17 maio Tio Vida: Memória e Identidade Lageana – Parte 1
“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.” Marcel Proust
Linha do Tempo
🕰️ Anos 1940 – Da Visão à Realidade: A Construção do Sonho
O então prefeito Vidal Ramos Júnior teve uma visão rara para a época: criar um espaço público que unisse a cidade por meio do esporte. Era uma obra física, um projeto social. Naquele tempo, planejar um estádio era acreditar que o lazer, o convívio e o futebol também eram instrumentos de cidadania.
Hoje, quando tanto se discute a função social dos espaços públicos, é impossível não reconhecer o caráter moderno e humano dessa iniciativa.
🕰️ 7 de setembro de 1954 – O Nascimento do Estádio
O sonho ganhou forma com a inauguração do Estádio Municipal do Bairro Coral, conhecido como Estádio da Ponte Grande. A estreia não poderia ser mais simbólica: Lages FC 2 x 1 Internacional de Lages. O primeiro gol, marcado por Alemão, entrou para a história como o pontapé inicial de uma relação afetiva entre cidade e estádio.O
Poucos lugares conseguem dizer exatamente o dia em que começaram a fazer parte da memória coletiva. O Tio Vida pode.
🕰️ 1961 – O Nome que Vira Afeto
Durante a gestão do prefeito Wolny Della Rocca, o estádio recebe oficialmente o nome de Vidal Ramos Júnior, homenageando seu idealizador. Mais tarde, o locutor esportivo Souza Filho o batiza carinhosamente de “Tio Vida”.
Esse apelido não foi apenas um detalhe folclórico. Foi o momento em que o estádio deixou de ser apenas um equipamento urbano e passou a ser tratado como alguém da família.
Cidades fortes são aquelas que criam vínculos afetivos com seus espaços. O apelido “Tio Vida” prova isso.
🕰️ 1965–1966 – O Apogeu do Futebol Lageano
O ponto mais alto da história esportiva do estádio acontece com a conquista do Campeonato Catarinense de 1965, confirmada em março de 1966. A vitória por 2 a 1 sobre o Metropól, com dois gols de Anacleto, selou o momento mais glorioso do futebol lageano.
Aquele gol de cabeça, o segundo da final, não foi apenas um lance. Foi um grito de afirmação de uma cidade do interior diante do cenário estadual.
Vitórias assim constroem autoestima coletiva. Elas dizem: “nós podemos”.
🕰️ 1969 – A Primeira Grande Transformação
Foto de 1968 – O Estádio em Obras
Substituição do pavilhão de madeira por estrutura metálica. Construção de 7 lances de escadas para mais conforto do torcedor. Arquibancadas de alvenaria em todo o quadrilátero do estádio. Cabines para imprensa e autoridades. O estádio crescia junto com a cidade.
A reinauguração, com mais um GuaNal, simbolizou a permanência da rivalidade como motor da paixão local. Placar: Inter 4 x 2 Bugre.
🕰️ 1976 – A Noite que Virou Dia
A instalação dos refletores permitiu que o Tio Vida vivesse noites históricas. O amistoso entre Internacional de Lages e Vasco da Gama, cujo placar foi 2 a 1 para o time carioca. marcou uma geração. A imagem do estádio iluminado, em uma noite fria, permanece viva no imaginário coletivo.
A iluminação não mudou apenas o horário dos jogos. Mudou a forma como o estádio era vivido.
🕰️ 2004–2014 – Modernizar sem Perder a Alma
Com o novo pavilhão em 2004 e a troca do gramado em 2014, o estádio se adaptou aos padrões modernos. passando a ter as mesmas dimensões dos campos utilizados na Copa do Mundo no Brasil: 105m x 68m. Mesmo assim, manteve sua essência popular, acessível e profundamente enraizada na comunidade.
🕰️ 2024 – Revitalizar para Continuar
A revitalização de 2024 mostrou que o Tio Vida ainda importa. Arquibancadas renovadas, gramado recuperado, melhorias de acessibilidade e infraestrutura indicaram que preservar a memória também exige investimento.
