22 jun O futuro de Lages pode ter o cheiro de maçã – JORNAL
A FRUTA QUE PODER VIRAR RIQUEZA E POR QUE ESTAMOS PERDENDO TEMPO
Quando penso em Lages, a primeira imagem que me vem à mente não são as ruas movimentadas nem o comércio aquecido. Vejo campos imensos, céu azul cortado por nuvens baixas e um solo escuro que guarda segredos. Cresci ouvindo que a maçã era coisa de São Joaquim e Fraiburgo — e é verdade que essas cidades escreveram páginas fundamentais da fruticultura brasileira. Mas Lages tem algo diferente, e preciso dizer isso com todas as letras: tem escala, tem ciência, tem logística e, principalmente, tem gente capaz de fazer acontecer.
O que me move a escrever é a convicção incômoda de que estamos desperdiçando um dos maiores potenciais agrícolas do Sul do Brasil. E quero começar por onde tudo começou: por um agrônomo visionário, uma maçã entregue nas mãos certas e uma decisão que valeu décadas de desenvolvimento.
A LIÇÃO QUE NINGUÉM DEVERIA ESQUECER
Por trás de cada maçã catarinense há uma história que poucos conhecem — e um nome que merece ser lembrado: Glauco Olinger. Extensionista rural da ACARESC, hoje EPAGRI, ele não enxergava os campos de altitude da Serra Catarinense como simples pastagem. Enxergava futuro. Com olhar técnico e convicção inabalável, foi ele quem revelou que aquele terroir frio, luminoso e de solos profundos guardava um potencial que a macieira, e só ela, saberia honrar.
A história que se tornou lendária nos corredores da agricultura catarinense é simples, mas poderosa: certa vez, Olinger levou uma maçã produzida em São Joaquim e a entregou pessoalmente ao então Ministro da Fazenda, Delfim Netto. A cena pode parecer singela, mas tinha um propósito estratégico — mostrar que o Brasil era capaz de produzir uma fruta de padrão internacional. Delfim Netto provou a maçã, ficou convencido, e o resultado foi o apoio governamental que viabilizou a expansão da pomicultura no estado.
Esse episódio carrega uma lição que não abandono: às vezes, uma boa ideia precisa apenas de uma fruta bem escolhida, entregue à pessoa certa, no momento certo. A pergunta que não quer calar é: quem será o Olinger de Lages?
POR QUE LAGES É DIFERENTE
Para compreender o potencial de Lages, é preciso entender o que a cidade possui que outras regiões não têm — ou têm em menor quantidade.
Lages é o maior município em área territorial de Santa Catarina. Isso significa espaço para implantar pomares em grande escala, algo que, para investidores que pensam em projetos corporativos, torna o endereço difícil de ignorar. A altitude média de 930 metros garante invernos frios e boa soma de horas de frio — exatamente o que as novas variedades de Gala e Fuji precisam. Ao contrário das variedades antigas, esses clones modernos exigem menor rigor de frio, e o inverno de Lages atende com folga.
Os solos basálticos da região são profundos, com boa capacidade de retenção de água e de nutrir as raízes da macieira por décadas. Com manejo correto, produzem frutas firmes, sem distúrbios fisiológicos e com longa durabilidade pós-colheita. A logística completa o quadro: Lages está no cruzamento da BR-116, a poucas horas dos grandes centros consumidores e dos portos de Itajaí e Navegantes, por onde a fruta pode embarcar para a Europa.
Clima, terra, estrada e ciência. O que ainda falta é transformar essas vantagens em um projeto coletivo de desenvolvimento.
O POMAR DO FUTURO JÁ ESTÁ AQUI
Quando a maioria das pessoas pensa em uma macieira, imagina árvores altas e arredondadas. O pomar moderno, porém, é diferente: parece um corredor de plantas esguias e organizadas, formando paredes verdes carregadas de frutas. Esse sistema chama-se Muro Frutal, e representa uma das maiores inovações da fruticultura mundial nas últimas décadas.
O relevo predominantemente plano de Lages é ideal para esse modelo. Máquinas circulam livremente entre as fileiras, reduzindo custos operacionais e aumentando a eficiência de cada etapa — da poda à colheita. Isso coloca Lages entre os lugares mais adequados do Brasil para implantar pomares de última geração.
O investimento é considerável, mas o retorno é sólido: em um hectare de maçã com tecnologia moderna, o capital começa a ser recuperado entre o quarto e o quinto ano, e o pomar pode produzir comercialmente por até vinte anos. É um investimento de médio prazo com retorno longo e estável — algo raro em tempos de incerteza econômica. E o alcance é global: uma maçã bem produzida em Lages pode ir da árvore ao supermercado europeu em menos de 72 horas.
