Quando as Fábricas se Calam

Quando as Fábricas se Calam

Compreender as causas para reconstruir o futuro

A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.”
— Peter Drucker

Há muito tempo venho me perguntando por que um país dotado de tantas riquezas naturais, de um amplo mercado consumidor e de um povo reconhecidamente trabalhador e pacífico passou a assistir, quase sem reação, ao enfraquecimento gradual de sua indústria. Essa inquietação não nasceu da leitura de estatísticas ou de relatórios econômicos. Ela é muito anterior a qualquer número.

Suas raízes remontam aos anos em que trabalhava no comércio de meu pai, observando de perto o movimento da economia local e a importância da atividade produtiva para o desenvolvimento da comunidade. Mais tarde, essa percepção amadureceu nos bancos escolares, nas aulas de Geografia, e ganhou fundamentos científicos durante a graduação, ao estudar Geografia Econômica, Administração e outras disciplinas relacionadas ao funcionamento da economia. Posteriormente, aprofundou-se na pós-graduação em Economia de Empresas.

Essa convicção fortaleceu-se ainda mais quando iniciei minha trajetória no serviço público municipal. Como Auditor Fiscal Tributário, Chefe da Fiscalização e Diretor de Receita da Prefeitura de Lages, tive a oportunidade de acompanhar, durante décadas, a dinâmica da indústria, do comércio, da prestação de serviços e da produção agropecuária. Mais tarde, como professor universitário de Administração Pública, Ética Profissional e Ética Empresarial, pude refletir e debater com centenas de alunos sobre os desafios do desenvolvimento econômico brasileiro.

Ao longo desse percurso, testemunhei profundas transformações. Vi empresas que pareciam sólidas e permanentes desaparecerem completamente. Outras, que durante décadas simbolizaram a força da indústria nacional, reduziram drasticamente sua produção, seu quadro de colaboradores e sua relevância econômica. Muitas dessas trajetórias se confundem com a própria história do desenvolvimento industrial de Santa Catarina e do Brasil.

Em Santa Catarina, marcas como Artefama, de São Bento do Sul; Cecrisa, de Criciúma; Carlos Renaux e Schlösser, de Brusque; além de Sulfabril, Artex, Buettner e Teka, de Blumenau, marcaram época pela capacidade de gerar empregos, renda e inovação. No cenário nacional, empresas como Brinquedos Estrela e Calçados Azaleia também representam uma fase importante da industrialização brasileira. Algumas encerraram definitivamente suas atividades; outras perderam competitividade ou enfrentaram longos e difíceis processos de recuperação judicial, sem jamais recuperar o protagonismo que um dia tiveram.

Esse fenômeno, entretanto, extrapola as fronteiras catarinenses. A própria história da industrialização brasileira pode ser contada por meio de empresas que ajudaram a construir a economia nacional e que, décadas depois, acabaram sucumbindo às profundas mudanças estruturais do ambiente econômico.

No setor têxtil, destacaram-se empresas como Hering, Coteminas, Carlos Renaux, Schlösser, Sulfabril, Artex e Buettner. No varejo, tornaram-se referências nomes como Hoepcke, Hermes Macedo, Mappin, Mesbla e Arapuã. Na aviação, Varig, Vasp, Cruzeiro e Transbrasil simbolizaram a capacidade brasileira de operar grandes companhias aéreas. Já na indústria eletroeletrônica, Gradiente, CCE e Sharp do Brasil estiveram presentes em milhões de lares brasileiros.

Naturalmente, cada empresa possui uma história própria, marcada por decisões administrativas, mudanças tecnológicas, transformações nos mercados e desafios específicos. Contudo, quando observadas em conjunto, essas trajetórias revelam um aspecto comum: o ambiente brasileiro tornou-se, ao longo das últimas décadas, progressivamente menos favorável ao investimento produtivo, à inovação e à expansão da atividade industrial.

O desaparecimento de empresas representam o enfraquecimento da capacidade nacional de produzir riqueza. Significam milhares de empregos extintos, redução da arrecadação tributária, dispersão de conhecimento técnico acumulado durante décadas, desestruturação de cadeias produtivas inteiras e oportunidades de desenvolvimento econômico que deixaram de existir.

