260 Anos de Lages: Muito Além de Correia Pinto

260 Anos de Lages: Muito Além de Correia Pinto

Lages e o Caminho das Tropas 

Tendo em vista as comemorações dos 260 anos de fundação de Lages — celebrados em 22 de novembro de 2026, marco que une o ano de 1766 ao de 2026 —, elaborei este artigo com o propósito de trazer à memória presente aspectos que considero relevantes para a compreensão da história de nossa cidade. O texto foi construído com base em fontes documentais e bibliográficas, no intuito de oferecer um panorama mais completo — e, sempre que possível, mais fiel — sobre os episódios que antecederam e sucederam a fundação oficial da povoação, resgatando nomes, lugares e circunstâncias muitas vezes deixados à margem do relato tradicional.

Ao revisitar a história de Lages, sinto admiração e espanto. Admiração porque a cidade teve papel decisivo na formação econômica e política de Santa Catarina; espanto porque, muitas vezes, sua história é resumida à chegada de Antônio Correia Pinto de Macedo, como se os Campos das Lages fossem uma terra desocupada antes de sua expedição.

Ao conhecer melhor os registros históricos, compreendi que Lages não foi simples coadjuvante na formação do Estado. A cidade nasceu em uma região que já possuía fazendas, criação de animais, circulação de tropeiros e disputas territoriais. Mais tarde, tornou-se um dos principais centros pecuaristas do Sul do Brasil.


Uma região ocupada antes da fundação oficial

Antônio Correia Pinto de Macedo chegou aos Campos das Lages em 1766, com a missão de fundar uma povoação e reforçar a presença portuguesa no território. Entretanto, a ocupação da região era anterior à criação oficial da vila.

Segundo informações atribuídas a registros do Arquivo Municipal de Curitiba, cerca de 32 anos antes da fundação da vila já existiam pelo menos dezesseis fazendas, reunindo aproximadamente 82 moradores. A economia estava voltada principalmente à criação de gado, mulas e cavalos, atividades que definiriam a vocação econômica da Serra Catarinense.

Entre os pioneiros mencionados aparecem nomes como Pinto Bento, Bento Soares da Motta e Bento do Amaral Gurgel. Outros estudos também citam Manoel da Silva Ribeiro, Antônio Marques Arzão, Joaquim José Pereira, proprietário da Fazenda Grande, e o sargento-mor Torquato Teixeira de Carvalho, ligado à Fazenda São Felipe.

O próprio Correia Pinto também já possuía propriedades na região antes de sua missão oficial. Estudos mencionam as fazendas Cruz de Malta e Guarda-mor. Essa informação mostra que ele não era um desconhecido dos Campos das Lages quando recebeu a tarefa de fundar a povoação.

É importante, contudo, fazer uma ressalva: a informação sobre as dezesseis fazendas e os 82 moradores é reproduzida por fontes posteriores que citam registros do Arquivo Municipal de Curitiba. Por isso, em trabalhos acadêmicos ou jornalísticos, o ideal é consultar diretamente os documentos originais.


Os pousos antes da fundação definitiva

A trajetória de Correia Pinto e de sua comitiva não teria ocorrido em um único local. Diferentes fontes mencionam pousos e assentamentos anteriores à fixação definitiva da povoação de Lages. Como há divergências entre os relatos, é necessário apresentar essas informações com cautela.

Chapada das Taipas

Segundo o historiador Licurgo Costa, a povoação teria começado na localidade conhecida como Taipas, onde existia uma igreja frequentada pelos tropeiros. O local, entretanto, teria sido abandonado pouco tempo depois.

Essa referência aparece em obra de Licurgo Costa reproduzida pela Associação Comercial e Industrial de Lages — ACIL —, que cita a existência de um antigo núcleo ligado à passagem dos tropeiros e à religiosidade da região (COSTA, 1982, apud ACIL, 2000, p. 17).

A menção à igreja dos tropeiros é significativa porque demonstra que a ocupação dos Campos das Lages não dependia apenas de decisões administrativas. Os caminhos de circulação de tropas, os locais de descanso e os pontos de devoção também contribuíram para a formação dos primeiros núcleos de povoamento.

Morrinhos, na Coxilha Rica

Outro episódio importante teria ocorrido em Morrinhos, na Coxilha Rica. De acordo com um relato baseado no Morgado de Mateus, a expedição de Correia Pinto teria alcançado aquela região em 22 de novembro de 1766.

