26 ago Educação: A Régua Deve Ser o Mundo
“Lograr que as gerações futuras sejam mais felizes que a nossa será o prêmio mais grandioso a que se possa aspirar. (…)”. Carlos Bernardo Gonzalez Pecotche
Que caminho o Brasil precisa seguir para transformar sua imensa riqueza em prosperidade e qualidade de vida para sua população?
Nenhum país consegue sustentar, por muito tempo, desenvolvimento econômico, inovação, produtividade e justiça social sem uma educação de qualidade. Antes de construir grandes projetos, precisamos formar as pessoas capazes de realizá-los.
O Brasil tem apresentado avanços pontuais e ainda insuficientes na educação. Os resultados do Ideb 2025 mostram, por exemplo, que a média dos anos iniciais do ensino fundamental passou de 5,7, em 2023, para 6,1, em 2025 — o melhor resultado da série histórica. Embora esse crescimento seja positivo, ele ainda está longe de representar uma transformação estrutural da educação brasileira.
Mas não podemos nos contentar em saber que estamos melhores do que estávamos. Necessitamos saber se estamos suficientemente bons diante do mundo.
Esse é o ponto central da questão. O Brasil compete com países que investem fortemente em conhecimento, tecnologia, ciência e inovação. Portanto, nossa referência não pode ser apenas o nosso próprio desempenho. Precisamos olhar para países que apresentam melhores resultados educacionais e perguntar: o que eles estão fazendo que ainda não conseguimos fazer?
Essa comparação não deve servir para diminuir o que conquistamos, mas para revelar o que ainda precisamos transformar.
A aprendizagem precisa ser a prioridade
É nesse contexto que considero fundamental, neste primeiro momento, uma mudança de foco nas políticas educacionais dos municípios. Prefeitos e secretários de Educação precisam colocar uma pergunta simples no centro de suas decisões:
O aluno está realmente aprendendo?
Para que a resposta seja positiva, não basta construir escolas, ampliar matrículas ou aumentar o número de horas de permanência dos estudantes. É indispensável garantir professores preparados, diretores capacitados, gestão eficiente, acompanhamento permanente dos resultados e apoio imediato aos alunos que apresentam dificuldades.
Também precisamos assegurar uma sólida formação básica, que contemple o domínio da Língua Portuguesa e da Matemática; o estímulo permanente à leitura; o ensino de Ciências e da Língua Inglesa; a educação econômica e financeira; o conhecimento da história do município, de seus personagens ilustres e de sua realidade social, cultural e econômica; além de uma sólida formação ética, moral e cidadã.
Não basta estar na escola
Uma criança matriculada não significa, necessariamente, uma criança educada. O verdadeiro indicador do sucesso da escola é aquilo que o aluno aprende e consegue levar para a vida.
Por isso, é preciso ensinar, avaliar, identificar deficiências e corrigi-las enquanto há tempo. Cada ano perdido na aprendizagem representa uma dificuldade maior no futuro.
A educação não pode ser tratada apenas como uma área administrativa entre tantas outras. Ela deve ser entendida como o principal investimento estratégico de um município e de um país.
O futuro começa hoje
Se desejamos um Brasil mais desenvolvido, produtivo, inovador e socialmente justo, precisamos começar pela base.
Não há transformação econômica sustentável sem pessoas preparadas. Não há inovação sem conhecimento. Não há produtividade sem educação. E não há futuro melhor sem uma escola capaz de preparar as novas gerações para os desafios de seu tempo.
Por isso, continuo achando que a pergunta mais importante que um governante pode fazer diante de uma escola não é quantos alunos estão matriculados, mas quanto esses alunos estão aprendendo.
O futuro do município, da região e do Brasil não será construído apenas nos gabinetes, nas empresas ou nos grandes projetos de infraestrutura.
Ele começa todos os dias, dentro de uma sala de aula.
O RETRATO EM NÚMEROS
“Educação não é privilégio.” — Anísio Teixeira
Os números mostram que existem avanços. O IDEB 2025 registrou os melhores resultados da série histórica em todas as etapas avaliadas da educação básica. Na rede pública, os anos iniciais chegaram a 6,1; os anos finais, a 5,0; e o ensino médio, a 4,3.
É uma conquista que deve ser reconhecida.