Foi justamente a observação dessa realidade, construída ao longo de toda a minha trajetória profissional e acadêmica, que despertou a necessidade de compreender as verdadeiras causas desse processo. Afinal, como o Brasil com tamanho potencial produtivo chegou a esse ponto? É essa reflexão que proponho desenvolver nas páginas seguintes.


A indústria: muito além das fábricas

“Os resultados são obtidos aproveitando oportunidades, não resolvendo problemas.”
— Peter Drucker

Quando se fala em indústria, muitas pessoas imaginam apenas grandes galpões, máquinas e linhas de produção. No entanto, a indústria não representa só isso. Ela é um dos principais motores do desenvolvimento econômico porque agrega valor às matérias-primas, impulsiona a inovação tecnológica, estimula a pesquisa científica, fortalece cadeias produtivas e gera empregos de maior qualificação e melhor remuneração.

Historicamente, os países que alcançaram elevados níveis de renda e qualidade de vida consolidaram antes uma base industrial robusta. Alemanha, Japão, Coreia do Sul e, mais recentemente, a China demonstram que desenvolvimento sustentável dificilmente ocorre sem uma indústria forte, inovadora e integrada ao sistema educacional e científico.

O Brasil também percorreu esse caminho durante boa parte do século XX. A industrialização iniciada com maior intensidade a partir da década de 1930 diversificou a economia, reduziu a dependência de produtos importados e transformou profundamente diversas regiões do país.

Santa Catarina tornou-se um dos exemplos mais expressivos desse processo. Os setores têxtil, metalúrgico, cerâmico, moveleiro, alimentício e de máquinas projetaram empresas reconhecidas nacional e internacionalmente, responsáveis por milhares de empregos e pelo desenvolvimento de cidades inteiras.

Entretanto, nas últimas décadas, esse dinamismo começou a perder força.

Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI); Confederação Nacional da Indústria (CNI).


As marcas que construíram uma época

“A cultura come a estratégia no café da manhã.”
— Peter Drucker

Há algum tempo venho me perguntando por que um país com tantas riquezas naturais, um mercado consumidor expressivo e uma população reconhecidamente empreendedora passou a assistir, quase sem reação, ao enfraquecimento progressivo de sua indústria. Essa inquietação não nasceu da leitura de estatísticas ou de relatórios econômicos — ela é anterior a qualquer número.

Nasceu ainda nos tempos em que trabalhava no comércio, quando observava de perto o movimento da economia local. Amadureceu nos bancos escolares, nas aulas de geografia, e mais tarde na faculdade, ao estudar geografia econômica. Reafirmou-se, anos depois, quando eu já era professor e ministrava aulas de administração pública — um período em que eu observava, com admiração quase ingênua, o movimento incessante das grandes fábricas: os portões que se abriam e fechavam nas trocas de turno, as sirenes marcando o ritmo das cidades, os empregos que sustentavam famílias inteiras e o comércio que pulsava ao redor de cada chaminé.

Ao longo dos anos, no entanto, testemunhei esse cenário se transformar. Vi empresas que pareciam indestrutíveis desaparecerem por completo, e outras — antes símbolos de pujança industrial — reduzirem drasticamente sua produção, seus quadros de funcionários e sua relevância no mercado. Muitas dessas histórias se confundem com a própria trajetória econômica de Santa Catarina e do Brasil.

Nomes como Artefama (São Bento do Sul), Cecrisa (Criciúma), Carlos Renaux e Schlösser (Brusque), Sulfabril, Artex, Buettner e Teka (Blumenau), Brinquedos Estrela (São Paulo/Minas Gerais) e Calçados Azaleia (Rio Grande do Sul), entre tantos outros, deixaram de representar apenas marcas industriais para se tornarem verdadeiros capítulos da memória econômica nacional. Algumas encerraram definitivamente suas atividades; outras perderam protagonismo ou enfrentaram longos e dolorosos processos de recuperação judicial — muitas vezes sem nunca recuperar o vigor de outros tempos.

