Alma Bugrina, Coração Guarani

Alma Bugrina, Coração Guarani

“Futebol não se explica. Se sente.” Pensador


Eu não escrevo sobre um clube.
Escrevo sobre um lugar da memória onde o coração aprendeu a bater no ritmo da bola.

Quando digo Grêmio Atlético Guarani, digo também o meu nome, o nome dos meus amigos e o nome da cidade que aprendi amar. O Bugre Lageano nunca foi apenas um time: foi casa, foi abraço coletivo, foi espelho de uma gente que se reconhecia nas cores, nos cantos e nas arquibancadas.

Minhas lembranças não começaram nos livros, mas no eco dos estádios, no cheiro da grama molhada, no som das chuteiras rasgando o silêncio dos domingos.

Nasceram também no balcão do bar do meu pai, onde torcedores, de fala forte e olhos marejados, defendiam com paixão a velha Dupla da Casa — a inesquecível Dupla Guanal. Ali, aprendi que futebol também é herança, é afeto passado de geração em geração.


O que escrevo vem do chão, da poeira, do suor, das conversas à beira do campo e dos vestiários improvisados. Não falo apenas como pesquisador ou cronista: falo como alguém que viu o futebol lageano pulsar como um coração aberto, marcando o tempo da cidade e dos seus sonhos.

Nos clássicos locais, regionais e estaduais, não busco apenas resultados ou datas. Busco sentidos. Busco entender como o futebol costurou destinos, uniu gerações e ensinou o povo barriga-verde a acreditar que, por noventa minutos, tudo é possível.

E quando o árbitro apita, a bola gira e o estádio prende a respiração, sinto que não estou apenas assistindo a um jogo.Estou revivendo a minha própria história.


 

 

Nos tempos do Bugre, quando o árbitro apitava o início de uma contenda, eu sentia uma sensação indescritível, sem igual: era pura adrenalina. Hoje, ao recordar esses tempos, ainda me arrepio.

 

Ééééé gol! É do Bugre! Osmar Santos


Um símbolo que nasceu com farda e virou paixão

Fundado em 21 de setembro de 1952, pelo Major Olavo Pereira Estrela, o Guarani nasceu dentro do 2º Batalhão Rodoviário, cercado de disciplina e organização.
Mas logo rompeu os muros do quartel e ganhou a cidade.

Com a saída do Major, o clube passou a ser mantido por torcedores beneméritos, doações, rifas e sorteios — como o famoso anúncio de 16/05/1964, no Correio Lageano, que sorteava rádios e até um Volkswagen.


      Major Estrela

 

Dirigentes bugrinos (1952–1971)

Entre os que eu recordo: Major Olavo Pereira Estrela, Batista Luzardo Muniz, Theodoro Rovatti, Aloísio Sens,  Léo Ampessam e Ubaldo Dacol (Dico).

 

 


Principais Craques que vestiram a camisa do Bugre

Goleiros: Dorli, Atílio, Orli, Henrique, Pop, J. Batista
Defensores: Gozzo, Dante, Nadi, Zé Otávio, Audibert, Souza, Cadunga
Meio-campo: Valdir, Zilvio, Demerval, Koeche, Bucrinho, Almirante, Chiquinho
Atacantes: Narbal, Johan, Pílula, Aécio, Neco, Pedrão, Orlando, Luiz Carlos Ghizoni, Derli, Adeli


Principais treinadores

Hercílio Farias Velho e Hélio Oliveira


Conquistas e campanhas

Bicampeão Regional da Liga Serrana de Futebol: 1961 e 1962.
Participantes: (Olinkraft – Igaras; Nevada – São Joaquim; Flamengo – Curitibanos; Cruzeiro, Pinheiros, Arco-Íris e Internacional – Lages.  Oito participações na 1ª Divisão do Campeonato Catarinense.  Melhor campanha: 3º lugar em 1967 na 1ª Divisão do Campeonato Catarinense.                                                                                                                                      Retorno em 2001: disputa da 2ª Divisão, com nova paralisação no mesmo ano.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       


Palcos, cores e identidade

  • Estádio Vidal Ramos Júnior — Tio Vida
  • Estádio Vermelho de Copacabana
  • Campo do 2º Batalhão Rodoviário
  • Campo da Olaria Melegari

O símbolo era um índio com cocar, expressão de bravura e raiz nativa.

 

 

 

As cores azul e amarelo, idênticas às do Boca Juniors, traduziam força, raça e paixão.

 


Clássicos Guanais: rivalidade e festa

 

“Se todas as batalhas dos homens se dessem apenas nos campos de futebol, quão belas seriam as guerras.”
Augusto Branco

Quando havia Guarani x Internacional de Lages, a cidade parava.
As arquibancadas se dividiam em cores, cantos e provocações.
No fim, vinham os debates acalorados — sem violência, sem tragédias.
Era rivalidade, não ódio. Era festa popular.

“É gol! E que espetáculo!”

“Quando a bola rola, o coração do povo dispara.”

(inspirado em Jorge Curi)

Eu falo como quem viveu: das arquibancadas ao pó da terra batida, da grama molhada ao eco dos narradores.

Ah, os clássicos Guanais no Tio Vida e no Vermelhão de Copacabana não eram jogos — eram rituais coletivos.


O Guarani, com seu índio de cocar e suas cores azul e amarela, foi mais que um clube: foi identidade, orgulho e resistência.E como em um grande teatro, a cada jogo abria-se a cortina para o embate das cenas do futebol; ao apito final, fechava-se o pano, e a memória preservava cada capítulo.

Jogadores, árbitros, bandeirinhas, radialistas e torcedores foram os verdadeiros atores desses palcos do futebol barriga-verde.

O futebol é  mais do que uma disputa: é um amor que pulsa, um grito que ecoa no peito, uma emoção que atravessa o tempo. É estratégia com alma, é técnica com coração. É suor que vira esperança, é silêncio que explode em festa.

Se escrevo, é porque penso que a história não morre enquanto houver quem a carregue no peito. Escrevo para eternizar o futebol serrano, para preservar a alma bugrina e o coração guarani como se fossem brasões de uma gente inteira. A memória é o último apito contra o esquecimento — o chamado final que nos lembra de quem somos. E enquanto houver uma voz que conte, um olhar que se emocione e um coração que bata por essas cores, o Bugre jamais será passado: será sempre raiz, destino e eternidade.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contatos:walmor1953@gmail.com


Fontes:

  • COSTA, Otacílio. História de Lages.
  • Correio Lageano (1952–1971).
  • Federação Catarinense de Futebol — FCF.
  • DAMATTA, Roberto. Universo do Futebol.
  • RODRIGUES, Nelson. A Pátria em Chuteiras.
  • Memória oral do autor, ex-atletas e apaixonados do futebol.

 

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