A Lages que Eu Conheço — Você Sabe Quem a Construiu?

A Lages que Eu Conheço — Você Sabe Quem a Construiu?

Um desafio ao leitor antes de começar


A história administrativa de Lages é marcada por gestões que enfrentaram contextos políticos, econômicos e sociais distintos, deixando obras, programas e políticas públicas que transformaram concretamente a vida da população. Com frequência, porém, a memória coletiva guarda apenas nomes e períodos, enquanto as realizações específicas se perdem no tempo.

 

Este exercício propõe o inverso: partir das obras e políticas para identificar quem as realizou.


O Desafio — Você Sabe o Que Cada Um Construiu?

Grupo 1 — Política, Oposição e Pioneirismo Democrático

Quem foi o primeiro prefeito da oposição eleito na história de Lages, em plena ditadura militar? Que gestão ousou enfrentar o sistema e abriu caminho para uma nova forma de fazer política na Serra Catarinense? Quem, entre os prefeitos de Lages, chegou a estudar administração pública em Madri — e por que isso importa?

Grupo 2 — Infraestrutura Urbana e Desenvolvimento Industrial

Quem deu os primeiros passos concretos na pavimentação de Lages, substituindo ruas de terra por lajotas — e em quais bairros isso ocorreu pela primeira vez? Qual gestão criou a primeira  Área Industrial às margens da BR-116, bem como a primeira Lei de Incentivos Econômicos e Isenção Tributária, abrindo caminho para o desenvolvimento econômico da cidade?

Quem asfaltou as principais avenidas estruturantes de Lages — Dom Pedro II, Marechal Floriano, Luís de Camões e outras vias importantes — transformando a mobilidade urbana? Quem construiu a Rodoviária Municipal Dom Honorato Piazera e ergueu o Ginásio Jones Minosso para sediar os Jogos Abertos de Santa Catarina?

Grupo 3 — Cultura, Identidade e Turismo

Quem idealizou o Turismo Rural e fez de Lages a Capital Nacional dessa modalidade de turismo? O que levou um prefeito a reunir empresários e hoteleiros na Biblioteca Municipal para perguntar “o que temos a oferecer?” — e qual foi a resposta que transformou a cidade?

Quem relançou a Festa do Pinhão, que anteriormente era denominada  de Festa da Tradição, e a transformou na Festa Nacional do Pinhão, projetando a cultura serrana em todo o Brasil? Qual gestão deu origem ao Recanto do Pinhão, hoje o principal “esquenta” da festa, preservando a gastronomia típica e a cultura comunitária lageana?

Grupo 4 — Participação Popular e Desenvolvimento Rural

Qual prefeito levou a democracia para dentro dos bairros, permitindo que os próprios moradores decidissem onde as ruas seriam calçadas? Quem criou mutirões habitacionais, hortas comunitárias, núcleos agrícolas e implantou projetos de piscicultura, silvicultura, ovinocultura, cunicultura e apicultura?

Quem criou o Horto Florestal Municipal, distribuindo gratuitamente mudas de eucalipto e pinus às famílias da região? Qual gestão transformou Lages num laboratório de desenvolvimento comunitário, documentado em livro e visitado por pesquisadores do Brasil e do exterior?

Quem fundou  as Comunidades Rurais Organizadas (CROs), fortalecendo o associativismo e a cooperação entre pequenos produtores rurais de Lages?

Grupo 5 — Saude,Educação e Inclusão Social

Quem criou o inovador sistema de saúde pública com médicos itinerantes nos bairros de Lages, modelo apontado como uma das inspirações para o Sistema Único de Saúde (SUS)? Qual gestão encontrou índices de 35% de analfabetismo, 38% de repetência e 29% de evasão escolar já na primeira série — e teve coragem de admitir publicamente o problema antes de prometer soluções?

Quem destinou 37,4% do orçamento municipal à educação e criou a Secretaria da Criança, sinalizando que toda a administração deveria estar comprometida com o futuro das novas gerações? Quem criou a Escola Itinerante — primeira do país —, levando educação às comunidades rurais mais distantes por meio de ônibus escolares?