O grupo, porém, teria sido obrigado a deixar o local porque a área era considerada pertencente ao domínio espanhol conforme a interpretação dos limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. A expedição seguiu então para o norte, em busca de uma área onde pudesse estabelecer uma povoação sob domínio português.

Esse episódio revela que a fundação de Lages esteve relacionada às disputas territoriais entre Portugal e Espanha. A cidade não surgiu apenas como um núcleo de criação de gado, mas também como parte de uma estratégia de ocupação e consolidação da fronteira meridional portuguesa.

As margens do Rio Canoas

Depois de deixar Morrinhos, a comitiva teria avançado para o norte e se estabelecido às margens do Rio Canoas, em área atualmente associada ao município de Correia Pinto.

Segundo outro relato, o assentamento enfrentou dificuldades provocadas por uma grande inundação. A enchente teria destruído casas e plantações, obrigando parte do grupo a procurar um local mais seguro.

Essa versão também aparece em relatos biográficos sobre Correia Pinto, segundo os quais ele teria estabelecido inicialmente um núcleo na Chapada das Taipas e, posteriormente, outro às margens do Rio Canoas. A inundação teria provocado o abandono desse segundo assentamento.

Embora os detalhes variem entre as fontes, os relatos convergem em um ponto: a instalação da povoação ocorreu de forma gradual, passando por diferentes lugares antes da consolidação do núcleo urbano de Lages.


A fundação definitiva de Lages

A versão mais conhecida afirma que Correia Pinto fundou a povoação de Nossa Senhora dos Prazeres das Lages em 22 de novembro de 1766, no local onde se encontra a cidade atualmente, em torno de sua primeira capela.

Entretanto, existe uma divergência cronológica importante. Outra interpretação, baseada nos estudos de Licurgo Costa, sustenta que a fixação definitiva no sítio urbano atual teria ocorrido apenas em 22 de maio de 1771.

Essa diferença pode ser explicada pela distinção entre a chegada oficial da expedição, em 1766, e a consolidação do assentamento no local definitivo, alguns anos mais tarde. Assim, as duas datas não precisam ser necessariamente vistas como totalmente incompatíveis: 1766 pode representar a fundação ou chegada oficial, enquanto 1771 corresponderia à fixação efetiva do núcleo urbano.

Como ocorre com muitos episódios da história colonial, a documentação disponível permite interpretações diferentes. Por essa razão, é mais adequado apresentar as duas datas e explicar a divergência do que escolher uma delas sem qualquer ressalva.


Correia Pinto e a disputa de fronteiras

A fundação de Lages precisa ser compreendida no contexto das disputas entre Portugal e Espanha pelo domínio dos territórios do Sul do Brasil.

A passagem por Morrinhos, o deslocamento para as margens do Rio Canoas e a posterior escolha do local de Lages demonstram que a expedição enfrentou dificuldades geográficas e políticas. O estabelecimento de uma povoação portuguesa em área estratégica ajudava a garantir a ocupação do território e a proteger os caminhos utilizados por criadores e tropeiros.

Correia Pinto foi, portanto, uma figura central na organização política da povoação, mas sua atuação ocorreu em uma região que já apresentava circulação de pessoas, animais e mercadorias. A fundação oficial não apagou essa história anterior; ao contrário, incorporou-a a um projeto de ocupação mais estruturado.


O tropeirismo e o Caminho das Tropas

Antes mesmo da fundação oficial, os Campos das Lages eram utilizados como área de passagem e descanso para tropas de animais. Com o tempo, a região tornou-se parte fundamental do chamado Caminho das Tropas, rota que ligava o Rio Grande do Sul às feiras de Sorocaba, em São Paulo.

Por esses caminhos circulavam tropeiros conduzindo mulas, cavalos e gado. As tropas precisavam de pastagens, água, abrigo, alimentação e locais para descanso. Lages, situada em posição estratégica entre o Sul e o Sudeste, tornou-se um importante ponto de pouso, abastecimento, comercialização e redistribuição de animais.

Os pousos de Taipas, as passagens pela Coxilha Rica e as áreas próximas ao Rio Canoas devem ser compreendidos dentro dessa dinâmica. Antes de ser um centro urbano consolidado, Lages era parte de uma rede de caminhos e paradas que conectava diferentes regiões do território colonial.

