24 ago Uma história que me fez pensar
O que falta ao Brasil?
“Nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige.” — Sêneca
Tenho procurado, ao longo da vida, compreender as razões que estão por trás dos acontecimentos. Não me basta constatar que algo deu errado; procuro descobrir por que aconteceu, quais foram suas causas e o que poderia ter sido feito de maneira diferente. Da mesma forma, quando um resultado é positivo, interessa-me compreender quais decisões, circunstâncias e atitudes contribuíram para que ele acontecesse. Afinal, compreender as causas dos sucessos e dos fracassos é uma das melhores maneiras de aprender com a experiência.
Essa maneira de pensar me acompanha há muito tempo e me conduz a uma pergunta que considero fundamental: por que o Brasil, dotado de extraordinários recursos naturais, de uma população numerosa e de tantas condições favoráveis ao desenvolvimento, ainda não consegue transformar todo esse potencial em prosperidade e qualidade de vida para sua população?
Para mim, compreender uma realidade exige questionar, investigar e, sobretudo, buscar as causas. Os efeitos são aquilo que vemos; as causas, muitas vezes, permanecem ocultas e exigem reflexão para serem descobertas.
Foi nesse espírito que conheci o relato de Ozires Silva sobre sua experiência na China, em 1989, a convite de Peter Drucker. A história despertou minha atenção pelo encontro entre duas personalidades de grande importância e por revelar uma experiência que permite refletir sobre desenvolvimento, planejamento, educação, liderança e visão de futuro.
Esse relato me levou a pensar ainda mais sobre o Brasil. Se outros países conseguiram transformar suas condições e avançar de maneira extraordinária, o que podemos aprender com essas experiências?
Essa pergunta me fez olhar para o passado para compreender as escolhas que ajudaram a construir o presente. Afinal, se queremos transformar o futuro, precisamos primeiro entender as causas que explicam onde estamos hoje.
É a partir dessa reflexão que pretendo analisar a experiência relatada por Ozires Silva e Peter Drucker, em busca de algumas respostas para uma questão que considero essencial: o que falta ao Brasil para transformar seu enorme potencial em desenvolvimento efetivo?
A causa do desenvolvimento econômico chinês
Em janeiro de 1989, Ozires integrou uma equipe liderada por Drucker que foi à China discutir estratégias de competitividade. O que mais o impressionou foi a determinação dos dirigentes chineses em transformar objetivos em realidade. O mérito não foi de Drucker ou de um único plano, mas das reformas de Deng Xiaoping, iniciadas em 1978.
A lição é clara: nenhum país muda sua realidade sem saber aonde quer chegar e sem manter uma estratégia coerente por longo prazo.
Ozires Silva: um brasileiro que acreditou no impossível
Formado em Engenharia Aeronáutica pelo ITA, Ozires liderou a criação da Embraer a partir de 1969, desenvolvendo aeronaves como Bandeirante, Xingu, Tucano e Brasília, e depois conduziu sua privatização, em 1994.
É uma prova de que o Brasil tem capacidade — o que muitas vezes falta é transformar essa capacidade em estratégia permanente.
Peter Drucker: pensar antes de administrar
Um dos maiores pensadores da administração moderna (1909–2005), Drucker resumia sua visão em uma sequência: intenção → objetivo → ação → resultado.
A China não precisava apenas de recursos, mas de direção e capacidade de execução — talvez uma das maiores deficiências brasileiras.
Deng Xiaoping e a mudança de rumo
As reformas iniciadas em 1978 abriram gradualmente a economia chinesa, com incentivos à produção, criação de zonas econômicas especiais e atração de investimentos estrangeiros.
O Estado manteve o controle político, mas deu espaço ao mercado. O método era pragmático: testar, avaliar, corrigir e expandir.
A China não cresceu por uma única razão
A transformação chinesa combinou visão de longo prazo, continuidade, abertura ao mundo, industrialização, educação técnica, infraestrutura, pragmatismo e integração internacional, incluindo a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001.
Os resultados apareceram
Entre 1978 e 1996, o PIB chinês cresceu, em média, mais de 9% ao ano. Shenzhen e outras zonas econômicas especiais transformaram-se em polos globais de produção.
A China deixou progressivamente de ser uma economia predominantemente rural e passou a ocupar posição de liderança em setores como veículos elétricos, energia solar e inteligência artificial.
O que Ozires Silva percebeu na China
Não foi o tamanho do país que mais o impressionou, mas a determinação em executar decisões. Como ele sintetizou: “Não basta ter uma boa ideia. É preciso transformá-la em realidade.”
