Um Sonho Serrano

Um Sonho Serrano


Não falo apenas de um evento marcado no calendário, mas da história de um sonho serrano que virou realidade — uma emoção que se renova a cada inverno e pulsa no coração da Serra Catarinense.

Um sonho que nasceu no coração de Aracy Paim, mas que só pôde ser vivido em sua plenitude após o seu falecimento, quando a cidade abraçou sua visão e a transformou em legado.

Falo de uma tradição que começou simples, como o pinhão na brasa, e cresceu alimentada pela esperança, pelo trabalho coletivo e pelo amor à terra, até se tornar símbolo de união, orgulho e pertencimento.A Festa do Pinhão é mais do que celebração: é a voz da nossa história, o espelho da nossa identidade e a herança viva que deixamos para as próximas gerações.

Como escreveu o sociólogo Zygmunt Bauman“a tradição não é a adoração das cinzas, mas a preservação do fogo”.

E é exatamente esse fogo que continua aceso em cada edição da Festa do Pinhão.


O Sonho Visionário de Aracy Paim

Assim como o pinhão germina no solo fértil da Serra Catarinense, nasceu, em 1973, a ideia que se tornaria o maior evento cultural da região: a Festa Nacional do Pinhão.

Idealizada por Aracy Paim, então integrante da Associação de Turismo da Região Serrana, a festa surgiu de uma visão avançada para seu tempo. Ele acreditava no potencial turístico da Serra e sonhava com um território que unisse tradição, natureza e hospitalidade.

“Adelma, já pensou se as fazendas se transformassem em hotéis? A Serra ia se encher de turistas.”

Seu pensamento dialoga com Milton Santos, que afirmava: “O espaço é o palco da vida social, onde se inscrevem os sonhos e os projetos humanos.”

 


A  Semente da Festa

  • 1973 – Primeira edição, na Praça João Costa, com distribuição gratuita de pinhão, danças e música.
  • 1974 – Segunda edição, na Avenida 1º de Maio, ao lado do CTG.
  • Interrupção por 13 anos, por falta de apoio institucional.

 

 


Renascimento

  • 1987/88 – Retomada na gestão de Paulo Duarte, no Parque Conta Dinheiro.
  • 1989 – Com Raimundo Colombo, torna-se oficialmente Festa Nacional do Pinhão.
  • A partir de 1990 – Eleição da rainha, ampliação artística e cultural.

Como disse Hannah Arendt: “A tradição nos conecta ao passado para que possamos compreender o futuro.”


Minha Participação

Trabalhei na Festa do Pinhão de 1987 a 1999, durante 13 anos ininterruptos, iniciando como fiscal e depois como coordenador de fiscalização do comércio.

  • Dias de semana: das 16h30 às 2h
  • Finais de semana e feriados: das 10h às 3h

 

Principais Atividades:

  • Controle do comércio credenciado
  • Combate ao comércio clandestino
  • Supervisão de entrada de mercadorias
  • Cumprimento contratual
  • Gestão de acesso e logística
  • Fiscalização da moeda oficial
  • Aplicação de penalidades

O “Pinhão”: Uma Moeda que Virou Símbolo

A moeda “Pinhão” foi inovação logística e símbolo cultural:

Conversão em pontos oficiais

Valor fixo

Aceita em todos os boxes

Produzida pela municipalidade

Comercializada pelo BESC

Conversão obrigatória no dia seguinte 

 

      Vantagens:

  • Mais segurança
  • Agilidade
  • Controle fiscal
  • Incentivo ao consumo interno

 

Vozes que Ficam: Os Jingles que Marcam Gerações  

A Festa do Pinhão, herdeira da antiga Festa da Tradição, deixou de ser apenas um evento para se tornar um símbolo vivo da identidade serrana — um encontro de memórias, sabores e música que se renova a cada inverno em Lages.

Desde o início, a música foi sua alma. No coração dessa história está o jingle “Do pinheiro nasceu a pinha”, criado pelo jornalista Francisco de Assis. Mais do que divulgar a festa, ele se transformou em um chamado coletivo, capaz de unir vozes e gerações em um mesmo refrão.

Em 1993, um novo trecho passou a ecoar pela Serra Catarinense:

“No Planalto Serrano acendeu-se uma fogueira;
o pinhão está na brasa e a água na chaleira,
preparando a maior festa desta terra hospitaleira…”

A composição é de Daniel Lucena e Volnei Varaschin, com coautoria de Flávio Agustini, e logo se tornou mais um marco afetivo da celebração.

Com o tempo, os versos foram sendo atualizados sem perder a essência.

Em 2024, o encerramento celebrava: “É quando a Serra vira festa, vem ‘pra’ Festa do Pinhão.”

Já em 2025, o refrão passou a dizer: “A tradição  que se renova em festa, vem pra Festa do Pinhão.”

