Como o Brasil Perdeu sua Força Industrial

Como o Brasil Perdeu sua Força Industrial

Por que o Brasil perdeu sua força industrial?

“A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.”

— Peter Drucker

Compreender as causas para reconstruir o futuro.

Por que um país com tantas riquezas naturais, um mercado consumidor gigantesco e um povo reconhecidamente trabalhador assiste, quase sem reação, ao enfraquecimento progressivo de sua indústria? Essa pergunta me acompanha há décadas — muito antes de qualquer estatística.

Ela nasceu no comércio de meu pai, observando o pulso da economia local, e cresceu na formação em Administração, com foco em Geografia Econômica, e na pós-graduação em Economia de Empresas. Ganhou corpo ao longo de décadas como Auditor Fiscal, Chefe da Fiscalização e Diretor de Receita da Prefeitura de Lages, acompanhando de perto indústria, comércio, serviços e agropecuária — e, depois, como professor universitário, debatendo com alunos os rumos da economia brasileira.

Ao longo desse percurso, vi empresas que pareciam eternas desaparecerem por completo, e outras que simbolizaram a força industrial do país reduzirem drasticamente sua produção e sua relevância. Essas trajetórias se confundem com a própria história do desenvolvimento — e do declínio — industrial  do Brasil.


A indústria é muito mais do que fábricas

Indústria não é sinônimo de galpão e linha de produção. É o motor que agrega valor à matéria-prima, impulsiona a inovação, fortalece cadeias produtivas e gera empregos mais qualificados e mais bem remunerados. Alemanha, Japão, Coreia do Sul e, mais recentemente, a China provam que não existe desenvolvimento sustentável sem uma base industrial forte, integrada à ciência e à educação.

O Brasil trilhou esse caminho a partir da industrialização iniciada na década de 1930, e Santa Catarina se tornou um de seus exemplos mais expressivos: os setores têxtil, metalúrgico, elétrico, cerâmico, moveleiro e de máquinas projetaram empresas de alcance nacional e internacional. Nas últimas décadas, porém, esse dinamismo perdeu força.

Fontes: CNI; IEDI; Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT); IBGE.


O declínio das gigantes catarinenses

Das indústrias catarinenses que um dia marcaram época, poucas atravessaram as últimas décadas incólumes. Seus destinos variam entre a falência definitiva, a resistência via recuperação judicial e a absorção silenciosa por grupos maiores — cada trajetória revelando uma faceta do mesmo processo de perda de competitividade.

Falências decretadas. A Carlos Renaux, pioneira centenária de Brusque, fechou definitivamente em 2013, após 121 anos de atividade. A Sulfabril decretou falência em 1999, e seus ativos só foram a leilão 15 anos depois para quitar dívidas trabalhistas. Em 2025, também a Teka teve a falência decretada pela Justiça, encerrando 13 anos de tentativas frustradas de recuperação judicial.

Resistência em recuperação judicial. Schlösser e Büettner seguem tentando se reerguer desde 2011, enquanto a Artefama busca, mais recentemente, uma saída judicial para suas dificuldades.

Absorvidas por grupos maiores. Garcia e Artex não faliram no sentido estrito, mas deixaram de existir como marcas independentes: a Garcia foi absorvida pela Artex em 1974, e a própria Artex, vendida ao Banco Garantia em 1994, foi comprada pela Coteminas em 1998 — que manteve as instalações, mas apagou o nome do mercado.

Diluição de um império. O caso da Hoepcke é o mais singular: o grupo não faliu, mas se dissolveu ao longo de décadas com a diversificação de negócios entre os descendentes da família fundadora. Seu patrimônio histórico foi restaurado e hoje abriga um complexo cultural e gastronômico — a memória sobrevive, a atividade original, não.

A essa lista somam-se outros nomes que também ajudaram a construir a identidade industrial catarinense e enfrentaram o mesmo processo de encolhimento ou encerramento: Kohlbach, Athletic Way, Brunswick, CRW Plásticos, Malharia Lumière e Curtume Tapera, entre tantas outras.


Uma crise que ultrapassa fronteiras estaduais

O fenômeno não é catarinense — é brasileiro. No varejo, tornaram-se símbolos de uma época Hermes Macedo, Mappin, Mesbla e Arapuã. Na aviação civil, Varig, Vasp, Cruzeiro e Transbrasil provaram que o Brasil sabia operar grandes companhias aéreas — até deixar de conseguir sustentá-las.

Na indústria, os casos de Gradiente, CCE, Sharp do Brasil e Gurgel marcaram gerações de consumidores antes de perderem competitividade diante da abertura econômica e da ausência de políticas industriais consistentes. 

