{"id":6392,"date":"2026-08-17T20:52:48","date_gmt":"2026-08-17T23:52:48","guid":{"rendered":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/?p=6392"},"modified":"2026-08-18T16:52:11","modified_gmt":"2026-08-18T19:52:11","slug":"estamos-voltando-a-1215","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/estamos-voltando-a-1215\/","title":{"rendered":"Estamos voltando a 1215?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #0000ff; font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif;\">UMA EXPERI\u00caNCIA DE MUITOS ANOS<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Durante 14 anos lecionei a disciplina de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Essa experi\u00eancia, somada a mais de trinta anos de atua\u00e7\u00e3o na Prefeitura de Lages, permitiu-me conhecer a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica pela teoria e, sobretudo, pela pr\u00e1tica. Ao longo desses anos, compreendi que muitos dos problemas pol\u00edticos e administrativos come\u00e7am por um erro aparentemente simples: <strong>confundir Estado com Governo<\/strong>. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para compreender os limites de quem governa, a fun\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas e a import\u00e2ncia da independ\u00eancia e do equil\u00edbrio entre os tr\u00eas Poderes. \u00c9 justamente por isso que um epis\u00f3dio ocorrido na Inglaterra h\u00e1 mais de oito s\u00e9culos continua t\u00e3o atual.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">A HIST\u00d3RIA QUE AINDA NOS ENSINA<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XIII, o rei Jo\u00e3o Sem Terra entrou em conflito com os bar\u00f5es ingleses, entre outras raz\u00f5es, pela forma como exercia o poder e cobrava impostos. O conflito contribuiu para a elabora\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>Magna Carta, em 1215<\/strong>, documento que se tornou um marco na hist\u00f3ria constitucional por afirmar um princ\u00edpio revolucion\u00e1rio para a \u00e9poca:\u00a0<strong>tamb\u00e9m o governante est\u00e1 submetido \u00e0 lei<\/strong>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Oito s\u00e9culos depois, a pergunta continua pertinente:\u00a0<strong>ser\u00e1 que estamos esquecendo essa li\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"color: #0000ff; font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif;\">OS TR\u00caS MODELOS DE ADMINISTRA\u00c7\u00c3O P\u00daBLICA<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica passou por tr\u00eas modelos, que ainda convivem no Brasil:\u00a0<strong>Patrimonialista \u2014 Max Weber<\/strong>, marcado pela confus\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado, com favorecimento, clientelismo e uso pessoal da estrutura estatal;\u00a0<strong>Burocr\u00e1tica \u2014 Max Weber<\/strong>, criada como rea\u00e7\u00e3o ao patrimonialismo, baseada em legalidade, impessoalidade, hierarquia, profissionaliza\u00e7\u00e3o e regras formais; e\u00a0<strong>Gerencial \u2014 Luiz Carlos Bresser-Pereira<\/strong>, voltada \u00e0 efici\u00eancia, resultados, qualidade dos servi\u00e7os e atendimento ao cidad\u00e3o. Em s\u00edntese:\u00a0<strong>o patrimonialismo privilegiava pessoas; a burocracia, as regras; e o modelo gerencial, os resultados.<\/strong>\u00a0O desafio atual \u00e9 conciliar\u00a0<strong>legalidade, impessoalidade, profissionalismo, efici\u00eancia e compromisso com o cidad\u00e3o.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff; font-size: 14pt;\">ESTADO N\u00c3O \u00c9 GOVERNO<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Hely Lopes Meirelles definiu o Estado como a na\u00e7\u00e3o politicamente organizada. Em termos simples, o Estado \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e jur\u00eddica de uma sociedade, estabelecida em determinado territ\u00f3rio, dotada de soberania e voltada para o bem comum.\u00a0<strong>O Estado \u00e9 permanente e impessoal. O Governo, n\u00e3o.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Norberto Bobbio tamb\u00e9m demonstra essa diferen\u00e7a ao analisar as rela\u00e7\u00f5es entre Estado, Governo e sociedade: enquanto o Estado atravessa o tempo, os governos s\u00e3o tempor\u00e1rios e se sucedem conforme as regras institucionais. Por isso,\u00a0<strong>o Estado n\u00e3o muda a cada elei\u00e7\u00e3o<\/strong>. Mudam os governantes, as prioridades e as pol\u00edticas p\u00fablicas. O Estado, por\u00e9m, permanece.