Mas uma boa avaliação não deve servir apenas para comemorar. Deve também ajudar a identificar o quanto ainda precisamos avançar.
Uma criança brasileira não competirá apenas com outra criança brasileira. Amanhã, ela disputará oportunidades com jovens japoneses, coreanos, canadenses, americanos, finlandeses, suecos, dinamarqueses e de outros países.
Por isso, melhorar em relação ao passado é importante. Mas não pode ser suficiente.
A RÉGUA DEVE SER O MUNDO
O PISA, avaliação internacional coordenada pela OCDE, mede o que estudantes de 15 anos conseguem fazer em Matemática, Leitura e Ciências.
Em 2022, o Brasil obteve 379 pontos em Matemática, 410 em Leitura e 403 em Ciências. As médias dos países da OCDE foram, respectivamente, 472, 476 e 485 pontos.
A diferença é expressiva.
No Japão, por exemplo, a média foi de 536 pontos em Matemática, 516 em Leitura e 547 em Ciências. Na Coreia do Sul, foram 527, 515 e 528 pontos.
Os Estados Unidos apresentam outro exemplo interessante: ficaram próximos da média da OCDE em Matemática, mas acima dela em Leitura e Ciências, com 504 pontos em Leitura e 499 em Ciências.
Esses números não significam que devamos copiar integralmente o modelo de outro país. Cada sociedade tem sua história, sua cultura e suas características. Mas eles mostram que é possível estabelecer metas mais altas e aprender com quem apresenta melhores resultados.
A régua, portanto, não deve ser apenas o nosso passado. Deve ser também o mundo.
O QUE OS MELHORES FAZEM?
Não existe uma fórmula única para uma educação de qualidade. Mas os sistemas de melhor desempenho apresentam algumas características em comum.
Há professores bem preparados, acompanhamento constante da aprendizagem, atenção especial à leitura, à escrita e à Matemática, expectativas elevadas para todos os alunos e apoio adicional para aqueles que apresentam maiores dificuldades.
Outro ponto merece atenção: a gestão das escolas.
Segundo a OCDE, em 2022 apenas 20% dos estudantes brasileiros estavam em escolas nas quais o diretor tinha a principal responsabilidade pela contratação de professores, enquanto a média da OCDE era de 60%.
Isso não significa que o diretor deva agir sem regras ou sem controle. Significa que gestão profissional exige responsabilidade, autonomia e, ao mesmo tempo, cobrança por resultados.
Os dados da OCDE mostram, de maneira geral, que sistemas de melhor desempenho tendem a dar mais responsabilidades a diretores e professores, acompanhadas de mecanismos de avaliação e prestação de contas.
CONHECER AS PRÓPRIAS RAÍZES
“Um povo sem memória é um povo sem história.” historiadora Emília Viotti da Costa
Propõe-se a inclusão da História do Município no ensino fundamental, contemplando a origem e a formação da cidade, seus ciclos econômicos, o processo de emancipação política e os personagens que contribuíram para sua construção.
Conhecer a história local não deve ser confundido com nostalgia. É uma maneira de compreender de onde viemos, como a comunidade foi construída e quais acontecimentos ajudaram a formar a sociedade em que vivemos. Esse conhecimento pode fortalecer a identidade e o sentimento de pertencimento.
Para tornar o aprendizado mais interessante, sugere-se que arquivos históricos, museus, monumentos, prédios antigos, praças e outros espaços de memória sejam utilizados como extensões da sala de aula. A criança pode aprender História não apenas lendo um livro, mas também conhecendo o lugar onde sua própria história começou.
DA SALA DE AULA PARA A VIDA
“Educação não é preparação para a vida; é a própria vida.” — John Dewey
Conhecer a história da própria cidade não significa deixar de lado os conhecimentos fundamentais. Língua Portuguesa, Matemática e Ciências continuam sendo a base indispensável da formação escolar.
A leitura e a capacidade de compreender um texto são essenciais para aprender todas as outras disciplinas. A Matemática ajuda a desenvolver o raciocínio lógico e a capacidade de resolver problemas. As Ciências permitem compreender o mundo e desenvolver o pensamento crítico.
