Clube não Morre de Paixão. Morre de Má Gestão

Clube não Morre de Paixão. Morre de Má Gestão

Palavras de um torcedor que viu clubes inteiros virarem memória. Escrevo como quem sempre esteve na arquibancada: antes de tudo, torcedor.

Futebol não é só jogo e não é só negócio. É patrimônio afetivo, cultural e histórico de uma cidade, de um estado, de um país. Por isso dói ver clubes que marcaram gerações sumirem ou perderem a identidade.A sobrevivência deles depende da paixão da arquibancada, sim. Mas depende, sobretudo, de quem está na diretoria: gestão com responsabilidade, planejamento e visão de futuro.


ESCUDOS QUE VIRARAM SAUDADE

Desde a mais tenra idade, o futebol faz parte da minha vida. Acompanhei de perto os campeonatos das Ligas Lageana e Serrana, da Federação Catarinense de Futebol e da Confederação Brasileira de Futebol, e conheci clubes que fizeram história, mas cujos nomes e escudos hoje são desconhecidos por boa parte da juventude.

Aqui, na Serra Catarinense, a lista é longa e dolorosa. Em Lages, desapareceram o Aliados, o Vasco, o Arco-Íris, o Cruzeiro, o Pinheiros, o Guarani e o próprio Lages. Em São Joaquim, ficou apenas na lembrança o Nevada. Em Curitibanos, calaram-se o Flamengo e o Curitibanos. E, em Otacílio Costa, o Olinkraft.

Mas a dor não é só nossa: Santa Catarina inteira tem a sua lista de baixas. Em Blumenau, foram-se o Olímpico, o Guarani, o Palmeiras e o Blumenau. Em Criciúma, o Metropol, o Comerciário, o Próspera e o Operário. Em Tubarão, o Ferroviário. Em Joinville, o Caxias e o América. Em Itajaí, o Clube Náutico Ari Barroso. Em Brusque, o Paysandu e o Carlos Renaux. Em Rio do Sul, o Juventus e o Rio do Sul. Em Joaçaba, o Comercial, o Cruzeiro e o Joaçaba. Em Videira, o Perdigão. Em Concórdia, o Sadia. Em Chapecó, o Independente, o Chapecó e o antigo Clube Atlético Chapecoense. Em Caçador, o Kindermann (masculino) e o Caçadorense. Em Mafra, o Peri e o Operário. E, em Canoinhas, o Santa Cruz.

Cada caso tem a sua história. Alguns sumiram de vez. Outros pararam e voltaram. Outros ainda se fundiram e viraram um novo clube, muitas vezes com o nome da cidade. Mas, em quase todos, a causa é a mesma: a falta de gestão administrativa e financeira.

Eram clubes que reuniam famílias nas arquibancadas, revelavam talentos,  davam identidade a comunidades inteiras. Quando um clube morre, a cidade perde parte de si: o hino, o brasão, as cores, as taças, as histórias que levaram anos para serem construídas.

Onde um escudo se apaga, uma história se cala. Por isso, lembrar esses clubes não é apenas matar a saudade: é um alerta. Nenhum clube se sustenta sozinho, nem por tradição, nem por glórias passadas. Ele vive do cuidado de quem o dirige, da dedicação de quem o serve e do amor de quem o acompanha.

O maior título de um presidente não é a taça erguida no alto do pódio. Taças enferrujam, faixas desbotam, mas um clube vivo atravessa o tempo. O maior título é entregar o escudo ainda brilhando às mãos da próxima geração, saudável, respeitado e com alegria de existir.

Que possamos honrar os escudos que ficaram na memória, cuidando dos que ainda estão de pé. Que nenhum outro vire saudade.


O FUTEBOL BRASILEIRO ESTÁ NO VERMELHO

E o problema não é só passado. É presente. Hoje, clubes de todas as divisões vivem no sufoco: dívida alta, salário atrasado, imposto atrasado, receita que não paga a conta. Seguem em campo, mas no limite.

Por quê? Porque muita gente ainda administra clube como se fosse pelada de fim de semana.