Esse fenômeno, porém, não se limitou a Santa Catarina. A história da industrialização brasileira como um todo também pode ser contada por meio das empresas que ajudaram a construir nossa economia e que, décadas depois, viram-se fragilizadas. No setor têxtil, destacaram-se nomes como Hering, Coteminas e as já citadas Carlos Renaux, Schlösser, Sulfabril, Artex e Buettner. No varejo, marcaram gerações inteiras Hoepecke, Hermes Macedo, Mappin, Mesbla e Arapuã. Na aviação, Transbrasil, Varig, Cruzeiro e Vasp simbolizaram a capacidade brasileira de operar grandes companhias aéreas. Na eletrônica, Gradiente, CCE e Sharp do Brasil disputavam espaço em milhões de residências.

Muitas dessas organizações enfrentaram profundas dificuldades financeiras, processos de recuperação judicial, encerramento de atividades ou perda de competitividade diante das mudanças estruturais da economia. Evidentemente, cada caso possui suas particularidades, mas, observados em conjunto, revelam um ambiente que se tornou cada vez mais desfavorável ao investimento produtivo.

Essas histórias, no entanto, não representam apenas o desaparecimento de empresas. Representam empregos perdidos, queda de receita tributária, conhecimento técnico disperso, cadeias produtivas interrompidas e oportunidades de desenvolvimento que deixaram de existir.

Fontes: CNI; IEDI; Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT); IBGE.


Quatro fatores que ajudam a explicar esse processo

“O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência; é agir com a lógica de ontem.”
— Peter Drucker

Ao longo desta série defenderei que a desindustrialização brasileira decorre principalmente da interação de quatro fatores estruturais.

  • O primeiro é a deficiência da educação, a comecar pela qualidade do ensino básico, que limita a formação de trabalhadores qualificados, engenheiros, pesquisadores e empreendedores capazes de inovar em uma economia baseada no conhecimento.
  • O segundo é o elevado custo de produzir no Brasil. A complexidade tributária, os encargos sobre a folha de pagamento, a burocracia, a insegurança jurídica, a logística cara e o crédito oneroso reduzem significativamente a competitividade das empresas nacionais.
  • O terceiro fator é a concorrência internacional frequentemente desigual. Em diversos segmentos, produtos importados chegam ao mercado brasileiro beneficiados por subsídios, políticas cambiais, incentivos fiscais e condições de produção inexistentes no Brasil, tornando a competição assimétrica.
  • Uma política industrial de longo prazo, que ultrapasse mandatos presidenciais, sem intervenções de políticas partidárias ou ideológicas, e com mecanismos de defesa comercial suficientemente ágeis e previsíveis para proteger setores estratégicos, sempre em conformidade com as regras internacionais.

Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a perda de competitividade da indústria brasileira. Entretanto, quando atuam simultaneamente por muitos anos, acabam formando um ambiente que desestimula investimentos, reduz a inovação e acelera o fechamento de empresas.

Fontes: OCDE; Banco Mundial; CNI; IEDI; Organização Mundial do Comércio (OMC); Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).


Conclusão

A história demonstra que nenhum país alcançou desenvolvimento econômico duradouro abrindo mão de sua capacidade de produzir, inovar e transformar conhecimento em riqueza. A indústria não é apenas um setor da economia; ela constitui um dos pilares da soberania nacional, da geração de empregos qualificados, do avanço tecnológico e da melhoria da qualidade de vida da população.

Ao iniciar esta série, meu objetivo não é alimentar saudosismos nem atribuir responsabilidades simplistas. Procuro compreender as causas de um processo que se desenvolveu ao longo de décadas e que continua produzindo efeitos sobre milhões de brasileiros.

Nos próximos artigos examinarei, separadamente, os quatro fatores que considero centrais para explicar esse cenário: a educação, o Custo Brasil, a concorrência internacional e a política de defesa da indústria nacional. Somente entendendo as raízes do problema poderemos discutir, com serenidade e responsabilidade, caminhos para reconstruir uma economia mais competitiva, inovadora e preparada para os desafios do século XXI.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: Walmor1953@gmail.com

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