Cooperar é Prosperar

Cooperar é Prosperar

Ao longo da minha vida, fui percebendo algo que a princípio parece simples, mas que carrega uma verdade enorme: nenhuma obra realmente grandiosa foi construída por uma única pessoa. Quando olho para trás e observo os maiores avanços da humanidade, vejo sempre a mesma origem — homens e mulheres que entenderam que o sucesso de cada um depende do sucesso de todos.

 

Escrevo este texto para compartilhar algo que aprendi observando a história, as cidades e as comunidades: ninguém prospera sozinho. Vivemos em sociedade porque precisamos uns dos outros. O agricultor alimenta a cidade; a cidade sustenta a indústria; a indústria gera empregos; os trabalhadores movimentam a economia; as escolas e universidades formam pessoas que, mais tarde, transformam empresas; e empresas fortalecidas abrem oportunidades para toda a comunidade.

Somos elos de uma mesma corrente. E, como toda corrente, quando um elo se fortalece, todos os outros ganham resistência junto com ele. Nas próximas páginas, quero mostrar como essa ideia simples — cooperar — já mudou a história de cidades, países e milhões de vidas, incluindo a de comunidades brasileiras que conheço bem, como Chapecó.


Uma ideia simples que mudou o mundo                                     

Antes de virar um movimento mundial, o cooperativismo começou com 28 pessoas simples e uma lista de compras.

Para entender a força da cooperação, vale a pena voltar no tempo. Em meados do século XIX, a Inglaterra vivia os efeitos da Revolução Industrial. As máquinas aumentavam a produção como nunca, mas a riqueza gerada ficava concentrada nas mãos de poucos. Os trabalhadores enfrentavam jornadas exaustivas, salários baixos e uma vida difícil.

Foi nesse cenário que, em 1844, um grupo de 28 tecelões da pequena cidade inglesa de Rochdale decidiu fazer algo diferente. Em vez de esperar uma solução do governo ou organizar protestos, eles juntaram suas pequenas economias e abriram um armazém simples, onde todos poderiam comprar produtos de boa qualidade a preços justos.

Esse pequeno armazém deu origem à Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale, considerada até hoje o marco fundador do cooperativismo moderno. Os tecelões de Rochdale provavelmente nunca imaginaram que aquela iniciativa modesta atravessaria os séculos e chegaria a praticamente todos os países do mundo, incluindo o Brasil.

O que realmente mudou a história não foi o armazém em si. Foi a descoberta de uma verdade simples e poderosa: quando pessoas dividem responsabilidades, elas também multiplicam oportunidades.


A cooperação está na própria natureza natureza                       

Muito antes de existirem cooperativas, a natureza já cooperava — e prosperava por isso.

Se olharmos ao nosso redor, veremos que cooperar não é uma invenção humana. É um princípio da própria natureza. As abelhas constroem colmeias inteiras trabalhando em equipe. As formigas organizam verdadeiras cidades subterrâneas, cada uma cumprindo uma função. Os pássaros migram em formação justamente para economizar energia e proteger uns aos outros.

 

Na natureza, cooperar não é sinal de fraqueza — é inteligência pura. E os seres humanos não foram diferentes: evoluímos porque aprendemos a colaborar, dividir tarefas, compartilhar conhecimento e buscar objetivos em comum.

Foi assim que nasceram as primeiras aldeias. Depois vieram as cidades. Mais tarde, as grandes civilizações. Se pararmos para pensar, toda a história da humanidade é, em boa parte, a história da nossa capacidade de cooperar.


Quando uma comunidade decide crescer unida

O que Rochdale começou com 28 pessoas, cidades inteiras repetiram — e continuam repetindo — ao redor do mundo               

Os exemplos estão bem diante de nós, e um dos mais bonitos que conheço é o de Chapecó, em Santa Catarina. Décadas atrás, Chapecó era um município essencialmente agrícola, como tantos outros no interior do Brasil. Seus produtores perceberam que, sozinhos, dificilmente teriam força para competir. Então se organizaram em cooperativas, investiram em tecnologia, industrialização, assistência técnica e capacitação.

O resultado está diante de todos nós: hoje Chapecó é um dos maiores polos agroindustriais da América Latina. Esse crescimento não nasceu do acaso, nem de um único empreendedor genial. Nasceu da confiança mútua entre milhares de pequenos produtores que decidiram caminhar juntos.

Gramado, no Rio Grande do Sul, é outro exemplo próximo. A cidade não se tornou um dos principais destinos turísticos do Brasil apenas por causa das suas paisagens bonitas. Seu desenvolvimento nasceu da união entre empresários, comerciantes, moradores e poder público trabalhando na mesma direção. Cada evento organizado, cada jardim cuidado, cada investimento em qualidade voltou para a cidade inteira, em forma de empregos, renda e valorização imobiliária.

