19 jan Do Mito à Verdade
Ao longo dos meus quase vinte anos como professor de Ética Profissional e Empresarial, vivi repetidas vezes uma mesma dificuldade em sala de aula: a separação entre os conceitos religiosos, profundamente enraizados na formação cultural dos acadêmico, e o pensamento filosófico, especialmente quando ambos entravam em conflito. Não raramente, percebia que a filosofia era compreendida como uma ameaça à fé, e não como um exercício autônomo da razão. Essa tensão, longe de ser um problema contemporâneo, remonta às origens do próprio pensamento filosófico.
“A admiração é o princípio da filosofia.” — Platão
Imagine um mundo em que tudo — de uma tempestade a uma doença, do nascimento à morte — fosse explicado exclusivamente como vontade dos deuses. Durante milênios, essa foi a forma predominante de interpretar a realidade. Como observa Blaise Pascal, o ser humano se percebe simultaneamente como “um nada diante do infinito e um tudo diante do nada”, oscilando entre a submissão ao mistério e o desejo de compreender o mundo.
Foi justamente essa inquietação que marcou a grande virada do pensamento humano. Em determinado momento da história, especialmente nos portos e colônias da Grécia Antiga, alguns homens recusaram-se a aceitar o mito como resposta definitiva. Em vez de recorrer à revelação divina, passaram a perguntar se os fenômenos naturais não obedeceriam a causas inteligíveis. Esse gesto, aparentemente simples, inaugurou uma ruptura profunda: o nascimento da filosofia e, com ela, da atitude científica.
Mais do que oferecer respostas prontas, esses pensadores inauguraram um método. Como destaca Werner Jaeger, a filosofia grega não nasce de um sistema fechado, mas de uma nova forma de olhar o mundo, baseada na observação, na argumentação racional e na crítica. Essa mudança não extinguiu o mito, mas delimitou seus domínios, permitindo à razão caminhar com autonomia.
Do Mito à Logos
“O logos é comum a todos, mas a maioria vive como se tivesse uma inteligência particular.” — Heráclito
Antes da filosofia, o mito organizava a compreensão do mundo por meio de narrativas sagradas aceitas pela tradição e pela autoridade religiosa. A partir do século VI a.C., especialmente na Grécia Antiga, alguns pensadores passaram a buscar explicações racionais para os fenômenos naturais. Essa passagem do mito ao logos não significou a negação da religiosidade, mas a afirmação de que a realidade possui uma ordem inteligível, acessível à razão humana. Com isso, inaugura-se uma nova forma de pensar, baseada na observação, na argumentação e na crítica.
Em Busca do Princípio
“Nada existe exceto átomos e vazio.” — Demócrito
Os filósofos pré-socráticos buscaram identificar um princípio fundamental (arché) capaz de explicar a diversidade dos fenômenos naturais. Apesar das diferentes respostas apresentadas, todos compartilhavam a convicção de que o mundo é racionalmente compreensível. O contraste entre a ideia do fluxo constante, defendida por Heráclito, e a noção de permanência do ser, proposta por Parmênides, tornou-se um dos eixos centrais da filosofia. Mais importante do que as respostas encontradas foi a consolidação de um método racional e investigativo, que passou a orientar a reflexão filosófica.
O Saber se Transforma e Especializa
“O acaso nada faz; tudo tem uma razão.” — Anaxágoras
Com o amadurecimento do pensamento filosófico, as explicações tornaram-se mais complexas. Novos conceitos e princípios foram incorporados, ampliando a compreensão da natureza e da realidade. Gradualmente, desse processo nasceram as ciências particulares, que passaram a estudar aspectos específicos do mundo. A filosofia, por sua vez, deixou de explicar a totalidade dos fenômenos para assumir o papel de reflexão crítica sobre os fundamentos do conhecimento, mantendo-se como espaço privilegiado do questionamento e da análise racional.
Amar a Sabedoria: A Filosofia Moderna
“Não é a resposta que ilumina, mas a pergunta.” — Eugène Ionesco
Na modernidade, a filosofia reafirmou seu caráter investigativo. O racionalismo, com René Descartes, destacou a razão como fundamento da verdade; o empirismo, com Francis Bacon, John Locke e David Hume, valorizou a experiência sensível como origem do conhecimento. Apesar das diferenças, ambas as correntes reforçaram a autonomia da razão frente à tradição e à autoridade, aprofundando o espírito crítico que caracteriza o pensamento filosófico.
Conclusão
“Uma vida sem reflexão não merece ser vivida.” — Sócrates
O surgimento da filosofia não representou apenas a substituição do mito pela razão, mas a inauguração de uma nova atitude diante da realidade. Filosofar é questionar, examinar criticamente crenças, valores e discursos. Os pré-socráticos não nos legaram verdades definitivas, mas algo mais duradouro: a coragem de pensar por conta própria.
Em um mundo marcado por certezas frágeis e discursos dogmáticos, a filosofia permanece como exercício de liberdade intelectual. Como educador, percebo diariamente a atualidade desse legado, sobretudo quando buscamos distinguir a fé pessoal da reflexão racional. Afinal, o conhecimento começa sempre com uma dúvida honesta — e bem formulada.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Referências
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia antiga. São Paulo: Paulus, 2003.


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