Qual prefeito idealizou o Congresso de Educação do Município de Lages, consolidado ao longo de quase duas décadas como principal espaço de formação continuada dos educadores da rede pública? Em que gestão o FUNDEF transformou o financiamento da educação municipal, consolidando o ensino como política pública estruturada e sustentável?

Grupo 6 — Habitação, saneamento e Serviços Públicos

Qual gestão entregou cerca de três mil casas populares — o equivalente a uma cidade inteira erguida dentro da cidade? Quem construiu centros de educação infantil, instalou academias ao ar livre, reformou escolas e avançou no saneamento básico?

Quem retificou o Rio Carahá, diminuindo as enchentes que castigavam ciclicamente as famílias mais vulneráveis de Lages? Quem calçou mais de 500 ruas em regime de mutirão — a prefeitura com as lajotas, os moradores com o cimento e a mão de obra?

Quem criou a SEMASA, municipalizando o serviço de água e saneamento em Lages, reduzindo as tarifas em 30% e garantindo que o lucro fosse reinvestido na própria cidade? Quem criou o Programa Banheiro Social, construindo e doando mais de 2.000 banheiros completos para famílias carentes sem saneamento básico em Lages?

Grupo 7 — Modernização Administrativa, Tributária e Tecnológica

Quem criou o Manual do Contribuinte e o Balcão Único de Atendimento Tributário, simplificando a vida do cidadão na relação com o fisco? Quem, insatisfeito com as limitações do sistema existente, exigiu da Cetil Informática uma solução inovadora que reunisse numa única consulta toda a situação do contribuinte — dando origem ao AR CETIL e tornando Lages referência em gestão tributária digital? Quem elaborou o Plano Diretor de Informática, preparando a prefeitura para a era digital quando poucos municípios brasileiros sequer cogitavam isso? Quem criou o Serviço de Inspeção Municipal, regularizando as pequenas agroindústrias locais? Quem lançou o programa Bairros que Trabalham, levando capacitação e crédito aos pequenos empreendedores? Quem compilou as legislações específicas do Código Tributário em publicação única e elaborou o Guia Prático do Contencioso Administrativo Tributário?                             

Grupo 8 — Inovação na Gestão Pública

Qual prefeito introduziu em Lages o CMA — Círculo de Melhoria de Assistência —, adaptando pela primeira vez para a administração pública municipal brasileira a metodologia japonesa dos Círculos de Controle de Qualidade de Kaoru Ishikawa? Quem criou o LagesPrevi, o instituto de previdência dos servidores municipais? Quem implantou o Orçamento Participativo, tornando os moradores protagonistas das decisões sobre onde o dinheiro público seria investido?

Grupo 9 — Trajetória Política além de Lages

Quem, após governar Lages, foi deputado federal, senador e governador de Santa Catarina por dois mandatos consecutivos, presidindo ainda a CELESC e a CASAN? Quem deixou a prefeitura e se tornou deputado federal por três mandatos, sendo um dos autores do Estatuto do Idoso? Qual prefeito de Lages foi também constituinte na elaboração da Carta de 1988 e ficou para a história como o homem que entregou pessoalmente o documento de afastamento do presidente Fernando Collor?


Você votou neles. Mas sabe o que cada um construiu?

Este artigo é um convite à memória cívica — especialmente para quem viveu esses anos, foi às urnas em cada pleito e sentiu na pele o que cada gestão deixou na cidade. Lages mandato a mandato: sete gestões, sete marcas, um desafio ao leitor. Porque a Princesa da Serra e seus governantes merecem ser lembrados pelo que fizeram — não apenas pelo nome que carregavam. E porque obras sem nome são obras sem história. Descubra, ao longo destas páginas, qual prefeito está por trás de cada realização. A cidade que você ajudou a construir tem autores. É hora de conhecê-los.


Das Origens ao Presente

Tudo começou com os fundadores.

Antônio Correia Pinto de Macedo fundou Lages em 1766 e a governou por quase duas décadas como Capitão-Mor. Bento do Amaral Gurgel Annes conduziu a vila por 27 anos — o administrador mais longevo do período colonial. João de Castro Nunes inaugurou a era republicana em 1892. Foram eles que plantaram a semente de tudo que viria depois.

