28 abr De Lages ao Congresso: A Grandeza de Laerte Ramos Vieira
Um tribuno serrano que fez história na política brasileira
Quando me debruço sobre a história política de Santa Catarina, encontro figuras que, por sua capacidade, coragem e visão, transcenderam os limites do Estado e deixaram marcas indeléveis na vida pública nacional. Entre essas figuras, Laerte Ramos Vieira ocupa, a meu ver, um lugar de destaque absolutamente merecido. Natural de Lages, cidade que guarda uma das mais ricas tradições políticas do Sul do Brasil, Laerte foi muito mais do que um parlamentar: foi um tribuno, um jurista, um homem público de rara integridade e cultura.
Neste artigo, proponho uma reflexão sobre a trajetória desse político que soube honrar suas raízes serranas, servir ao seu Estado e contribuir decisivamente para o fortalecimento da democracia brasileira — especialmente nos anos mais sombrios da ditadura militar. Acredito que conhecer a história de Laerte Ramos Vieira é, sobretudo, compreender o melhor da política como vocação e serviço.
Uma Memória Que Vem da Infância
Meu interesse pela política não nasceu nas universidades nem nos livros. Nasceu no comércio do meu pai, espaço que recebia com frequência ilustres figuras da vida pública: os que exerciam ou haviam exercido cargos em nossa cidade, os políticos de fora que buscavam apoio para suas campanhas, e os representantes da nossa terra que cumpriam mandatos em Brasília ou em Florianópolis. Ali, entre balcões e conversas acaloradas, o debate político era coisa séria e cotidiana.
Entre os dez e os dezoito anos, eu ouvia com atenção aquelas rodas de conversa. E o nome de Laerte Ramos Vieira aparecia sempre — nos relatos, nos elogios, nas discussões sobre os rumos do país. Aquelas histórias despertaram em mim um gosto genuíno pela política que jamais me abandonou.
Foi assim que comecei a acompanhar os noticiosos do rádio: a Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro; a Farroupilha, de Porto Alegre; a Guarujá, de Florianópolis; a Bandeirantes, de São Paulo. E, sobretudo, a Rádio A Voz do Brasil, que tinha por missão retransmitir em rede nacional, por todas as emissoras brasileiras, os atos da Presidência da República e do Congresso Nacional. Todas as noites, às 19h, de segunda a sexta, eu me postava diante do rádio Semp do meu pai para ouvir — principalmente — os discursos combativos de Laerte Ramos Vieira na Câmara Federal. Aquela voz vinda da Serra Catarinense ecoava pela nossa sala como um chamado à consciência cívica.
Raízes Serranas: Uma Família de Políticos
Laerte Ramos Vieira nasceu em 29 de março de 1925, em Lages, Santa Catarina, no seio de uma família profundamente enraizada na vida pública da região serrana. Filho de Álvaro Ramos Vieira e de dona Altina Ribeiro Ramos, cresceu em um ambiente onde o engajamento cívico e o debate político eram parte natural do cotidiano.
Sua formação escolar teve início no Grupo Escolar Vidal Ramos, em Lages, prosseguiu no Colégio Diocesano — também na cidade natal — e culminou com o curso científico no Colégio do Rosário, em Porto Alegre. Essa trajetória educacional revela um jovem determinado, disposto a buscar fora da sua cidade as melhores oportunidades de aprendizado, sem jamais perder o vínculo com suas origens.
Casado com Juçá Therezinha Ribeiro Vieira — considerada uma das mulheres mais distintas da Serra Catarinense —, Laerte constituiu uma família numerosa, com seis filhos: Geraldo, Gabriel, Laerte, Guilherme, Maria Regina e Maria Cristina. A estabilidade familiar sempre foi, para ele, o alicerce de uma vida pública dedicada com seriedade e propósito.
Formação Acadêmica e Intelectual de Exceção
Poucos parlamentares de sua geração reuniram uma formação acadêmica tão sólida e diversificada quanto Laerte Ramos Vieira. Bacharel em Ciências Contábeis e Atuariais pela Universidade do Rio Grande do Sul (atual UFRGS), em 1949, aprofundou seus estudos ao obter o título de Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de Santa Catarina (atual UFSC), em 1956.
Essa dupla formação — em Economia e em Direito — conferiu-lhe uma rara capacidade analítica e argumentativa, que se tornaria sua maior arma no plenário da Câmara dos Deputados. A cultura jurídica apurada, aliada à compreensão econômica do país, fazia de Laerte um debatedor temível e um legislador rigoroso.
Em 1948, ainda estudante, presidiu o Centro dos Estudantes Universitários de Ciências Econômicas (CEUCE), em Porto Alegre, revelando desde cedo sua vocação para a liderança e a organização política. Também atuou como Oficial da Reserva do Exército Brasileiro (1944) e funcionário da Secretaria de Viação e Obras Públicas de Porto Alegre (1945–1949), experiências que ampliaram sua visão sobre o funcionamento do Estado.
Uma Carreira Pública Construída com Mérito
A trajetória política de Laerte Ramos Vieira é longa, densa e marcada por conquistas em diferentes esferas de poder. Iniciou-se como vereador à Câmara Municipal de Lages na legislatura de 1950 a 1954, construindo as bases de uma carreira que o levaria, anos depois, aos mais altos postos da República.
Eleito deputado estadual à Assembleia Legislativa de Santa Catarina em duas legislaturas (1955–1959 e 1959–1963), destacou-se como liderança da UDN e, posteriormente, como voz afinada com o pensamento democrático que resistia ao autoritarismo. Nesse período, exerceu cargos de grande responsabilidade no governo estadual: Secretário do Interior e Justiça, Secretário da Fazenda (de 30 de junho de 1960 a 30 de janeiro de 1961) e Secretário da Segurança Pública (1960–1962).
