João VI e D. Pedro I: O Nascimento do Brasil Moderno

João VI e D. Pedro I: O Nascimento do Brasil Moderno

“Os povos que conhecem sua história compreendem melhor o presente e constroem com mais sabedoria o futuro.”

Cursei o ensino fundamental e o então chamado ensino científico — na Escola Paroquial Nossa Senhora do Rosário e no Colégio Diocesano, onde nasceu, em mim, o gosto pela História do Brasil e pela História Geral. Esse interesse, que carrego até hoje, foi o que me trouxe até este artigo.

Compreendo que uma nação não se constrói apenas por suas riquezas naturais ou pela extensão de seu território. O que realmente define a grandeza de um país são as pessoas que, em momentos decisivos, enxergam além de seu tempo e tomam decisões capazes de transformar o destino de milhões de vidas.

Estudando a história do Brasil, passei a admirar homens que, com suas virtudes e imperfeições, dedicaram inteligência, coragem e espírito público à construção da nossa nacionalidade. Não eram personagens perfeitos — eram seres humanos sujeitos às limitações de sua época. Ainda assim, souberam assumir responsabilidades históricas que poucos teriam coragem de aceitar.

Neste primeiro artigo da série “Os Homens que Lançaram os Alicerces do Brasil”, proponho refletir sobre dois personagens que marcaram profundamente o nascimento do Brasil moderno: D. João VI e D. Pedro I. O primeiro, frequentemente retratado de maneira simplificada pelos livros didáticos, lançou as bases institucionais do Estado brasileiro. O segundo transformou esse Estado em uma nação independente, preservando sua unidade territorial e inaugurando um novo capítulo de nossa história.

Ao revisitar suas trajetórias, meu objetivo não é enaltecer pessoas, mas compreender ideias. Acredito que a história adquire verdadeiro sentido quando nos ajuda a interpretar o presente — e talvez, mais do que nunca, o Brasil precise voltar a valorizar líderes capazes de pensar além das urgências do momento e de trabalhar em favor das futuras gerações..


D. João VI – O estadista que lançou os fundamentos do Estado brasileiro

“Governar é preparar o futuro, mesmo quando as circunstâncias parecem adversas.”

Dom João VI (1767–1826) foi um dos personagens mais influentes da história luso-brasileira. Durante muito tempo, sua imagem foi reduzida a caricaturas de um rei indeciso, desleixado e excessivamente preocupado com a boa mesa. A historiografia moderna, no entanto, tem revisto essa visão e reconhece nele um governante prudente, habilidoso e capaz de tomar decisões estratégicas em momentos de extrema crise.

Seus atos políticos alteraram profundamente o rumo do Brasil, permitindo que a antiga colônia se transformasse, em poucos anos, no centro do Império Português e, depois, em uma nação independente.


Um príncipe preparado para governar

Antes de se tornar rei, Dom João recebeu formação sólida e assumiu o governo ainda jovem, em meio a uma grave crise na monarquia.

Dom João nasceu em 13 de maio de 1767, no Palácio de Queluz, em Portugal, filho da rainha Maria I e do rei consorte Dom Pedro III. Recebeu uma educação voltada para as responsabilidades do governo, estudando História, Direito, Administração, Religião, Diplomacia e Estratégia militar.

Em 1792, com o agravamento da doença mental de sua mãe, passou a exercer o governo como Príncipe Regente, assumindo a administração do reino em um dos períodos mais turbulentos da história europeia.


O desafio de Napoleão: uma fuga estratégica

A ameaça de invasão francesa obrigou Dom João a tomar uma decisão sem precedentes entre as monarquias europeias.

No início do século XIX, a Europa era dominada pelas guerras lideradas por Napoleão Bonaparte. Portugal vivia uma posição delicada: dependia economicamente da Inglaterra, mas sofria forte pressão francesa para romper essa aliança.

Quando Napoleão determinou a invasão de Portugal, em 1807, Dom João recusou-se a abandonar os ingleses. Em vez de enfrentar um exército muito superior, tomou uma decisão inédita para uma monarquia europeia: transferir a sede do governo português para o Brasil. A medida preservou a independência da Coroa e evitou que o país fosse completamente submetido ao domínio francês.