Por décadas, o poder ficou concentrado numa única família, enraizada no coronelismo. O ciclo da madeira urbanizou o município nos anos 1950 e 1960, criando um eleitorado com novas demandas e uma cidade em transformação acelerada. Em 1972, em plena ditadura militar, a oposição venceu pela primeira vez — início de uma das histórias mais ricas da administração pública municipal brasileira.


Sete Prefeitos e Sete Momentos da Transformação de Lages

A história de Lages não foi construída por uma única liderança, nem por um único ciclo administrativo. Cada prefeito enfrentou os desafios do seu tempo e deixou marcas que, somadas, ajudaram a moldar a cidade que conhecemos hoje. Ao revisitar essas gestões, surge uma pergunta inevitável: você reconhece os nomes — ou reconhece as obras?

Cada um foi filho do seu tempo. Nenhum foi perfeito. Mas cada um serviu ao interesse público acima do próprio. Lages não foi construída por reis — foi erguida pela sua própria gente e pelos que tiveram a honra de governá-la.


O Gabarito — E Então, Você Acertou?

Se você viveu Lages nos últimos cinquenta anos, foi às urnas, acompanhou os debates e sentiu na pele o que cada gestão deixou na cidade, este é o momento de conferir suas respostas.


Prefeito Juarez Rogério Furtado (1973–1977)

Juarez Furtado venceu a eleição de 1972 em plena ditadura militar — a primeira vitória da oposição na história de Lages. Sua gestão foi marcada pela descentralização dos serviços públicos e por uma visão administrativa que chamou a atenção do país inteiro, elegendo Lages entre os 20 municípios de maior destaque do Sul do Brasil. Furtado estudou administração pública em Madri — uma raridade para um prefeito de cidade do interior nos anos 1970.

Com forte viés de modernização urbana e desenvolvimento econômico, sua gestão coincidiu com o período em que as cidades brasileiras de médio porte estruturavam suas primeiras zonas industriais — movimento impulsionado, em Lages, pelo crescimento urbano gerado pelo ciclo da madeira na Serra Catarinense. É nesse contexto que se insere a criação da primeira Área Industrial, situada às margens da BR-116, no km 246, bem como a elaboração da primeira legislação de Incentivos Econômicos e Isenção Tributária — iniciativas que pavimentaram o caminho para o desenvolvimento econômico da cidade, hoje consolidada com inúmeras empresas instaladas naquela região.

Na infraestrutura urbana, foi também nessa administração que Lages deu seus primeiros passos concretos na substituição das ruas e avenidas de terra por soluções mais duráveis. As primeiras pavimentações com lajotas ocorreram na Avenida Brasil, no bairro São Cristóvão, e na Rua São Joaquim, no bairro Copacabana — marcos iniciais de um processo de urbanização que as gestões seguintes continuariam a ampliar.

Foi ainda em sua gestão que surgiu, com o nome inicial de Festa da Tradição, aquela que daria origem ao Recanto do Pinhão. Sua criação está diretamente ligada ao legado de Aracy Paim, responsável pela organização da festa em 1973, na Praça João Costa. Realizado no calçadão desse espaço público, o Recanto consolidou-se como o principal “esquenta” da Festa Nacional do Pinhão, oferecendo programação gratuita com música regional, apresentações culturais e gastronomia típica — como entrevero, paçoca de pinhão, quentão e ponche —, além da participação de entidades beneficentes e da valorização de artistas locais. Ao longo dos anos, tornou-se um dos símbolos mais autênticos da cultura lageana, mantendo viva a essência comunitária e tradicional da festa.

Furtado foi advogado e uma das principais lideranças políticas de Lages e de Santa Catarina na segunda metade do século XX. Formado em Direito pela PUC-PR, com pós-graduação em Direito Civil, também era técnico em contabilidade e bacharel em Administração pela UFPR.

Iniciou sua vida pública como vereador em Lages (1967–1973) e deputado estadual na ALESC (1971–1975). Foi prefeito de Lages (1973–1977), gestão marcada pela criação da área industrial da cidade. Seguiu para o cenário federal como deputado (1979–1983), atuando nas comissões de Constituição e Justiça e de Agricultura. Retornou à ALESC em segundo mandato (1987–1991), tendo presidido a Assembleia Legislativa nesse período, e ainda exerceu a Secretaria de Estado do Trabalho e Desenvolvimento Comunitário de Santa Catarina.