O empate entre Internacional e Concórdia, na reinauguração, ocorrida em 21 de janeiro de 2024, foi quase um detalhe diante do verdadeiro resultado: o estádio vivo novamente.
🕰️ 2026 – O Futuro em Construção
O projeto de R$ 12 milhões, com recursos estaduais e emenda parlamentar, aponta para um novo ciclo. Gramado, pista atlética e arquibancadas renovadas prometem preparar o Tio Vida para as próximas gerações.
Previsão da entrega da obra: 2º semestre de 2026.. Investir no Tio Vida não é gasto. É compromisso com a memória, com o esporte e com a identidade de Lages.
Colorado, Bugre e CAL
A força das três camisas na história do estádio
Internacional de Lages,Grêmio Atlético Guarani e Clube Atlético Lages são mais do que clubes. São narrativas paralelas que ajudaram a escrever a história da cidade. Ao lado deles, dezenas de clubes profissionais e amadores fizeram do Tio Vida um espaço democrático, onde o futebol sempre pertenceu a todos.
Esporte Clube Internacional
Mudança de Escudo
Em uma reunião histórica realizada no mês de maio de 1982, a diretoria do Inter de Lages, em conjunto com o Conselho Deliberativo, aprovou o novo escudo do clube, criado pelos publicitários Gil Souza e Marcos Lenzi.
A decisão marcou um momento simbólico na trajetória do colorado lageano. O escudo que acompanhava o clube desde 1949, carregado de memórias, conquistas e paixões, deu lugar a uma nova identidade visual que passaria a representar oficialmente o Inter no cenário do futebol a partir de 1983.
Títulos Catarinenses – Time Profissional
- Campeão do Campeonato Catarinense: 1965.
- Campeão do Campeonato Catarinense – Taça Dite Freitas: 1985.
- Vice-campeão do Campeonato Catarinense: 1964, 1974.
- Vice-campeão do Campeonato Catarinense – Série B: 1989, 2023.
- Vice-campeão da Copa Santa Catarina: 1992.
Títulos Municipais – Time Profissional
- Campeão do Campeonato da Cidade de Lages: 1959, 1960.
- Vice-campeão do Campeonato de Lages: 1961.
Títulos Estaduais – Categorias de Base
- Campeão do Campeonato Catarinense de Juniores: 1983.
- Vice-campeão do Campeonato Catarinense de Juniores: 1984.
- Campeão do Campeonato Catarinense de Juniores – Divisão de Acesso: 2013.
Participações em competições Nacionais
Taça Brasil de 1966
O momento mais glorioso do futebol lageano foi a conquista do Campeonato Catarinense de 1965, sacramentada em 27 de março de 1966, com a vitória por 2 a 1 sobre o Metropol.
A decisão foi inesquecível. Ambos os gols foram marcados por Anacleto, grande destaque da partida. O segundo gol, anotado de cabeça, transformou-se em imagem eterna na memória dos torcedores e símbolo máximo daquela campanha histórica.
A equipe que entrou em campo nesse jogo memorável foi formada por: João Batista; Antenor, Leoquídeo, Setembrino e Carlinhos; Djair, Almir e Zezé; Ricardo, Puskas e Anacleto. Um time que não apenas venceu um campeonato, mas consolidou um dos capítulos mais importantes da história do futebol em Lages.
Grêmio Atlético Guarani
O Bugre Lageano, como é conhecido, construiu, em pouco menos de duas décadas, uma trajetória marcante no futebol lageano e catarinense. Ao longo de seus 18 anos de existência, o clube consolidou-se como uma das principais forças esportivas da cidade.
Nesse período, o Guarani conquistou dois títulos citadinos e participou de oito edições do Campeonato Catarinense, enfrentando clubes tradicionais do estado. Seu melhor desempenho na competição estadual ocorreu em 1967, quando alcançou um expressivo terceiro lugar, resultado que permanece como o ponto alto de sua história no cenário catarinense.