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff; font-size: 14pt;\">GOVERNO N\u00c3O \u00c9 DONO DO ESTADO<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">O Governo \u00e9 indispens\u00e1vel \u00e0 democracia. \u00c9 por meio dele que s\u00e3o definidas prioridades, formuladas pol\u00edticas p\u00fablicas e executadas a\u00e7\u00f5es administrativas. Mas existe uma diferen\u00e7a que n\u00e3o pode ser esquecida:\u00a0<strong>o Governo administra o Estado; n\u00e3o \u00e9 o Estado.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A famosa frase atribu\u00edda a Lu\u00eds XIV \u2014\u00a0<em>\u201cO Estado sou eu\u201d<\/em>\u00a0\u2014 representa exatamente aquilo que uma democracia constitucional deve impedir. Nenhum governante pode considerar o Estado sua propriedade. O Estado pertence \u00e0 coletividade. O Governo apenas recebe, por determinado per\u00edodo, a responsabilidade de administr\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff; font-size: 14pt;\">QUANDO O INTERESSE DO GOVERNO VIRA INTERESSE DO ESTADO<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">\u00c9 leg\u00edtimo que um Governo tenha seu programa, suas prioridades e sua vis\u00e3o de sociedade. Isso faz parte da democracia. O problema surge quando o interesse passageiro de um Governo passa a ser tratado como se fosse o interesse permanente do Estado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Isso pode ocorrer por meio da utiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da m\u00e1quina p\u00fablica, promo\u00e7\u00e3o pessoal de autoridades, aparelhamento de estruturas t\u00e9cnicas, direcionamento indevido de contratos, uso eleitoral de obras ou abandono injustificado de pol\u00edticas p\u00fablicas que atendem ao interesse coletivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica deve ser orientada pelos princ\u00edpios estabelecidos no artigo 37 da Constitui\u00e7\u00e3o:\u00a0<strong>legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e efici\u00eancia<\/strong>. N\u00e3o s\u00e3o simples recomenda\u00e7\u00f5es.\u00a0<strong>S\u00e3o limites ao exerc\u00edcio do poder.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; font-size: 14pt; color: #0000ff;\">O AGENTE P\u00daBLICO N\u00c3O \u00c9 DONO DO PODER<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\"><strong>Agente p\u00fablico \u00e9 toda pessoa que exerce, ainda que temporariamente ou sem remunera\u00e7\u00e3o, uma fun\u00e7\u00e3o, cargo ou emprego p\u00fablico, em nome do Estado e a servi\u00e7o do interesse coletivo.<\/strong> S\u00e3o exemplos: <strong>presidente da Rep\u00fablica, governadores, prefeitos, ministros, secret\u00e1rios, senadores, deputados, vereadores, magistrados, membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico, servidores p\u00fablicos efetivos ou comissionados, empregados de empresas estatais e outras pessoas que exer\u00e7am fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Existe uma diferen\u00e7a fundamental entre administrar uma empresa privada e administrar recursos p\u00fablicos. Na iniciativa privada, em regra, pode-se fazer tudo aquilo que a lei n\u00e3o pro\u00edbe. Na Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, a l\u00f3gica \u00e9 diferente: <strong>o agente p\u00fablico somente pode agir dentro das compet\u00eancias e autoriza\u00e7\u00f5es estabelecidas pela lei.<\/strong><\/span><\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\"><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Mesmo quando existe discricionariedade, n\u00e3o h\u00e1 liberdade absoluta. O administrador pode escolher entre alternativas permitidas pelo ordenamento jur\u00eddico, sempre buscando a solu\u00e7\u00e3o mais adequada ao interesse p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Essa \u00e9 uma ideia que deveria estar presente em toda Administra\u00e7\u00e3o: <strong>o agente p\u00fablico n\u00e3o possui o poder; ele exerce uma compet\u00eancia que lhe foi atribu\u00edda pelo Estado.<\/strong> O cargo \u00e9 tempor\u00e1rio. <strong>A institui\u00e7\u00e3o permanece.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">O PROBLEMA N\u00c3O \u00c9 A FALTA DE LEIS<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Aqui est\u00e1, talvez, uma das quest\u00f5es centrais deste artigo:\u00a0<strong>os grandes problemas de uma democracia, na maioria das vezes, n\u00e3o decorrem da aus\u00eancia de leis, mas da falta de seu efetivo cumprimento.