O tropeirismo não foi apenas uma atividade econômica. Ele também contribuiu para a formação cultural da cidade. Os tropeiros transportavam mercadorias, notícias, costumes e formas de relacionamento entre diferentes regiões. Por meio deles, Lages se conectou a importantes centros comerciais e passou a desempenhar papel relevante na circulação de riquezas pelo interior do país.

A pecuária desenvolveu-se nesse contexto. A criação de gado, mulas e cavalos tornou-se a base da economia local, e Lages alcançou a condição de um dos mais importantes centros pecuários de Santa Catarina. As grandes fazendas, as tradições campeiras e a valorização do turismo rural ainda hoje preservam parte dessa herança.


O monumento e a memória de Correia Pinto

Outra questão que desperta interesse é a localização do monumento dedicado a Antônio Correia Pinto. A obra encontra-se na Praça da Bandeira, em Lages, e possui caráter simbólico e cívico: representa a homenagem da cidade ao homem reconhecido como seu fundador.

Não há comprovação histórica suficiente para afirmar que o monumento esteja localizado exatamente sobre o terreno de uma antiga fazenda ou na sede de uma propriedade pertencente a Correia Pinto. Portanto, não se deve confundir o local do monumento com a localização comprovada de sua residência ou fazenda.

Isso não diminui a importância da homenagem. O monumento expressa a forma como a cidade escolheu preservar a memória de seu fundador. Correia Pinto foi, de fato, proprietário de terras na região, e estudos mencionam propriedades como Cruz de Malta e Guarda-mor. Contudo, a existência dessas fazendas não permite concluir que o monumento tenha sido erguido sobre uma delas.

Essa distinção é essencial para que a memória histórica não seja confundida com uma informação ainda não comprovada. O monumento representa a memória pública do fundador; as fazendas pertencem à história da ocupação rural dos Campos das Lages; e os antigos pousos representam as etapas de uma ocupação que se consolidou gradualmente.


Uma história formada por muitas pessoas

Valorizar Antônio Correia Pinto é importante, mas a identidade de Lages vai além do feito de um único bandeirante. A formação da cidade resultou da participação de fazendeiros, criadores, tropeiros, trabalhadores livres, pessoas escravizadas, indígenas e demais grupos que viveram e trabalharam na região.

Antes da vila oficial, já havia famílias criando animais e ocupando os campos. Havia também caminhos, pousos, capelas e propriedades rurais. Depois da fundação, o tropeirismo ampliou os contatos comerciais e culturais, enquanto as fazendas sustentaram a economia local.

Por isso, a história da cidade deve ser contada de maneira mais ampla. Correia Pinto foi uma figura central na fundação política de Lages, mas não foi o único responsável pela construção de sua sociedade. A cidade nasceu da combinação entre estratégia territorial, ocupação rural, pecuária, religiosidade e circulação de tropas.


Conclusão

Lages ultrapassa a simples imagem de vila erguida por um bandeirante. É uma cidade construída sobre antigos caminhos, pousos, fazendas, campos de criação e rotas de comércio. Sua formação ocorreu em etapas: passou por lugares como Taipas, Morrinhos e as margens do Rio Canoas, até consolidar-se no sítio urbano atual.

O tropeirismo e o Caminho das Tropas transformaram a região em elo entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. O monumento a Antônio Correia Pinto preserva a memória do fundador, mas a verdadeira história de Lages está espalhada pelos campos, pelas fazendas, pelas antigas rotas tropeiras e pelas pessoas que ajudaram a construir a cidade.

Lages transcendeu a condição de local de trânsito. Foi caminho, pouso, fazenda, fronteira e centro pecuário. E continua sendo, na memória de Santa Catarina, uma das cidades que melhor representam a força histórica e cultural da Serra.

Aos 260 anos de sua fundação, Lages convida à memória antes da festa: memória dos fazendeiros anônimos que já criavam gado nos campos antes mesmo da existência oficial da vila; dos tropeiros que abriram caminhos entre serras e fronteiras; de Antônio Correia Pinto de Macedo, que aceitou a missão de fundar uma povoação e enfrentou dificuldades, incertezas e adversidades; e de todas as famílias, trabalhadores livres e escravizados, indígenas e imigrantes que, ao longo de dois séculos e meio, ajudaram a transformar campos de passagem e pousos de tropas em uma cidade — e uma cidade em identidade.

É a essas mãos, algumas conhecidas e tantas outras anônimas, que Lages deve a sua história.

E é essa história que seguimos celebrando a cada 22 de novembro.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com

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