Um Olhar Sobre a Verdade

Um Olhar Sobre a Verdade

“Há duas coisas distintas:  saber e crer que se dabe. A ciência consiste em saber: crer que se saber é ignorância.Hipócrates 

 

 

Refletir sobre a verdade é refletir sobre os fundamentos da própria liberdade humana. Ao longo da história, sociedades que abandonaram o compromisso com a verdade enfraqueceram suas instituições, comprometeram a justiça e fragilizaram sua identidade moral e ética.

A advertência de Hipócrates permanece atual: há diferença entre saber e apenas acreditar que se sabe. O verdadeiro conhecimento exige humildade, investigação e discernimento; a falsa certeza nasce da presunção e conduz ao erro.

Ao longo da minha trajetória como professor,  agente público e pai de família, fui frequentemente confrontado com uma questão essencial: o que é permanente e o que é circunstancial?

Essa reflexão não nasceu apenas dos livros. Amadureceu nas decisões administrativas difíceis, nas pressões institucionais, nas escolhas familiares e nas consequências concretas das ações humanas.

Com o tempo, compreendi algo simples e profundo: existem princípios que não mudam; o que mudam são as justificativas humanas.

Ética e Moral: o Permanente e o Transitório

“Ética é uma verdade absoluta. Moral é variável, muda dependendo da cultura de cada povo.” — Tiny Willy

Em linhas gerais, costuma-se afirmar que a ética possui caráter de universalidade e permanência, enquanto a moral é transitória, mutável no tempo e no espaço.

A ética, conforme desenvolvida por Aristóteles em Ética a Nicômaco, refere-se à reflexão racional sobre o bem e a virtude, buscando fundamentos universais para o agir humano.

A moral, por sua vez, diz respeito aos costumes e normas praticados por uma sociedade em determinado contexto histórico.

Assim, hábitos sociais podem mudar:

  • A forma de vestir muda.
  • Os costumes sociais mudam.
  • A tecnologia muda.

Contudo, princípios como honestidade, responsabilidade e respeito à dignidade humana não dependem de época ou cultura para serem reconhecidos como fundamentais.

Verdades Permanentes

Na natureza, existem leis que independem da opinião humana.

2 + 2 continuará sendo 4.
A rotação da Terra continuará produzindo o dia e a noite.

Da mesma forma, certos princípios éticos não se alteram por conveniência.

A corrupção destrói instituições.
A mentira corrói a confiança.
A injustiça gera instabilidade social.

Isso se aplica ao setor público, à iniciativa privada e à família.

Verdades Transitórias

É preciso reconhecer que nem tudo é absoluto.

Conhecimento científico: por séculos, considerou-se “verdade” que a Terra era o centro do universo. A ciência não busca verdades definitivas, mas modelos explicativos progressivamente mais consistentes.

Normas sociais: o que era moralmente aceito há duzentos anos pode hoje ser considerado crime.

Tecnologia: a ideia de que era impossível voar prevaleceu até 1903.

Essas mudanças exigem humildade intelectual. Contudo, a evolução do conhecimento não implica relativização da Ética. O avanço científico não altera o valor da honestidade.

Carlos Bernardo Pecotche instigou o ser humano a não viver focado apenas no efêmero, mas a buscar uma existência fundamentada no desenvolvimento da consciência, distinguindo o transitório do permanente.

Péssimos Exemplos do Cotidiano

Corrupção Pública

Quando um agente público direciona uma licitação sob justificativas artificiais, o dano é inevitável: prejuízo ao erário, perda de credibilidade institucional e descrença social.
A verdade pode tardar, mas emerge — e, quando emerge, revela as consequências.

Corrupção Privada

Empresas que fraudam contratos ou sonegam tributos podem obter lucro imediato. Contudo, quando a irregularidade vem à tona, a reputação desmorona.
Confiança não é acessório; é fundamento.

Educação dos Filhos

Na família, a relativização da Ética pode começar em pequenos gestos.
Ensinar o “jeitinho” como vantagem é transmitir que a verdade é negociável.
O caráter forma-se nos detalhes.

O Risco da Confusão

Vivemos um tempo em que se confunde mudança cultural com mudança de princípios.

Quando tudo se torna relativo, ninguém é responsabilizado.
Quando tudo é justificável, a ética se dissolve.

Por outro lado, o dogmatismo também é perigoso. Sistemas políticos e econômicos outrora considerados permanentes ruíram.

O desafio está no discernimento.

Como Aprendemos a Verdade

“Sem verdade não há liberdade; sem discernimento não há ética.”

Aprendemos a verdade de três formas:

  1. Pela experiência própria — muitas vezes dolorosa.
  2. Pela observação dos erros alheios — forma mais prudente.
  3. Pelo estudo e pela reflexão — que estruturam o julgamento ético.

A maturidade consiste em aprender antes de sofrer as consequências mais graves.

Conclusão

Ao revisitar minha trajetória, reafirmo a convicção: existem princípios permanentes que não envelhecem. O tempo passa, as sociedades evoluem, as circunstâncias mudam — mas a essência da verdade permanece.

É essa distinção que preserva o caráter.

E, como ensinou Platão, “A parte mais importante da educação é a formação do caráter.”

A maturidade floresce quando aprendemos a discernir a verdade da mentira, o real do ilusório, o bem do mal, o certo do errado,  o permanente  do transitório e o  verdadeiramente do bom do conveniente.

A integridade não depende do ambiente externo, mas da convicção interior.
A verdade não se adapta à conveniência.
Ela atravessa o tempo.

Recordo, por fim, o ensinamento de Carlos Bernardo Pecotche, que distinguiu o permanente do transitório na estrutura psicológica do ser humano: o transitório liga-se às influências do meio e às emoções passageiras; o permanente reside nos princípios superiores que estruturam a consciência.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contatos: walmor1953@gmail.com


Fontes:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antonio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

HIPÓCRATES. Textos Selecionados. São Paulo: Martin Claret, 2002.

PECOTCHE, Carlos Bernardo (Raumsol). Logosofia: Ciência e Método. Buenos Aires: Fundação Logosófica, 1963.

 

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