O Inglês, por sua vez, deixou de ser apenas um diferencial. Em um mundo cada vez mais conectado, tornou-se uma competência importante para o estudo, o trabalho, a ciência, a tecnologia e a comunicação internacional.
Propõe-se, ainda, a inclusão da educação econômica e financeira, ensinando conceitos que fazem parte da vida cotidiana: juros, orçamento, crédito, planejamento financeiro, consumo consciente, investimentos e empreendedorismo.
A escola precisa preparar o aluno não apenas para passar de ano, mas para compreender e enfrentar a vida real.
PROFESSORES EM PRIMEIRO LUGAR
Nenhuma política educacional produzirá bons resultados sem bons professores.
Por isso, a formação continuada precisa deixar de ser apenas uma atividade burocrática e transformar-se em instrumento permanente de aperfeiçoamento profissional.
Um exemplo brasileiro merece atenção: Sobral, no Ceará.
Em 2025, o município alcançou IDEB de 9,63 nos anos iniciais e 8,05 nos anos finais do ensino fundamental, os melhores resultados de sua história. A própria Secretaria Municipal de Educação relaciona esse desempenho ao acompanhamento pedagógico, à formação continuada, ao monitoramento da aprendizagem e ao planejamento das ações educacionais.
A principal lição de Sobral não está apenas na nota.
Está na continuidade.
Uma política educacional que produz resultados não pode começar e terminar a cada eleição. Precisa sobreviver a prefeitos, secretários e governos. Deve ser uma política de Estado, e não uma política de governo, de partido ou de ideologia.
TECNOLOGIA: FERRAMENTA, NÃO SUBSTITUTA
“Ajude-me a fazer sozinho.” — Maria Montessori
É preciso cuidado com a ideia de que colocar mais computadores, tablets ou celulares nas escolas significa, automaticamente, melhorar a educação. Tecnologia é importante. Mas tecnologia, sozinha, não ensina.
O professor continua sendo indispensável para orientar, explicar, questionar, estimular e acompanhar o aluno. A tecnologia deve estar a serviço da aprendizagem, e não substituir aquilo que a escola precisa fazer melhor: ensinar a ler, escrever, raciocinar, pesquisar, interpretar e pensar.
Por isso, três princípios deveriam orientar o uso das novas tecnologias:
Antes do tablet, o livro.
Antes da inteligência artificial, a inteligência humana.
Antes de pesquisar respostas, aprender a formular perguntas.
ENSINAR A PENSAR
“Estudar sem pensar é tempo perdido; pensar sem estudar é perigoso.” — Confúcio
A inteligência artificial está mudando rapidamente o mundo do trabalho e a maneira como acessamos informações. Nesse cenário, simplesmente decorar conteúdos perde parte de sua importância. Ganham valor a capacidade de fazer perguntas, interpretar informações, distinguir fatos de opiniões, identificar informações falsas, raciocinar, resolver problemas, trabalhar em equipe e tomar decisões.
Isso não significa abandonar o conhecimento. Ao contrário: não é possível pensar bem sem conhecer.
A escola precisa, portanto, combinar conhecimento e pensamento. O aluno deve aprender conteúdos, mas também aprender a utilizá-los para compreender situações, analisar problemas e encontrar soluções.
A escola do futuro não será avaliada pela quantidade de telas que possui, mas pela capacidade de fazer seus alunos pensar melhor.
O MUNICÍPIO PODE COMEÇAR AGORA
As grandes mudanças na educação não dependem exclusivamente de Brasília. Cada município pode fazer sua parte.
Pode estabelecer metas claras de aprendizagem, acompanhar individualmente os alunos, fortalecer a alfabetização, investir na formação dos professores, melhorar a gestão escolar, estimular a leitura, ampliar o ensino de Inglês, introduzir educação financeira, ensinar a história do município e utilizar a tecnologia com responsabilidade.
Não se trata necessariamente de gastar mais. Trata-se de fazer com que os recursos existentes produzam mais aprendizagem. O desafio não é apenas colocar o aluno dentro da escola. É fazer com que ele saia dela sabendo mais, pensando melhor e preparado para a vida.
CONCLUSÃO: A ESCOLA QUE QUEREMOS
Retomo os resultados do PISA 2022 porque eles ajudam a dimensionar, de forma objetiva, o tamanho do nosso desafio. O Brasil alcançou 379 pontos em Matemática, contra 472 pontos na média dos países da OCDE; em Leitura, foram 410 pontos, contra 476; e, em Ciências, 403, contra 485.
