17 fev Schweitzer: Raízes que Atravessaram o Oceano
Um sobrenome é um sinal de identidade, é um fio invisível que atravessa o tempo, unindo gerações por meio de histórias de partida, resistência e reconstrução. Ao percorrer os caminhos da imigração alemã no Brasil — com especial atenção à trajetória da família Schweitzer — revela-se não apenas uma sucessão de registros, mas um vasto tecido humano, entrelaçado por sonhos, perdas e esperanças.
Cada documento, cada nome preservado nos antigos livros paroquiais, é como uma chama que se reacende, lembrando que as comunidades não nascem por acaso. Elas brotam da persistência e da memória, sustentadas pelo desejo de permanecer. Contar essa história é, assim, um gesto de escuta ao passado — uma forma de dar voz àqueles que cruzaram oceanos e, com coragem silenciosa, transformaram a terra em lar e o tempo em legado.
Etimologia do Sobrenome Schweitzer
O sobrenome Schweitzer deriva do alemão antigo Schweizer, que significa literalmente “suíço” ou “da Suíça”.
Sua origem vem de Schweiz (Suíça) + o sufixo –er, que indica procedência.
Na Europa medieval, era comum utilizar sobrenomes toponímicos, ou seja, ligados ao local de origem. Assim, um homem que viesse da Suíça e se estabelecesse em território alemão passava a ser chamado de der Schweitzer — “o suíço”.
Com o tempo, o nome se espalhou pelo sudoeste da Alemanha, de onde partiram muitos dos imigrantes que chegaram ao Brasil no século XIX.
O Contexto da Imigração Alemã no Brasil
A imigração alemã para o Brasil foi decisiva na formação social, cultural e econômica do país. Iniciada oficialmente em 1824, durante o reinado de Dom Pedro I, tinha como objetivos:
- povoar regiões pouco ocupadas;

- garantir a defesa territorial;
- fortalecer a agricultura;
- substituir gradualmente a mão de obra escravizada.
As promessas de terras e de uma nova vida ecoaram em uma Europa marcada por guerras, fome, impostos excessivos e fragmentação das propriedades rurais.
Ao longo de mais de um século, cerca de 250 mil alemães vieram para o Brasil, representando aproximadamente 5% de todo o fluxo imigratório do período. Hoje, estima-se que existam cerca de 5 milhões de descendentes de alemães no país.
O Sul concentrou a maior parte desse contingente. Na década de 1930, aproximadamente 20% da população do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina já era de origem alemã. Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro também receberam núcleos importantes.
Marco Zero da Imigração Alemã em Santa Catarina
- Com o tempo, São Pedro de Alcântara foi elevada a:
- Freguesia e Paróquia (1844)
- Município (16 de abril de 1994)
Sǎo Pedro de Alcântara, berço da Imigração Alemã, com população estimada em 6.076 habitantes (IBGE, 2024/2025), preserva até hoje o charme das suas origens.
Casas antigas, engenhos movidos a água e a imponente Igreja Matriz de São Pedro, construída em 1929, são testemunhos de quase dois séculos de história.
Monumento à Imigração Alemã
Em 1º de março de 1829, foi fundada ali a primeira colônia alemã de Santa Catarina.
O nome homenageia:
São Pedro de Alcântara, santo padroeiro do Brasil; A devoção da Família Imperial, especialmente de Dom Pedro I.
Vista do outro lado do rio Mosela para o Castelo de Marienburg e a vila de Punderich – região vinícola do vale do Mosela, na Alemanha.
Em novembro de 1828, 635 imigrantes — majoritariamente camponeses católicos das regiões de Hunsrück e Eifel (Renânia-Palatinado) — vale do Rio Mosela, chegaram ao porto de Desterro (atual Florianópolis). Em seguida, cerca de 60 deles adentraram a mata virgem, sob a coordenação do Major Silvestre José dos Passos, para fundar a colônia.
A Chegada dos Schweitzer ao Brasil
É nesse cenário de desafios e esperança que começa a história dos Schweitzer em solo brasileiro.
Heinrich Schweitzer veio da Alemanha trazendo suas duas filhas:
- Katharina
- Elizabetha
Já no Brasil, casou-se com Margaretha Braun, com quem teve mais três filhos:
- Ana Maria
- João
- Matias
Assim se formou o primeiro núcleo da família Schweitzer em São Pedro de Alcântara.
As Gerações da Família Schweitzer
- Matias Schweitzer (1ª geração no Brasil)
Casou-se com Helena Bornhausen. Tiveram nove filhos:
Ana, Pedro, Miguel, Catarina, Matias, Maria, Helena, Gertrudes e Marcos. - Matias Schweitzer Filho (2ª geração)
Casou-se com Margarida Ludwig. Tiveram oito filhos:
Marcolino, Emílio, Filomena, Laura, José, Maria, Paulino e Rafael. - Marcolino Miguel Schweitzer (3ª geração)
Casou-se com Febronia Schmitt.
