05 nov Clube não Morre de Paixão. Morre de Má Gestão
Palavras de um torcedor que viu clubes inteiros virarem memória. Escrevo como quem sempre esteve na arquibancada: antes de tudo, torcedor.
Futebol não é só jogo e não é só negócio. É patrimônio afetivo, cultural e histórico de uma cidade, de um estado, de um país. Por isso dói ver clubes que marcaram gerações sumirem ou perderem a identidade.A sobrevivência deles depende da paixão da arquibancada, sim. Mas depende, sobretudo, de quem está na diretoria: gestão com responsabilidade, planejamento e visão de futuro.
ESCUDOS QUE VIRARAM SAUDADE
Desde a mais tenra idade, o futebol faz parte da minha vida. Acompanhei de perto os campeonatos das Ligas Lageana e Serrana, da Federação Catarinense de Futebol e da Confederação Brasileira de Futebol, e conheci clubes que fizeram história, mas cujos nomes e escudos hoje são desconhecidos por boa parte da juventude.
Aqui, na Serra Catarinense, a lista é longa e dolorosa. Em Lages, desapareceram o Aliados, o Vasco, o Arco-Íris, o Cruzeiro, o Pinheiros, o Guarani e o próprio Lages. Em São Joaquim, ficou apenas na lembrança o Nevada. Em Curitibanos, calaram-se o Flamengo e o Curitibanos. E, em Otacílio Costa, o Olinkraft.
Mas a dor não é só nossa: Santa Catarina inteira tem a sua lista de baixas. Em Blumenau, foram-se o Olímpico, o Guarani, o Palmeiras e o Blumenau. Em Criciúma, o Metropol, o Comerciário, o Próspera e o Operário. Em Tubarão, o Ferroviário. Em Joinville, o Caxias e o América. Em Itajaí, o Clube Náutico Ari Barroso. Em Brusque, o Paysandu e o Carlos Renaux. Em Rio do Sul, o Juventus e o Rio do Sul. Em Joaçaba, o Comercial, o Cruzeiro e o Joaçaba. Em Videira, o Perdigão. Em Concórdia, o Sadia. Em Chapecó, o Independente, o Chapecó e o antigo Clube Atlético Chapecoense. Em Caçador, o Kindermann (masculino) e o Caçadorense. Em Mafra, o Peri e o Operário. E, em Canoinhas, o Santa Cruz.
Cada caso tem a sua história. Alguns sumiram de vez. Outros pararam e voltaram. Outros ainda se fundiram e viraram um novo clube, muitas vezes com o nome da cidade. Mas, em quase todos, a causa é a mesma: a falta de gestão administrativa e financeira.
Eram clubes que reuniam famílias nas arquibancadas, revelavam talentos, davam identidade a comunidades inteiras. Quando um clube morre, a cidade perde parte de si: o hino, o brasão, as cores, as taças, as histórias que levaram anos para serem construídas.
Onde um escudo se apaga, uma história se cala. Por isso, lembrar esses clubes não é apenas matar a saudade: é um alerta. Nenhum clube se sustenta sozinho, nem por tradição, nem por glórias passadas. Ele vive do cuidado de quem o dirige, da dedicação de quem o serve e do amor de quem o acompanha.
O maior título de um presidente não é a taça erguida no alto do pódio. Taças enferrujam, faixas desbotam, mas um clube vivo atravessa o tempo. O maior título é entregar o escudo ainda brilhando às mãos da próxima geração, saudável, respeitado e com alegria de existir.
Que possamos honrar os escudos que ficaram na memória, cuidando dos que ainda estão de pé. Que nenhum outro vire saudade.
O FUTEBOL BRASILEIRO ESTÁ NO VERMELHO
E o problema não é só passado. É presente. Hoje, clubes de todas as divisões vivem no sufoco: dívida alta, salário atrasado, imposto atrasado, receita que não paga a conta. Seguem em campo, mas no limite.
Por quê? Porque muita gente ainda administra clube como se fosse pelada de fim de semana.