Em novembro de 1807, cerca de quinze mil pessoas — entre membros da família real, ministros, militares, nobres, funcionários e servidores — atravessaram o Atlântico rumo ao Rio de Janeiro, onde desembarcaram em janeiro de 1808. Jamais uma potência europeia havia transferido sua capital para uma colônia: o fato mudou por completo a posição do Brasil dentro do Império Português.


O Brasil deixa de ser apenas uma colônia

A chegada da Corte exigiu mudanças administrativas imediatas, que romperam séculos de restrições coloniais.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, Dom João percebeu que era impossível governar um território daquela dimensão mantendo as antigas restrições coloniais. Iniciou, então, uma ampla reorganização administrativa, que incluiu:

  • abertura dos portos ao comércio internacional;
  • liberdade para instalação de manufaturas;
  • reorganização da administração pública;
  • fortalecimento das atividades econômicas.

Essas decisões romperam o sistema colonial que vigorava desde o século XVI.


O construtor das instituições brasileiras

Foi durante seu governo que o Brasil ganhou as primeiras instituições permanentes de um Estado moderno.

Talvez o maior legado de Dom João VI tenha sido lançar as bases institucionais do Estado brasileiro. Durante seu governo foram fundadas ou fortalecidas instituições como o Banco do Brasil, a Imprensa Régia, a Biblioteca Real (adiante detalhada), o Jardim Botânico, a Academia Real Militar, o Museu Real, a Escola Médico-Cirúrgica, a Casa da Moeda, o Arquivo Militar e o Teatro Real.

Pela primeira vez, o Brasil passou a contar com organismos permanentes semelhantes aos das principais monarquias europeias.


Ciência, artes e uma nova capital

Dom João também investiu no conhecimento e na transformação do Rio de Janeiro em uma verdadeira capital.

Dom João entendia que o progresso de uma nação depende do conhecimento. Por isso incentivou pesquisas científicas, estudos de botânica, cartografia, engenharia e medicina, além da formação de profissionais especializados. Também promoveu a chegada da Missão Artística Francesa, que impulsionou o ensino das artes e influenciou a arquitetura, a pintura e a escultura brasileiras.

Nesse período, o Rio de Janeiro deixou de ser uma cidade colonial para assumir características de capital moderna, com investimentos em iluminação pública, abastecimento, urbanização, segurança, serviços administrativos e infraestrutura portuária — tornando-se o principal centro político da América Portuguesa.


A criação do Reino Unido

Em 1815, uma decisão política elevou o status do Brasil dentro do império português.

Em 1815, Dom João promoveu uma das mudanças políticas mais importantes da história brasileira: o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves. Na prática, isso significava que o Brasil deixava de ser juridicamente uma colônia e passava a integrar o mesmo nível político de Portugal — uma medida que fortaleceu a identidade nacional e contribuiu diretamente para o processo de Independência, poucos anos depois.


O retorno a Portugal e a Independência

A volta de Dom João à Europa, em 1821, abriu caminho para o processo que levaria à Independência do Brasil.

Em 1821, pressionado pela Revolução Liberal do Porto, Dom João retornou a Portugal. Antes de embarcar, deixou seu filho, Dom Pedro I, como príncipe regente do Brasil. No ano seguinte, Dom Pedro proclamaria a Independência. Embora tenha tentado preservar a união entre os dois reinos, Dom João compreendia que o Brasil já havia adquirido uma dimensão política impossível de ser revertida.


O homem por trás do rei

Por trás das caricaturas populares, havia traços de personalidade que moldaram sua forma de governar.

Apesar das caricaturas populares, algumas características marcaram sua forma de governar: prudência diante das crises, habilidade diplomática, grande capacidade de negociação, forte religiosidade, preocupação com a estabilidade política e preferência por soluções conciliadoras em vez de confrontos militares. Essa postura evitou guerras devastadoras tanto em Portugal quanto no Brasil.


A Biblioteca Real: um tesouro quase perdido no cais

Entre os bens levados na viagem de 1807, um dos mais valiosos quase não chegou ao Brasil.

Entre os bens mais valiosos levados na viagem de 1807 estavam os documentos da administração real e o que se considerava o tesouro do Estado — ouro, joias, tapeçarias, alfaias e a própria Biblioteca dos Reis. Na confusão da partida, porém, a Biblioteca, já embalada para o transporte, acabou esquecida no cais. Só em 1810 seus primeiros “caixões” começaram a chegar ao Rio de Janeiro, em levas que se estenderam até o ano seguinte.