Filhos: Waldomiro, Walmor, Waldir, Waldemar, Oscarina, Osmarina, Oldacina e Odete. - Walmor Schweitzer (4ª geração)
Casou-se com Terezinha Amarante.
Filhos: Maria Helena, Waldemar, Maria Terezinha, Maria Febronia, Maria Bernadete, Maria Isabel, Fábio e Walmor Tadeu.
Expansão: do Litoral à Serra
A partir de São Pedro de Alcântara, a família expandiu-se para: Alfredo Wagner (antigo Barracão) – com destaque para Jacob Schweitzer.
Entre 1880 e 1930, muitos descendentes migraram do litoral a região serrana, dedicando-se à: pecuária; exploração da madeira; erva-mate.
Um símbolo dessa fase é o Casarão dos Schweitzer, ligado a Paulino Schweitzer, construído no final do século XIX.
Schweitzers que Ecoaram Pelo Mundo
Ao longo da minha pesquisa, percebi algo que me emocionou: o sobrenome Schweitzer não ficou restrito às colônias do Sul do Brasil. Ele atravessou continentes e ganhou significado universal por meio de pessoas que, em diferentes áreas, ajudaram a transformar o mundo. Não afirmo parentesco direto com todos, mas reconheço a mesma raiz simbólica: trabalho, serviço e compromisso com a vida.
Albert Schweitzer (1875–1965)
Teólogo, filósofo, organista e médico, Albert Schweitzer tornou-se um dos maiores humanitaristas do século XX. Fundou o Hospital de Lambaréné, no Gabão, dedicando-se ao atendimento de populações pobres da África.
Em 1952, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua filosofia do “Respeito à Vida” (Ehrfurcht vor dem Leben).
Para mim, ele simboliza a dimensão ética que um sobrenome pode alcançar: servir sem distinções.
Schweitzer Engineering Laboratories (SEL)
Fundada em 1982 por Edmund O. Schweitzer III, nos Estados Unidos, a SEL tornou-se uma das maiores empresas do mundo em relés digitais de proteção elétrica, automação de subestações e cibersegurança de redes de energia.
Se hoje falamos em redes elétricas inteligentes (smart grids), parte desse avanço passa por tecnologias desenvolvidas por Schweitzers. É o sobrenome associado à inovação que sustenta cidades inteiras.
Schweitzer Laboratories
Outra vertente tecnológica ligada ao nome está em empresas norte-americanas com a marca Schweitzer, voltadas ao desenvolvimento de componentes eletroeletrônicos, motores e sistemas industriais.
Embora independentes entre si, elas reforçam uma percepção: o nome Schweitzer passou a ser associado à engenharia, confiabilidade e progresso.
Um Sobrenome, Muitos Caminhos
Na Europa, na África, nas Américas e também aqui, na serra catarinense, o nome Schweitzer assumiu múltiplos significados:
- na fé e na ética, com Albert;
- na ciência e na tecnologia, com os Schweitzers da engenharia;
- na terra e no trabalho, com meus antepassados em São Pedro de Alcântara, Alfredo Wagner, Lages e Urubici.
Conclusão:
Na Europa, na África, nas Américas — e também aqui, na serra catarinense — o nome Schweitzer espalhou sementes de sentido pelo mundo.
Ele floresceu na fé e na ética, com Albert;
ganhou asas na ciência e na invenção, com os Schweitzers da engenharia;
e criou raízes na terra e no trabalho, com aqueles que chegaram a São Pedro de Alcântara, Alfredo Wagner, Lages e Urubici, trazendo nas mãos o esforço e no coração a esperança.
Assim, compreendo que um sobrenome não é apenas herança: é chamado.
Cada geração escreve um verso diferente, mas todas seguem o mesmo compasso — o da coragem de recomeçar.
Ao narrar esta história, não coleciono datas nem organizo nomes. Eu escuto vozes.
Ouço Heinrich cruzando o oceano, embalado pelo sonho de um novo amanhecer.
Ouço meus filhos caminhando sobre a mesma terra que um dia foi desbravada com fé, suor e silêncio.
A saga da família Schweitzer, para mim, reflete a própria travessia da imigração alemã em Santa Catarina — um percurso feito de perdas, esperança e reconstrução.
Guardar essa memória é manter acesa a chama da identidade de São Pedro de Alcântara e da riqueza cultural do nosso estado.
E, acima de tudo, é lembrar que não caminhamos sozinhos: somos parte de algo maior, uma história viva que continua a pulsar, geração após geração.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contatos: walmor1953@gmail.com
Fontes
- CARNEIRO, Glauco. Imigração Alemã em Santa Catarina.
- PIAZZA, Walter F. A colonização em Santa Catarina.
- SEYFERTH, Giralda. A colonização alemã no sul do Brasil.
- Arquivo Público do Estado de Santa Catarina.
- Registros Civis e Paroquiais de São Pedro de Alcântara.
- Placa do 1º Centenário da Colonização Alemã (1929).
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