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">O Brasil possui uma extensa Constitui\u00e7\u00e3o, in\u00fameras leis, c\u00f3digos, regulamentos e mecanismos de controle. O problema frequentemente est\u00e1 menos em criar novas normas e mais em\u00a0<strong>cumprir, fazer cumprir e respeitar aquelas que j\u00e1 existem<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Uma lei, por mais moderna ou eficiente que seja, perde sua for\u00e7a quando aqueles que t\u00eam o dever de cumpri-la a ignoram, interpretam conforme interesses circunstanciais ou deixam de aplic\u00e1-la.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\"><strong>N\u00e3o basta ter boas leis. \u00c9 preciso que o Estado tenha agentes p\u00fablicos dispostos a cumpri-las.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Essa talvez seja uma das maiores diferen\u00e7as entre uma democracia apenas formal e uma democracia verdadeiramente institucionalizada.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff; font-size: 14pt;\">POR QUE EXISTEM TR\u00caS PODERES?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Montesquieu, em\u00a0<em>O Esp\u00edrito das Leis<\/em>, deixou uma das maiores li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria pol\u00edtica:\u00a0<strong>o poder precisa encontrar limites no pr\u00f3prio poder<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 incorporou essa concep\u00e7\u00e3o ao estabelecer, em seu artigo 2\u00ba, que Legislativo, Executivo e Judici\u00e1rio s\u00e3o independentes e harm\u00f4nicos entre si. N\u00e3o se trata de colocar um Poder contra o outro, mas de impedir que qualquer Poder se torne absoluto. Cada um possui compet\u00eancias pr\u00f3prias e, ao mesmo tempo, mecanismos de controle sobre os demais. \u00c9 o sistema de\u00a0<strong>freios e contrapesos<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Independ\u00eancia n\u00e3o significa isolamento. Harmonia n\u00e3o significa submiss\u00e3o.\u00a0<strong>O equil\u00edbrio entre os Poderes \u00e9 uma das garantias da liberdade.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff; font-size: 14pt;\">A LEI ACIMA DA VONTADE<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Na Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, a lei n\u00e3o \u00e9 apenas uma orienta\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>A lei \u00e9 o limite.<\/strong> O administrador n\u00e3o pode fazer simplesmente aquilo que considera conveniente. Precisa encontrar fundamento jur\u00eddico para sua atua\u00e7\u00e3o. Os atos administrativos devem respeitar a Constitui\u00e7\u00e3o, as leis e as normas aplic\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Quando esse princ\u00edpio \u00e9 abandonado, o cidad\u00e3o deixa de saber onde termina a autoridade do governante e come\u00e7a o arb\u00edtrio. E quando o arb\u00edtrio entra pela porta da Administra\u00e7\u00e3o,\u00a0<strong>a inseguran\u00e7a jur\u00eddica entra junto.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">QUANDO UM PODER INVADE O ESPA\u00c7O DO OUTRO<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A separa\u00e7\u00e3o dos Poderes n\u00e3o significa que eles n\u00e3o possam fiscalizar-se ou dialogar. Ao contr\u00e1rio: o controle rec\u00edproco \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">O problema surge quando um Poder ultrapassa suas compet\u00eancias constitucionais e passa a ocupar o espa\u00e7o que pertence a outro. Quando esses limites se tornam indefinidos, surge um problema que ultrapassa o debate pol\u00edtico:\u00a0<strong>a inseguran\u00e7a jur\u00eddica<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">O Executivo n\u00e3o pode substituir o Legislativo onde a Constitui\u00e7\u00e3o exige atua\u00e7\u00e3o legislativa. O Legislativo n\u00e3o deve assumir fun\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da Administra\u00e7\u00e3o. E o Judici\u00e1rio, embora tenha a responsabilidade de interpretar e aplicar a Constitui\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m deve observar os limites de sua fun\u00e7\u00e3o constitucional.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">QUANDO NINGU\u00c9M SABE QUAIS S\u00c3O AS REGRAS<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Cidad\u00e3os precisam saber quais s\u00e3o seus direitos. Empresas precisam saber quais regras dever\u00e3o cumprir. Investidores precisam saber se os contratos ser\u00e3o respeitados. A Administra\u00e7\u00e3o precisa saber quais s\u00e3o seus limites.