25 jul Quando as Fábricas se Calam
Compreender as causas para reconstruir o futuro
“A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.”
— Peter Drucker
Há muito tempo venho me perguntando por que um país dotado de tantas riquezas naturais, de um amplo mercado consumidor e de um povo reconhecidamente trabalhador e pacífico passou a assistir, quase sem reação, ao enfraquecimento gradual de sua indústria. Essa inquietação não nasceu da leitura de estatísticas ou de relatórios econômicos. Ela é muito anterior a qualquer número.
Suas raízes remontam aos anos em que trabalhava no comércio de meu pai, observando de perto o movimento da economia local e a importância da atividade produtiva para o desenvolvimento da comunidade. Mais tarde, essa percepção amadureceu nos bancos escolares, nas aulas de Geografia, e ganhou fundamentos científicos durante a graduação, ao estudar Geografia Econômica, Administração e outras disciplinas relacionadas ao funcionamento da economia. Posteriormente, aprofundou-se na pós-graduação em Economia de Empresas.
Essa convicção fortaleceu-se ainda mais quando iniciei minha trajetória no serviço público municipal. Como Auditor Fiscal Tributário, Chefe da Fiscalização e Diretor de Receita da Prefeitura de Lages, tive a oportunidade de acompanhar, durante décadas, a dinâmica da indústria, do comércio, da prestação de serviços e da produção agropecuária. Mais tarde, como professor universitário de Administração Pública, Ética Profissional e Ética Empresarial, pude refletir e debater com centenas de alunos sobre os desafios do desenvolvimento econômico brasileiro.
Ao longo desse percurso, testemunhei profundas transformações. Vi empresas que pareciam sólidas e permanentes desaparecerem completamente. Outras, que durante décadas simbolizaram a força da indústria nacional, reduziram drasticamente sua produção, seu quadro de colaboradores e sua relevância econômica. Muitas dessas trajetórias se confundem com a própria história do desenvolvimento industrial de Santa Catarina e do Brasil.
Em Santa Catarina, marcas como Artefama, de São Bento do Sul; Cecrisa, de Criciúma; Carlos Renaux e Schlösser, de Brusque; além de Sulfabril, Artex, Buettner e Teka, de Blumenau, marcaram época pela capacidade de gerar empregos, renda e inovação. No cenário nacional, empresas como Brinquedos Estrela e Calçados Azaleia também representam uma fase importante da industrialização brasileira. Algumas encerraram definitivamente suas atividades; outras perderam competitividade ou enfrentaram longos e difíceis processos de recuperação judicial, sem jamais recuperar o protagonismo que um dia tiveram.
Esse fenômeno, entretanto, extrapola as fronteiras catarinenses. A própria história da industrialização brasileira pode ser contada por meio de empresas que ajudaram a construir a economia nacional e que, décadas depois, acabaram sucumbindo às profundas mudanças estruturais do ambiente econômico.
No setor têxtil, destacaram-se empresas como Hering, Coteminas, Carlos Renaux, Schlösser, Sulfabril, Artex e Buettner. No varejo, tornaram-se referências nomes como Hoepcke, Hermes Macedo, Mappin, Mesbla e Arapuã. Na aviação, Varig, Vasp, Cruzeiro e Transbrasil simbolizaram a capacidade brasileira de operar grandes companhias aéreas. Já na indústria eletroeletrônica, Gradiente, CCE e Sharp do Brasil estiveram presentes em milhões de lares brasileiros.
Naturalmente, cada empresa possui uma história própria, marcada por decisões administrativas, mudanças tecnológicas, transformações nos mercados e desafios específicos. Contudo, quando observadas em conjunto, essas trajetórias revelam um aspecto comum: o ambiente brasileiro tornou-se, ao longo das últimas décadas, progressivamente menos favorável ao investimento produtivo, à inovação e à expansão da atividade industrial.
O desaparecimento de empresas representam o enfraquecimento da capacidade nacional de produzir riqueza. Significam milhares de empregos extintos, redução da arrecadação tributária, dispersão de conhecimento técnico acumulado durante décadas, desestruturação de cadeias produtivas inteiras e oportunidades de desenvolvimento econômico que deixaram de existir.
Foi justamente a observação dessa realidade, construída ao longo de toda a minha trajetória profissional e acadêmica, que despertou a necessidade de compreender as verdadeiras causas desse processo. Afinal, como o Brasil com tamanho potencial produtivo chegou a esse ponto? É essa reflexão que proponho desenvolver nas páginas seguintes.