O acervo foi inicialmente depositado no andar superior do Hospital da Ordem Terceira do Carmo. Por serem consideradas inadequadas, essas instalações deram lugar às catacumbas do Convento do Carmo, conforme decreto de 29 de outubro de 1810 — data que passou a ser considerada a da fundação da Biblioteca Nacional. No início, o acesso era restrito a pesquisadores autorizados pelo príncipe regente; somente quatro anos depois, em 1814, a Biblioteca foi aberta ao público em geral.


Uma coleção com séculos de história

A origem desse acervo remonta a séculos antes da chegada da Corte ao Brasil.

Ainda em Portugal, a Biblioteca Real era motivo de orgulho da monarquia, reconhecida como uma das mais preciosas da Europa. Sua formação havia começado com outro rei João — Dom João I, “o da boa memória” (1385–1433) —, mas o terremoto de Lisboa, em 1755, destruiu todo o acervo reunido até então. Reconstruí-lo tornou-se prioridade, e a nova coleção foi montada por meio de compras, doações e confiscos. No início do século XIX, ela já reunia cerca de 70 mil itens, entre manuscritos raros, incunábulos, livros, gravuras, mapas e moedas.

No Brasil, o acervo continuou crescendo, seja por doações — como a coleção de botânica de frei José Mariano da Conceição Veloso (1811) —, seja por compras, como as do jurista Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1815), do arquiteto José da Costa e Silva (1818) e do conde da Barca, Dom Antônio de Araújo e Azevedo (1819).


O preço da Independência

Parte dessa coleção acabou entrando, anos depois, nas negociações que selaram a Independência do Brasil.

Ao retornar à Europa, em 1821, Dom João levou consigo apenas parte dos manuscritos referentes à história de Portugal. Anos depois, na negociação da Independência do Brasil, o restante da coleção foi avaliado como parte da indenização devida à família real portuguesa pelos bens deixados no país, somando 800 contos de réis. Esse valor integrou o empréstimo de 2 milhões de libras esterlinas contraído junto à Inglaterra — o marco inicial da dívida externa brasileira.


De coleção real a patrimônio mundial

O pequeno núcleo trazido por Dom João deu origem a um dos maiores acervos do mundo.

O núcleo trazido e ampliado por Dom João no Rio de Janeiro é hoje apenas uma pequena parcela do acervo da Biblioteca Nacional, que reúne cerca de 9 milhões de peças — entre livros, manuscritos, periódicos, estampas, mapas e partituras —, consolidando-se como uma das mais importantes bibliotecas do mundo.

Parte dessa história pôde ser conhecida de perto na exposição D. João VI: um legado em papel, realizada em novembro de 2008 no Centro Cultural da Justiça Federal e depois disponibilizada também em versão virtual. A mostra reunia documentos administrativos, mapas, livros, manuscritos e gravuras do Período Joanino, contando a trajetória que vai do Brasil colônia às vésperas da chegada da Corte, passando pela transformação do Rio de Janeiro e terminando no retorno de Dom João a Portugal, em 1821 — decisão que assegurou sua permanência no trono, mas não impediu a perda da unidade do Império.

Essa perda, no entanto, não diminui sua obra. Se a origem da Biblioteca Nacional está ligada ao legado de Dom João, é o presente que confirma sua importância: o volume de suas coleções, o grande número de pesquisadores que as consultam e o crescimento constante do acervo mostram um patrimônio que o Brasil de hoje segue preservando para o mundo de amanhã.


O verdadeiro legado de Dom João VI

Ao olhar para o conjunto de sua obra, seu papel histórico vai muito além da transferência da Corte.

A importância histórica de Dom João VI vai muito além da transferência da Corte para o Brasil. Seu governo lançou as bases do Estado brasileiro moderno, estruturando instituições, fortalecendo a economia, promovendo a cultura e redefinindo o papel do Brasil no cenário internacional.

Se Dom Pedro I é lembrado como o proclamador da Independência, Dom João VI pode ser considerado o estadista que preparou o terreno para que ela ocorresse de forma relativamente pacífica e com unidade territorial. Ao transformar uma colônia em sede de um império e, depois, em Reino Unido, ele deu ao Brasil condições políticas, administrativas e institucionais para nascer como uma nação organizada — um legado que ainda se reflete na estrutura do Estado brasileiro contemporâneo.