Prefeito Dirceu José Carneiro (1977–1982)

Dirceu Carneiro governou Lages com um método que o Brasil, sob ditadura, mal sabia nomear: democracia participativa. Os próprios bairros decidiam onde calçar as ruas, os agricultores compartilhavam os tratores da prefeitura — incluindo tratores de esteira para destoca e abertura de açudes — e a população era protagonista das decisões que afetavam sua vida cotidiana.

Sua administração criou mutirões habitacionais, hortas comunitárias e núcleos agrícolas, e implantou projetos de piscicultura, silvicultura, ovinocultura, cunicultura e apicultura. Criou o Horto Florestal Municipal, responsável pela produção e distribuição gratuita de mudas de eucalipto e pinus às famílias da região. O modelo chamou a atenção de pesquisadores brasileiros e estrangeiros e chegou a ser documentado em livro — registro de uma gestão que pensava Lages como laboratório vivo de desenvolvimento comunitário.

Carneiro é arquiteto formado pela UFRGS.  Foi vice-prefeito (1973–1977) e prefeito de Lages (1977–1982).  Ciou um inovador sistema de saúde pública com médicos itinerantes nos bairros — modelo apontado como uma das inspirações para o SUS.

No plano nacional, foi deputado federal constituinte (1983–1987) e senador da República (1987–1995), período em que ajudou a fundar o PSDB e teve papel histórico no impeachment de Collor, sendo o responsável por entregar-lhe a notificação de afastamento e empossar Itamar Franco. Contribuiu ainda para a elaboração do Código de Defesa do Consumidor e da Lei de Doação de Órgãos. Após encerrar a vida pública, dedicou-se à agropecuária em Campos Novos.


Prefeito Paulo Alberto Duarte (1983–1988)

Paulo Duarte, médico formado pela UFRGS em 1968, construiu uma trajetória de destaque na vida pública de Lages e de Santa Catarina. Antes de ingressar na política, dirigiu o Hospital e Maternidade Teresa Ramos entre 1972 e 1982, acumulando experiência na gestão da saúde local.

Eleito prefeito de Lages para o período 1983–1988, assumiu o cargo em um dos momentos mais delicados da história recente do município. A emancipação dos distritos de Otacílio Costa e Correia Pinto havia reduzido drasticamente a arrecadação municipal, deixando a administração diante de um sério dilema financeiro. A resposta veio de uma pergunta feita em reunião pública com empresários e hoteleiros na Biblioteca Municipal: “O que Lages tem para oferecer?” A resposta estava na própria identidade serrana — o frio, as fazendas centenárias, a culinária campeira e as araucárias. Dessa reflexão nasceu o turismo rural brasileiro: em 1984, abriu o primeiro hotel fazenda do Brasil, na Fazenda Pedras Brancas, e Lages tornou-se sua capital nacional.

Sua gestão deixou ainda outras marcas pioneiras. Relançou e transformou a Festa do Pinhão na Festa Nacional do Pinhão, projetando a cultura serrana em todo o país. Criou a Escola Itinerante — primeiro modelo desse tipo no Brasil —, levando educação às comunidades rurais mais distantes. Implantou o CMA — Círculo de Melhoria de Assistência —, adaptando para a administração pública municipal a metodologia japonesa dos Círculos de Controle de Qualidade do professor Kaoru Ishikawa. Criou também as CROs — Comunidades Rurais Organizadas —, fortalecendo o associativismo e a cooperação entre pequenos produtores rurais, antecipando a valorização que o turismo rural consolidaria posteriormente. Nesse período, presidiu ainda a Associação dos Municípios da Região Serrana (AMURES).

No plano federal, foi eleito deputado para a 49ª legislatura (1991–1995), integrando as comissões de Seguridade Social e Família e de Ciência e Tecnologia. Em 1992, teve participação histórica ao votar a favor da abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Paulo Alberto Duarte — Médico, Gestor e Visionário.


Prefeito João Raimundo Colombo (1989–1992/2001–2004/2005–2006)

Colombo foi o primeiro prefeito eleito sob a Constituição de 1988 e teve o desafio histórico de adequar toda a legislação municipal ao novo ordenamento jurídico nacional — tarefa técnica e política de enorme complexidade. Regulamentou o ITBI e o IVVC, impostos municipais criados pela nova Carta.

