Estado em Xeque

Estado em Xeque

Reformar a Administração Pública para servir melhor ao cidadão

Há uma pergunta que o Brasil não pode continuar adiando:

Quanto custa o Estado brasileiro — e o que o cidadão recebe em troca?

Não faço essa pergunta para atacar o serviço público ou seus servidores. O Estado é indispensável, e uma sociedade moderna precisa de uma Administração Pública profissional, competente e eficiente.

O problema surge quando a máquina pública se torna cara, lenta e excessivamente burocrática, sem entregar à sociedade resultados proporcionais aos recursos que consome.

Por isso, a reforma administrativa é uma das questões mais importantes do Brasil.


O Estado existe para servir

A Administração Pública está presente na escola, no posto de saúde, na fiscalização, na segurança, nas estradas, no transporte e em inúmeros serviços que fazem parte da vida do cidadão.

A Constituição de 1988 estabeleceu, no artigo 37, cinco princípios que devem orientar sua atuação: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Os quatro primeiros protegem a sociedade contra abusos e favorecimentos. O quinto traz uma exigência igualmente importante:

não basta cumprir a lei; é preciso produzir resultados.

Essa mudança de mentalidade é essencial.


Quando a burocracia vence o resultado

O Brasil criou uma extensa estrutura de leis, normas e controles para proteger o dinheiro público e combater o favorecimento. Isso foi necessário.

O problema é o excesso.

Quando acumulamos regras, procedimentos e controles sem avaliar sua utilidade, podemos chegar ao paradoxo de ter uma Administração Pública rigorosamente burocrática e, ao mesmo tempo, ineficiente.

Controle é necessário. Burocracia também. Mas burocracia sem finalidade transforma-se em obstáculo.

A pergunta não pode ser apenas:

“O procedimento foi cumprido?”

É preciso perguntar também:

“O problema foi resolvido?”


Não precisamos de menos Estado. Precisamos de melhor Estado.

O debate costuma ser reduzido à pergunta sobre o tamanho do Estado. Considero mais importante perguntar:

O Estado está cumprindo bem suas funções?

Uma escola que ensina bem é mais importante que simplesmente saber quantos servidores possui. Um hospital que atende com qualidade é mais importante que saber apenas quanto gastou.

O objetivo da reforma, portanto, não deveria ser simplesmente reduzir o Estado, mas aumentar sua capacidade de entregar bons serviços com os recursos disponíveis.


Paulo Guedes colocou o problema em discussão

Durante sua passagem pelo Ministério da Economia, Paulo Guedes recolocou a reforma administrativa no centro do debate nacional.

Sua crítica estava voltada à rigidez das carreiras, ao crescimento das despesas obrigatórias, à baixa flexibilidade da gestão e à necessidade de maior valorização do mérito, da produtividade e dos resultados.

A PEC 32/2020, encaminhada durante sua gestão, propunha mudanças na organização do serviço público, nas carreiras e na avaliação de desempenho.

É possível discordar de parte de suas propostas. Mas uma questão levantada por Guedes merece ser considerada:

o Estado precisa administrar melhor seus próprios recursos.

Não basta saber quanto se gasta. É preciso saber o que se entrega com aquilo que se gasta.


O servidor não é o problema

Uma reforma administrativa séria não pode transformar o servidor público em inimigo.

O bom servidor é patrimônio do Estado.

Professor, médico, fiscal, engenheiro, administrador, técnico e tantos outros profissionais são fundamentais para que as políticas públicas cheguem ao cidadão.

Por isso, a reforma deve buscar selecionar melhor, capacitar melhor, avaliar melhor e valorizar melhor.

A estabilidade também precisa ser compreendida corretamente. Ela deve proteger o servidor contra perseguições políticas e garantir sua independência profissional.

Mas estabilidade não pode significar ausência de responsabilidade.

O servidor competente deve ser reconhecido. Quem apresenta dificuldades deve receber capacitação. E o desempenho persistentemente insuficiente, quando comprovado por critérios objetivos e com direito de defesa, precisa produzir consequências.


Mérito e profissionalização

O mundo mudou, e o serviço público precisa acompanhar essa mudança. Experiência é importante, mas não pode ser o único critério de valorização profissional. Conhecimento, competência, iniciativa, atualização e resultados também precisam contar.