Movidos por paixão cega e imediatismo, dirigentes tentam tirar o time da má fase a qualquer custo. Contratam caro, assumem compromisso astronômico e não medem a conta que vai chegar depois. Para não fechar as portas, muitos recorrem a medidas extremas. A recuperação judicial virou um balão de oxigênio para congelar e renegociar dívidas impagáveis. A SAF apareceu como tentativa de atrair investidor profissional.
Mas nem lei nem dinheiro de fora resolvem se a mentalidade amadora continuar.
DA PAIXÃO AO PROFISSIONALISMO
Até os anos 1990, a maioria dos clubes era administrada de forma amadora. Presidentes e diretores eram torcedores voluntários, bem-intencionados, mas nem sempre preparados para a complexidade de uma instituição esportiva.
A decisão vinha da paixão, da pressão por resultado imediato, sem planejamento. Resultado: dívida, passivo trabalhista, passivo tributário, dependência de venda de jogador ou do bolso do dirigente.
A legislação e o mercado passaram a cobrar mais transparência. Vieram a Lei Pelé (1998), o Profut (2015) e a Lei da SAF (2021). Os clubes que buscaram estabilidade adotaram o básico da gestão profissional: planejamento estratégico, controle orçamentário, governança, metas e avaliação de resultados. Profissionalizar é conciliar paixão com responsabilidade.
UM PRESIDENTE, TRÊS FRENTES
O presidente precisa ter visão de longo prazo, escolher por competência — não por afinidade pessoal ou política —, equilibrar o esportivo e o financeiro, prestar contas com transparência e respeitar estatuto e legislação.
Ele comanda três áreas que precisam jogar juntas:
Futebol: desempenho dentro do limite financeiro. Monta elenco conforme a necessidade técnica e o dinheiro disponível, cuida de contratos, investe na base e dá estabilidade à comissão técnica.
Finanças: saúde econômica. Orçamento realista, despesa e salário de acordo com a receita recorrente, caixa e dívida sob controle, obrigações fiscais e trabalhistas em dia. Regra de ouro: não criar despesa permanente contando com receita incerta, como venda eventual de jogador.
Administração e patrimônio: estrutura e crescimento. Novas receitas, patrocinadores, sócio-torcedor forte, licenciamento de produtos, estádio e bens bem cuidados, jurídico em dia e comunicação transparente com torcida e comunidade.
A imagem do clube também é ativo. Precisa ser gerida e vendida com critério: licenciamento da marca, venda de direitos de transmissão, produção de conteúdo — vídeos, fotos, programas, redes sociais — e cessão de imagem a patrocinadores. Para clubes menores, internet e redes sociais abriram uma receita que antes não existia. Mas a marca precisa ser protegida: hino, brasão e cores só com autorização do clube.
O mesmo vale para a imagem do atleta. Bem estruturada, valoriza jogador e clube. Para isso, contrato claro e separado do contrato de trabalho: o que pode ser explorado, por quem, por quanto tempo e por quanto. Se for usada só para complementar salário, sem contrapartida real, vira passivo trabalhista e fiscal.
Na lei, a Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) trata a cessão de imagem como ajuste civil, distinto do contrato de trabalho. A Lei Pelé previa teto de 40%; a Lei Geral menciona 50%. O clube deve confirmar qual regra vale para cada contrato. Já o direito de arena é do clube mandante desde a Lei nº 14.205/2021, e 5% da receita com direitos audiovisuais é dividido igualmente entre os atletas participantes.
PARA QUE NENHUM ESCUDO SE APAGUE
Se lembrar os escudos que se apagaram é um alerta, evitar que outros se apaguem é um dever.
Por isso, deixo uma proposta: que todo presidente, ao assumir um clube, assuma também o compromisso de contratar profissionais capacitados e qualificados para as áreas essenciais da entidade, como finanças, marketing, comunicação, direito esportivo, categorias de base, infraestrutura e tecnologia.
O caminho da formação já está aberto, com cursos de graduação e pós-graduação em gestão esportiva. Se o futebol ficou tão complexo (contratos, patrimônio, receitas, despesas, legislação, relação com o público), por que tantos clubes ainda dependem de dirigentes voluntários, sem formação ou tempo suficiente? Dedicação e amor ao clube são indispensáveis, mas já não bastam. O voluntário segue com papel decisivo, no comando e na fiscalização, mas a execução deve estar nas mãos de quem se preparou para ela.