Desde seu nascimento, em 1991, o jingle já teve entre dez e quinze versões, reuniu mais de cinquenta músicos e foi interpretado por mais de quinze artistas.

Hoje, ele é mais do que uma canção: é a voz da Serra, a memória em forma de melodia, anunciando que o pinhão está na brasa e Lages, mais uma vez, está em festa.


A Gralha-Azul: Guardiã da Tradição

 

A gralha-azul, ao enterrar pinhões, permite o nascimento das araucárias.
Assim também foi o sonho de Aracy: dormiu, brotou e floresceu.

 


Impactos Sociais e Econômicos da Festa

  • Fortalece o turismo
  • Gera empregos
  • Valoriza o pinhão
  • Preserva a cultura serrana

Destaques das Festas 

  • 🎶 Sapecada da Canção Nativa (desde 1993)
  • 🎶 Sapecada da Serra Catarinense (desde 2000)
  • 🎤 Grandes shows nacionais e regionais — recorde de público em 2008, com 53 mil pessoas no show de Victor & Leo.
  • 💃 Bailes típicos, danças folclóricas e gineteadas.
  • 🏇 Competições campeiras e concursos culturais.
  • 🍲 Gastronomia tradicional: pinhão, entrevero, paçoca de pinhão, quentão, licores e outros pratos típicos.
  • 🏕️ Recanto do Pinhão Aracy Paim, na Praça João Costa, como homenagem permanente ao idealizador da festa.

 Memórias da festa

 

A moeda virava recordação, daquelas que a gente guarda com carinho para nunca esquecer a emoção da festa, para lembrar dos momentos felizes em que participou, das amizades feitas e até para fazer parte daquela coleção especial de pequenos mimos que contam histórias.

 


 

Conclusão

Hoje, a Festa Nacional do Pinhão é uma herança viva, construída com sonhos, trabalho coletivo e memória. Ela existe porque homens e mulheres acreditaram, planejaram, persistiram — e, sobretudo, honraram o sonho plenamente realizado de Aracy Paim.

Um sonho que ultrapassou o tempo e, mesmo após sua partida, ganhou forma, voz e coração. E é impossível não imaginar que, em algum lugar do imaginário humano — ou talvez além dele — Aracy contempla essa festa com alegria serena, vendo sua ideia florescer em cada sorriso, em cada canção, em cada chama acesa na sapecada.

A cada inverno, quando o aroma do pinhão assado invade as ruas de Lages, não celebramos apenas uma tradição: celebramos quem somos, celebramos aquilo que nos une como povo serrano. A festa carrega em si o tempo, as histórias e os afetos de gerações inteiras.

Como tão bem resumiu Adelma Paim:

“Assim como as gralhas escondem os pinhões, que ficam dormentes antes de se tornarem belas araucárias, assim foi a festa que meu marido sonhou.”

Enquanto houver quem cante, quem cozinhe, quem dance e quem se emocione ao ouvir seu jingle, a Festa do Pinhão continuará viva — desafiando o tempo, como as araucárias que guardam a alma lageana.

A Festa do Pinhão não é apenas celebrada: ela é sentida, lembrada e passada adiante, como raiz que sustenta a identidade de um povo.

E como nos lembra José Saramago:

“A história vive enquanto for lembrada.”

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contatos: walmor1953@gmail.com


📚 Fontes:

  • CLMais (2010)
  • Debon, A. (2018)
  • Rádio Clube FM (2022)
  • Portal Brasil (2022)
  • FACISC (2023)
  • G1 (2018)
  • Serra Bela Hospedaria Rural
  • Memória oral do autor.

 

 

                                                                 

  

3 Comentários
  • Waldemar da Silva Madureira
    Postado em 09:27h, 07 fevereiro Responder

    A Fesra é um grande marco para Lages e região, impulsionando a economia a cultura a tradição hospitaleira que é característica do lageano. Tive participações na Festa, principalmente quando Secretário Municipal de Agricultura, em plantões que iniciavam na abertura dos portões e se estendiam até o fechamento que ocorria por volta das 05:30 da manhã seguinte. Lages você merece e já possui o reconhecimento, espero que seja enaltecida pelas próximas gerações.

  • Ana Paula
    Postado em 09:55h, 07 fevereiro Responder

    Maravilhoso poder ter estas memórias registradas, da nossa querida Princesa da Serra. Quantos momentos o Lageano deve guardar em sua memória, vividos na festa! Alegria, diversão, encontros que se formaram famílias, amizades que se fortalecem, vida que é vivida. Viva a Festa do Pinhão, que ela siga sendo sinal de união e de celebração deste povo.

  • Flávio Valente
    Postado em 09:37h, 09 fevereiro Responder

    Parabéns pela matéria… texto muito bem elaborado…
    A Festa do Pinhão é a manifestação mais autêntica da tradição e dos costumes dos serranos(da serra catarinense).

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