D. Pedro I – O herdeiro que transformou um Reino em Nação

“A coragem de romper não vale nada sem a sabedoria de construir o que vem depois.”

Dom Pedro I (1798–1834) foi muito mais do que o príncipe que proclamou a Independência às margens do Ipiranga. Sua personalidade, formação intelectual e decisões políticas revelam um homem impulsivo, mas também preparado para governar em um momento decisivo da história do Brasil — e, mais tarde, também de Portugal. Poucos personagens da história mundial ocuparam o trono de dois países: além de Imperador do Brasil, tornou-se Dom Pedro IV, rei constitucional português.


Formação e personalidade

Diferente da imagem de jovem impulsivo, Dom Pedro recebeu educação ampla e cultivava interesses variados.

Ao contrário do que muitos imaginam, Dom Pedro I recebeu uma educação rigorosa, que incluía História, Geografia, Matemática, Filosofia, Direito Natural, Latim, Francês, Inglês, Música, Equitação e Estratégia militar.

Era apaixonado por música: compôs missas, motetos e o próprio Hino da Independência, obras que ainda hoje são executadas por orquestras. Também se destacava como cavaleiro e praticava exercícios físicos diariamente. Interessava-se por mecânica e engenharia, visitando oficinas e conversando com artesãos sobre as novidades tecnológicas da época. Falava português, francês e espanhol, além de ter conhecimentos de inglês e latim. Era conhecido, ainda, por sua energia: dormia pouco e alternava rapidamente entre atividades militares, reuniões de governo e exercícios físicos.


José Bonifácio, o mestre político

Grande parte das decisões de Dom Pedro teve a marca da orientação de um dos intelectuais mais respeitados da época.

José Bonifácio de Andrada e Silva foi muito mais do que ministro: foi o principal orientador político de Dom Pedro. Havia estudado por cerca de 36 anos na Europa, passando por universidades e centros científicos de Portugal, França, Alemanha e Suécia, e era considerado um dos cientistas mais respeitados de seu tempo.

Ensinou ao príncipe conceitos que se tornariam decisivos: a importância da unidade territorial, o fortalecimento do governo central, a necessidade de evitar guerras civis, a busca por uma independência sem fragmentação do território, além da valorização da ciência, da educação e da modernização econômica. Em diversas ocasiões, Dom Pedro seguiu seus conselhos antes de tomar decisões importantes.

Embora a Inconfidência Mineira tivesse ocorrido antes do nascimento de Dom Pedro I, suas ideias permaneciam vivas entre intelectuais e políticos brasileiros. José Bonifácio conhecia bem aquele movimento e compreendia seus erros: a principal lição era evitar uma independência regional ou revolucionária. Por isso, buscou construir uma independência conduzida pela própria monarquia, preservando a unidade do território. Enquanto a América Espanhola se dividiu em diversas repúblicas, o Brasil permaneceu um único país — talvez o maior sucesso político da Independência brasileira.


“Se o Brasil se separar, antes seja para ti”

Uma frase atribuída a Dom João VI ajuda a explicar o espírito que orientou a atuação do filho no Brasil.

Quando Dom João VI retornou a Portugal em 1821, deixou Dom Pedro como Príncipe Regente. Segundo diversos cronistas do século XIX, teria dito ao filho: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti do que para algum desses aventureiros.”

A frase tornou-se célebre, mas vale um esclarecimento: não existe documento oficial contemporâneo que registre literalmente essas palavras. A ideia aparece em memórias e relatos posteriores, sendo aceita por muitos historiadores como expressão da orientação política de Dom João VI, embora sua redação exata permaneça objeto de debate. O sentido, porém, é claro: se a separação fosse inevitável, era preferível que ocorresse mantendo a dinastia de Bragança no poder.


O Grito do Ipiranga além do mito

A cena consagrada pela pintura de Pedro Américo é bem diferente do que realmente teria acontecido.

O famoso quadro de Pedro Américo é uma representação artística, não um retrato fiel dos acontecimentos. Historiadores hoje consideram mais provável que Dom Pedro viajasse com uma pequena comitiva, montado em uma mula ou animal de viagem — e não em um cavalo de batalha —, e que estivesse indisposto, possivelmente com problemas intestinais. A cena real foi, portanto, bem menos grandiosa do que a pintura sugere. Ainda assim, seu significado político permanece enorme: em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil e, meses depois, foi coroado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do país.