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Quando as regras mudam constantemente ou quando as compet\u00eancias institucionais se tornam imprevis\u00edveis, a confian\u00e7a desaparece.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Douglass North demonstrou a import\u00e2ncia das institui\u00e7\u00f5es e da previsibilidade das regras para o desenvolvimento econ\u00f4mico. Daron Acemoglu e James Robinson, em\u00a0<em>Por que as Na\u00e7\u00f5es Fracassam<\/em>, tamb\u00e9m destacam a import\u00e2ncia de institui\u00e7\u00f5es capazes de limitar o poder e garantir seguran\u00e7a para a sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\"><strong>Sem previsibilidade, fica dif\u00edcil planejar. Sem seguran\u00e7a jur\u00eddica, fica dif\u00edcil investir. Sem confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, fica dif\u00edcil construir o futuro.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">O PRE\u00c7O DO PODER SEM LIMITES<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">O enfraquecimento das institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o produz apenas consequ\u00eancias pol\u00edticas. Pode produzir consequ\u00eancias econ\u00f4micas e sociais:\u00a0<strong>inseguran\u00e7a jur\u00eddica, redu\u00e7\u00e3o dos investimentos, perda de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, instabilidade econ\u00f4mica, adiamento ou transfer\u00eancia de investimentos, perda de empregos, aumento das tens\u00f5es sociais e desgaste da imagem do pa\u00eds.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">\u00c9 evidente que crises econ\u00f4micas possuem m\u00faltiplas causas. Guerras, recess\u00f5es, mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e fatores internacionais tamb\u00e9m influenciam. Mas institui\u00e7\u00f5es previs\u00edveis, respeito \u00e0s regras e seguran\u00e7a jur\u00eddica continuam sendo condi\u00e7\u00f5es fundamentais para o desenvolvimento.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">O MUNDO J\u00c1 MOSTROU O PERIGO<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A hist\u00f3ria recente de diferentes pa\u00edses mostra que a concentra\u00e7\u00e3o excessiva de poder e o enfraquecimento dos mecanismos de controle podem comprometer institui\u00e7\u00f5es, economia e confian\u00e7a social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Venezuela, R\u00fassia e Belarus possuem hist\u00f3rias e caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e n\u00e3o podem ser colocadas todas no mesmo n\u00edvel ou explicadas por uma \u00fanica causa. Mas oferecem elementos para uma reflex\u00e3o:\u00a0<strong>quando os mecanismos de controle do poder se enfraquecem, as institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m ficam mais vulner\u00e1veis.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">O problema n\u00e3o come\u00e7a necessariamente com a aus\u00eancia completa de leis. \u00c0s vezes come\u00e7a quando\u00a0<strong>as leis existem, mas deixam de representar limites efetivos para quem exerce o poder.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">A LI\u00c7\u00c3O DE JO\u00c3O SEM TERRA<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">\u00c9 aqui que a hist\u00f3ria de 1215 volta a fazer sentido.\u00a0<strong>Jo\u00e3o Sem Terra n\u00e3o foi limitado voluntariamente por seu poder; foram os bar\u00f5es ingleses, liderados politicamente pela resist\u00eancia ao rei e apoiados pelo arcebispo Stephen Langton, que o obrigaram a aceitar a Magna Carta, em 1215.<\/strong>\u00a0O documento estabeleceu limites ao poder real e consolidou uma ideia que atravessaria os s\u00e9culos:\u00a0<strong>o governante tamb\u00e9m est\u00e1 submetido \u00e0 lei.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Jo\u00e3o Sem Terra n\u00e3o viveu em uma democracia constitucional como conhecemos hoje. A Inglaterra daquele per\u00edodo era completamente diferente do Estado moderno. Ainda assim, daquele conflito nasceu uma das mais importantes afirma\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do constitucionalismo: <strong>o poder n\u00e3o \u00e9 absoluto. Quem governa tamb\u00e9m deve obedecer \u00e0 lei.<\/strong> N\u00e3o importa quem esteja no poder. N\u00e3o importa o tamanho da maioria. N\u00e3o importa a for\u00e7a pol\u00edtica. <strong>O poder precisa ter limites.