Lages: Da Pecuária e do Extrativismo à Inovação Florestal

Lages: Da Pecuária e do Extrativismo à Inovação Florestal

A trajetória econômica do Município de Lages sempre me impressionou pela forma como se organiza em ciclos: períodos de grande produtividade, importantes mudanças territoriais, fases de prosperidade e, inevitavelmente, momentos de perda. Ao longo dos meus anos de trabalho na Secretaria de Finanças da Prefeitura de Lages — entre 1976 e 2011 — acompanhei de perto essas transformações e observei como cada movimento econômico deixava sua marca no cotidiano da cidade.

Com base nos dados que analisei e na experiência adquirida nesse período, apresento neste artigo um panorama  sobre o comportamento das duas principais fontes de receita dos municípios de porte semelhante ao nosso: o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Esses recursos constituem a espinha dorsal da arrecadação municipal e representam pilares fundamentais para o desenvolvimento econômico local. Meu objetivo é auxiliar o leitor a compreender, com clareza, por que essas receitas são tão determinantes para o futuro de Lages.

 

A análise foca em dois eixos principais

 

1.⁠ ⁠As causas da variação das receitas, identificando os fatores que explicam aumentos e quedas no FPM e no retorno do ICMS.

2.⁠ ⁠O impacto das mudanças estruturais da economia e das emancipações distritais, que alteraram a configuração territorial e a capacidade financeira de Lages.

 

Memórias de Receita e Desenvolvimento

 

Entre 1976 e 2011, acompanhei de perto as oscilações das receitas do Município de Lages, especialmente aquelas provenientes do FPM e do ICMS — duas variáveis diretamente proporcionais ao nível de desenvolvimento econômico local. Esses recursos sempre foram vitais para  Lages por financiarem saúde, educação, assistência social, infraestrutura urbana e despesas de manutenção da máquina pública. Nos períodos de crescimento, a cidade respirava com mais tranquilidade; em momentos de retração, além da queda dos investimentos públicos, todas as secretarias sentiam os efeitos de forma imediata.

 

Campos de Lages: Bases Históricas e Territoriais

 

A região dos Campos de Lages — composta por aproximadamente 18 municípios, segundo o IBGE — estruturou-se historicamente sobre três pilares: pecuária, agricultura extensiva e exploração florestal. Desde o período colonial, sua posição estratégica favoreceu rotas de tropeirismo e circulação de mercadorias, lançando as bases de seu primeiro ciclo econômico.

 

Primeiro Ciclo Econômico: A Pecuária (séculos XVIII e XIX)

 

Os campos naturais extensos permitiram a criação de gado, mulas e cavalos, atividades que abasteciam as regiões mineradoras de Minas Gerais. Essa base consolidou Lages como ponto de passagem e comércio, influenciando sua formação fundiária e sustentando sua economia por mais de um século.

 

 

Segundo Ciclo Econômico: A Floresta de Araucária

 

 

No final do século XIX, a economia deslocou-se para a exploração da Floresta Ombrófila Mista. A araucária — antes vista como obstáculo pelos pecuaristas — tornou-se a maior riqueza do século XX. Segundo Goularti Filho (2003), cerca de 30% do território catarinense era coberto por araucárias.

 

O Auge do Ciclo da Madeira (1940–1970)

 

Entre 1940 e 1970, Lages viveu seu período de maior prosperidade, tornando-se:

  • ⁠ ⁠o maior polo madeireiro do Brasil;
  • ⁠ ⁠a principal economia de Santa Catarina (Augusto, 2003);
  • ⁠ ⁠responsável por 61% da madeira bruta exportada pelo país (Costa, 1982);
  • ⁠ ⁠fornecedora de madeira para a construção de Brasília.

Silveira (1999) registra cerca de 300 serrarias em operação no auge — um retrato da força industrial baseada no extrativismo.

 

Declínio Econômico e Reestruturação (a partir de 1970)

 

Com o colapso dos estoques de araucária, Lages perdeu dinamismo. O protagonismo estadual migrou para Joinville e Blumenau, já ancoradas em indústrias diversificadas. Esse declínio coincidiu com um período crítico para as receitas municipais — um cenário que presenciei pessoalmente.

 

Emancipações Territoriais (1982–1994): A Ferida Mais Profunda

 

Entre 1982 e 1994, Lages perdeu parte significativa de seu território e de sua base produtiva com as emancipações de:

1982

  • ⁠ ⁠Otacílio Costa
  • ⁠ ⁠Correia Pinto

Ambos abrigavam grandes empreendimentos industriais, como a Olinkraft Celulose e Papel Ltda. e a Papel e Celulose Catarinense S/A (PCC).

1994

  • ⁠ ⁠Bocaina do Sul
  • ⁠ ⁠Painel
  • ⁠ ⁠Capão Alto

 

Essas emancipações provocaram:

 

  • ⁠ ⁠queda expressiva do ICMS;
  • ⁠ ⁠redução do FPM;
  • ⁠ ⁠enfraquecimento industrial;
  • ⁠ ⁠perda da 3ª posição na economia catarinense, com Lages caindo para 11º no retorno do ICMS.

 

Impacto da Saída das Distribuidoras de Combustíveis (1996–1997)

 

Entre 1996 e 1997, Lages sofreu uma significativa redução no retorno do ICMS devido à saída das distribuidoras Ipiranga, Shell, Esso  e Petrobrás — um evento que ocorreu como consequência direta da entrada em operação do Poliduto OPASC.