De imperador do Brasil a rei de Portugal

A morte de Dom João VI, em 1826, colocou Dom Pedro diante de um desafio inédito: governar dois países ao mesmo tempo.

Quando seu pai, Dom João VI, morreu em 1826, Dom Pedro tornou-se automaticamente Dom Pedro IV, Rei de Portugal. Compreendendo que seria praticamente impossível governar Brasil e Portugal ao mesmo tempo, abdicou poucos dias depois da coroa portuguesa em favor de sua filha, Maria II, impondo como condição que Portugal adotasse uma monarquia constitucional baseada na Carta Constitucional de 1826.

Seu irmão, Miguel I, inicialmente aceitou casar-se com a sobrinha Maria II e atuar como regente. Em 1828, porém, rompeu os acordos: dissolveu o Parlamento, revogou a Constituição e proclamou-se rei absoluto. Maria II foi afastada do trono, e Portugal mergulhou em guerra civil.


A abdicação no Brasil

Enquanto Portugal vivia uma guerra civil, a popularidade de Dom Pedro no Brasil desmoronava.

Enquanto Portugal enfrentava essa crise, Dom Pedro governava o Brasil, onde seu governo se tornava cada vez mais impopular: dificuldades econômicas, conflitos com a Assembleia, o desgaste da Guerra da Cisplatina, críticas à sua aproximação com interesses portugueses e forte oposição política se acumulavam. Em 7 de abril de 1831, abdicou do trono brasileiro em favor de seu filho de apenas cinco anos, o futuro Dom Pedro II.


O retorno à Europa e o Cerco do Porto

Decidido a restaurar o trono da filha, Dom Pedro enfrentou um dos episódios mais duros de sua vida.

Após deixar o Brasil, Dom Pedro foi para a Europa decidido a recuperar o trono de sua filha. Organizou um exército liberal, reunindo voluntários portugueses, ingleses, franceses e espanhóis, e desembarcou na cidade do Porto em 1832, dando início à Guerra Civil Portuguesa (também chamada Guerras Liberais).

Durante cerca de um ano, permaneceu cercado pelas tropas miguelistas no chamado Cerco do Porto. Mesmo enfrentando fome, doenças e escassez de recursos, recusou-se a abandonar seus soldados, e sua liderança fortaleceu o movimento liberal. As tropas liberais acabaram conquistando Lisboa e, em 1834, Miguel I foi definitivamente derrotado — Maria II recuperou o trono português, e Dom Pedro cumpriu sua promessa.


Morte

O preço dessa última batalha foi a própria saúde do imperador.

A campanha militar consumiu sua saúde: já sofria de tuberculose, e as longas jornadas, o frio e o desgaste físico e emocional agravaram a doença. Poucos meses após a vitória liberal, Dom Pedro morreu, em 24 de setembro de 1834, no Palácio de Queluz — o mesmo local onde havia nascido, em 12 de outubro de 1798. Tinha apenas 35 anos. Sua morte foi lamentada tanto em Portugal quanto no Brasil.


O corpo e o coração: uma história dividida entre dois países

Mesmo depois da morte, a trajetória de Dom Pedro seguiu ligada a Brasil e Portugal.

Poucos líderes da história tiveram seus restos mortais divididos entre dois países. Por desejo expresso de Dom Pedro, seu coração foi retirado após a morte e preservado na Igreja da Lapa, em Portugal, onde permanece até hoje dentro de uma urna de cristal protegida por um recipiente de prata. Em 2022, por ocasião do Bicentenário da Independência do Brasil, o coração foi emprestado temporariamente ao país, recebendo honras de chefe de Estado antes de retornar a Portugal.

Já o corpo permaneceu inicialmente em Portugal. Em 1972, durante as comemorações dos 150 anos da Independência, os restos mortais foram trasladados para o Brasil e hoje repousam na cripta do Monumento à Independência, às margens do riacho do Ipiranga — o mesmo local simbólico da proclamação.


Documentos pouco conhecidos em arquivos europeus

Muito do que se sabe sobre esse período está guardado em arquivos europeus pouco explorados pelo público brasileiro.