Movidos por paixão cega e imediatismo, dirigentes tentam tirar o time da má fase a qualquer custo. Contratam caro, assumem compromisso astronômico e não medem a conta que vai chegar depois. Para não fechar as portas, muitos recorrem a medidas extremas. A recuperação judicial virou um balão de oxigênio para congelar e renegociar dívidas impagáveis. A SAF apareceu como tentativa de atrair investidor profissional.

Mas nem lei nem dinheiro de fora resolvem se a mentalidade amadora continuar.


DA PAIXÃO AO PROFISSIONALISMO

Até os anos 1990, a maioria dos clubes era administrada de forma amadora. Presidentes e diretores eram torcedores voluntários, bem-intencionados, mas nem sempre preparados para a complexidade de uma instituição esportiva.

A decisão vinha da paixão, da pressão por resultado imediato, sem planejamento. Resultado: dívida, passivo trabalhista, passivo tributário, dependência de venda de jogador ou do bolso do dirigente.

A legislação e o mercado passaram a cobrar mais transparência. Vieram a Lei Pelé (1998), o Profut (2015) e a Lei da SAF (2021). Os clubes que buscaram estabilidade adotaram o básico da gestão profissional: planejamento estratégico, controle orçamentário, governança, metas e avaliação de resultados. Profissionalizar é conciliar paixão com responsabilidade.


UM PRESIDENTE, TRÊS FRENTES

 

O presidente precisa ter visão de longo prazo, escolher por competência — não por afinidade pessoal ou política —, equilibrar o esportivo e o financeiro, prestar contas com transparência e respeitar estatuto e legislação.

 

Ele comanda três áreas que precisam jogar juntas:

Futebol: desempenho dentro do limite financeiro. Monta elenco conforme a necessidade técnica e o dinheiro disponível, cuida de contratos, investe na base e dá estabilidade à comissão técnica.

Finanças: saúde econômica. Orçamento realista, despesa e salário de acordo com a receita recorrente, caixa e dívida sob controle, obrigações fiscais e trabalhistas em dia. Regra de ouro: não criar despesa permanente contando com receita incerta, como venda eventual de jogador.

Administração e patrimônio: estrutura e crescimento. Novas receitas, patrocinadores, sócio-torcedor forte, licenciamento de produtos, estádio e bens bem cuidados, jurídico em dia e comunicação transparente com torcida e comunidade.

A imagem do clube também é ativo. Precisa ser gerida e vendida com critério: licenciamento da marca, venda de direitos de transmissão, produção de conteúdo — vídeos, fotos, programas, redes sociais — e cessão de imagem a patrocinadores. Para clubes menores, internet e redes sociais abriram uma receita que antes não existia. Mas a marca precisa ser protegida: hino, brasão e cores só com autorização do clube.

O mesmo vale para a imagem do atleta. Bem estruturada, valoriza jogador e clube. Para isso, contrato claro e separado do contrato de trabalho: o que pode ser explorado, por quem, por quanto tempo e por quanto. Se for usada só para complementar salário, sem contrapartida real, vira passivo trabalhista e fiscal.

Na lei, a Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) trata a cessão de imagem como ajuste civil, distinto do contrato de trabalho. A Lei Pelé previa teto de 40%; a Lei Geral menciona 50%. O clube deve confirmar qual regra vale para cada contrato. Já o direito de arena é do clube mandante desde a Lei nº 14.205/2021, e 5% da receita com direitos audiovisuais é dividido igualmente entre os atletas participantes.


PARA QUE NENHUM ESCUDO SE APAGUE

Se lembrar os escudos que se apagaram é um alerta, evitar que outros se apaguem é um dever.

Por isso, deixo uma proposta: que todo presidente, ao assumir um clube, assuma também o compromisso de contratar profissionais capacitados e qualificados para as áreas essenciais da entidade, como finanças, marketing, comunicação, direito esportivo, categorias de base, infraestrutura e tecnologia.