Em paralelo, sua administração deixou obras que redefiniram a paisagem urbana de Lages: construiu a Rodoviária Municipal Dom Honorato Piazera, asfaltou avenidas estruturantes como a Dom Pedro II, a Marechal Floriano e a Luiz de Camões, ergueu o Ginásio Jones Minosso — sede dos Jogos Abertos de Santa Catarina — e criou o Serviço de Inspeção Municipal, que regularizou e fortaleceu as pequenas agroindústrias locais.

Foi prefeito de Lages em três mandatos distintos. Sua trajetória, porém, ultrapassou amplamente os limites do município: presidiu a CELESC e a CASAN, exerceu mandato de deputado federal e de senador e, por dois mandatos consecutivos, governou o Estado de Santa Catarina — tornando-se um dos políticos catarinenses de maior projeção de sua geração.

Em 2003, Raimundo Colombo tomou uma decisão que mudaria a relação de Lages com um dos serviços mais essenciais à vida urbana: a água e o saneamento. Ao criar a SEMASA — Serviço Municipal de Água e Saneamento —, ele promoveu a municipalização do abastecimento hídrico da cidade, retirando esse serviço das mãos de concessionárias externas e colocando-o sob controle do próprio município.

Com a municipalização da água e do esgoto, Raimundo reduziu as tarifas em 30%. Os recursos gerados pela SEMASA financiaram o Programa Banheiro Social, que construiu e doou mais de 2.000 banheiros completos a famílias carentes sem saneamento básico.

João Raimundo Colombo, produtor rural e político catarinense, construiu uma das trajetórias mais expressivas da política de Santa Catarina. Primeiro prefeito da era constitucional de Lages, foi também construtor de obras que ainda estruturam a cidade e idealizador de um congresso que forma educadores.

Na vida pública, atuou como deputado estadual (1987–1988), deputado federal (1997 e 1999–2001) e prefeito de Lages por três mandatos (1989–1992, 2001–2004 e 2005–2006). Presidiu a Celesc e a Casan antes de ser eleito senador da República (2007–2010). Governou Santa Catarina por dois mandatos consecutivos (2011–2018), eleito e reeleito em primeiro turno, renunciando em 2018 para disputar o Senado.


Prefeito Carlos Fernando Agustini — O Coruja (1993–1996)

Esta gestão tornou os moradores protagonistas das decisões orçamentárias: em assembleias nos próprios bairros, a população deliberava sobre onde os recursos seriam investidos. Na prática, mais de 500 ruas foram calçadas em mutirão — a prefeitura com as lajotas, os moradores com o cimento e a mão de obra. A retificação do Rio Carahá pôs fim às enchentes que castigavam as famílias mais vulneráveis. Criou-se ainda o LagesPrevi, o instituto de previdência dos servidores municipais.

Educação: quando os números exigiram coragem para mudar

Ao assumir, a gestão encontrou números alarmantes: 35% de analfabetismo, 38% de repetência e 29% de evasão já na primeira série. A rede contava com 170 unidades de ensino — entre escolas multisseriadas, municipalizadas, pré-escolas isoladas e a pioneira Escola Itinerante. A administração admitiu publicamente o problema, destinou 37,4% do orçamento à educação em 1994, criou a Secretaria da Criança, descentralizou a gestão escolar, nucleou as pequenas escolas rurais em unidades maiores, implantou bibliotecas, reorganizou o transporte escolar e fortaleceu a Educação de Jovens e Adultos. A rede, que tinha 170 unidades, conta hoje com 118 — reflexo direto desse processo de reorganização.

Carlos Fernando Coruja, médico e professor, trilhou uma trajetória pública marcante em Lages e em Santa Catarina. Na cidade, foi diretor de Saúde Pública (1983–1988), vereador (1989–1992) e prefeito (1993–1996), governando de baixo para cima — ouvindo os bairros, pavimentando ruas em mutirão e enfrentando as enchentes do Carahá. No estado, assumiu a Secretaria de Saúde (2003–2004) e retornou à Assembleia Legislativa em 2017. No plano federal, foi deputado por Santa Catarina em três legislaturas consecutivas (1999–2011), deixando como legado nacional uma lei de proteção aos idosos.


