15 dez O Pensar na Era da Hiperinformação
“Estamos nos afogando em informação, mas famintos por sabedoria.” — John Naisbitt
Carlos Bernardo González Pecotche afirma que “a mente precisa aprender a dirigir seus pensamentos, ou se tornará refém deles”.
Essa afirmação acompanha-me com frequência e leva-me a refletir sobre por que, mesmo cercado por uma avalanche de dados, opiniões e notícias, pensar com profundidade e construir um pensamento próprio tornou-se tão difícil. Compreendi, ao longo do tempo, que o excesso de informações e de pensamentos alheios, longe de esclarecer, apenas confunde.
Vivemos uma época em que tudo chega com rapidez, mas quase nada chega com clareza. Sinto que minha mente é constantemente estimulada a reagir, porém raramente convidada a refletir. Recordo-me de Sócrates, ao advertir que a confusão não é um fracasso, mas o primeiro sinal de que precisamos pensar melhor — não como busca apressada por respostas imediatas, e sim como um chamado interior à compreensão e ao discernimento.
A confusão da hiperinformação
Na contemporaneidade, percebo que a confusão já não nasce apenas da ignorância, como em outros períodos históricos. Ela surge, também, do excesso de informações recebidas de forma contínua, fragmentada e acelerada.
Esse fluxo incessante compromete a atenção, dispersa o raciocínio e cria a ilusão de entendimento quando, na realidade, muitas vezes estou apenas consumindo dados sem assimilação consciente.
Em vez de clareza, acumulam-se ruídos. Em vez de pensamento próprio, passam a ser incorporadas expectativas, opiniões e narrativas alheias. Nesse cenário, pensar com profundidade, serenidade e autonomia deixa de ser apenas um desafio intelectual e transforma-se, para mim, em uma necessidade essencial.
Hierarquia dos conceitos
Com o tempo, passei a compreender uma hierarquia fundamental no processo cognitivo:
- Dados: elementos brutos, fragmentados e desprovidos de contexto.
- Informação: dados organizados e contextualizados.
- Pensamento: entidade autônoma que se forma e adquire vida ativa na mente humana.
- Conhecimento: pode ser definido como o conjunto de informações uteis, habilidades, experiências e compreensão adquiridos por meio do estudo, da prática ou da educação.
Recordação pessoal
Pensar, na juventude, não foi um processo simples para mim. Ainda assim, algumas experiências contribuíram de forma decisiva para meu desenvolvimento intelectual. Entre elas, destaco o trabalho com meus pais no comércio, na prefeitura e na universidade como professor — ambientes que me ensinaram a lidar com pessoas e, ao mesmo tempo, proporcionaram-me contato diário com jornais, revistas, rádio e televisão. Publicações como Revista Manchete, O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Correio Lageano, Correio do Povo e Folha da Tarde Esportiva mantinham-me informado sobre acontecimentos locais, nacionais e internacionais.
Eu assimilava datas, fatos e números e debatia com relativa segurança. Foi nesse contexto, porém, que compreendi algo essencial: possuir dados e informações relevantes não equivale a pensar nem a elaborar um pensamento próprio.
Havia abundância, velocidade e diversidade de informações. Faltava, contudo, aquilo que transforma informação em verdadeiro crescimento intelectual e humano: a prática consciente do pensar, a reflexão aprofundada, a assimilação crítica e o uso deliberado do pensamento.
Conclusão
Na era da hiperinformação, percebo que pensar tornou-se um exercício consciente de direção interior. Como advertiu John Naisbitt, não me falta informação, mas sabedoria. Cercado por uma avalanche de dados — muitos deles frágeis, superficiais ou enganosos — sou desafiado não apenas a receber conteúdos, mas a compreendê-los, avaliá-los e atribuir-lhes sentido.
À luz de Pecotche, torna-se claro para mim que a mente que não aprende a conduzir seus próprios pensamentos acaba sendo conduzida por eles. Sem esse governo interior, torno-me vulnerável às opiniões alheias, às narrativas fáceis e às falsas certezas que circulam, sobretudo, nas redes sociais.
Recordo-me, ainda, de Sócrates, ao ensinar que a confusão não representa o fim do pensamento, mas o seu ponto de partida. Pensar, portanto, não é acumular respostas prontas, mas questionar, refletir e buscar a verdade com humildade intelectual. Nesse contexto, o pensar consciente deixa de ser apenas um ato cognitivo e assume um papel formativo: orientar escolhas, fortalecer o discernimento e promover o crescimento humano.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes
- NAISBITT, John. Megatrends. New York: Warner Books, 1982.
- PECOTCHE, Carlos Bernardo González. Buenos Aires: Editora Logosófica, várias edições.
- PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: diversas edições.
- ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: diversas edições.
John Naisbitt, renomado futurólogo e autor do best-seller “Megatrends”, foi também assistente dos presidentes dos EUA, John F. Kennedy e Lyndon Johnson, destacando sua influência e expertise no cenário político e social.



Rui Techia
Postado em 22:21h, 18 dezembroGrande Pio,
Muito boa a sua tese e reflexão. Não poderíamos considerar que nessa sua abordagem nossas crenças e valores, fatores que nos influenciam a pensar dentro de um determinada régua e padrão.
Abração
Pio - Walmor
Postado em 01:39h, 21 dezembroGrato Rui pelo feedbach, consinto que os valores morais, éticos e crenças influenciam o nosso pensar, a criar de pensamentos próprios e a discernir o bem do mal, o certo do errado.