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"color: #0000ff;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; font-size: 14pt;\">O ESTADO DEVE SOBREVIVER AOS GOVERNOS<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Depois de mais de trinta anos de experi\u00eancia na Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e 14 anos ensinando Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, cheguei a uma convic\u00e7\u00e3o que considero fundamental:\u00a0<strong>um pa\u00eds precisa ter institui\u00e7\u00f5es mais fortes do que seus governantes.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Governos passam. Presidentes passam. Governadores passam. Prefeitos passam. Partidos passam.\u00a0<strong>O Estado permanece.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Por isso, nenhum governante pode tratar o Estado como propriedade pessoal. Nenhum partido pode confundir vit\u00f3ria eleitoral com apropria\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. E nenhum Poder pode considerar-se acima da Constitui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\"><strong>Governar n\u00e3o \u00e9 ser dono. Governar \u00e9 receber, temporariamente, a responsabilidade de administrar aquilo que pertence a todos.<\/strong><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #0000ff;\">ESTAMOS VOLTANDO A 1215?<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo a este artigo n\u00e3o pretende afirmar que estamos vivendo uma repeti\u00e7\u00e3o da Inglaterra de oito s\u00e9culos atr\u00e1s. As sociedades s\u00e3o diferentes, as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o outras e a realidade contempor\u00e2nea \u00e9 incomparavelmente mais complexa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Mas a advert\u00eancia continua atual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Sempre que o poder come\u00e7a a ignorar seus limites, a hist\u00f3ria nos oferece exemplos para lembrar onde esse caminho pode levar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A Magna Carta de 1215 deixou uma li\u00e7\u00e3o que permanece v\u00e1lida:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\"><strong>quem governa tamb\u00e9m deve obedecer \u00e0 lei.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 reafirmou esse princ\u00edpio no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Cabe \u00e0s institui\u00e7\u00f5es preserv\u00e1-lo. Cabe aos Poderes respeitar suas compet\u00eancias. Cabe aos governantes compreender que o poder recebido \u00e9 tempor\u00e1rio. E cabe \u00e0 sociedade permanecer vigilante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">Porque\u00a0<strong>o Estado deve sobreviver aos Governos.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #800000;\"><strong>Quando o poder encontra limites, a liberdade se fortalece.<\/strong><strong><br \/>\nQuando as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o respeitadas, a sociedade prospera.<br \/>\nQuando Governo e Estado se confundem, todos perdem.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\">E talvez seja justamente por isso que, oito s\u00e9culos depois, ainda precisamos olhar para 1215 e perguntar:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #993366;\"><strong>ESTAMOS VOLTANDO A 1215?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #008000;\">Autor: Walmor Tadeu Schweitzer<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"font-family: 'comic sans ms', sans-serif; color: #008000;\">Contato: Walmor1953@gmail.com<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA EXPERI\u00caNCIA DE MUITOS ANOS Durante 14 anos lecionei a disciplina de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica. Essa experi\u00eancia, somada a mais de trinta anos de atua\u00e7\u00e3o na Prefeitura de Lages, permitiu-me conhecer a Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica pela teoria e, sobretudo, pela pr\u00e1tica. Ao longo desses anos, compreendi que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6401,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,1,13,17,9,12,7],"tags":[],"class_list":["post-6392","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-administracao","category-blog","category-destaque","category-educacao","category-etica","category-historia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6392"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6413,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6392\/revisions\/6413"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/repensandoavida.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}