18 ago Hermes: O Que Realmente Sabemos?
Quando a dúvida é mais importante que a certeza
“A dúvida é o princípio da sabedoria.” — Aristóteles
Tenho cada vez mais a impressão de que, quando buscamos compreender determinados personagens e ideias da Antiguidade, precisamos ter cuidado para não transformar tradição em verdade histórica, interpretação em fato ou crença em conhecimento científico.
Hermes é um desses casos. Ao pesquisar sobre Hermes, Hermes Trismegisto, o hermetismo e sua relação com Sócrates, encontrei uma verdadeira sobreposição de histórias, personagens, épocas e interpretações. Em alguns momentos, parece que estamos diante de uma única tradição; quando examinamos melhor, percebemos que existem personagens e ideias diferentes, separados por séculos.
Essa confusão me levou a uma pergunta simples: o que realmente sabemos sobre Hermes?
A resposta não é tão simples. E talvez seja justamente essa dificuldade que torne o assunto tão interessante.
Uma das primeiras confusões está no próprio nome.
O Hermes da mitologia grega é uma divindade do Olimpo, filho de Zeus e Maia. Era mensageiro dos deuses, protetor dos viajantes, dos caminhos, do comércio e também condutor das almas. Sua presença pertence à antiga mitologia grega.
Hermes Trismegisto é outra figura. Não se trata simplesmente do mesmo Hermes em uma versão diferente. Ele é resultado de uma síntese cultural entre o Hermes grego e o deus egípcio Thoth, consolidada no ambiente helenístico de Alexandria.
A tradição atribuiu a Hermes Trismegisto uma série de ensinamentos sobre Deus, o homem, o universo e a alma. O principal conjunto desses textos ficou conhecido como Corpus Hermeticum.
Portanto, já encontramos aqui uma primeira advertência: Hermes, Hermes Trismegisto e o hermetismo não podem ser tratados como se fossem uma única realidade histórica.
O Corpus Hermeticum e a origem da tradição hermética
“Conhecer a si mesmo é o começo de toda sabedoria.” — tradição socrática
O Corpus Hermeticum é uma coleção de textos filosófico-religiosos escritos em grego, provavelmente entre os séculos II e III d.C. Esses textos estão na origem da tradição hermética, que reúne ensinamentos de caráter filosófico, religioso e espiritual atribuídos a Hermes Trismegisto.
Entre seus textos mais importantes está o Pimandro (Poimandres), considerado um dos textos fundadores do hermetismo. Nele, Hermes recebe de Poimandres — apresentado como a Mente ou Inteligência divina — uma revelação sobre a origem do universo, do ser humano e seu destino espiritual.
A revelação pode ser resumida em quatro pontos principais:
- A origem do cosmos — explica a criação e a organização do universo.
- A criação do ser humano — apresenta a origem e a natureza espiritual do homem.
- A relação com o mundo material — procura explicar por que o ser humano se encontra ligado à realidade física e terrena.
- O retorno à origem divina — apresenta um caminho de transformação espiritual pelo qual o homem pode superar sua condição material e reencontrar sua natureza divina.
Assim, o Pimandro pode ser entendido, em sentido figurado, como uma espécie de “manual da origem e do destino do ser humano”: procura explicar de onde viemos, por que estamos ligados ao mundo material e como podemos retornar à nossa essência espiritual
O papel central do autoconhecimento
Um dos pontos mais importantes do hermetismo é o autoconhecimento. Segundo essa tradição, conhecer a si mesmo permite ao homem alcançar um conhecimento mais profundo de Deus e do universo. Em outras palavras, olhar para dentro de si é também uma maneira de compreender aquilo que está fora de si.
É justamente nesse ponto que surge uma aproximação interessante com Sócrates. A tradição socrática também atribui grande importância ao “conhece-te a ti mesmo”, entendido como um caminho para a sabedoria.
Mas é importante não confundir as duas tradições.