Prefeito Décio da Fonseca Ribeiro (1997–2000)

Décio da Fonseca Ribeiro é médico formado pela PUC-RS, com pós-graduação em Dermatologia e Medicina do Trabalho. Na vida pública, atuou como Secretário Municipal de Saúde de Lages em dois períodos (1983–1988 e 1992–1993), deputado estadual na ALESC (1995–1997) e prefeito de Lages (1997–2000). Foi ainda Conselheiro Estadual de Saúde de Santa Catarina.  Em sua trajetória pública consolidou-se  como figura importante  no cenário político  lageano e catarinense.

Sua gestão à frente da prefeitura destacou-se pela modernização silenciosa — aquela que não aparece em inaugurações festivas, mas que muda a vida de quem precisa resolver algo com o poder público.

Na área tributária e administrativa, criou o Manual do Contribuinte, reunindo em linguagem acessível tudo o que o cidadão precisava saber sobre direitos e obrigações fiscais, e o Balcão Único de Atendimento Tributário, que centralizou num só ponto a consulta de débitos, a emissão de certidões e a orientação sobre parcelamentos. O programa Bairros que Trabalham ofereceu capacitação e crédito aos pequenos empreendedores. O Plano Diretor de Informática preparou a prefeitura para a era digital quando poucos municípios brasileiros sequer cogitavam isso.

Insatisfeito com as limitações do sistema TM CETIL então em uso, exigiu da Cetil Informática de Blumenau uma solução capaz de reunir, numa única consulta, a situação completa do contribuinte em relação à Dívida Ativa — abrangendo IPTU, ISQN, ITBI -Inter Vivos, taxas, contribuições de melhoria e parcelamentos. Dessa exigência nasceu o AR CETIL, desenvolvido colaborativamente com os próprios servidores da Secretaria de Finanças — numa prática que hoje reconhecemos como desenvolvimento ágil — representando um salto tecnológico na administração tributária de Lages e tornando-a uma das primeiras cidades catarinenses a informatizar sua gestão tributária. O resultado: lançamentos mais precisos, cobrança mais eficiente e crescimento sustentado da arrecadação municipal.

Na educação, a gestão foi marcada pela implantação do FUNDEF — Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério. Com ele, a Prefeitura passou a receber recursos federais proporcionais ao número de matrículas, criando estímulo concreto para ampliar o atendimento, investir na formação e remuneração dos professores e melhorar a infraestrutura das escolas. O ensino municipal consolidou-se, neste período, como política pública estruturada e sustentável — herdando os avanços da gestão anterior e dando-lhes continuidade institucional.

Sem inaugurações ruidosas, Décio Ribeiro modernizou por dentro a máquina pública — criou o Manual do Contribuinte e o Balcão Único Tributário, impulsionou o desenvolvimento do AR CETIL tornando Lages referência em gestão tributária digital, preparou a prefeitura para a era digital com o Plano Diretor de Informática, apoiou os pequenos empreendedores com o programa Bairros que Trabalham e garantiu, com o FUNDEF, que a educação municipal ganhasse sustentação financeira duradoura.


Prefeito Renato Nunes de Oliveira — (2006/2008–2012)

Renato Nunes de Oliveira foi advogado e político lageano cuja trajetória ficou marcada pela proximidade com as causas populares e pelo compromisso com o desenvolvimento urbano de Lages. Formado em Direito, construiu sua carreira ao longo de aproximadamente 15 anos como assessor jurídico da Câmara de Vereadores, acumulando experiência institucional antes de ingressar definitivamente na vida pública.

Sua trajetória política teve início ao lado de Raimundo Colombo, sendo eleito e reeleito vice-prefeito (2001–2006). Em abril de 2006, assumiu a prefeitura após a renúncia de Colombo para concorrer ao Senado. Em 2008, conquistou mandato próprio ao vencer uma acirrada eleição com quase 47% dos votos, governando Lages até 2012.

Sua gestão deixou marcas concretas na vida dos lageanos. Entregou aproximadamente três mil casas populares — o equivalente a uma cidade inteira erguida dentro da cidade. Ampliou centros de educação infantil, instalou academias ao ar livre, reformou escolas, avançou no saneamento básico e abriu novos corredores urbanos asfaltados.

