ÉTICA: O ATIVO INVISÍVEL

ÉTICA: O ATIVO INVISÍVEL

Ao longo de quase vinte anos como professor da disciplina Ética Profissional e Empresarial, aprendi que ética não é um tema abstrato nem um luxo acadêmico. Ela se revela, sobretudo, quando falha. É nesses momentos que o discurso se rompe, a prática vem à tona e o mercado reage.

Sempre defendi que a universidade é o espaço natural para formar profissionais capazes de decidir com responsabilidade.

Mas foi observando a realidade fora da sala de aula que consolidei uma convicção pessoal: empresas não quebram apenas por erros técnicos; muitas quebram — ou se enfraquecem gravemente — por falhas éticas tornadas públicas.

Vivemos em um tempo em que nenhuma empresa controla totalmente a informação sobre si mesma. Um vazamento, uma denúncia, uma investigação jornalística ou uma simples gravação de celular são suficientes para expor práticas que antes ficavam restritas aos bastidores. Quando isso ocorre, o julgamento deixa de ser apenas jurídico e passa a ser social.

O Brasil oferece exemplos claros. O escândalo envolvendo a Petrobras, revelado pela Operação Lava Jato, expôs um sistema de corrupção que ultrapassava indivíduos e atingia a governança da empresa. Embora a estatal não tenha desaparecido, sofreu perdas bilionárias, queda abrupta de valor de mercado e um profundo desgaste de imagem, inclusive no exterior. Muitos investidores e consumidores passaram a associar a marca à falta de ética, e a reconstrução da confiança levou anos.

Outro caso emblemático foi o da JBS, cuja delação premiada de seus controladores revelou práticas ilegais que vieram a público em 2017. A reação foi imediata: desvalorização das ações, suspensão de contratos internacionais e desconfiança dos consumidores. Mesmo mantendo sua operação, a empresa enfrentou boicotes e forte pressão do mercado, mostrando que reputação também é um ativo econômico.

No setor de consumo, lembro do caso da Ambev, quando denúncias relacionadas a práticas internas de gestão e conduta geraram forte repercussão pública. Ainda que a empresa tenha adotado medidas corretivas, o episódio demonstrou como questões éticas internas podem rapidamente ganhar dimensão social e afetar a imagem da marca.

No cenário internacional, os exemplos são ainda mais didáticos. A Volkswagen, ao admitir que fraudou testes de emissão de poluentes, sofreu um dos maiores boicotes da história recente da indústria automobilística. Milhões de consumidores se sentiram enganados. O prejuízo financeiro foi gigantesco, mas o dano maior foi simbólico: a quebra de confiança. Como consequência, a empresa precisou rever sua estratégia global e investir fortemente em reposicionamento e governança.

Outro caso marcante foi o da Enron, nos Estados Unidos. A empresa, que chegou a ser considerada um modelo de inovação, ruiu após a descoberta de fraudes contábeis e manipulação de informações. Clientes, investidores e parceiros se afastaram rapidamente. A Enron não resistiu ao colapso ético e desapareceu, tornando-se um exemplo clássico do que acontece quando valores são substituídos pela busca cega por resultados.

Mais recentemente, a Facebook (Meta) enfrentou boicotes globais após denúncias sobre uso indevido de dados de usuários no escândalo Cambridge Analytica. Milhares de pessoas abandonaram a plataforma temporariamente, grandes anunciantes suspenderam campanhas e a empresa passou a ser questionada sobre seus limites éticos. O episódio deixou claro que, na economia digital, ética e confiança são inseparáveis.

Esses casos reforçam algo que sempre procurei transmitir aos meus alunos: o mercado pode até tolerar erros, mas raramente perdoa a falta de ética quando ela se torna pública. Como dizia Peter Drucker, “o melhor modo de prever o futuro é criá-lo”. Criar um futuro sustentável exige escolhas éticas contínuas, especialmente quando ninguém está olhando.

A ética, nesse contexto, cumpre sua função essencial: indicar o melhor comportamento social do ponto de vista moral. Ela orienta decisões individuais e coletivas e estabelece limites claros para a ação empresarial. Aristóteles já ensinava que “somos o que repetidamente fazemos”. Empresas éticas são aquelas que transformam valores em prática cotidiana.

Não é por acaso que Emmanuel Lulin, executivo-chefe de ética da L’Oréal, afirmou que “as empresas que não são éticas vão desaparecer”. Talvez não desapareçam imediatamente, mas perdem algo fundamental: legitimidade social.

Concluo, a partir da experiência acadêmica e da observação da realidade, que ética empresarial não é discurso bonito nem peça de marketing. É estratégia de sobrevivência. Empresas são feitas de pessoas, e decisões éticas dependem da coragem de dizer não a atalhos fáceis e ganhos imediatos.

Em um mundo cada vez mais atento, informado e exigente, a falta de ética raramente permanece oculta. Quando vem à tona, o julgamento é rápido e severo. Por isso, sigo convencido de que ética não é diferencial competitivo; é condição mínima para quem deseja permanecer relevante, respeitado e sustentável no longo prazo.

Penso  que a base de tudo, o que dá sentido à vida, é o comportamento ético. A Ética é um princípio imutável, que molda o caráter e promove a harmonia humana. Seu valor é universal e transcende fronteiras, sendo reconhecida e valorizada em qualquer cultura ou sociedade do mundo. É o alicerce que sustenta as relações, constrói confiança e inspira respeito mútuo. Sem ética, a vida perde seu sentido mais profundo.

\

.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com 

Fontes:

  • CARROLL, Archie B. Business Ethics: Brief Readings on Vital Topics. New York: Routledge, 2016.
  • FREEMAN, R. Edward. Strategic Management: A Stakeholder Approach. Boston: Pitman, 1984.
  • INSTITUTO ETHOS. Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial. São Paulo, diversas edições.
  • OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Princípios de Governança Corporativa. Paris.
  • COMISSÃO EUROPEIA. Livro Verde: Promover um Quadro Europeu para a Responsabilidade Social das Empresas. Bruxelas.

 

Casos Brasileiros – Ética, Escândalos e Impactos no Mercado

  • BRASIL. Ministério Público Federal. Operação Lava Jato – Relatórios e Denúncias.
  • PETROBRAS. Relatórios Anuais e de Sustentabilidade (anos posteriores à Lava Jato).
  • JBS S.A. Comunicados ao Mercado e Relatórios de Governança Corporativa.
  • VALOR ECONÔMICO. Reportagens especiais sobre ética corporativa, Lava Jato e mercado.
  • FOLHA DE S.PAULO; O GLOBO; ESTADÃO. Cobertura jornalística dos casos Petrobras, JBS e governança empresarial.
  • AMBEV – TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO – TST. Reportagens em veiculos como a Gazeta do Povo e Consultor Jurídico – Conjur

 

Casos Internacionais – Ética, Boicotes e Reputação

  • VOLKSWAGEN AG. Relatórios Oficiais sobre o Dieselgate.
  • UNITED STATES DEPARTMENT OF JUSTICE. Volkswagen Emissions Fraud Settlement.
  • McLEAN, Bethany; ELKIND, Peter. The Smartest Guys in the Room: The Amazing Rise and Scandalous Fall of Enron. New York: Portfolio, 2003.
  • FEDERAL TRADE COMMISSION (FTC). Facebook/Cambridge Analytica Settlement Documents.
  • THE NEW YORK TIMES; THE GUARDIAN; THE WALL STREET JOURNAL. Reportagens sobre Enron, Volkswagen e Meta (Facebook).

 

Nenhum comentário

Escrever comentário