O caminho da formação já está aberto, com cursos de graduação e pós-graduação em gestão esportiva. Se o futebol ficou tão complexo (contratos, patrimônio, receitas, despesas, legislação, relação com o público), por que tantos clubes ainda dependem de dirigentes voluntários, sem formação ou tempo suficiente? Dedicação e amor ao clube são indispensáveis, mas já não bastam. O voluntário segue com papel decisivo, no comando e na fiscalização, mas a execução deve estar nas mãos de quem se preparou para ela.

A primeira tarefa dessa gestão deve ser um planejamento de longo prazo: onde o clube quer estar daqui a 20 anos? Sede própria, centros de treinamento, estádio modernizado, departamento médico especializado, metas esportivas e sustentabilidade financeira, com prazos e recursos definidos. As novas tecnologias, como a inteligência artificial, podem ajudar em muito, desde que usadas com responsabilidade e sem abrir mão da análise humana.

E contratar não basta: é preciso cobrar. Metas claras, relatórios periódicos e avaliação de resultados, sob o acompanhamento próximo do presidente e da diretoria, são a garantia de que o clube não dependa da sorte, nem de uma única pessoa, para continuar vivo.


TORCIDA QUE APOIA E RESPEITA

A formação também deveria incluir relacionamento com torcedores e educação esportiva. A torcida é uma das maiores forças do clube.

 

Torcidas organizadas disciplinadas, com regras de convivência e compromisso com segurança e respeito. Bandas animando a arquibancada, cantos que valorizem cores, hino e história. Campanhas de uniformização, estimulando o uso das cores e das camisas oficiais.

 

E tudo isso com orientação permanente sobre comportamento, principalmente entre os mais jovens: convivência pacífica, cordialidade e espírito esportivo.

A mensagem é simples: a competição é dentro das quatro linhas. Fora delas, prevalece o respeito. Rivalidade dá emoção, mas não justifica agressão, discriminação ou violência. Saber ganhar, reconhecer o mérito do adversário e aceitar a derrota também são educação esportiva.


GESTÃO QUE SOBREVIVE ÀS ELEIÇÕES

Com profissionais preparados, os clubes poderiam contratar diretores executivos remunerados, com dedicação integral e responsabilidades claras. Presidente e diretoria eleita definiriam diretrizes, aprovariam planos e fiscalizariam resultados. A execução do dia a dia ficaria com profissionais qualificados, com metas e prestação de contas.

A proposta preserva a participação dos torcedores e valoriza o voluntariado. O objetivo é separar representação e fiscalização daquilo que exige conhecimento técnico e dedicação permanente.Assim, a administração deixa de depender da disponibilidade de cada presidente, e os projetos ganham continuidade mesmo com troca de diretoria.

Sem isso, o roteiro é conhecido: dívidas, salários atrasados, dependência do bolso do dirigente, perda de competitividade, rebaixamentos, fuga de patrocinadores e, no fim, paralisação ou fusão. O estrago atinge a comunidade. O torcedor perde seu espaço de convivência e lazer, a cidade fica sem uma equipe que a represente e vê parte de sua história esportiva desaparecer.

Um clube bem administrado atravessa gerações, preserva tradições, representa dignamente seu município, dá lazer às famílias e fortalece vínculos entre torcedores. Seu patrimônio são estádios, instalações e troféus e, sobretudo, memória coletiva: encontros entre amigos, histórias contadas pelos mais velhos, paixão passada de pais para filhos.


O MAIOR TÍTULO

Conquistar títulos é importante, mas não pode justificar endividamento irresponsável nem comprometer o futuro. Da mesma forma, manter as contas equilibradas exige investimento bem planejado para garantir competitividade.

Como quem acompanha futebol desde criança e viu tantos clubes desaparecerem, defendo a formação de gestores especializados e sua contratação pelos clubes.

É preciso entender: um clube não pertence só ao presidente, à diretoria ou aos jogadores de uma época. Ele representa uma comunidade e uma história construída por muitas gerações. O dirigente recebe, temporariamente, a responsabilidade de cuidar desse patrimônio. Sua missão é entregar a instituição melhor do que encontrou.

Afinal, o maior título de um presidente talvez não seja uma taça em campo, mas deixar um clube financeiramente saudável, administrativamente organizado, esportivamente competitivo e com a história preservada para as próximas gerações.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com

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