Sem Educação Não Há Indústria

Sem Educação Não Há Indústria

O conhecimento é a matéria-prima mais valiosa de uma nação

“O conhecimento tornou-se o principal recurso econômico. Ele é hoje o recurso dominante e talvez o único recurso realmente significativo.”
— Peter Drucker

Compreende-se que a riqueza de uma nação não está escondida apenas em seu subsolo, em suas florestas ou em suas reservas minerais. Ela nasce, sobretudo, da inteligência, da criatividade e da capacidade de seu povo transformar conhecimento em soluções, inovação e prosperidade.

Ao longo de minha vida profissional, tanto na administração pública quanto no magistério, pude observar que os países que alcançaram elevado grau de desenvolvimento possuem uma característica em comum: fizeram da educação uma política permanente de Estado, e não um projeto circunstancial de governo.

Quanto mais reflito sobre o processo de desindustrialização brasileira, mais me convenço de que a maior perda do país não foi apenas o fechamento de fábricas. Perdemos, principalmente, a capacidade de formar pessoas preparadas para criar novas empresas, desenvolver tecnologias, liderar processos produtivos e competir em um mercado cada vez mais exigente.

Não há indústria moderna sem inovação. Não há inovação sem ciência. E não existe ciência consistente sem uma educação básica sólida. Essa relação parece simples, mas o Brasil ainda não conseguiu transformá-la em prioridade nacional.

É por isso que considero a educação a primeira e mais importante das causas estruturais da perda de competitividade da indústria brasileira.


A verdadeira riqueza das nações

Durante séculos acreditou-se que os países mais ricos seriam aqueles que possuíssem maiores reservas de ouro, petróleo ou terras férteis. A economia do século XXI mostrou exatamente o contrário.

Hoje, as maiores riquezas do mundo são produzidas pelo conhecimento.

Empresas como Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Samsung, Siemens e Toyota não se destacam porque possuem mais matérias-primas, mas porque desenvolvem tecnologia, inovação, pesquisa e pessoas altamente qualificadas.

O mesmo ocorreu com países que, poucas décadas atrás, eram pobres e devastados por guerras. Coreia do Sul, Singapura, Irlanda e Finlândia compreenderam que investir na educação era investir diretamente na produtividade, na indústria e na qualidade de vida.

Enquanto isso, o Brasil continua tratando a educação como despesa orçamentária, quando deveria considerá-la seu principal investimento estratégico.

Fonte: OCDE; Banco Mundial; UNESCO; World Economic Forum.


Quando a escola deixa de preparar para a vida

Os resultados das avaliações internacionais revelam uma realidade preocupante.

No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA 2022), o Brasil obteve desempenho significativamente inferior à média dos países da OCDE em matemática, leitura e ciências. Milhões de estudantes concluem a educação básica sem dominar competências essenciais para interpretar textos, resolver problemas matemáticos ou compreender conceitos científicos.

Essas dificuldades acompanham o jovem durante toda a sua trajetória profissional. Empresas encontram dificuldades para contratar técnicos, programadores, engenheiros, projetistas e operadores especializados. Em muitos casos, precisam investir em treinamentos básicos para suprir lacunas que deveriam ter sido preenchidas ainda na escola.

Uma indústria baseada em automação, inteligência artificial, robótica e ciência de dados exige profissionais capazes de aprender continuamente. Essa formação começa muito antes da universidade.

Fonte: OCDE – PISA 2022; Todos Pela Educação; INEP.


A universidade precisa dialogar com a economia

A inovação é o instrumento específico do empreendedor.”
— Peter Drucker

O ensino superior brasileiro reúne importantes centros de excelência, pesquisadores qualificados e produção científica relevante. Ainda assim, persiste um distanciamento significativo entre parte das universidades e as necessidades concretas do setor produtivo.

Nos países líderes em inovação, universidades e empresas trabalham lado a lado: laboratórios desenvolvem soluções para desafios industriais, estudantes participam de projetos tecnológicos, e pesquisadores transformam descobertas científicas em novos produtos e processos. No Brasil, essa aproximação ainda ocorre de forma desigual — muitas instituições enfrentam limitações de infraestrutura, poucos incentivos à inovação e mecanismos incipientes de transferência de conhecimento para a economia real.

Esse distanciamento tem um efeito prático: cresce o número de profissionais técnicos, autônomos ou empregados, que optam por não cursar o ensino superior, por considerarem que ele pouco agregaria diante do ritmo dos avanços tecnológicos. Observo esse comportamento até na própria família, com pessoas convencidas de que a faculdade nada acrescentaria ao que já sabem na prática. Não se pode generalizar essa percepção, mas ela sinaliza um problema real: quando profissionais experientes não enxergam valor agregado no ensino superior, isso é, ao menos em parte, sintoma desse desalinhamento entre a universidade e as demandas do mercado.