Essa é também uma síntese de sua própria trajetória com a Embraer.
China e Brasil: duas experiências que merecem comparação
Não se trata de copiar a China, mas de aprender com alguns de seus princípios.
O Brasil possui universidades, recursos naturais, um grande mercado interno e profissionais altamente qualificados. O que nos falta, em grande medida, é continuidade.
Enquanto a China passou a pensar em décadas, nós frequentemente pensamos no próximo mandato.
O exemplo brasileiro da Embraer
A Embraer nasceu de uma estratégia nacional que envolveu o Estado, o ITA, pesquisa, tecnologia e formação de engenheiros.
Se fomos capazes de construir uma das empresas aeronáuticas mais importantes do mundo, por que não conseguimos repetir experiências semelhantes em outras áreas estratégicas?
A resposta talvez esteja justamente na ausência de continuidade, coordenação e de um projeto nacional de longo prazo.
A grande lição: planejar para 20 anos
O Brasil precisa superar o planejamento limitado aos mandatos governamentais.
Um país continental deveria estabelecer objetivos nacionais para 20 anos — econômicos, industriais, educacionais, tecnológicos, sociais e de infraestrutura — que sobrevivam às mudanças de governo, ainda que as políticas e os instrumentos sejam ajustados ao longo do caminho.
Mas planejamento, por si só, não basta. É necessário criar as condições institucionais para que ele seja executado.
O que precisamos transformar
Na minha concepção, se realmente desejamos construir um Brasil mais desenvolvido, competitivo e justo, os Poderes Executivo e Legislativo, respeitadas suas competências e a independência entre os Poderes de Estado, deveriam concentrar esforços na construção de uma agenda nacional de longo prazo, capaz de enfrentar problemas estruturais que há décadas limitam nosso desenvolvimento.
Entre as prioridades, considero indispensáveis uma verdadeira revolução na educação, uma ampla reforma política e administrativa, o aperfeiçoamento e a modernização do Poder Judiciário e a construção de um novo pacto federativo, capaz de distribuir de maneira mais racional responsabilidades, recursos e competências entre União, Estados e Municípios.
Não se trata de defender mudanças improvisadas ou de copiar modelos estrangeiros. Trata-se de reconhecer que problemas estruturais exigem soluções estruturais.
A educação deve preparar o cidadão para o futuro e formar profissionais capazes de inovar e produzir. A reforma política deve fortalecer as instituições e ampliar a responsabilidade dos agentes públicos perante a sociedade. A administração pública precisa tornar-se mais eficiente, profissional e orientada para resultados. O Judiciário deve buscar maior celeridade, previsibilidade e eficiência. E o pacto federativo precisa aproximar responsabilidades e recursos daqueles que efetivamente executam as políticas públicas.
Essas transformações não podem ser realizadas isoladamente. Exigem visão de Estado, cooperação institucional, planejamento e continuidade, independentemente de ideologias ou de quem esteja ocupando temporariamente o governo.
Conclusão: uma lição para o Brasil
Após estudar as causas que contribuíram para o extraordinário crescimento da economia chinesa, concluo que o Brasil tem amplas condições de superar o estágio em que se encontra.
Temos recursos, território, população, universidades, empresas, empreendedores e profissionais capazes. Temos, inclusive, exemplos históricos de sucesso, como a Embraer.
O que precisamos é transformar essas capacidades dispersas em um projeto nacional de longo prazo, sustentado por instituições sólidas e por uma sociedade disposta a pensar além dos ciclos eleitorais.
O desenvolvimento de uma nação exige visão, planejamento, liderança, continuidade e execução. A China combinou reformas graduais, abertura, industrialização e uma estratégia mantida por décadas. Não precisamos copiar a China — precisamos aprender com sua capacidade de definir objetivos, manter prioridades e transformar planejamento em ação.
E, para isso, Executivo, Legislativo e Judiciário, cada qual dentro de suas atribuições constitucionais, precisam compreender que o desenvolvimento nacional não pode ser tratado como projeto de um governo, de um partido ou de uma geração. É um projeto de Estado.
Drucker ensinou a transformar conhecimento em ação. Ozires Silva provou que brasileiros são capazes de realizar o impossível. A China mostrou que, com direção mantida por décadas, um país pode reescrever sua história.
Talvez esteja aí a principal lição: o Brasil não precisa descobrir o que possui. Precisa decidir o que quer ser e, a partir dessa decisão, trabalhar de forma persistente para construir o futuro que deseja.
“Planos são apenas boas intenções, a menos que imediatamente se transformem em trabalho duro.” — Peter Drucker
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
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