29 jul A Arquitetura da Felicidade
Pensar, Criar, Realizar e Recordar
Houve um tempo em minha vida em que eu pensava que a felicidade morava apenas nos grandes acontecimentos. Por isso, passei boa parte da vida esperando por uma dia extraordinário, sem perceber que ela costuma chegar em silêncio, escondida nos pequenos instantes. O nascimento de um sonho.
Lembro do dia em que planejei uma viagem em família.
Tudo começou com uma conversa despretensiosa. Eu disse: “Seria bom conhecer aquele lugar.” A frase parecia simples, mas, naquele instante, nasceu um sonho. O destino ainda estava distante, o dinheiro talvez não existisse, o tempo parecia insuficiente. Mesmo assim, algo invisível começou a trabalhar dentro de mim.
A partir daquele momento, quase sem perceber, comecei a organizar a vida em torno daquele propósito. Economizei um pouco aqui, pesquisei um local ali, escolhi os passeios, fiz planos. O sonho ganhou forma porque eu lhe dei um propósito e criei, dia após dia, as condições necessárias para que ele se realizasse. Um pensamento diretor atraiu outros pensamentos, que passaram a colaborar comigo na realização daquilo que eu havia decidido viver.
Naquela época em que trabalhava na Prefeitura, os rendimentos quase se ajustavam aos gastos com a escola das meninas e às demais despesas de manutenção de uma família. Mesmo assim, havia sempre uma pequena sobra, o suficiente para passar poucos dias na praia durante o veraneio. E, nesses tempos de aperto financeiro, eu já trazia comigo a certeza dos benefícios que momentos como esse proporcionariam a mim e à minha família. Guardo registros disso em álbuns de fotografia, e toda vez que os abro, vêm à mente e ao coração belas e inesquecíveis recordações.
O dia da realização
Finalmente chegou o dia da viagem.
Havia um brilho diferente em meus olhos. As crianças corriam, as fotografias registravam paisagens que jamais seriam exatamente iguais. Mas existia algo muito mais importante do que aquilo que a câmera conseguia guardar: eram as emoções que ficaram gravadas dentro de mim.
Vivendo aqueles momentos, sabendo como tudo havia sido pensado e construído por mim antes, eu sabia, mesmo sem dizer uma palavra, que estava sendo feliz.
O que permanece
A viagem terminou. As malas voltaram para o armário. A rotina retornou. Poderia parecer que tudo havia ficado para trás.
Mas não ficou.
Ainda hoje, basta abrir um álbum de fotografias, ouvir uma música que tocava naqueles dias ou lembrar de uma conversa ao redor da mesa para que algo extraordinário aconteça: o tempo recua. Meu coração sorri novamente. Minha mente percorre os mesmos caminhos, revive os mesmos abraços, escuta os mesmos risos.
O passado não volta. Mas a felicidade, de certa forma, volta com ele.
É um dos maiores presentes que a memória me oferece: ela permite que as boas realizações continuem produzindo alegria muito depois de terem acontecido — e elas só existem porque um dia eu decidi criá-las.
Viver conscientemente
Talvez seja por isso que Sócrates insistisse tanto na importância de viver conscientemente. Para mim, viver conscientemente significa ter a clareza de reconhecer que fui eu quem criou essa oportunidade, criando as condicoes necessárias para tanto — que a felicidade vivida ali não chegou por acaso, mas nasceu de uma escolha minha. Quem atravessa a vida distraído, quem é pobre em realizações, é porque não pensa nem cria as condições favoráveis para tanto — e assim coleciona apenas dias desperdiçados. Eu prefiro viver desperto: pensar, agir e reunir as condições favoráveis para colecionar lembranças.
E as lembranças são uma forma delicada de vencer o tempo.
O caminho de toda conquista
Percebo, então, que toda realização humana segue um caminho semelhante. Primeiro nasce um propósito. Depois vêm o planejamento, a perseverança, o trabalho e a espera. Só então chega a conquista. Nada acontece por acaso. A felicidade floresce quando um sonho encontra, em mim, uma vontade firme de transformá-lo em realidade.
Existe ainda uma alegria silenciosa que quase nunca recebe atenção: reconhecer o próprio esforço. Não para me envaidecer, mas por gratidão. Gratidão por não ter desistido, por ter persistido quando o caminho parecia longo, e por compreender que as maiores conquistas da vida costumam amadurecer lentamente, como as árvores que levam anos para oferecer sombra.
O que fica
No fim da existência, dificilmente me lembrarei da conta bancária, do carro que dirigi ou dos objetos que possuí. O que permanecerá serão os abraços, as viagens, as conversas demoradas, os risos compartilhados, o bem que fiz, a ajuda que ofereci ao semelhante, as obras de bem, os gestos de carinho e todos aqueles instantes em que tive a felicidade de estar plenamente presente.
Penso que a felicidade seja exatamente isso.
Não um lugar onde se chega, mas uma coleção de momentos que criei e vivi com tanta intensidade que a memória os transformou em companheiros para toda a vida.
E sempre que volto a essas lembranças, descubro que o coração também sabe viajar.
“Uma vida sem exame não merece ser vivida.”
— Sócrates
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
walmor1953@gmail.com
Ana Paula
Postado em 23:53h, 30 julhoQuantos lindos momentos vivemos e estão guardados no coração. A felicidade são estas pequenas de bem que acontecem todos os dias, algumas vezes silenciosas, mas cheias de significado. Sou grata por ter vivido e viver contigo muitos destes momentos, pai ❤️