Esses números não devem servir para desmerecer os avanços que já conquistamos. Ao contrário: devem nos ajudar a reconhecer o que ainda precisamos melhorar. Mais importante do que comemorar pequenas evoluções é compreender por que outros países conseguem resultados significativamente melhores e perguntar: o que podemos aprender com essas experiências e adaptar à nossa realidade?
Minha convicção é que o Brasil precisa mudar a forma de avaliar sua educação. Não basta saber se estamos melhorando em relação ao nosso próprio passado. Precisamos também comparar nossos resultados com os dos países que apresentam os melhores desempenhos e estabelecer metas que nos permitam, progressivamente, aproximar-nos deles.
E essa transformação não precisa começar necessariamente em Brasília. Muitas das mudanças mais importantes podem começar no próprio município, na prefeitura, na Secretaria de Educação e, principalmente, dentro de cada escola.
Por isso, deixo dez propostas que poderiam orientar uma política municipal de educação comprometida com resultados concretos:
- Estabelecer metas claras de aprendizagem, e não apenas de matrícula e frequência escolar.
- Avaliar regularmente o aprendizado, para identificar dificuldades e corrigi-las no momento certo.
- Oferecer formação continuada aos professores, valorizando sua preparação e atualização permanente.
- Profissionalizar a gestão escolar, reduzindo a interferência político-partidária e priorizando competência e resultados.
- Concentrar esforços na alfabetização e nos fundamentos, especialmente leitura, Língua Portuguesa, Matemática e Ciências.
- Ampliar e qualificar o ensino de Inglês, preparando os alunos para um mundo cada vez mais conectado.
- Introduzir a educação econômica e financeira, preparando o jovem para compreender melhor o trabalho, o consumo, a poupança e o planejamento.
- Ensinar a História do Município, fortalecendo o conhecimento sobre as próprias raízes e o sentimento de pertencimento.
- Utilizar a tecnologia como ferramenta pedagógica, sem permitir que ela substitua o professor nem comprometa a leitura, a concentração e a capacidade de pensar.
- Desenvolver, além do conhecimento, o raciocínio, o pensamento crítico, a capacidade de formular perguntas, resolver problemas, conviver e fazer escolhas responsáveis.
Observe-se que tudo isso não dependa de decisões tomadas em Brasília. Cabe às administrações municipais estabelecer prioridades, definir metas, acompanhar resultados, valorizar os bons professores, melhorar a gestão e criar uma cultura permanente de aprendizagem.
E há uma razão para começarmos pela criança.
A criança possui uma capacidade extraordinária de aprender. Sua mente, ainda em formação, recebe os primeiros conhecimentos, desenvolve hábitos, constrói valores e começa a compreender o mundo que a cerca. É nessa fase que se lançam as bases do cidadão que, no futuro, fará suas próprias escolhas, assumirá responsabilidades e poderá contribuir para transformar a realidade à sua volta.
Por isso, a qualidade da educação recebida nos primeiros anos pode influenciar profundamente toda uma trajetória de vida. Quanto mais sólido for esse alicerce — em conhecimento, linguagem, raciocínio, valores, curiosidade e capacidade de aprender — maiores serão as possibilidades de que essa criança se torne um adulto preparado para enfrentar os desafios de seu tempo.
No fundo, discutir educação não é discutir apenas a escola de hoje. É decidir que tipo de sociedade queremos construir amanhã.
Se queremos municípios mais desenvolvidos, cidadãos mais preparados e uma sociedade capaz de enfrentar os desafios de um mundo em rápida transformação, precisamos começar pelo lugar onde tudo começa: a formação de nossas crianças.
O município que se compara com os melhores do mundo não está diminuindo o que já fez. Está reconhecendo que pode fazer muito mais. E é justamente essa disposição de aprender com os melhores que pode transformar a escola que temos na escola que queremos.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes
INEP — Resultados do IDEB 2025 e dados do SAEB.
OCDE — PISA 2022 Results, volumes I e II, e notas dos países participantes.
Secretaria Municipal de Educação de Sobral — resultados do IDEB 2025.
Nenhum comentário