Por isso, defendo cursos mais voltados às vocações regionais, o que exige que a extensão universitária — a prática de transformar teoria em ação concreta — ocorra majoritariamente fora da universidade, nos próprios locais de produção, já desde os primeiros semestres da graduação, e não apenas em seus períodos finais. Um curso de agronomia deveria levar seus acadêmicos às terras dos produtores rurais; um curso industrial, ao chão de fábrica. Nesses ambientes, o estudante transferiria formas modernas de produção ao produtor e ao industrial, enquanto absorveria, pela pesquisa, os desafios reais de cada setor. É essa troca contínua entre universidade e território, iniciada logo no começo da formação, que sustenta o desenvolvimento regional e justifica a própria presença da instituição naquele lugar.

Entendo que o principal objetivo de uma universidade é justamente esse: contribuir para o desenvolvimento da região onde está inserida. Uma universidade situada em área de forte presença metalúrgica, florestal, têxtil ou agroindustrial deveria formar profissionais preparados para os desafios específicos desses setores, atuando diretamente dentro das fazendas, fábricas e cadeias produtivas que movem a economia local.

Fontes: Banco Mundial · OCDE · CAPES · CNI · EMBRAPII


O exemplo das nações que escolheram educar

“A melhor forma de administrar o futuro é criá-lo.”
— Peter Drucker

Poucos exemplos são tão inspiradores quanto o da Coreia do Sul.

Na década de 1960, o país possuía renda per capita semelhante à de diversas nações em desenvolvimento. Sem grandes recursos naturais, decidiu investir intensamente em educação básica, formação técnica, engenharia, pesquisa científica e inovação.

Décadas depois, empresas como Samsung, Hyundai, LG e Kia tornaram-se líderes globais em tecnologia e manufatura avançada.

A Finlândia seguiu caminho semelhante ao priorizar a valorização dos professores, a qualidade do ensino e a autonomia das escolas.

Singapura transformou uma pequena ilha sem recursos naturais em um dos maiores polos tecnológicos do planeta por meio da educação e da formação permanente de sua população.

Esses casos demonstram que o desenvolvimento econômico sustentável não é fruto do acaso. É consequência de planejamento, continuidade administrativa e investimento consistente nas pessoas.

Fonte: OCDE; UNESCO; Banco Mundial; World Bank Data.


Uma proposta para reconstruir o futuro

“O planejamento de longo prazo não trata de decisões futuras, mas do futuro das decisões presentes.”
— Peter Drucker

A reconstrução da competitividade industrial brasileira começa nas salas de aula.

Defendo que o Brasil estabeleça uma política nacional de educação baseada em metas de longo prazo, preservadas independentemente das mudanças de governo.

Essa estratégia deveria contemplar, entre outras medidas:

  • prioridade absoluta ao ensino fundamental;
  • alfabetização plena na idade adequada;
  • fortalecimento do ensino da matemática, da língua portugues;
  • valorização efetiva da carreira docente, com formação continuada e remuneração compatível com sua relevância social;
  • expansão do ensino técnico e profissionalizante;
  • atualização permanente dos currículos universitários;
  • maior integração entre universidades, centros de pesquisa e setor produtivo;
  • ampliação dos investimentos em inovação, inteligência artificial, automação, biotecnologia e engenharia avançada;
  • estímulo ao empreendedorismo, à educação financeira e ao pensamento crítico desde os primeiros anos escolares.

Além disso, considero indispensável que a escola seja um espaço de pluralidade intelectual, respeito às diferentes ideias e desenvolvimento da capacidade de pensar de forma autônoma. A educação deve formar cidadãos livres, preparados para analisar, questionar e construir soluções para os desafios da sociedade.


Conclusão

Ao refletir sobre a trajetória da indústria brasileira, chego sempre à mesma conclusão: as máquinas podem ser compradas, as fábricas podem ser construídas e as tecnologias podem ser importadas. O que não se adquire rapidamente é o capital humano necessário para transformá-las em desenvolvimento.

Uma nação que negligencia sua educação compromete sua capacidade de inovar, produzir riqueza e competir em um mundo cada vez mais baseado no conhecimento. Por outro lado, quando investe de forma consistente na formação de seu povo, cria as condições para o surgimento de novas empresas, empregos qualificados e avanços científicos que impulsionam toda a economia.

Por essa razão, considero que a educação não deve ser vista apenas como uma política social, mas como a mais importante política econômica de longo prazo. O futuro da indústria brasileira será determinado, em grande medida, pela qualidade das decisões que tomarmos hoje dentro das escolas, dos institutos técnicos e das universidades.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com


No próximo artigo, examinarei outro obstáculo que limita severamente a competitividade nacional: o elevado Custo Brasil, formado por uma combinação de carga tributária complexa, burocracia excessiva, logística deficiente, insegurança jurídica e crédito oneroso. São fatores que, juntos, tornam produzir no Brasil um desafio muito maior do que em diversas economias concorrentes.

 

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