Sócrates busca o conhecimento por meio da razão, do questionamento e do diálogo filosófico. O homem é levado a examinar suas próprias ideias, reconhecer sua ignorância e buscar a verdade por meio da reflexão.
O hermetismo, por sua vez, apresenta o conhecimento como resultado de uma experiência espiritual e reveladora. No Pimandro, Hermes recebe os ensinamentos de uma inteligência divina, Poimandres, que lhe revela verdades sobre o cosmos, o homem e seu destino.
Portanto, há uma aproximação entre as duas tradições, mas não uma identidade. Ambas valorizam o autoconhecimento, porém seguem caminhos diferentes para alcançar o conhecimento.
Comparando as duas tradições
| Aspecto | Hermetismo — Pimandro | Sócrates |
|---|---|---|
| Fonte do conhecimento | Revelação divina, transmitida por Poimandres | Razão, diálogo e investigação |
| Natureza do processo | Espiritual e mística | Filosófica e racional |
| Como se chega ao conhecimento | Por meio de uma experiência reveladora | Por perguntas, reflexão e questionamento |
| Objetivo final | Retornar à origem divina e superar a condição material | Buscar a virtude, a sabedoria e uma vida examinada |
| Papel do outro | Uma inteligência divina transmite a revelação | O diálogo conduz o indivíduo à reflexão e ao reconhecimento da própria ignorância |
A diferença fundamental
A semelhança entre as duas tradições está na importância atribuída ao conhecimento de si mesmo. A diferença está principalmente na maneira de alcançá-lo.
Na tradição socrática, o conhecimento é buscado por meio da razão, do diálogo e do questionamento. No hermetismo, ele aparece associado à revelação espiritual e à experiência interior.
Por isso, podemos dizer que os dois caminhos partem de uma preocupação semelhante — compreender o ser humano para alcançar um conhecimento maior —, mas chegam a esse conhecimento por meios distintos: Sócrates pelo caminho da investigação racional; o hermetismo, pelo caminho da revelação e da experiência espiritual.
Essa distinção é importante para evitar que a aproximação entre Sócrates e o hermetismo seja transformada, indevidamente, em uma identificação histórica entre as duas tradições.
Sócrates e a frase no templo de Delfos
“Só sei que nada sei.” — frase tradicionalmente atribuída a Sócrates
A história de Sócrates em Delfos é uma das mais interessantes passagens da filosofia ocidental.
Segundo o relato de Platão, Querefonte, amigo de Sócrates, foi ao Oráculo de Delfos e perguntou à Pítia se existia alguém mais sábio do que Sócrates. A resposta foi que não havia.
Sócrates ficou intrigado. Ele não se considerava sábio. A partir daí, passou a questionar aqueles que eram considerados sábios — políticos, poetas e artesãos — e percebeu que muitos possuíam conhecimentos específicos, mas frequentemente acreditavam saber mais do que realmente sabiam.
Foi então que Sócrates descobriu uma espécie particular de sabedoria: reconhecer os próprios limites.
No templo de Apolo, em Delfos, estava inscrita a conhecida máxima:
“Conhece-te a ti mesmo.”
É importante esclarecer que Sócrates não escreveu essa frase e tampouco a Pítia simplesmente o levou até uma parede para que a lesse. A inscrição já existia no templo. A consulta de Querefonte, entretanto, provocou em Sócrates uma reflexão profunda sobre o significado daquela máxima.
A autoria da frase também não é segura. Diferentes tradições antigas a atribuíram a diferentes personagens, entre eles Tales, Quílon e até uma poetisa mítica. Por isso, o mais prudente é tratá-la como uma antiga máxima da sabedoria grega, e não como uma frase de autoria comprovadamente socrática.
Sócrates e Hermes: duas maneiras de procurar o conhecimento
“Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” — Sócrates, segundo Platão
É possível encontrar uma aproximação entre Sócrates e o hermetismo: ambos colocam o autoconhecimento em posição central.
Mas o caminho percorrido é diferente.