Um poliduto é uma tubagem especialmente desenvolvida para a condução de diferentes tipos de fluidos (como petróleo ou derivados do petróleo, gás natural, produtos químicos, etc.) a longas distâncias.

O centro de distribuição das referidas empresas foi redirecionado para as cidades de Biguaçú, Itajaí e Guaramirim. Anteriormente a essa mudança logística, os combustíveis chegavam a Lages pelo modal ferroviário, utilizando o Tronco Principal Sul (TPS).

Com esse novo arranjo operacional, as operações de venda destinadas a determinadas regiões do estado deixaram de ser registradas no município de Lages, o que impactou fortemente, de forma negativa, a composição do seu Valor Adicionado (VA). O Valor Adicionado é, essencialmente, a diferença entre o valor das vendas de mercadorias e serviços de uma empresa e o valor das compras de terceiros.

Reestruturação Produtiva: O Novo Ciclo Florestal

 

 

Após o esgotamento da araucária, Lages iniciou um novo ciclo baseado em florestas plantadas de pinus e eucalipto, alinhado à sustentabilidade e à inovação econômica. O setor hoje inclui silvicultura, papel e celulose, MDF, biomassa, compósitos e móveis de alta tecnologia. Empresas como Berneck, Blue Forest e Ekomposit confirmam essa nova vocação.

 

 

A População e o Fundo de Participação dos MunicÍpios (FPM): um Novo Desenho das Receitas

 

O Censo de 2022 mostrou que Lages voltou a crescer, alcançando 164.981 habitantes, um aumento de 5,27% desde 2010. Mesmo assim, o município ainda vive os reflexos das perdas territoriais e populacionais das últimas décadas.

Na distribuição do FPM — composto por 24,5% do IR e do IPI arrecadados pela União — o fator populacional é decisivo. Quanto menor a população, menor o coeficiente de participação no fundo. Assim, embora a legislação federal tenha aumentado as alíquotas do FPM na década de 1980, a perda populacional decorrente das emancipações inevitavelmente reduziu o peso de Lages na partilha.

Oscilações posteriores, como as sentidas nos anos 1990, foram influenciadas por recessão nacional, baixa arrecadação de IR e IPI e instabilidade macroeconômica — fatores que atingiram praticamente todos os municípios brasileiros.

Conclusão: A Cidade que se Reinventa

 

A história econômica de Lages mostra uma cidade que viveu grandeza, declínio e reinvenção. As emancipações, o esgotamento da araucária e a saída de grandes empresas deixaram marcas profundas. Mas a reestruturação produtiva com base em florestas plantadas demonstra que a reconstrução não apenas é possível — ela já está em curso.

O futuro de Lages dependerá da:

 

  • ⁠ ⁠visão territorial estratégica;
  • ⁠ ⁠diversificação produtiva baseada nas vocações regionais;
  • ⁠ ⁠planejamento a longo prazo das políticas públicas;
  • ⁠ ⁠estímulo à inovação e sustentabilidade.

Cidades que já foram grandes carregam dentro de si a semente da reinvenção.

E Lages — com sua história marcada por ciclos — segue, mais uma vez, construindo o futuro.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail

 

 

Fontes

 

  • ⁠ ⁠AUGUSTO, José Edemar. História Econômica de Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 2003.
  • ⁠ ⁠COSTA, Carlos. Indústria Madeireira no Planalto Catarinense. Florianópolis: EdUFSC, 1982.
  • ⁠ ⁠GOULARTI FILHO, Alexandre. Economia e Sociedade Catarinense no Século XX. Florianópolis: Cidade Futura, 2003.
  • ⁠ ⁠IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Séries Históricas e Estatísticas dos Municípios.
  • ⁠ ⁠SCHUMPETER, Joseph. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Zahar, várias edições.
  • ⁠ ⁠SILVEIRA, João. Memórias do Ciclo da Madeira em Lages. Lages: Impressora Lageana, 1999.
  • ⁠ ⁠BRASIL. Secretaria do Tesouro Nacional. Manual do Fundo de Participação dos Municípios – FPM. Brasília, STN, diversas edições.
2 Comentários
  • Waldemar da Silva Madureira
    Postado em 13:18h, 01 dezembro Responder

    Em apertada síntese vislumbro quem sabe em visão holística, o tanto que Lages ainda possui um campo fértil para render frutos.. O incentivo a práticas inovadoras de empreendedorismo concentrando os esforços nesta terra tão fértil que temos; senão vejamos, possuímos uma extensão territorial de causar inveja; estamos geograficamente no centro com vias tanto estaduais como interestaduais, fazendo necessariamente um verdadeiro (caminho das Tropas) ponto de passagem obrigatória por nossas terras. Infelizmente deixamos ao logo dos tempos uma visão voltada ao passado, não nos preocupamos em revigorar o que já tinhamos conquistado. Precisaríamos ter uma vertente de planejamento voltada não só para a parte interna da municipalidade mas sim uma visão macro a economia como um todo. Muito boa as tuas colocações e as buscas históricas dos resultados, parabéns.

    • Pio - Walmor
      Postado em 17:46h, 01 dezembro Responder

      Obrigado, Madureira. Seus comentários enriquecem muito os temas abordados no Blog. Realmente, sem um planejamento das políticas públicas de médio e longo prazo, englobando todos os aspectos que envolvem as nossas potencialidades econômicas, dificilmente recuperaremos o status de uma grande cidade que tínhamos no passado.

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