O QUE O PODER PÚBLICO PRECISA ENTENDER
A história de Glauco Olinger e Delfim Netto ensina que política pública e incentivo governamental são peças fundamentais. A maçã brasileira não cresceu por acaso: cresceu porque houve pessoas com visão e instrumentos de Estado alinhados a essa visão.
Hoje, Lages precisa do mesmo tipo de apoio. Algumas medidas concretas fariam diferença imediata:
- Isenção de tributos municipais para propriedades que implantem pomares modernos;
- Criação de um fundo municipal de investimento agroindustrial, voltado à pomicultura;
- Programas de qualificação profissional para técnicos e produtores rurais;
- Um selo “Maçã de Lages” como primeiro passo para uma Indicação Geográfica reconhecida.
No âmbito estadual, Santa Catarina já oferece instrumentos importantes. Cabe aos produtores e cooperativas utilizá-los com mais intensidade e articulação. Incentivo fiscal não é gasto: é o adubo que faz crescer o empreendimento que vai gerar impostos, empregos e renda por décadas.
O QUE EU VEJ0 PARA LAGES
Concluo com a mesma convicção que abriu este artigo: Lages tem o que precisa para se tornar um dos maiores e mais modernos polos de produção de maçã do Brasil. O que ainda falta é uma agenda compartilhada entre produtores, universidades, poder público e investidores — a coragem de transformar potencial em projeto, projeto em lei, lei em crédito e crédito em pomar plantado.
Glauco Olinger não precisou de um PowerPoint elaborado. Bastou uma maçã na mão e a convicção de quem sabia o que estava falando. Hoje, temos muito mais: pesquisa consolidada, dados robustos, tecnologia de ponta e instituições de ensino capazes de formar a próxima geração de pomicultores.
O território já é fértil. O que definirá a colheita são as escolhas feitas agora.
A maçã de Lages está pronta para crescer. A grande pergunta é: estamos dispostos a investir nesse futuro? E quem assumirá o papel visionário que um dia coube a Glauco Olinger, transformando potencial em realidade e oportunidades em desenvolvimento?”
Walmor Tadeu Schweitzer — Professor
Nota:
Para uma análise mais abrangente sobre o tema, recomenda-se a leitura do artigo “Potencialidades de Lages na Produção de Maçãs: Perspectivas, Viabilidade Econômica e Estratégias de Desenvolvimento”, disponível no blog Repensando a Vida (repensandoavida.com.br).
Waldemar da Silva Madureira
Postado em 09:06h, 01 julhoPrimeiramente precisamos nos atentar a alguns pontos. Ao meu modesto entendimento existem algumas coisas que fazem com que a evolução da agricultura nos campos de Lages esteja bem aquém da realidade. Iniciamos por uma mentalidade impregnada na consciência de muitos, como trata-se de uma atividade de alto risco e onerosa o que inclui o medo de arriscar. A nossa sociedade de antão sempre foi moldada na base de pecuária e sempre escutamos dos mais antigos o jargão da quebradeira oriunda da agricultura. Felizmente este tabu vem sendo quebrado, a entrada da soja muto tem contribuído para está nova visão. Ao analisarmos no contexto político sempre fui da visão em que ao invés do êxodo rural, fosse incentivado a permanência das famílias rurais em seu verdadeiro habitat (empreendedorismo ), onde hoje com a evolução não se faz necessário a vinda para cidade em busca de novas oportunidades e ou qualificação . Estamos com um verdadeiro arcabolso na geração de renda. Não difícil constatar que os que trabalham em suas propriedades rurais com dedicação possuem maior poder aquisitivo inclusive em muito contribui para a geração de emprego, desmistificando que o crescimento somente acontece com a vinda de grandes empresas para geração de empregos (discurso eleitoreiro). Mentes como de Glauco Olinger só nascem com visão, vontade, e determinação. Portanto fazemos nós essa revolução de uma forma real não lúdica, prestando mais atenção nas crianças e jovens que estão sendo tolhidos neste desejo, mas mesmo que a passos lentos estamos no caminho.
Pio - Walmor
Postado em 13:46h, 17 julhoConsinto com suas observações Madureira.As nossas vocações estão voltadas as atividades rurais mesmo. A atividade rural favorece a nossa região em virtude do clima, das terras predominantemente planas e da grande extensão territorial. Aqui, com as novas tecnologias, podemos fortalecer o turismo rural, cultivar tradições como a Festa do Pinhão, plantar soja e milho em grande escala e desenvolver ainda mais a silvicultura e a fruticultura de clima temperado, que produz frutos de ótimo sabor. Há também espaço para expandir a ovinocultura, a piscicultura, a apicultura e a bovinocultura, com sêmen de gado de raça e carnes diferenciadas em função do pasto. Lages voltará ao lugar de destaque na economia catarinense — possui um potencial enorme para tanto.