Na educação, deixou uma marca de longa duração: em 2007, idealizou o Congresso de Educação do Município de Lages, promovido anualmente pela Secretaria Municipal de Educação, reunindo professores e profissionais da área em palestras, seminários e oficinas pedagógicas. Ao longo de quase duas décadas de realização ininterrupta, consolidou-se como o principal espaço de formação continuada da educação pública de Lages e da Serra Catarinense.

No campo jurídico-tributário, sob a liderança do Secretário da Fazenda Walter Manfrói, foram compiladas legislações específicas do Código Tributário em publicação única e elaborado o Guia Prático do Contencioso Administrativo Tributário — distribuído com patrocínio do CRC/SC a contadores e advogados do município.

Renato Nunes de Oliveira faleceu em 26 de agosto de 2015, aos 68 anos. A Câmara de Vereadores batizou sua biblioteca com seu nome, e Lages lhe concedeu o título mais sincero que uma comunidade pode oferecer: Alma Lageana.


Lages, com carinho:

a memória dos prefeitos que amaram esta cidade

Sete gestões. Sete retratos do seu tempo. Nenhuma perfeita — todas humanas, com acertos e limitações, inovações e recuos. Mas cada uma deixou algo que permanece: uma rua calçada, uma festa nacional, um hotel fazenda que inaugurou o turismo rural brasileiro, uma biblioteca com nome de prefeito, três mil famílias com teto, um instituto de previdência, um manual que explicou ao cidadão comum o que ele devia e o que tinha direito de exigir.

Ao escrever este artigo, percebi que estava fazendo muito mais do que organizar nomes e datas. Estava tentando devolver à minha cidade aquilo que o tempo e o esquecimento costumam levar: a memória de quem a construiu. Acompanhei de perto, desde menino, os debates políticos no comércio do meu pai — e, já adulto, vivi diretamente os efeitos de cada uma dessas gestões. Mais do que testemunha, fui participante: integrei as administrações municipais de Lages de 1976 a 2012, acompanhando de dentro cada decisão, cada obra, cada avanço e cada recuo que este artigo narra. Esse artigo é, portanto, um ato de gratidão e de responsabilidade. Gratidão pelos que governaram com seriedade e entregaram obras que resistiram ao tempo. Responsabilidade com os que virão — para que saibam o que foi feito, por quem foi feito e o quanto custou fazê-lo.

A cidade que você conhece hoje foi construída por essas gestões — e pelos eleitores que, em cada pleito, fizeram suas escolhas. O voto não é apenas um direito. É uma responsabilidade com o futuro da cidade. E entender o passado é a melhor forma de exercê-lo bem.

 

 

....não há corpo sem células. Não há Estado sem Municipalidades.Não pode existir matéria vivente sem vida orgânica. Não se pode imaginar existência de Nação, existência de povo constituido, existência de Estado, sem vida Municipal. Rui Barbosa.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer Contato: walmor1953@gmail.com


Nota Técnica

Considerando o amplo recorte temporal desta pesquisa — que abrange o período de 1976 a 2012 — é possível que ocorram eventuais imprecisões, inconsistências ou omissões de natureza histórica. Uma vez identificadas, tais ocorrências serão objeto de revisão criteriosa e atualização permanente, com o compromisso de assegurar a fidelidade histórica, a integridade das informações e o valor documental deste acervo.


Fontes

Legislação Municipal

Leis Municipais nº 1.448, 1.449 e 1.522, todas de 1989; Lei Municipal nº 2.781/2001; Lei Complementar nº 148/2001; Lei Municipal nº 3.336/2006; e Lei Municipal nº 721/1983 — Código Tributário Municipal e suas alterações.


Publicações do Autor

As três obras abaixo foram produzidas pelo próprio autor deste artigo no exercício de suas funções na administração municipal de Lages. Constituem fontes primárias de especial valor documental — registros diretos da modernização tributária promovida pela gestão Décio Ribeiro e continuada na gestão Renatinho, e expressão concreta do compromisso com a transparência e o acesso do cidadão à informação fiscal.

SCHWEITZER, Walmor Tadeu. Manual do Contribuinte — Cidade de Lages. Lages: Prefeitura do Município de Lages, 1999.