A Gurgel é talvez o símbolo mais emblemático: fundada em 1969 pelo engenheiro João Gurgel, criou o primeiro automóvel 100% brasileiro, o BR-800, com tecnologias próprias como o motor Enervia e o chassi Plasteel. Sem condições de competir com as multinacionais após a abertura de mercado dos anos 1990, encerrou as atividades em 1994.

O padrão se repete: sem políticas públicas eficazes que garantam condições justas de concorrência, permitindo que empresas brasileiras de capital nacional e base tecnológica disputem o mercado em igualdade de condições com os produtos importados, elas tornam-se vulneráveis e, por mais inovadoras e eficientes que sejam, acabam condenadas ao enfraquecimento ou ao fechamento.

Fontes: IBGE; IEDI; CNI.


O que explica o recuo industrial brasileiro?

“O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência; é agir com a lógica de ontem.”

— Peter Drucker

Compreende-se que o declínio industrial brasileiro resulta da combinação de quatro fatores estruturais, que se retroalimentam:

  1. Deficiência do ensino básico, que limita a formação de trabalhadores qualificados, engenheiros, pesquisadores e empreendedores capazes de inovar numa economia do conhecimento.
  2. Custo Brasil elevado — complexidade tributária, encargos sobre a folha, burocracia, insegurança jurídica, logística cara e crédito oneroso corroem a competitividade das empresas.
  3. Baixa competitividade internacional dos produtos, reflexo de investimentos insuficientes em inovação e da defasagem tecnológica frente aos concorrentes globais.
  4. Ausência de política industrial de longo prazo — uma política que precisa atravessar mandatos, sem interferência político-partidária, com mecanismos de defesa comercial ágeis e previsíveis, sempre dentro das regras internacionais.

Isoladamente, nenhum desses fatores explica o declínio. Juntos e sustentados por décadas, formam o ambiente que desestimula o investimento, trava a inovação e acelera o fechamento de empresas.

Fontes: OCDE; Banco Mundial; CNI; IEDI; Organização Mundial do Comércio (OMC); Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).


O caminho de volta

Nenhum país alcança desenvolvimento duradouro abrindo mão da capacidade de produzir, inovar e transformar conhecimento em riqueza. A indústria não é apenas um setor econômico: é pilar de soberania nacional, de empregos qualificados e de qualidade de vida.

Essa capacidade, no entanto, começa na educação. O futuro do Brasil dependerá menos das riquezas que possui e mais da sua capacidade de formar pessoas preparadas para criar riqueza. Nenhum país inova sem cientistas, nenhuma indústria moderna prospera sem engenheiros e técnicos qualificados, e nenhuma democracia se fortalece sem cidadãos bem informados. É a educação que prepara os profissionais que desenvolverão novas tecnologias, os empreendedores que criarão empresas, os pesquisadores que ampliarão o conhecimento e os gestores públicos que conduzirão o Estado com competência.

Ao longo da história, as nações que alcançaram os mais elevados níveis de desenvolvimento tiveram um elemento em comum: colocaram a educação no centro de seu projeto nacional.

O Japão fez isso após a Restauração Meiji. A Coreia do Sul transformou uma população pobre em uma das mais qualificadas do mundo. A Finlândia revolucionou seu sistema educacional e tornou-se referência internacional. Singapura, praticamente sem recursos naturais, apostou na formação de pessoas e construiu uma das economias mais competitivas do planeta. O Brasil possui riquezas naturais extraordinárias, mas sua maior riqueza potencial continua sendo seu povo.

A riqueza de uma nação não começa nas minas, nos campos ou nas fábricas. Ela começa na sala de aula.

Compreender esse quadro não é exercício de saudosismo, tampouco busca por culpados simplistas, mas um esforço para entender as causas de um processo que se arrasta há décadas e que segue afetando milhões de brasileiros. Só a partir dessa compreensão será possível discutir, com serenidade, os caminhos para reconstruir uma economia mais competitiva, inovadora e preparada para os desafios do século XXI.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: Walmor1953@gmail.com

4 Comentários
  • Miro Hildebrando
    Postado em 08:17h, 27 julho Responder

    ótimo artigo, preciso e direto ao ponto.

    • Pio - Walmor
      Postado em 22:02h, 27 julho Responder

      Agradeço a Miro pelo feedback. Os comentários, sejam eles favoráveis ou não, servem como norte e bússola, indicando o caminho a ser seguido na elaboração dos artigos

  • Righe,
    Postado em 21:17h, 27 julho Responder

    Dos quatro fatores que você enumera neste ilustrativo artigo, todos estão excessivamente presentes no parque industrial brasileiro, menos evidentes – ainda bem – no catarinense.

    • Pio - Walmor
      Postado em 22:18h, 27 julho Responder

      Agradeço a Righes pelo feedback. Nos próximos quatro artigos, cada um dos fatores mencionados será tratado individualmente, com o devido aprofundamento de detalhes que venham a fortalecer a argumentação a eles relacionada.Abracos.

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