Lages, 1973–2011: o que ficou

Lages, 1973–2011: o que ficou

Tudo começou com os fundadores. Antônio Correia Pinto de Macedo fundou Lages em 1766 e a governou por quase duas décadas. Bento do Amaral Gurgel Annes conduziu a vila por 27 anos. João de Castro Nunes inaugurou a era republicana em 1892. Foram eles que plantaram a semente.

Por décadas, o poder ficou concentrado numa única família, enraizada no coronelismo. O ciclo da madeira urbanizou o município nos anos 1950 e 1960, criando um eleitorado com novas demandas. Em 1972, em plena ditadura, a oposição venceu pela primeira vez — início de uma das histórias mais ricas da administração pública municipal brasileira.

O primeiro prefeito da nova era (1973–1977) pavimentou periferias, descentralizou a saúde para os bairros e tornou Lages referência nacional em resíduos sólidos. Estudou administração pública em Madri — raridade à época. A cidade foi eleita um dos 20 municípios de maior destaque do Sul do país.

Um arquiteto (1977–1982) levou a democracia para dentro dos bairros: criou mutirões habitacionais, distribuiu tratores para comunidades rurais, implantou hortas comunitárias e projetos de piscicultura e silvicultura. Seu governo foi documentado em livro e visitado por pesquisadores internacionais.

Um médico (1983–1988) herdou a cidade quebrada — dois distritos emancipados levaram quase metade da receita. Reuniu empresários e hoteleiros na biblioteca pública e perguntou: o que temos a oferecer? A resposta estava nas araucárias, no frio e nas fazendas centenárias. Nasceu o turismo rural brasileiro — e Lages se tornou sua capital. Relançou a Festa do Pinhão como evento nacional e criou a Escola Itinerante, que funciona até hoje nas zonas rurais mais distantes.

A gestão seguinte (1989–1992) adequou Lages à nova Constituição, regulamentou impostos municipais, asfaltou avenidas estruturantes, construiu a nova rodoviária, ergueu um amplo ginásio poliesportivo e projetou a revitalização do centro da cidade.

Outro prefeito (1993–1996) praticou democracia direta: moradores votavam onde aplicar o dinheiro público. Mais de 500 ruas foram calçadas em mutirão — a prefeitura com as lajotas, os vizinhos com cimento e mãos. Retificou o Rio Carahá, acabando com enchentes que castigavam os mais pobres, e criou o sistema de previdência dos servidores. Como deputado federal, ajudou a construir o Estatuto do Idoso.

Houve quem organizasse a máquina com discrição (1997–2000): criou o Manual do Contribuinte em linguagem acessível, o Balcão de Atendimento Tributário, o programa Bairros que Trabalham — capacitação e crédito para pequenos empreendedores — e um Plano Diretor de Informática que preparou a prefeitura para a era digital.

Por fim, um advogado de carreira construída tijolo a tijolo (2005–2012): quinze anos de assessoria jurídica, vice-prefeito, eleito com quase 47% dos votos. Entregou três mil casas populares, saneamento básico, educação infantil, academias ao ar livre e quilômetros de asfalto. Deixou ainda ferramentas de cidadania fiscal: organizou a legislação tributária em publicação única, elaborou um guia do contencioso administrativo e sistematizou leis de incentivos e isenções fiscais. A cidade o chamou de Alma Lageana.

Cada um foi filho do seu tempo. Nenhum foi perfeito. Mas cada um serviu ao interesse público acima do próprio. Lages não foi construída por reis — foi erguida pela sua própria gente e pelos que tiveram a honra de governá-la.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com 

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