória afetiva de um povo. Mas esse fruto secular, símbolo cultural da região, guarda um potencial muito maior do que a tradição ainda consegue enxergar.

A ciência já deu o primeiro passo. Com as técnicas modernas desenvolvidas pela Embrapa e pela Epagri — especialmente a enxertia, que transforma árvores altíssimas em pomares compactos e produtivos —, o tempo de espera pela primeira colheita caiu de 15 anos para apenas 6 a 10. Isso muda tudo: muda o cálculo do produtor, muda a viabilidade do investimento, muda o horizonte de quem planta hoje pensando no amanhã.

A grande transformação está na industrialização. O pinhão pode se tornar gel alimentício, ingrediente de cosméticos naturais, produto gourmet em restaurantes de alto padrão, item de exportação com certificação de origem e rastreabilidade. A Serra Catarinense possui o que nenhum marketing consegue fabricar: autenticidade, território e história.

Exemplo — São José dos Pinhais (PR): O município cujo próprio nome carrega a marca do pinheiro araucária soube transformar sua identidade natural e cultural em atração econômica, diversificando sua base produtiva e posicionando-se estrategicamente na região metropolitana de Curitiba. A lição é clara: quando uma cidade abraça com seriedade aquilo que lhe é próprio, o resultado aparece em empregos, investimentos e reconhecimento.

O pinhão sempre alimentou a Serra — agora está na hora de a Serra alimentar o mundo com ele.


A Força do Cooperativismo e da Organização Regional

Integração como motor do desenvolvimento              

“Para vencer, é preciso juntar a ideia com a organização e a paciência de quem planta árvores que não verá crescer.” Glauco Olinger

O desenvolvimento exige visão de longo prazo. Nenhuma transformação relevante ocorre em poucos anos. Bento Gonçalves e Farroupilha demonstram isso com clareza: a partir da organização de produtores, cooperativas, universidades e poder público, construíram polos reconhecidos internacionalmente nos setores vitivinícola, moveleiro e turístico.

Exemplo — Nova Friburgo (RJ): Nova Friburgo diversificou sua economia por meio da integração entre agricultura, pequenas indústrias, turismo e cooperativismo. O resultado foi a geração sustentada de emprego e renda ao longo de décadas — sem depender de um único setor ou ciclo econômico.

Exemplo — Vale dos Vinhedos (RS): O Vale dos Vinhedos tornou-se referência nacional ao unir produção agrícola, gastronomia, hotelaria e turismo de experiência, criando uma identidade regional forte, capaz de atrair visitantes e investimentos de forma contínua.

Lages possui instituições capazes de liderar processo semelhante: ACIL, UDESC, UNIPLAC, IFSC, FACVEST, escolas agrícolas, cooperativas e entidades empresariais. O conhecimento existe. O desafio é transformá-lo em ação coordenada e permanente.


Governança Estratégica — O Fórum Lages 2045

Planejar além dos mandatos

“Liderança não é cargo; é a capacidade de atrair outras lideranças para um sonho comum.”  Licurgo Costa

Nenhum projeto regional prospera sem governança sólida. Lages precisa reunir poder público, iniciativa privada, universidades, entidades de classe e lideranças comunitárias em torno de um planejamento estratégico permanente — que sobreviva às mudanças de governo e se torne um compromisso da sociedade.

A criação de um Fórum Lages 2045 permitiria estabelecer metas claras para infraestrutura, turismo, inovação, agronegócio, indústria, educação e atração de investimentos. Estudos de viabilidade econômica, identificação de incentivos fiscais e apresentação de projetos a investidores brasileiros e estrangeiros seriam as bases deste trabalho coletivo.


A Coxilha Rica — A Nova Fronteira Agrícola de Santa Catarina

Soja, grãos e integração lavoura-pecuária no planalto serrano

A introdução da soja na Coxilha Rica, em Lages, transformou a região na última grande fronteira agrícola de Santa Catarina. O que era um ecossistema de pecuária extensiva converteu-se, nas últimas décadas, em um polo de alta produtividade de grãos. Com mais de 120 mil hectares de extensão e cerca de 30 mil hectares com aptidão direta para lavouras, a Coxilha Rica amplia de forma expressiva o potencial econômico da Serra Catarinense.

Esse avanço não é simples expansão de área plantada — é uma mudança estrutural que abre novas possibilidades para toda a cadeia produtiva regional.

Potencialidades econômicas e produtivas

A soja na Coxilha Rica gera um efeito multiplicador relevante. O cultivo corrige e fertiliza o solo ácido dos campos nativos e, após a colheita, as pastagens de inverno — aveia e azevém — crescem com muito mais nutrientes, chegando a dobrar a capacidade de engorda do gado no período mais crítico do ano. É a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) em sua versão mais promissora: o grão e o boi se complementam, maximizando o uso da terra e a renda do produtor.

A logística também avançou. O asfaltamento de 27 quilômetros da estrada geral da Coxilha Rica — trecho que liga a BR-116 à localidade de São Jorge — reduziu drasticamente o custo do frete e viabilizou o escoamento rápido das safras, atraindo investimentos significativos para a região.