Sócrates procura o conhecimento por meio da pergunta, do diálogo, da argumentação e do reconhecimento da própria ignorância. Seu método é racional e dialético.
O hermetismo, especialmente no Pimandro, apresenta outro caminho: a revelação, a experiência espiritual e a gnose, entendida como um conhecimento profundo capaz de reconduzir o homem à sua origem divina.
Em outras palavras, Sócrates questiona para descobrir os limites do que sabemos; o hermetismo busca uma revelação para compreender aquilo que estaria além do conhecimento comum.
São caminhos diferentes que, em determinado ponto, fazem uma pergunta semelhante: quem somos nós?
Onde começa a confusão sobre Hermes?
“O verdadeiro conhecimento é saber que nada sabemos.” — tradição socrática
É justamente nesse ponto que considero necessário separar história de tradição.
Durante séculos, diferentes correntes passaram a atribuir a Hermes conhecimentos que não pertenciam necessariamente ao Hermes original.
Um exemplo importante é O Kybalion, publicado em 1908. Suas chamadas “Sete Leis Herméticas” são frequentemente apresentadas como ensinamentos antigos de Hermes. O próprio texto-base, porém, alerta que essa formulação não pertence ao antigo Corpus Hermeticum. Trata-se de uma sistematização moderna, atribuída a “Três Iniciados” e geralmente associada ao ocultista William Walker Atkinson.
Isso muda bastante a nossa compreensão.
Não significa que as ideias sejam necessariamente sem valor filosófico. Significa apenas que não podemos apresentá-las como se fossem palavras escritas por Hermes Trismegisto na Antiguidade.
Essa distinção é fundamental.
Afinal, existe uma verdade científica sobre Hermes?
“O começo da sabedoria é a definição dos termos.” — Sócrates, em espírito do método socrático
Aqui chegamos ao ponto que mais me chama a atenção.
Quando falamos em “verdade científica sobre Hermes”, precisamos primeiro reconhecer que estamos tratando de coisas diferentes.
A ciência histórica pode investigar manuscritos, datas, autores, contextos culturais, linguagem e transmissão dos textos. Pode comparar documentos e estabelecer o que é mais provável ou menos provável.
Mas ela não pode transformar uma revelação religiosa em fato científico simplesmente porque um texto antigo a relata.
O que podemos afirmar historicamente é que existiu uma tradição hermética, que determinados textos foram produzidos em Alexandria na Antiguidade tardia e que esses textos foram posteriormente atribuídos a Hermes Trismegisto. Também podemos estudar a enorme influência que o hermetismo exerceu sobre o pensamento medieval, renascentista e moderno.
O que não podemos afirmar cientificamente é que Hermes Trismegisto tenha sido uma pessoa histórica comprovada que efetivamente escreveu todos os textos que lhe foram atribuídos.
O próprio material pesquisado o apresenta como uma figura literária e religiosa, sem existência histórica comprovada.
É justamente aí que aparece a fronteira entre história, filosofia, religião, tradição e ciência.
A confusão dos nomes também produz erros históricos
“A clareza é a cortesia do filósofo.” — Ortega y Gasset
Outro exemplo curioso é a confusão entre Hermes e Hérmias de Atarneu.
Hérmias foi uma pessoa real, governante da Ásia Menor e amigo de Aristóteles. Depois de sua morte, Aristóteles escreveu o chamado Hino à Virtude em sua homenagem.
Hermes, por outro lado, é uma divindade da mitologia grega.
São personagens completamente diferentes. A semelhança dos nomes, entretanto, pode produzir interpretações equivocadas.
O mesmo cuidado deve existir quando se fala em Platão. Ele discutiu Hermes, o deus grego, especialmente no diálogo Crátilo, ao analisar a origem e o significado do nome Hermes. Mas Platão não poderia ter escrito sobre Hermes Trismegisto, pois essa figura e o conjunto de textos herméticos surgiram séculos depois de sua morte.