A mesma história se repete em Cascavel, no Paraná. Em 1970, um grupo de apenas 42 agricultores decidiu se unir para enfrentar um problema comum: os baixos preços pagos por grandes empresas na hora de comprar sua produção. Nascia ali a Coopavel. A ideia enfrentou resistência — muita gente da época chegou a dizer que “cooperativismo era coisa de comunista”. Mesmo assim, os agricultores seguiram em frente. Hoje a Coopavel está entre as vinte maiores empresas do agronegócio brasileiro, com faturamento bilionário, milhares de cooperados e um dos maiores eventos de tecnologia agrícola da América do Sul, o Show Rural.

Outro exemplo notável, fora do Brasil, é o de Mondragón, uma pequena cidade no País Basco, na Espanha. Em 1956, um padre chamado José María Arizmendiarrieta ajudou um grupo de jovens trabalhadores a fundar sua primeira cooperativa industrial. A ideia era simples: criar empresas onde os próprios trabalhadores fossem também os donos, decidindo juntos os rumos do negócio. Hoje, quase setenta anos depois, a Corporação Mondragón reúne dezenas de cooperativas, emprega dezenas de milhares de pessoas em mais de cem países e é considerada o maior grupo cooperativo do mundo.

Também merece destaque a história de Holambra, no interior de São Paulo. Em 1948, cerca de 500 imigrantes holandeses, fugindo de uma Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial, fundaram ali uma cooperativa agropecuária. O plano inicial era produzir leite, mas o gado não resistiu ao clima tropical. Sem se abalar, os colonos reorganizaram a cooperativa em torno de um novo produto: flores. Hoje Holambra responde por quase metade de toda a produção nacional de flores e é conhecida como a Capital Nacional das Flores — tudo graças à decisão coletiva de recomeçar juntos.

Poderíamos lembrar ainda de inúmeras comunidades do Sul do Brasil formadas por imigrantes europeus que, sem grandes riquezas, construíram escolas, igrejas, hospitais, associações, cooperativas e empresas. Todas elas entenderam uma verdade simples: aquilo que beneficia a comunidade acaba beneficiando cada família dentro dela.


A ilusão do individualismo

Uma sociedade pode até enriquecer alguns indivíduos rapidamente. Mas jamais cresce de verdade por estar dividida.

Vivemos numa época que valoriza muito o sucesso pessoal, a conquista individual, o “eu consegui sozinho”. Mas basta observar a história com atenção para perceber que nenhum povo alcançou desenvolvimento duradouro cultivando apenas interesses individuais.

Quando o espírito comunitário desaparece, a desconfiança cresce no lugar dele. Sem confiança, as instituições enfraquecem. Sem instituições fortes, os investimentos diminuem. E sem investimentos, as oportunidades também desaparecem.

O individualismo extremo pode até enriquecer algumas pessoas por um tempo. O que ele nunca faz é construir, sozinho, uma sociedade próspera.


O verdadeiro sentido do cooperativismo.                

Cooperar não elimina o esforço individual. Ele multiplica o seu resultado.

Muita gente imagina que uma cooperativa seja apenas um tipo de organização econômica, como uma empresa qualquer. Na verdade, é muito mais do que isso. O cooperativismo é a expressão organizada de um princípio humano bem mais antigo: o reconhecimento de que todos ganham quando trabalham juntos.

Isso não significa abrir mão da iniciativa pessoal. Pelo contrário: o cooperativismo fortalece essa iniciativa, porque cria as condições para que cada pessoa desenvolva melhor o seu potencial. Competência continua sendo importante. Esforço continua sendo indispensável. Mas ambos rendem resultados muito maiores quando caminham ao lado da confiança, da solidariedade e do compromisso com o bem comum — como mostram Chapecó, Cascavel, Holambra e Mondragón.


Uma reflexão para o futuro

A tecnologia vai continuar mudando o mundo. O que decide se ela nos aproxima ou nos afasta somos nós.

Tenho pensado, cada vez com mais frequência, que talvez o maior desafio das próximas gerações não seja produzir mais riqueza. Será reconstruir o espírito comunitário.

A tecnologia continuará avançando. A inteligência artificial vai transformar profissões inteiras. Novas descobertas vão surgir todos os dias. Mas nenhuma inovação será capaz de substituir valores como confiança, cooperação, respeito e responsabilidade compartilhada.


Conclusão

Ao terminar de reunir essas histórias — dos tecelões de Rochdale aos produtores de Chapecó, dos agricultores de Cascavel aos imigrantes de Holambra e aos trabalhadores de Mondragón —, chego a uma conclusão que considero simples e, ao mesmo tempo, definitiva: a prosperidade sempre foi, e continuará sendo, construída por pessoas em conjunto.

 

Aprendi que o bem comum não diminui o sucesso individual. Muito pelo contrário: é justamente ele que o torna possível. Nenhuma cidade cresce sozinha. Nenhuma comunidade prospera dividida. Nenhum país alcança grandeza quando cada um trabalha apenas para si.

Termino este texto com a mesma certeza com que o comecei: as maiores realizações humanas sempre nasceram quando aprendemos a caminhar juntos. E é exatamente essa a lição que quero deixar para quem chegou até aqui comigo.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com

 

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