20 fev Um Olhar Sobre a Verdade
“Há duas coisas distintas: saber e crer que se dabe. A ciência consiste em saber: crer que se saber é ignorância.” Hipócrates
Refletir sobre a verdade é refletir sobre os fundamentos da própria liberdade humana. Ao longo da história, sociedades que abandonaram o compromisso com a verdade enfraqueceram suas instituições, comprometeram a justiça e fragilizaram sua identidade moral e ética.
A advertência de Hipócrates permanece atual: há diferença entre saber e apenas acreditar que se sabe. O verdadeiro conhecimento exige humildade, investigação e discernimento; a falsa certeza nasce da presunção e conduz ao erro.
Ao longo da minha trajetória como professor, agente público e pai de família, fui frequentemente confrontado com uma questão essencial: o que é permanente e o que é circunstancial?
Essa reflexão não nasceu apenas dos livros. Amadureceu nas decisões administrativas difíceis, nas pressões institucionais, nas escolhas familiares e nas consequências concretas das ações humanas.
Com o tempo, compreendi algo simples e profundo: existem princípios que não mudam; o que mudam são as justificativas humanas.
Ética e Moral: o Permanente e o Transitório
“Ética é uma verdade absoluta. Moral é variável, muda dependendo da cultura de cada povo.” — Tiny Willy
Em linhas gerais, costuma-se afirmar que a ética possui caráter de universalidade e permanência, enquanto a moral é transitória, mutável no tempo e no espaço.
A ética, conforme desenvolvida por Aristóteles em Ética a Nicômaco, refere-se à reflexão racional sobre o bem e a virtude, buscando fundamentos universais para o agir humano.
A moral, por sua vez, diz respeito aos costumes e normas praticados por uma sociedade em determinado contexto histórico.
Assim, hábitos sociais podem mudar:
- A forma de vestir muda.
- Os costumes sociais mudam.
- A tecnologia muda.
Contudo, princípios como honestidade, responsabilidade e respeito à dignidade humana não dependem de época ou cultura para serem reconhecidos como fundamentais.
Verdades Permanentes
Na natureza, existem leis que independem da opinião humana.
2 + 2 continuará sendo 4.
A rotação da Terra continuará produzindo o dia e a noite.
Da mesma forma, certos princípios éticos não se alteram por conveniência.
A corrupção destrói instituições.
A mentira corrói a confiança.
A injustiça gera instabilidade social.
Isso se aplica ao setor público, à iniciativa privada e à família.
Verdades Transitórias
É preciso reconhecer que nem tudo é absoluto.
Conhecimento científico: por séculos, considerou-se “verdade” que a Terra era o centro do universo. A ciência não busca verdades definitivas, mas modelos explicativos progressivamente mais consistentes.
Normas sociais: o que era moralmente aceito há duzentos anos pode hoje ser considerado crime.
Tecnologia: a ideia de que era impossível voar prevaleceu até 1903.
Essas mudanças exigem humildade intelectual. Contudo, a evolução do conhecimento não implica relativização da Ética. O avanço científico não altera o valor da honestidade.
Carlos Bernardo Pecotche instigou o ser humano a não viver focado apenas no efêmero, mas a buscar uma existência fundamentada no desenvolvimento da consciência, distinguindo o transitório do permanente.
Péssimos Exemplos do Cotidiano
Corrupção Pública
Quando um agente público direciona uma licitação sob justificativas artificiais, o dano é inevitável: prejuízo ao erário, perda de credibilidade institucional e descrença social.
A verdade pode tardar, mas emerge — e, quando emerge, revela as consequências.
Corrupção Privada
Empresas que fraudam contratos ou sonegam tributos podem obter lucro imediato. Contudo, quando a irregularidade vem à tona, a reputação desmorona.
Confiança não é acessório; é fundamento.
Educação dos Filhos
Na família, a relativização da Ética pode começar em pequenos gestos.
Ensinar o “jeitinho” como vantagem é transmitir que a verdade é negociável.
O caráter forma-se nos detalhes.
O Risco da Confusão
Vivemos um tempo em que se confunde mudança cultural com mudança de princípios.
Quando tudo se torna relativo, ninguém é responsabilizado.
Quando tudo é justificável, a ética se dissolve.
Por outro lado, o dogmatismo também é perigoso. Sistemas políticos e econômicos outrora considerados permanentes ruíram.
O desafio está no discernimento.
Como Aprendemos a Verdade
“Sem verdade não há liberdade; sem discernimento não há ética.”
Aprendemos a verdade de três formas:
- Pela experiência própria — muitas vezes dolorosa.
- Pela observação dos erros alheios — forma mais prudente.
- Pelo estudo e pela reflexão — que estruturam o julgamento ético.
A maturidade consiste em aprender antes de sofrer as consequências mais graves.
Conclusão
Ao revisitar minha trajetória, reafirmo a convicção: existem princípios permanentes que não envelhecem. O tempo passa, as sociedades evoluem, as circunstâncias mudam — mas a essência da verdade permanece.
É essa distinção que preserva o caráter.
E, como ensinou Platão, “A parte mais importante da educação é a formação do caráter.”
A maturidade floresce quando aprendemos a discernir a verdade da mentira, o real do ilusório, o bem do mal, o certo do errado, o permanente do transitório e o verdadeiramente do bom do conveniente.
A integridade não depende do ambiente externo, mas da convicção interior.
A verdade não se adapta à conveniência.
Ela atravessa o tempo.
Recordo, por fim, o ensinamento de Carlos Bernardo Pecotche, que distinguiu o permanente do transitório na estrutura psicológica do ser humano: o transitório liga-se às influências do meio e às emoções passageiras; o permanente reside nos princípios superiores que estruturam a consciência.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contatos: walmor1953@gmail.com
Fontes:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antonio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.
HIPÓCRATES. Textos Selecionados. São Paulo: Martin Claret, 2002.
PECOTCHE, Carlos Bernardo (Raumsol). Logosofia: Ciência e Método. Buenos Aires: Fundação Logosófica, 1963.


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