Registrar para não esquecer

Registrar para não esquecer

A  memória que preserva nossa história

“Conhece a história dos seus avós? Registre antes que se perca.”

Ao longo da vida, compreendi que as lembranças constituem a espinha dorsal da nossa identidade. Se não forem registradas, correm o risco silencioso de se diluírem com o passar dos anos. Foi com esse olhar que, quando minhas filhas ainda eram jovens, as incentivei a manterem diários — registrando o cotidiano, os afetos, as viagens e as descobertas.         

A intenção era simples, mas profunda: demonstrar que aquilo que hoje parece corriqueiro pode, no futuro, revelar-se um tesouro inestimável para elas e para as próximas gerações.

Com o tempo, percebi que essa urgência ultrapassa as paredes de casa. É uma necessidade que alcança a comunidade, as instituições e a própria sociedade. Afinal, quantas trajetórias brilhantes e realizações transformadoras se perderam simplesmente porque ninguém se deteve a registrá-las? É sobre o compromisso ético e afetuoso de guardar o passado e transmiti-lo como legado que proponho esta reflexão.


A memória é um patrimônio coletivo

 “A história é testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida.” — Cícero

A identidade de uma comunidade é tecida diariamente por mãos que, muitas vezes no silêncio do anonimato, ajudam a moldá-la. Esportistas, educadores, empresários, gestores públicos e cidadãos comuns constroem o tecido social por meio de suas escolhas e dedicação.

Contudo, a história oficial nem sempre alcança a riqueza dos fatos. Muitas das mais belas páginas da vida comunitária sobrevivem apenas no sopro da tradição oral. Trata-se de uma herança valiosa, porém extraordinariamente frágil: quando as testemunhas dos fatos se vão, levam consigo nuances e detalhes preciosos que jamais poderão ser recuperados.

Preservar a memória, portanto, vai além da saudade. É um ato de justiça histórica: o reconhecimento de quem abriu caminhos para que hoje pudéssemos caminhar.


Dar voz a quem construiu a história

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.”— Mário Quintana

Nesse horizonte, merece nosso mais profundo respeito quem dedica tempo e sensibilidade a resgatar a memória local. Deixo aqui meu reconhecimento expressivo a todos que assumiram a missão de reunir documentos, resgatar fotos e eternizar as trajetórias daqueles que impulsionaram nossa terra.

Muitos desses cidadãos devotaram anos a causas que transcendiam seus próprios interesses. Seja no esporte, na vida pública, na liderança comunitária ou nas ações humanitárias, trabalharam pelo bem coletivo sem buscar holofotes ou recompensas. Movia-os, simplesmente, o propósito de servir.

Dar visibilidade a esses nomes é perpetuar bons exemplos. Uma comunidade só se torna verdadeiramente forte e consciente quando aprende a honrar as bases sobre as quais foi erguida.


Cada cidadão é testemunha de seu tempo.

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.” — Søren Kierkegaard

 

 

Ao passar em revista a minha própria caminhada, dou-me conta de quão privilegiado fui por testemunhar capítulos marcantes da história de Lages. Ao longo das décadas, participei de alguma atividades nos campos esportivo, político, profissional e comunitário.

 

Acompanhei as transformações locais sob múltiplos ângulos: desde os primeiros anos de aprendizado no comércio do meu pai, passando pelo calor das jornadas esportivas, pelos desafios da gestão pública, até a convivência com entidades de classe e organizações humanitárias.

No campo profissional e acadêmico, tive a honra de representar a classe dos administradores, colaborar com o setor contábil, participar da elaboração de manuais e legislações tributárias e, por longos anos, exercer a vocação do magistério superior. São vivências que me permitiram enxergar de perto as engrenagens da nossa sociedade.

Não me considero dono da verdade, nem testemunha ocular de todos os fatos. Mas compreendo que minha trajetória é um pequeno grão na construção desse patrimônio comum. Por isso, como filho deste torrão lageano, faço questão de partilhar o que vi e vivi.


A história começa dentro de casa. 

“O que a memória ama, fica eterno.”— Adélia Prado

Essa consciência histórica precisa nascer, antes de tudo, no seio familiar. Quantos filhos e netos conhecem verdadeiramente as lutas, os caminhos, os valores e os sonhos de seus pais e avós?

Nenhuma história precisa de tintas épicas para merecer registro. O cotidiano de uma família, um álbum de retratos antigos, uma carta amarelada, uma receita de infância ou os relatos de superação são fragmentos vivos de uma época.

Seja por meio de cadernos de anotações, gravações de voz ou acervos fotográficos, o essencial é não permitir que a chama dessas memórias se apague. Quando partilhadas ao redor da mesa, essas lembranças estreitam laços, fortalecem a identidade e ensinam lições que livro algum é capaz de transmitir.


O legado que deixamos

Escrever a história é uma forma de honrar o ontem, compreender o hoje e iluminar o amanhã.

 

Não podemos nos dar ao luxo de esperar que outros contem as nossas vivências, nem confiar que o tempo, por si só, se encarregará de guardar o que nos é caro. Todos nós carregamos um relato ou um aprendizado que merece ser transmitido.

 

Sei que não serei capaz de registrar cada detalhe da minha jornada. Contudo, alegra-me saber que deixo minha contribuição. Desejo que minhas filhas, meus netos e as futuras gerações possam consultar estas linhas para reconhecer suas raízes e compreender o amor que devotamos a esta terra.

Afinal, a história não registrada apaga-se com o tempo; mas a história compartilhada transforma-se em farol para o futuro.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com

 

 

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