Cooperativas de grande porte, como a Copercampos e a Cooperplan, instalaram unidades de recebimento de grãos na região. Campos demonstrativos testam anualmente dezenas de variedades de soja adaptadas à alta altitude e ao clima frio da Serra, consolidando um ambiente de inovação técnica que beneficia todos os produtores.

O aumento na oferta local de grãos também gerou atratividade para outros segmentos de ponta. Um exemplo concreto é a instalação do núcleo genético da Topigs Norsvin na região, com investimento superior a R$ 40 milhões — um dos mais avançados do setor de suinocultura no país. A soja atraiu proteína. A proteína atraiu tecnologia. A tecnologia atrai mais investimento.

A Coxilha Rica representa, portanto, uma das apostas mais sólidas para o crescimento econômico de Lages nas próximas décadas. Integrada às demais cadeias produtivas — pecuária de corte, fruticultura, pinhão e madeira —, ela completa um portfólio agrícola de rara diversidade e potencial. O desafio agora é garantir que o valor gerado permaneça na região, por meio de industrialização local, cooperativismo e políticas públicas consistentes.

A Coxilha Rica não é apenas uma planície fértil — é o símbolo de que Lages ainda tem muito chão pela frente.


Turismo Rural e Inovação Tecnológica

Identidade serrana como diferencial competitivo

“A excelência nasce quando se transforma potencial em realização.” Al Neto

Lages é reconhecida nacionalmente como pioneira do Turismo Rural. Suas fazendas centenárias, paisagens de altitude, culinária típica, cultura tropeira e hospitalidade constituem um patrimônio de enorme valor econômico. A Festa Nacional do Pinhão, as cavalgadas, os eventos tradicionalistas e a história do tropeirismo podem formar uma rede integrada de experiências turísticas capaz de gerar renda durante todo o ano.

Assim como Gramado transformou o frio em atração turística, Lages pode transformar sua identidade serrana em diferencial competitivo de alcance nacional e internacional.


Inovação: o conhecimento como recurso estratégica.

“O conhecimento só gera riqueza quando encontra organização e propósito.” Alysson Paolinelli

O Orion Parque Tecnológico, sede do primeiro Centro de Inovação da Serra Catarinense, representa uma oportunidade extraordinária para conectar universidades, startups, empresas e agronegócio. A agricultura de precisão, a biotecnologia, a inteligência artificial aplicada ao campo, as energias renováveis e os novos modelos de negócios podem tornar a Serra Catarinense referência em inovação voltada ao desenvolvimento regional.

O mundo mudou. A riqueza do século XXI não depende apenas dos recursos naturais, mas da capacidade de transformá-los por meio do conhecimento.


Conclusão

Eu aposto em Lages. Aposto em sua história, em sua cultura, em sua paisagem, em sua gente e em seu potencial econômico. Aposto que possuímos condições para nos tornarmos referência nacional em turismo rural, agronegócio de qualidade, inovação tecnológica e desenvolvimento sustentável.

Mas apostar não basta. É preciso agir.

As experiências de Gramado, Canela, Bento Gonçalves, Farroupilha, São José dos Pinhais e Nova Friburgo demonstram que os grandes resultados surgem quando a sociedade decide pensar além do presente. Temos madeira, carne, frutas, pinhão, soja, água, universidades, tecnologia e uma localização estratégica. Temos, sobretudo, capital humano.

Defendo que as forças vivas da Serra Catarinense se unam para construir um plano de desenvolvimento para os próximos vinte anos. O futuro não pertence aos que esperam. Pertence aos que pensam,  planejam, trabalham e perseveram.

Lages não está sentada sobre problemas. Lages está sentada sobre um tesouro. Chegou a hora de despertá-lo.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Professsor


Fontes

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022. Lages, SC. Disponível em: https://www.ibge.gov.br

EMBRAPA Florestas. Enxertia de Araucária: técnicas para aumento da produtividade do pinhão. Colombo: Embrapa, 2019.

EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina. Fruticultura de Clima Temperado em Santa Catarina. Florianópolis: Epagri, 2021.

EPAGRI/CEPA Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Produção de soja na Serra Catarinense. Florianópolis, abr. 2025.

SEBRAE-SC. Diagnóstico da cadeia produtiva da madeira e móveis na Serra Catarinense. Florianópolis: Sebrae, 2020.

COSTA, Licurgo. O Continente das Lagens: sua história e influência no sertão da terra firme. Florianópolis: FCC, 1982.

RAMOS, Nereu. Discursos e conferências. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1956.

OLINGER, Glauco. Ascensão e decadência da extensão rural no Brasil. Florianópolis: Epagri, 1996.

PAOLINELLI, Alysson. Agropecuária brasileira: desafios e perspectivas. Brasília: MAPA, 2006.

RODRIGUES, Roberto. Cooperativismo e agronegócio: a força da organização. São Paulo: OCESP, 2003.

ORION – Parque Tecnológico de Lages. Relatório de Atividades 2022–2023. Lages: Orion, 2023.

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