Boa parte da história de Dom Pedro I e da Independência do Brasil está documentada em arquivos e bibliotecas da Europa que raramente aparecem nos livros escolares brasileiros — não por serem desconhecidos dos historiadores, mas por ainda serem pouco divulgados ao grande público:

  • Torre do Tombo (Portugal): conserva correspondências entre Dom João VI e Dom Pedro, decretos originais, atas do Conselho de Estado e documentos sobre a Independência, essenciais para entender as negociações entre Lisboa e o Rio de Janeiro.
  • Arquivos britânicos: guardam relatórios de embaixadores e diplomatas que descrevem a política brasileira em tempo real, revelando a forte influência do Reino Unido sobre os acontecimentos e seu interesse em manter a estabilidade política e comercial.
  • Arquivos franceses: reúnem relatos de viajantes, naturalistas e diplomatas sobre a transferência da Corte e o nascimento do novo Império, além de documentos relacionados à Missão Artística Francesa, que ajudou a formar instituições culturais brasileiras.
  • Arquivo Apostólico do Vaticano: contém correspondências entre a Santa Sé e as coroas portuguesa e brasileira, úteis para estudar nomeações episcopais, as relações entre Igreja e Estado e o reconhecimento do novo Império.

O que a historiografia mais recente tem destacado

Pesquisas recentes têm trazido novas camadas de compreensão sobre esse momento histórico.

Nas últimas décadas, historiadores têm dado atenção a aspectos antes pouco explorados:

  • a Independência foi um processo político negociado, não apenas um ato heroico ocorrido em 7 de setembro de 1822;
  • José Bonifácio exerceu papel decisivo como estrategista da unidade nacional;
  • Dom João VI preparou institucionalmente o Brasil para deixar de ser colônia;
  • Dom Pedro I teve participação ativa e capacidade de decisão, não sendo apenas um jovem impulsivo;
  • a preservação da unidade territorial brasileira foi uma conquista excepcional, se comparada à fragmentação da América Espanhola.

Essas interpretações não substituem a história tradicional, mas a enriquecem com pesquisas baseadas em documentos preservados no Brasil e na Europa — evidências que sustentam a ideia de que Dom João VI, José Bonifácio e Dom Pedro I formaram um núcleo político decisivo na construção do Estado brasileiro.


O legado histórico

Ao reunir os fatos de sua trajetória, é possível dimensionar a real grandeza de sua contribuição histórica.

Dom Pedro I foi um personagem de extraordinária relevância internacional: protagonista da Independência do Brasil e, ao mesmo tempo, defensor do constitucionalismo em Portugal — algo raro entre chefes de Estado de qualquer época. Era, além disso, um liberal convicto, que mesmo sendo imperador acreditava na limitação constitucional dos poderes do rei, convicção que explica sua luta contra o absolutismo de Dom Miguel. Foi ainda pai de dois grandes soberanos, Dom Pedro II, Imperador do Brasil, e Maria II, Rainha de Portugal, que marcariam profundamente a história de seus respectivos países.

Sua trajetória foi breve, mas intensa: aos 24 anos proclamou a Independência do Brasil; aos 27, tornou-se rei de Portugal; aos 32, abdicou do trono brasileiro; aos 33, iniciou a campanha militar para restaurar a filha ao trono português; e aos 35, faleceu, deixando um legado que ultrapassa as fronteiras dos dois países. Por essa razão, muitos historiadores o consideram não apenas o fundador do Império do Brasil, mas também um dos principais defensores do liberalismo constitucional no mundo lusófono do século XIX.


Conclusão

Ao concluir esta reflexão, entendo que D. João VI e D. Pedro I representam dois momentos complementares e indissociáveis da formação do Brasil moderno. Um lançou os alicerces institucionais — bancos, escolas, bibliotecas, uma nova condição política internacional. O outro teve a ousadia de erguer sobre esses alicerces uma nação independente, sem abrir mão da unidade territorial que tantos outros países latino-americanos perderam em seus próprios processos de emancipação.

Para mim, reverenciar figuras do passado e revisitar essas trajetórias é um exercício de compreender que nações se constroem por acúmulo — de instituições, de decisões corajosas e de visão de longo prazo. Se há uma lição que essas duas vidas me deixam, é a de que a solidez de um país não depende apenas de gestos de ruptura, mas da paciência de construir estruturas capazes de sobreviver a eles.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com


Fontes

  • SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
  • LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • SOUZA, Laura de Mello e; FURTADO, Júnia Ferreira; BICALHO, Maria Fernanda (orgs.). O Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
  • SCHWARCZ, Lilia M. D. João VI: um príncipe português no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Nenhum comentário

Escrever comentário