Menos Máquina Pública, Menos Custo, Mais Eficiência

Menos Máquina Pública, Menos Custo, Mais Eficiência

Há uma pergunta que o Brasil não pode continuar adiando: quanto custa o Estado brasileiro — e o que o cidadão recebe em troca?

Não faço essa pergunta para atacar o serviço público ou seus servidores. O Estado é indispensável, e uma sociedade moderna precisa de uma Administração Pública profissional, competente e eficiente. O problema surge quando a máquina pública se torna cara, lenta e excessivamente burocrática, sem entregar à sociedade resultados proporcionais aos recursos que consome. Por isso, a reforma administrativa é uma das questões mais importantes do Brasil.


Antes de reformar, preciso entender o Estado

Antes de tratar da reforma do Estado brasileiro, considero importante esclarecer o que entendo por Estado.

O Estado é a principal expressão institucional do poder político. Trata-se da organização política e jurídica de um povo em determinado território, estruturada por leis e instituições. 

Esse poder é exercido por três Poderes, conforme estabelece o art. 2º da Constituição Federal: Legislativo, Executivo e Judiciário, independentes e harmônicos entre si.

Faço essa distinção porque Estado não é governo. O Estado é permanente, dotado de instituições, território e ordenamento jurídico próprios; os governos são temporários, formados por pessoas que ocupam o poder por tempo determinado e se sucedem periodicamente, conforme a vontade popular expressa nas urnas.

Da mesma forma, quando falo em reforma do Estado, não me refiro apenas ao Poder Executivo. Refiro-me ao aperfeiçoamento das estruturas, dos processos e da administração dos três Poderes, cada qual dentro de suas competências constitucionais, com vistas a torná-los mais eficientes, transparentes e comprometidos com o interesse público.

Por isso, parto de uma pergunta simples, mas essencial: o Estado brasileiro está organizado e funcionando para servir bem ao cidadão?


O Estado existe para servir

A Administração Pública está presente na escola, no posto de saúde, na fiscalização, na segurança, nas estradas, no transporte e em inúmeros serviços que fazem parte da vida do cidadão. A Constituição de 1988 estabeleceu, no artigo 37, cinco princípios que devem orientar sua atuação: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

Os quatro primeiros protegem a sociedade contra abusos e favorecimentos. O quinto traz uma exigência igualmente importante: não basta cumprir a lei; é preciso produzir resultados. Essa mudança de mentalidade é essencial.


Quando a burocracia vence o resultado

O Brasil criou uma extensa estrutura de leis, normas e controles para proteger o dinheiro público e combater o favorecimento. Isso foi necessário. O problema é o excesso. Quando acumulamos regras, procedimentos e controles sem avaliar sua utilidade, podemos chegar ao paradoxo de ter uma Administração Pública rigorosamente burocrática e, ao mesmo tempo, ineficiente.

Controle é necessário. Burocracia também. Mas burocracia sem finalidade transforma-se em obstáculo. A pergunta não pode ser apenas: “O procedimento foi cumprido?” É preciso perguntar também: “O problema foi resolvido?”


Precisamos de um Estado mais eficiente

O Estado brasileiro é formado por União, Estados, Distrito Federal e Municípios. Diante disso, cabe perguntar: ele está cumprindo bem suas funções?

Um Estado ágil e eficiente traz benefícios diretos: mais investimento em saúde, educação, segurança e infraestrutura; menos burocracia; uso mais responsável do dinheiro público; e tecnologia a favor de processos mais rápidos e transparentes.

No fim, um Estado eficiente não é apenas uma meta administrativa — é a diferença entre um governo que gasta e um governo que entrega resultados.


Paulo Guedes colocou o problema em discussão

Durante sua passagem pelo Ministério da Economia, Paulo Guedes recolocou a reforma administrativa no centro do debate nacional. Sua crítica estava voltada à rigidez das carreiras, ao crescimento das despesas obrigatórias, à baixa flexibilidade da gestão e à necessidade de maior valorização do mérito, da produtividade e dos resultados.

A PEC 32/2020, encaminhada durante sua gestão, propunha mudanças na organização do serviço público, nas carreiras e na avaliação de desempenho. É possível discordar de parte de suas propostas. Mas uma questão levantada por Guedes merece ser considerada: o Estado precisa administrar melhor seus próprios recursos. Não basta saber quanto se gasta. É preciso saber o que se entrega com aquilo que se gasta.


O servidor não é o problema

Uma reforma administrativa séria não pode transformar o servidor público em inimigo. O bom servidor é patrimônio do Estado. Professor, médico, fiscal, engenheiro, administrador, técnico e tantos outros profissionais são fundamentais para que as políticas públicas cheguem ao cidadão. Por isso, a reforma deve buscar selecionar melhor, capacitar melhor E avaliar melhor.

O servidor competente deve ser reconhecido. Quem apresenta dificuldades deve receber capacitação. E o desempenho persistentemente insuficiente, quando comprovado por critérios objetivos e com direito de defesa, precisa produzir consequências.


