O futuro de Lages pode ter o cheiro de maçã – JORNAL

O futuro de Lages pode ter o cheiro de maçã – JORNAL

A FRUTA QUE PODER VIRAR RIQUEZA E POR QUE ESTAMOS PERDENDO TEMPO

Quando penso em Lages, a primeira imagem que me vem à mente não são as ruas movimentadas nem o comércio aquecido. Vejo campos imensos, céu azul cortado por nuvens baixas e um solo escuro que guarda segredos. Cresci ouvindo que a maçã era coisa de São Joaquim e Fraiburgo — e é verdade que essas cidades escreveram páginas fundamentais da fruticultura brasileira. Mas Lages tem algo diferente, e preciso dizer isso com todas as letras: tem escala, tem ciência, tem logística e, principalmente, tem gente capaz de fazer acontecer.

O que me move a escrever é a convicção incômoda de que estamos desperdiçando um dos maiores potenciais agrícolas do Sul do Brasil. E quero começar por onde tudo começou: por um agrônomo visionário, uma maçã entregue nas mãos certas e uma decisão que valeu décadas de desenvolvimento.

A LIÇÃO QUE NINGUÉM DEVERIA ESQUECER

Poucos sabem que a maçã catarinense, tal como a conhecemos hoje, nasceu da audácia de um homem chamado Glauco Olinger,  Extensionista rural da ACARESC, hoje EPACRI, ele percorreu a Serra Catarinense numa época em que os campos de altitude eram vistos apenas como pastagem. Foi ele quem enxergou, com olhar técnico e entusiasmo genuíno, que aquele terroir frio, luminoso e de solos profundos tinha tudo o que a macieira precisava.

A história que se tornou lendária nos corredores da agricultura catarinense é simples, mas poderosa: certa vez, Olinger levou uma maçã produzida em São Joaquim e a entregou pessoalmente ao então Ministro da Fazenda, Delfim Netto. A cena pode parecer singela, mas tinha um propósito estratégico — mostrar que o Brasil era capaz de produzir uma fruta de padrão internacional. Delfim Netto provou a maçã, ficou convencido, e o resultado foi o apoio governamental que viabilizou a expansão da pomicultura no estado.

Esse episódio carrega uma lição que não abandono: às vezes, uma boa ideia precisa apenas de uma fruta bem escolhida, entregue à pessoa certa, no momento certo. A pergunta que não quer calar é: quem será o Olinger de Lages?

POR QUE LAGES É DIFERENTE

Para compreender o potencial de Lages, é preciso entender o que a cidade possui que outras regiões não têm — ou têm em menor quantidade.

Lages é o maior município em área territorial de Santa Catarina. Isso significa espaço para implantar pomares em grande escala, algo que, para investidores que pensam em projetos corporativos, torna o endereço difícil de ignorar. A altitude média de 930 metros garante invernos frios e boa soma de horas de frio — exatamente o que as novas variedades de Gala e Fuji precisam. Ao contrário das variedades antigas, esses clones modernos exigem menor rigor de frio, e o inverno de Lages atende com folga.

 

Os solos basálticos da região são profundos, com boa capacidade de retenção de água e de nutrir as raízes da macieira por décadas. Com manejo correto, produzem frutas firmes, sem distúrbios fisiológicos e com longa durabilidade pós-colheita. A logística completa o quadro: Lages está no cruzamento da BR-116, a poucas horas dos grandes centros consumidores e dos portos de Itajaí e Navegantes, por onde a fruta pode embarcar para a Europa.

Clima, terra, estrada e ciência. O que ainda falta é transformar essas vantagens em um projeto coletivo de desenvolvimento.

O POMAR DO FUTURO JÁ ESTÁ AQUI

Quando a maioria das pessoas pensa em uma macieira, imagina árvores altas e arredondadas. O pomar moderno, porém, é diferente: parece um corredor de plantas esguias e organizadas, formando paredes verdes carregadas de frutas. Esse sistema chama-se Muro Frutal, e representa uma das maiores inovações da fruticultura mundial nas últimas décadas.

O relevo predominantemente plano de Lages é ideal para esse modelo. Máquinas circulam livremente entre as fileiras, reduzindo custos operacionais e aumentando a eficiência de cada etapa — da poda à colheita. Isso coloca Lages entre os lugares mais adequados do Brasil para implantar pomares de última geração.

O investimento é considerável, mas o retorno é sólido: em um hectare de maçã com tecnologia moderna, o capital começa a ser recuperado entre o quarto e o quinto ano, e o pomar pode produzir comercialmente por até vinte anos. É um investimento de médio prazo com retorno longo e estável — algo raro em tempos de incerteza econômica. E o alcance é global: uma maçã bem produzida em Lages pode ir da árvore ao supermercado europeu em menos de 72 horas.

O QUE O PODER PÚBLICO PRECISA ENTENDER

A história de Glauco Olinger e Delfim Netto ensina que política pública e incentivo governamental são peças fundamentais. A maçã brasileira não cresceu por acaso: cresceu porque houve pessoas com visão e instrumentos de Estado alinhados a essa visão.

Hoje, Lages precisa do mesmo tipo de apoio. Algumas medidas concretas fariam diferença imediata:

  • Isenção de tributos municipais para propriedades que implantem pomares modernos;
  • Criação de um fundo municipal de investimento agroindustrial, voltado à pomicultura;
  • Programas de qualificação profissional para técnicos e produtores rurais;
  • Um selo “Maçã de Lages” como primeiro passo para uma Indicação Geográfica reconhecida.

No âmbito estadual, Santa Catarina já oferece instrumentos importantes. Cabe aos produtores e cooperativas utilizá-los com mais intensidade e articulação. Incentivo fiscal não é gasto: é o adubo que faz crescer o empreendimento que vai gerar impostos, empregos e renda por décadas.

O QUE EU VEJ0 PARA LAGES

Concluo com a mesma convicção que abriu este artigo: Lages tem o que precisa para se tornar um dos maiores e mais modernos polos de produção de maçã do Brasil. O que ainda falta é uma agenda compartilhada entre produtores, universidades, poder público e investidores — a coragem de transformar potencial em projeto, projeto em lei, lei em crédito e crédito em pomar plantado.

Glauco Olinger não precisou de um PowerPoint elaborado. Bastou uma maçã na mão e a convicção de quem sabia o que estava falando. Hoje, temos muito mais: pesquisa consolidada, dados robustos, tecnologia de ponta e instituições de ensino capazes de formar a próxima geração de pomicultores.

O território já é fértil. O que definirá a colheita são as escolhas feitas agora.

A maçã de Lages está pronta para crescer. A grande pergunta é: estamos dispostos a investir nesse futuro? E quem assumirá o papel visionário que um dia coube a Glauco Olinger, transformando potencial em realidade e oportunidades em desenvolvimento?”

Walmor Tadeu Schweitzer — Professor

Nota:

Para uma análise mais abrangente sobre o tema, recomenda-se a leitura do artigo “Potencialidades de Lages na Produção de Maçãs: Perspectivas, Viabilidade Econômica e Estratégias de Desenvolvimento”, disponível no blog Repensando a Vida (repensandoavida.com.br).

 

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