SCHWEITZER, Walmor Tadeu. Compilação de Legislações Específicas do Código Tributário do Município de Lages — abrangendo o Código Tributário Municipal originalmente instituído em 1983 e suas alterações subsequentes. Lages: Prefeitura  do Município de Lages, 2007. Patrocínio: CRC/SC.

SCHWEITZER, Walmor Tadeu. Guia Prático do Contencioso Administrativo Tributário. Lages: Prefeitura do Município de Lages, 2007. Patrocínio: CRC/SC.


Obras de Referência em Administração Pública

BARNARD, Chester. The Functions of the Executive. Harvard University Press, 1938.

GREENLEAF, Robert K. Servant Leadership. Paulist Press, 1977.

ISHIKAWA, Kaoru. What is Total Quality Control? The Japanese Way. Prentice-Hall, 1985.


Trabalhos Acadêmicos

FÁVERO, Tâmyta Rosa. Tramas e Desenlaces Eleitorais: O Cenário Político na “Velha Lages” durante a Ditadura Militar (Lages, SC, Década de 1970). Dissertação de Mestrado em Sociologia Política. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina — UFSC, 2010.

CAMARGO, Arleide Catarina Wolff. Relações da Proposta do Projeto EducaAção com o Cotidiano das Escolas Delta e Alfa. Trabalho Acadêmico — Curso de História. Universidade Federal de Santa Catarina — UFSC / Universidade do Planalto Catarinense — UNIPLAC. Lages, 2001.


Fontes Digitais

Câmara dos Deputados: www.camara.leg.br

Senado Federal: www.senado.leg.br

Câmara Municipal de Lages: www.camaralages.sc.gov.br

Prefeitura do Municipio de Lages: www.lages.sc.gov.br

Wikipedia — verbete Dirceu Carneiro: pt.wikipedia.org/wiki/Dirceu_Carneiro


Fonte Pessoal

SCHWEITZER, Walmor Tadeu. Memória e acompanhamento direto das administrações municipais de Lages entre as gestões de Juarez Rogério Furtado e Renato Nunes de Oliveira. Lages, SC.

 

8 Comentários
  • Febrônia Boas reflexões para levarmos para nós... Estamos sempre fazendo julgamentos!
    Postado em 07:47h, 06 maio Responder

    Gostei de conhecer mais um pouco da história de LAGES ..
    Ficou ótimo Parabéns pela sua pesquisa 👏

    • Pio - Walmor
      Postado em 15:32h, 08 maio Responder

      Obrigado Fe pelo comentário, tal artigo, alem da pesquisa, têm relatos do que presencie e participei ativamente no periodo que trabalhei na Prefeitura, de 1976 a 2012.

    • Pio - Walmor
      Postado em 15:42h, 08 maio Responder

      Joia Paulinha.Que bom que ao escrever relatos da nossa história estou agradando o leitor.

  • Rui Recchia
    Postado em 07:47h, 06 maio Responder

    Excelente trabalho e registro de extremo valor da história de Lages-SC.
    Lageano incansável em mostrar ao mundo a sua Princesa da Serra. Parabéns!

    • Pio - Walmor
      Postado em 15:59h, 08 maio Responder

      Obrigado meu amigo Rui pelo Feedback. Realmente a nossa cidade, que já foi a maior e mais importante do interior de Santa Catarina, é rica em história. Os fatos que aqui ocorreram são dignos de ser relatados pelo pioneirismo das acoes de seus mandatários.

  • Ana Paula
    Postado em 13:28h, 06 maio Responder

    Quem ama essa terra vai viajar na história ao ler o artigo! Emocionante.

  • Osmar daniel goulart
    Postado em 20:36h, 01 junho Responder

    Osmar d. Goulart.
    Parabéns Walmor , excelente artigo como você bem disse quem viveu e votou em loges nos últimos 50 anos ia rever a história de lages, diga-se muito bem escrita .

    • Pio - Walmor
      Postado em 00:37h, 06 junho Responder

      Obrigado, Osmar. Coloquei no papel décadas de memória viva — tudo que acompanhei de perto, das administrações de Juarez Rogério Furtado à de Renato Nunes de Oliveira. São épocas que moldaram Lages, e sinto que registrá-las é um dever de quem esteve lá.

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