Ninguém é insubstituível, será?

Ninguém é insubstituível, será?

Costumo ouvir, nos corredores das instituições públicas e privadas — quase sempre nos discursos mais frios da gestão — a frase: “ninguém é insubstituível”. Sempre que a escuto, desconfio. Não porque ela seja totalmente falsa, mas porque costuma ser usada como um álibi elegante para decisões mal explicadas, cortes apressados ou a incapacidade de reconhecer talentos.

Dita assim, de forma categórica, a frase parece moderna, racional e até pedagógica. Mas, na prática, ela frequentemente serve para silenciar pessoas, reduzir vínculos humanos a planilhas e tratar experiências como se fossem facilmente copiáveis. Organizações, porém, não são máquinas. São feitas de gente. E gente não é intercambiável.

Por isso, a pergunta que me acompanha há anos insiste em voltar, ainda mais incômoda: ninguém é insubstituível… será mesmo?

O conforto da frase pronta

Aprendi, ao longo da vida profissional, que frases prontas costumam aliviar consciências. Dizer que ninguém é insubstituível poupa gestores de um trabalho mais difícil: conhecer pessoas, entender processos, mapear competências e planejar sucessões com responsabilidade. É mais fácil afirmar que “qualquer um pode fazer” do que admitir que alguém faz melhor — ou faz diferente.

Quando gerenciava a churrascaria do meu pai, convivi com profissionais que desmontaram, na prática, esse discurso. Meu pai, com suas receitas únicas de batidas e caipirinhas; o chef que era a alma da cozinha; o churrasqueiro que transformava temperos em memória afetiva; e o garçom que entendia o cliente antes mesmo do pedido.

Todos tinham algo que não se ensinava em manuais nem se transferia em treinamentos rápidos. Eles até poderiam ser substituídos no papel. Na realidade, a casa nunca mais seria a mesma.

A falácia da substituição sem custo

Mais tarde, no serviço público, essa constatação se repetiu. Em áreas técnicas e estratégicas — tributação, fiscalização, análise de dados, arrecadação — encontrei profissionais cujo conhecimento não estava apenas nos sistemas, mas na cabeça, na vivência e na leitura fina da realidade.

 

Quando um desses profissionais se ausentava, o prejuízo não aparecia imediatamente no orçamento, mas surgia em atrasos, erros, retrabalho e perda de eficiência.

A verdade incômoda é esta: toda substituição tem custo. Algumas empresas apenas fingem não enxergá-lo.

A literatura da administração gosta de repetir que processos são mais importantes do que pessoas. Concordo — até o ponto em que pessoas são aquelas que criam, ajustam, interpretam e salvam os processos quando eles falham. Steve Jobs aprendeu isso ao ser afastado da Apple, e a Apple aprendeu isso quase tarde demais. A empresa continuou existindo sem ele, é verdade, mas perdeu identidade, visão e coragem. Quando Jobs voltou, não ocupou apenas um cargo; devolveu um sentido.

Quando a frase vira arma

O problema não está em reconhecer que cargos precisam ser ocupados, mas em usar a ideia de substituição como instrumento de poder. Já vi a frase “ninguém é insubstituível” ser usada para intimidar, calar divergências e justificar demissões sem critério. Em vez de estimular humildade, ela passa a produzir medo. E organizações que operam pelo medo dificilmente inovam.

Peter Drucker foi claro ao afirmar que o maior ativo das organizações modernas é o trabalhador do conhecimento. O que raramente se diz é que conhecimento não se copia como um arquivo. Ele se perde, se dilui ou se reconstrói lentamente. E, nesse intervalo, a organização sangra — ainda que silenciosamente.

Todos podem sair. Nem todos deixam o mesmo vazio.

Não defendo pessoas intocáveis, egos inflados ou lideranças messiânicas. Defendo, sim, lucidez. Defendo a ideia de que pessoas diferentes geram resultados diferentes. Que algumas saídas são apenas administrativas, enquanto outras são estruturais. Que algumas ausências são sentidas no dia seguinte; outras, meses depois, quando já é tarde para corrigir.

Na prática, todos podem ser substituídos. Mas nem todos são substituíveis sem perdas relevantes. Fingir o contrário é uma forma confortável — e perigosa — de gerir.

Conclusão: a frase que revela mais do que explica

Hoje, sempre que escuto alguém repetir, com segurança excessiva, que ninguém é insubstituível, não ouço uma verdade universal. Ouço um alerta. Um sinal de que talvez aquela organização ainda não tenha aprendido a reconhecer, desenvolver e respeitar o valor real das pessoas que a sustentam.

Prefiro manter a dúvida viva. Porque é ela que obriga gestores a pensar, planejar e agir com responsabilidade.

E sigo insistindo na pergunta que muitos evitam responder: ninguém é insubstituível… ou apenas não queremos admitir quem realmente faz falta?

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer – Contato: walmor1953@gmail.com

 

 

 

 

1 Comentário
  • Ana Paula
    Postado em 23:23h, 13 janeiro Responder

    Excelente artigo e reflexão.
    Cargos são ocupados por diferentes profissionais, mas há aspectos da singularidade humana que são insubstituíveis. E essa singularidade é o que faz com que as pessoas sejam recordadas além de seu cargo, pelas marcas que deixam, pelo legado que constroém,

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