A indústria: muito além das fábricas
“Os resultados são obtidos aproveitando oportunidades, não resolvendo problemas.”
— Peter Drucker
Quando se fala em indústria, muitas pessoas imaginam apenas grandes galpões, máquinas e linhas de produção. No entanto, a indústria não representa só isso. Ela é um dos principais motores do desenvolvimento econômico porque agrega valor às matérias-primas, impulsiona a inovação tecnológica, estimula a pesquisa científica, fortalece cadeias produtivas e gera empregos de maior qualificação e melhor remuneração.
Historicamente, os países que alcançaram elevados níveis de renda e qualidade de vida consolidaram antes uma base industrial robusta. Alemanha, Japão, Coreia do Sul e, mais recentemente, a China demonstram que desenvolvimento sustentável dificilmente ocorre sem uma indústria forte, inovadora e integrada ao sistema educacional e científico.
O Brasil também percorreu esse caminho durante boa parte do século XX. A industrialização iniciada com maior intensidade a partir da década de 1930 diversificou a economia, reduziu a dependência de produtos importados e transformou profundamente diversas regiões do país.
Santa Catarina tornou-se um dos exemplos mais expressivos desse processo. Os setores têxtil, metalúrgico, cerâmico, moveleiro, alimentício e de máquinas projetaram empresas reconhecidas nacional e internacionalmente, responsáveis por milhares de empregos e pelo desenvolvimento de cidades inteiras.
Entretanto, nas últimas décadas, esse dinamismo começou a perder força.
Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI); Confederação Nacional da Indústria (CNI).
As marcas que construíram uma época
“A cultura come a estratégia no café da manhã.”
— Peter Drucker
Quatro fatores que ajudam a explicar esse processo
“O maior perigo em tempos de turbulência não é a turbulência; é agir com a lógica de ontem.”
— Peter Drucker
Ao longo desta série defenderei que a desindustrialização brasileira decorre principalmente da interação de quatro fatores estruturais.
- O primeiro é a deficiência da educação, a comecar pela qualidade do ensino básico, que limita a formação de trabalhadores qualificados, engenheiros, pesquisadores e empreendedores capazes de inovar em uma economia baseada no conhecimento.
- O segundo é o elevado custo de produzir no Brasil. A complexidade tributária, os encargos sobre a folha de pagamento, a burocracia, a insegurança jurídica, a logística cara e o crédito oneroso reduzem significativamente a competitividade das empresas nacionais.
- O terceiro fator é a concorrência internacional frequentemente desigual. Em diversos segmentos, produtos importados chegam ao mercado brasileiro beneficiados por subsídios, políticas cambiais, incentivos fiscais e condições de produção inexistentes no Brasil, tornando a competição assimétrica.
- Uma política industrial de longo prazo, que ultrapasse mandatos presidenciais, sem intervenções de políticas partidárias ou ideológicas, e com mecanismos de defesa comercial suficientemente ágeis e previsíveis para proteger setores estratégicos, sempre em conformidade com as regras internacionais.
Nenhum desses fatores, isoladamente, explica a perda de competitividade da indústria brasileira. Entretanto, quando atuam simultaneamente por muitos anos, acabam formando um ambiente que desestimula investimentos, reduz a inovação e acelera o fechamento de empresas.
Fontes: OCDE; Banco Mundial; CNI; IEDI; Organização Mundial do Comércio (OMC); Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Conclusão
A história demonstra que nenhum país alcançou desenvolvimento econômico duradouro abrindo mão de sua capacidade de produzir, inovar e transformar conhecimento em riqueza. A indústria não é apenas um setor da economia; ela constitui um dos pilares da soberania nacional, da geração de empregos qualificados, do avanço tecnológico e da melhoria da qualidade de vida da população.
Ao iniciar esta série, meu objetivo não é alimentar saudosismos nem atribuir responsabilidades simplistas. Procuro compreender as causas de um processo que se desenvolveu ao longo de décadas e que continua produzindo efeitos sobre milhões de brasileiros.
Nos próximos artigos examinarei, separadamente, os quatro fatores que considero centrais para explicar esse cenário: a educação, o Custo Brasil, a concorrência internacional e a política de defesa da indústria nacional. Somente entendendo as raízes do problema poderemos discutir, com serenidade e responsabilidade, caminhos para reconstruir uma economia mais competitiva, inovadora e preparada para os desafios do século XXI.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: Walmor1953@gmail.com
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