Meritocracia não significa privilegiar alguns. Significa reconhecer quem faz bem o seu trabalho. Ao mesmo tempo, gestores públicos precisam ser preparados para administrar pessoas, recursos, processos e projetos. Não basta ocupar um cargo de chefia; é necessário saber gerir.


Digitalizar não basta. É preciso simplificar.

A tecnologia oferece uma oportunidade extraordinária para modernizar o Estado. Mas existe um erro frequente: digitalizar processos sem antes questionar se eles são necessários.

Se um procedimento exige dez etapas desnecessárias, colocá-las na internet não é modernização. É apenas burocracia digital.

A verdadeira transformação começa pela pergunta: “Podemos eliminar, simplificar ou automatizar este procedimento?”

Só depois devemos digitalizá-lo.


Lages já experimentou esse caminho

A busca por eficiência administrativa não é uma ideia nova.

Em Lages, ainda nos anos 1980, durante a administração do prefeito Paulo Duarte, a Prefeitura buscou na iniciativa privada uma experiência de melhoria da qualidade inspirada nos círculos de controle de qualidade desenvolvidos no Japão por Kaoru Ishikawa.

A experiência foi adaptada ao serviço público por meio do Círculo de Melhoria da Assistência (CMA).

Participei de um desses grupos, que enfrentou um problema concreto: a demora na resposta aos requerimentos dos contribuintes.

A solução foi simples, mas reveladora: estabelecer prazos para cada setor, transformar esses prazos em obrigação formal e criar mecanismos de acompanhamento e fiscalização dos atrasos.

Não era necessário criar uma grande estrutura.

Era necessário identificar o problema, estabelecer uma meta, definir responsabilidades e acompanhar o resultado.

A experiência mostra que eficiência pública não depende apenas de grandes reformas legislativas. Muitas vezes, começa com uma pergunta simples:

“Como podemos fazer melhor?”


Uma reforma administrativa de verdade

Uma reforma consistente deveria concentrar-se em alguns objetivos essenciais:

• Simplificar procedimentos e eliminar burocracias desnecessárias.

• Digitalizar serviços de forma inteligente, depois de rever os processos.

• Profissionalizar a gestão pública.

• Valorizar competência, dedicação e resultados.

• Avaliar o desempenho de órgãos, gestores e políticas públicas.

• Combater privilégios incompatíveis com o interesse público.

• Capacitar continuamente os servidores.

• Responsabilizar o desempenho insuficiente, respeitando o devido processo.

• Planejar antes de gastar, estabelecendo metas e indicadores.

• Colocar o cidadão no centro da Administração Pública.


A verdadeira medida do Estado

Depois de tantos anos trabalhando na Administração Pública, chego a uma conclusão simples:

não basta o Estado funcionar dentro das regras. Ele precisa funcionar bem.

Não basta gastar corretamente. É preciso gastar bem.

Não basta ter servidores. É preciso ter servidores preparados e valorizados.

Não basta criar políticas públicas. É preciso medir seus resultados.

Não basta informatizar. É preciso simplificar.

E não basta proteger o servidor. É preciso proteger também o cidadão que depende do serviço público.


Conclusão: reformar para servir

Não entendo que o Brasil precise escolher entre um Estado forte e um Estado eficiente. Precisamos de um Estado forte porque é eficiente.

Um Estado que preserve a legalidade e a impessoalidade, mas que também seja capaz de planejar, inovar, utilizar tecnologia, valorizar seus bons servidores e cobrar resultados.

Paulo Guedes trouxe para o centro do debate questões como rigidez, custos, produtividade e eficiência. Bresser-Pereira mostrou a importância de uma Administração Pública orientada para resultados. A Constituição estabeleceu os princípios que devem orientar a atuação do Estado.

Cabe agora transformar essas ideias em uma reforma equilibrada e permanente.

Porque reformar a Administração Pública não significa destruir o Estado. Significa retirar aquilo que o torna lento, caro e ineficiente e fortalecer aquilo que permite que ele cumpra sua verdadeira missão.

E essa missão pode ser resumida em uma frase: O Estado não existe para servir a si mesmo.

A Administração Pública existe para servir ao cidadão. Se é o cidadão quem paga a conta, ele também tem o direito de exigir o resultado.

 

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com

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