O que podemos afirmar — e o que devemos deixar em aberto
“A verdadeira sabedoria consiste em saber o que não se sabe.” — Sócrates
Depois de percorrer esse caminho, penso que a posição mais prudente é abandonar a necessidade de encontrar uma resposta definitiva para tudo.
Podemos afirmar que Hermes pertence à antiga mitologia grega.
Podemos afirmar que Hermes Trismegisto é uma figura sincrética associada à tradição greco-egípcia.
Podemos afirmar que o Corpus Hermeticum é um conjunto de textos fundamentais para o estudo do hermetismo.
Podemos afirmar que o Pimandro apresenta uma visão segundo a qual o autoconhecimento está relacionado ao conhecimento de Deus.
Podemos afirmar que o Kybalion, de 1908, é uma releitura moderna do hermetismo.
Mas devemos ter cautela quando alguém apresenta todos esses elementos como se fossem uma única tradição histórica, contínua e comprovada.
É justamente nessa mistura que nasce a confusão.
Conclusão
O valor de reconhecer os limites do conhecimento
Quando comecei a examinar esse tema, minha intenção era encontrar respostas. Ao avançar, percebi que talvez a principal lição esteja justamente em reconhecer as perguntas que permanecem sem resposta definitiva.
Hermes é um bom exemplo de como o conhecimento humano se constrói, se transforma e, muitas vezes, também se confunde. Mitos, religiões, filosofias, manuscritos, interpretações e crenças atravessaram séculos e acabaram formando uma grande teia de significados.
Por isso, prefiro não transformar aquilo que desconheço em certeza.
A passagem de Sócrates por Delfos me parece particularmente atual. Querefonte levou ao oráculo uma pergunta sobre quem era o homem mais sábio. A resposta obrigou Sócrates a investigar o significado da sabedoria. E, no fundo, ele descobriu que reconhecer a própria ignorância poderia ser uma forma superior de conhecimento.
Talvez essa seja também a melhor maneira de olhar para Hermes.
Não precisamos acreditar o que a tradição afirma, nem rejeitar tudo aquilo que pode ser cientificamente comprovado. Precisamos, antes, aprender a distinguir o que sabemos, o que interpretamos e aquilo que ainda não sabemos.
É nesse ponto que a antiga inscrição de Delfos continua atual:
“Conhece-te a ti mesmo.”
E eu acrescentaria: conhece também os limites daquilo que pensas conhecer.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes:
- PLATÃO. Apologia de Sócrates. Texto fundamental para compreender a reflexão socrática sobre a sabedoria, a ignorância e o episódio relacionado ao Oráculo de Delfos.
- PLATÃO. Crátilo. Diálogo em que Sócrates discute a origem e o significado dos nomes, incluindo a interpretação do nome Hermes.
- CORPUS HERMETICUM. Conjunto de textos herméticos gregos, especialmente o Pimandro, fundamental para o estudo do hermetismo antigo.
- DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. Fonte antiga importante para as tradições relacionadas aos filósofos gregos e à máxima de Delfos.
- PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia. Fonte antiga relacionada às inscrições e tradições do santuário de Delfos.
- ATKINSON, William Walker. O Kybalion. 1908. Obra moderna que sistematizou as chamadas Sete Leis Herméticas, não devendo ser confundida com o Corpus Hermeticum da Antiguidade.
- YATES, Frances A. Giordano Bruno and the Hermetic Tradition. Obra clássica para compreender a influência do hermetismo no Renascimento.
- ANTONUTTI, Pedro Barbieri. Estudos acadêmicos sobre Hermes Trismegisto e o Corpus Hermeticum, utilizados no material de pesquisa.
Observações
No texto final, evitei afirmar que existe uma “verdade científica” sobre os ensinamentos de Hermes no sentido de comprovação experimental.O correto é falar em evidência histórica, análise filosófica e tradição religiosa, porque são campos diferentes. Essa distinção, a meu ver, fortalece bastante o caráter opinativo do artigo e evita que ele pareça defender como fato aquilo que as próprias fontes apresentam como tradição ou interpretação.

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