A primeira tarefa dessa gestão deve ser um planejamento de longo prazo: onde o clube quer estar daqui a 20 anos? Sede própria, centros de treinamento, estádio modernizado, departamento médico especializado, metas esportivas e sustentabilidade financeira, com prazos e recursos definidos. As novas tecnologias, como a inteligência artificial, podem ajudar em muito, desde que usadas com responsabilidade e sem abrir mão da análise humana.
E contratar não basta: é preciso cobrar. Metas claras, relatórios periódicos e avaliação de resultados, sob o acompanhamento próximo do presidente e da diretoria, são a garantia de que o clube não dependa da sorte, nem de uma única pessoa, para continuar vivo.
TORCIDA QUE APOIA E RESPEITA
A formação também deveria incluir relacionamento com torcedores e educação esportiva. A torcida é uma das maiores forças do clube.
Torcidas organizadas disciplinadas, com regras de convivência e compromisso com segurança e respeito. Bandas animando a arquibancada, cantos que valorizem cores, hino e história. Campanhas de uniformização, estimulando o uso das cores e das camisas oficiais.
E tudo isso com orientação permanente sobre comportamento, principalmente entre os mais jovens: convivência pacífica, cordialidade e espírito esportivo.
A mensagem é simples: a competição é dentro das quatro linhas. Fora delas, prevalece o respeito. Rivalidade dá emoção, mas não justifica agressão, discriminação ou violência. Saber ganhar, reconhecer o mérito do adversário e aceitar a derrota também são educação esportiva.
GESTÃO QUE SOBREVIVE ÀS ELEIÇÕES
Com profissionais preparados, os clubes poderiam contratar diretores executivos remunerados, com dedicação integral e responsabilidades claras. Presidente e diretoria eleita definiriam diretrizes, aprovariam planos e fiscalizariam resultados. A execução do dia a dia ficaria com profissionais qualificados, com metas e prestação de contas.
A proposta preserva a participação dos torcedores e valoriza o voluntariado. O objetivo é separar representação e fiscalização daquilo que exige conhecimento técnico e dedicação permanente.Assim, a administração deixa de depender da disponibilidade de cada presidente, e os projetos ganham continuidade mesmo com troca de diretoria.
Sem isso, o roteiro é conhecido: dívidas, salários atrasados, dependência do bolso do dirigente, perda de competitividade, rebaixamentos, fuga de patrocinadores e, no fim, paralisação ou fusão. O estrago atinge a comunidade. O torcedor perde seu espaço de convivência e lazer, a cidade fica sem uma equipe que a represente e vê parte de sua história esportiva desaparecer.
Um clube bem administrado atravessa gerações, preserva tradições, representa dignamente seu município, dá lazer às famílias e fortalece vínculos entre torcedores. Seu patrimônio são estádios, instalações e troféus e, sobretudo, memória coletiva: encontros entre amigos, histórias contadas pelos mais velhos, paixão passada de pais para filhos.
O MAIOR TÍTULO
Conquistar títulos é importante, mas não pode justificar endividamento irresponsável nem comprometer o futuro. Da mesma forma, manter as contas equilibradas exige investimento bem planejado para garantir competitividade.
Como quem acompanha futebol desde criança e viu tantos clubes desaparecerem, defendo a formação de gestores especializados e sua contratação pelos clubes.
É preciso entender: um clube não pertence só ao presidente, à diretoria ou aos jogadores de uma época. Ele representa uma comunidade e uma história construída por muitas gerações. O dirigente recebe, temporariamente, a responsabilidade de cuidar desse patrimônio. Sua missão é entregar a instituição melhor do que encontrou.
Afinal, o maior título de um presidente talvez não seja uma taça em campo, mas deixar um clube financeiramente saudável, administrativamente organizado, esportivamente competitivo e com a história preservada para as próximas gerações.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com



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