O clube ficou eternizado também por sua rivalidade. Até hoje, o Guarani é lembrado como o maior rival do Colorado lageano, protagonizando clássicos que mobilizaram torcedores e marcaram gerações, ajudando a construir a identidade do futebol local.
Apesar da relevância esportiva e do carinho da torcida, o Grêmio Atlético Guarani encerrou suas atividades em 1970, finalizando um ciclo importante da história esportiva de Lages. Anos mais tarde, em 2001, o Guarani ensaiou uma retomada ao disputar a segunda divisão do Campeonato Catarinense. A iniciativa reacendeu a esperança dos torcedores, mas durou pouco: ainda no mesmo ano, o clube voltou a fechar as portas.
Mesmo assim, o Guarani permanece vivo na memória esportiva da cidade, como símbolo de competitividade, paixão e de um tempo em que o futebol lageano ocupava lugar de destaque no cenário estadual.
Conclusão – Um Patrimônio que Ainda nos Ensina
Sustento, com convicção, que o Estádio Vidal Ramos Júnior é um patrimônio emocional de Lages. Ele ensina que cidades também se constroem com memória, afeto e encontros coletivos. O Tio Vida não é apenas passado. Ele é presente pulsante e futuro possível.
Enquanto houver uma bola rolando em seu gramado e alguém disposto a contar suas histórias, o Tio Vida continuará cumprindo sua maior função: unir Lages em torno daquilo que nos faz sentir parte de algo maior.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes
Arquivo Público do Estado de Santa Catarina | Biblioteca Pública Municipal de Lages | Federação Catarinense de Futebol | Jornais: Correio Lageano, O Serrano, Diário Catarinense | Acervos particulares de ex-dirigentes, radialistas e torcedores | Relatos orais de atletas, cronistas e pesquisadores locais.
Nota final
Este registro histórico foi construído a partir de consultas a jornais, acervos públicos, registros esportivos e depoimentos, cobrindo o período de 1954 a 2026.
Considerando a amplitude do recorte e as falhas naturais das fontes históricas, é possível que haja lacunas ou divergências nas informações.
A proposta é valorizar a memória do futebol e estimular o compartilhamento de novos dados e lembranças.










David.
Postado em 18:12h, 18 maioExcelente! Muito obrigado por compartilhar seu conhecimento de história de Lages.
Pio - Walmor
Postado em 03:56h, 25 julhoDavid estive presente nos momentos históricos do futebol lageano e catarinense no “Tio Vida”. Grato pelo comentário.
Pio - Walmor
Postado em 04:12h, 25 julhoObrigado pelo comentário David.
Pio - Walmor
Postado em 04:14h, 25 julhoObrigado David pelo comentário.
Waldemar Madureira
Postado em 22:37h, 19 maioO Bugre Lageano jamais será esquecido, obrigado Walmor. Ele continuará na lembrança e ém sua incomensurável glória.
Pio - Walmor
Postado em 04:10h, 25 julhoSe tivesse um grupo de torcedores dispostos a soerguer o Guarani, toparia de imediato a colaborar para tanto.Obrigado Madureira pelo comentário.
Pio - Walmor
Postado em 20:37h, 05 dezembroRecordo-me com nitidez de seu pai, Madureira, tenente do 2º Batalhão Rodoviário do Exército, nos tempos em que o nosso saudoso Bugre Lageano recebia o apoio daquele batalhão de engenharia. Sempre que encontro companheiros de arquibancada desse brioso clube lageano, a saudade aperta e retornam, vívidas, as lembranças das partidas emocionantes do Guarani no “Tio Vida” — o carinhoso apelido do Estádio Vidal Ramos Júnior. Lembro das tardes frias da Serra, das bandeiras tremulando, do coro unido da torcida e do coração acelerado a cada lance. Obrigado por compartilhar seu sentimento por esse clube tão querido.