Mérito e profissionalização

O mundo mudou, e o serviço público precisa acompanhar essa mudança. Experiência é importante, mas não pode ser o único critério de valorização profissional. Conhecimento, competência, iniciativa, atualização e resultados também precisam contar.

Meritocracia não significa privilegiar alguns. Significa reconhecer quem faz bem o seu trabalho. Ao mesmo tempo, gestores públicos precisam ser preparados para administrar pessoas, recursos, processos e projetos. Não basta ocupar um cargo de chefia; é necessário saber gerir.


Digitalizar não basta. É preciso simplificar.

A tecnologia oferece uma oportunidade extraordinária para modernizar o Estado. Mas existe um erro frequente: digitalizar processos sem antes questionar se eles são necessários. Se um procedimento exige dez etapas desnecessárias, colocá-las na internet não é modernização. É apenas burocracia digital.

A verdadeira transformação começa pela pergunta: “Podemos eliminar, simplificar ou automatizar este procedimento?” Só depois devemos digitalizá-lo.


Lages já experimentou esse caminho

Em Lages a Prefeitura buscou na iniciativa privada uma experiência de melhoria da qualidade inspirada nos círculos de controle de qualidade desenvolvidos no Japão por Kaoru Ishikawa. A experiência foi adaptada ao serviço público por meio do Círculo de Melhoria da Assistência (CMA).

 

Participei de um desse grupos, que enfrentou um problema concreto: a demora na resposta aos requerimentos dos contribuintes. A solução foi simples, mas reveladora: estabelecer prazos mínimos de despacho para cada setor, transformar esses prazos em obrigação formal, eliminar tramitações desnecessárias em determinados setores, criar mecanismos de acompanhamento e fiscalização dos atrasos e, por fim, responsabilizar quem descumprisse as normas estabelecidas.

Não era necessário criar uma grande estrutura. Era necessário identificar o problema, estabelecer uma meta, definir responsabilidades e acompanhar o resultado. A experiência mostra que eficiência pública não depende apenas de grandes reformas legislativas. Muitas vezes, começa com uma pergunta simples: “Como podemos fazer melhor?”


Uma reforma administrativa de verdade

Uma reforma consistente deveria concentrar-se em alguns objetivos essenciais:

  • Simplificar procedimentos e eliminar burocracias desnecessárias.
  • Digitalizar serviços de forma inteligente, depois de rever os processos.
  • Profissionalizar a gestão pública.
  • Valorizar competência, dedicação e resultados.
  • Avaliar o desempenho de órgãos, gestores e políticas públicas.
  • Combater privilégios incompatíveis com o interesse público.
  • Capacitar continuamente os servidores.
  • Responsabilizar o desempenho insuficiente, respeitando o devido processo.
  • Planejar antes de gastar, estabelecendo metas e indicadores.
  • Colocar o cidadão no centro da Administração Pública.

A verdadeira medida do Estado

Depois de tantos anos trabalhando na Administração Pública, chego a uma conclusão simples:

Não basta o Estado funcionar dentro das regras. Ele precisa funcionar bem. Não basta gastar corretamente. É preciso gastar bem. Não basta ter servidores. É preciso ter servidores preparados. Não basta criar políticas públicas. É preciso medir seus resultados. Não basta informatizar. É preciso simplificar. E não basta proteger o servidor. É preciso proteger também o cidadão que depende do serviço público.


Enxugamento da Máquina Pública

Os avanços da inteligência artificial estão tornando os serviços públicos mais ágeis e eficientes. Como consequência, muitas funções que antes exigiam a execução por servidores públicos deixaram de existir. Isso significa que a administração pública não precisa mais manter a mesma quantidade de servidores e cargos comissionados que existia no passado.

Diante desse cenário, abre-se a possibilidade de reduzir os custos com folha de pagamento, começando por dois caminhos diretos e legalmente simples: a extinção de cargos comissionados que perderam sua função, e a suspensão de concursos públicos para cargos cujas atividades já são realizadas pela tecnologia. Esses dois caminhos, a meu ver, são as formas mais fáceis e juridicamente seguras de reduzir o custo do Estado com folha e encargos.

Um segundo aspecto, capaz de reduzir ainda mais essa despesa, é estimular a exoneração dos servidores efetivos cujas funções foram substituídas pela inteligência artificial.


Conclusão: reformar para servir

Não entendo que o Brasil precise escolher entre um Estado forte e um Estado eficiente. Precisamos de um Estado forte porque é eficiente. Um Estado que preserve a legalidade e a impessoalidade, mas que também seja capaz de planejar, inovar, utilizar tecnologia, valorizar seus bons servidores e cobrar resultados.

Paulo Guedes trouxe para o centro do debate questões como rigidez, custos, produtividade e eficiência. Bresser-Pereira mostrou a importância de uma Administração Pública orientada para resultados. A Constituição estabeleceu os princípios que devem orientar a atuação do Estado. Cabe agora transformar essas ideias em uma reforma equilibrada e permanente.

Porque reformar a Administração Pública não significa destruir o Estado. Significa retirar aquilo que o torna lento, caro e ineficiente e fortalecer aquilo que permite que ele cumpra sua verdadeira missão.

E essa missão pode ser resumida em uma frase: o Estado não existe para servir a si mesmo. A Administração Pública existe para servir ao cidadão. Se é o cidadão quem paga a conta, ele também tem o direito de exigir o resultado.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com

4 Comentários
  • Waldemar da Silva Madureira
    Postado em 15:14h, 01 setembro Responder

    Estamos vivendo uma situação anômala em decorrência do serviço público. Explico: Primeiramente precisamos saber que o Estado é oriundo segundo a Constituição como criado para regulamentar e prover a orbe social. Ele não é proprietário ele é regulamentador/regulador socialmente falando, portanto sua estrutura deve ser voltada para o bem da sociedade. Por tais aspectos sua estrutura administrativa deveria ter como premissa o bem geral; mas como chegar a este crucial desfecho?
    O povo atravéz do escrutínio popular elege os seus administradores, e, que buscam desenfreadamente ocupar espaços indeléveis em suas ambições pessoais, Vivemos uma dicotomia no serviço público, onde as equipes escolhidas não buscam apresentar

    • Pio - Walmor
      Postado em 19:26h, 01 setembro Responder

      Agradeço, Madureira, seus dois enriquecedores comentários ao artigo.

      Penso que o caos em que se encontra a administração pública brasileira, um dia, terá limitada a sua permanência. Isso porque, sempre que houver invasão de competência entre os Poderes do Estado, ou quando estes não cumprirem com eficácia suas metas administrativas — por desvio de recursos, incompetência ou omissão no cumprimento de deveres constitucionais e infraconstitucionais —, as irregularidades devem ser apuradas e os responsáveis, punidos exemplarmente pelos órgãos. competentes.

      Caso esses ritos de responsabilização não se cumpram, ainda resta ao povo, no pleito eleitoral seguinte, o poder de eleger novos representantes para os Poderes Legislativo e Executivo — representantes que não apenas elaborem e executem as leis, mas também exerçam efetivo controle sobre a administração pública. O Poder Executivo, por meio de seus órgãos de controle interno, deve auditar os atos administrativos, verificando sua eficiência, eficácia e a responsabilização de seus agentes. O Poder Legislativo, por sua vez — composto por Senadores, Deputados e Vereadores —, tem entre suas atribuições fiscalizar os atos do Executivo, cabendo ao Congresso Nacional exercer também o controle externo sobre os atos administrativos do Judiciário. Cabe ainda, privativamente, ao Senado Federal processar e julgar os Ministros do Supremo Tribunal Federal nos crimes de responsabilidade, podendo determinar a perda do cargo mediante o voto de dois terços de seus membros (art. 52, II e parágrafo único, da CF).

      Enquanto vivermos em um Estado Democrático de Direito, os desvios em atos administrativos dos tres poderes do Estado, a ineficiência funcional e o desvio de recursos públicos, cedo ou tarde, sofrerão as devidas punições. Nos casos de enriquecimento ilícito ou dano ao erário por improbidade administrativa, aplica-se, inclusive, a imprescritibilidade das ações de ressarcimento, conforme o art. 37, §5º, da Constituição Federal, regulamentado pela Lei nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa).

  • Waldemar da Silva Madureira
    Postado em 15:30h, 01 setembro Responder

    Estamos vivendo uma situação anômala em decorrência do serviço público. Explico: Primeiramente precisamos saber que o Estado é oriundo segundo a Constituição como criado para regulamentar e prover a orbe social. Ele não é proprietário ele é regulamentador/regulador socialmente falando, portanto sua estrutura deve ser voltada para o bem da sociedade. Por tais aspectos sua estrutura administrativa deveria ter como premissa o bem geral; mas como chegar a este crucial desfecho?
    O povo através do escrutínio popular elege os seus administradores, e, que buscam desenfreadamente ocupar espaços indeléveis em suas ambições pessoais, Vivemos uma dicotomia no serviço público, onde as equipes escolhidas não buscam apresentar qualificação no exercício, de outro lado existem muitos bons servidores comprometidos (a minoria). As escolhas são formadas em sua grande maioria por indicações politicas não por competência, que logo deixarão uma lacuna com graves resultados. A grande maioria quando está no cargo agem como se donos fossem, não existindo nenhum critério no intento de melhorar o atendimento ao público. Modernizar é preciso, mas preciso também é solucionar problemas longevos como exemplo, cadastros, excesso de burocracias, falta de comprometimento, mesmo que internamente e principalmente falta de planejamento. Falaríamos por horas a fio discorrendo tais fatos impeditivos para uma melhor transparência do serviço público.

  • Miro Hildebrando
    Postado em 09:37h, 04 setembro Responder

    Claro, didático e abrangente.

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