Eleito deputado federal por três legislaturas — 1963/1967, 1971/1975 e 1975/1979 —, Laerte consolidou sua imagem como um dos parlamentares mais atuantes da Câmara dos Deputados. Nos anos da ditadura militar, filiado ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro), posicionou-se na ala autêntica do partido — a chamada ala de centro-esquerda — tornando-se uma das vozes mais combativas da oposição durante os chamados “anos de chumbo”.
Contribuições Legislativas que Marcaram o Brasil
A grandeza de Laerte Ramos Vieira não se media apenas pela eloquência na tribuna, mas também pela consistência do trabalho legislativo. Foi relator do Projeto de Criação do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (TCE-SC), em 1955, no governo de Irineu Bornhausen — uma das mais importantes obras de controle público do Estado, cujos efeitos positivos para a transparência e fiscalização da administração pública catarinense se fazem sentir até hoje. Alesc
Na Câmara dos Deputados, integrou a Comissão Especial de revisão e atualização da legislação sobre direitos autorais (1971) e o Grupo de Trabalho para modernização do Regimento Interno e Reforma do Processo Legislativo (1971), além de ser membro da comissão encarregada de elaborar projetos de lei complementares à Constituição (1972). Essas contribuições, menos visíveis ao grande público mas fundamentais para o funcionamento do Estado, revelam um parlamentar que compreendia a política como construção paciente e técnica — e não apenas como confronto retórico. Câmara dos Deputados
Participou ativamente das Comissões Mistas do Congresso Nacional em matérias de grande alcance social, entre elas o Programa de Assistência ao Trabalhador Rural (PLC 1/71) e as normas sobre organização e funcionamento dos partidos políticos nacionais. Foram iniciativas que tocavam diretamente na vida dos mais vulneráveis e na estrutura democrática do país — pautas que, nos anos de chumbo, exigiam coragem para defender.
Sua participação como membro titular da Comissão Afonso Arinos de Estudos Constitucionais (1986) foi o coroamento de décadas de comprometimento com o Estado de Direito. Ali, ao lado dos maiores juristas e políticos do país, ajudou a lançar as bases do que viria a ser a Constituição de 1988 — a Constituição Cidadã.
O Orador que o Brasil Parava para Ouvir
Se há uma qualidade que define Laerte Ramos Vieira acima de todas as outras, essa qualidade é a oratória. Dotado de uma palavra brilhante, vibrante e combativa, ele sabia como poucos dominar o plenário e convencer a plateia. Sua capacidade de argumentar com clareza, paixão e profundidade era reconhecida por adversários e aliados igualmente.
Nos anos em que a Rádio A Voz do Brasil transmitia os debates da Câmara para todo o território nacional, a voz de Laerte ecoava com força nas casas, nos bares, nas praças de regiões distantes dos grandes centros urbanos. Quando ele subia à tribuna, sabia-se que algo importante seria dito — e dito com garra. Para uma geração que tinha no rádio seu principal meio de informação, Laerte Ramos Vieira era sinônimo de coragem e eloquência.
O Departamento de Taquigrafia da Câmara dos Deputados registrou seus pronunciamentos entre os debates históricos do parlamento brasileiro — testemunho de que sua palavra deixou marcas que o tempo não apagou. Quem o ouviu recorda a firmeza com que defendia que a oposição não era obstáculo à governança, mas a própria garantia de que a democracia respirava — posição que, nos anos de chumbo, soava como ato de bravura. Dizia, com convicção, que o silêncio do parlamentar diante da injustiça é cumplicidade com o poder que oprime — frase que sintetizava a postura de toda a ala autêntica do MDB.
Essa capacidade oratória não era um dom isolado: era sustentada por uma cultura humanística ampla, por um profundo conhecimento jurídico e por uma genuína convicção democrática. Laerte falava bem porque pensava com clareza e acreditava naquilo que defendia.
Liderança Nacional e Relações com os Grandes da Política
A projeção de Laerte Ramos Vieira extrapolou as fronteiras de Santa Catarina. Como líder do PMDB na Câmara dos Deputados (1975/1976 e 1977), conviveu e dialogou com as maiores lideranças da oposição nacional. Entre seus pares estavam figuras históricas como o senador Franco Montoro — líder do MDB no Senado —, o deputado Ulysses Guimarães — presidente do MDB e futuro presidente da Assembleia Nacional Constituinte —, e o senador Roberto Saturnino, vice-líder do partido.
Essa convivência com o alto comando da oposição nacional conferia a Laerte uma posição singular: ele não era apenas um representante regional, mas um interlocutor respeitado no debate político em escala nacional. Sua empatia, cultura e capacidade de construir pontes entre diferentes lideranças — municipais, estaduais e federais — faziam dele uma figura de rara habilidade política. Também disputou o cargo de vice-governador de Santa Catarina pela chapa encabeçada por Antônio Konder Reis, demonstrando o alcance de seu prestígio e sua inserção nas mais altas esferas da política catarinense.
Reconhecimento Internacional e Distinções Honrosas
A relevância de Laerte Ramos Vieira foi reconhecida também além das fronteiras do Brasil. Delegado à XXIX Assembleia Geral das Nações Unidas, representou o país em um dos mais importantes fóruns internacionais. Visitou ainda a Síria a convite do governo daquele país, e integrou a Conferência Interparlamentar Europeia na Bulgária (1971) e a Conferência Latino-Americana da OEA, em Caracas (1976) — reforçando seu prestígio como estadista com visão global.
Suas contribuições foram reconhecidas com distinções de alto valor institucional: recebeu a honraria de Grande Oficial da Ordem do Mérito do Congresso Nacional, o título de Cavaleiro da Ordem do Mérito Naval e a Medalha do Sesquicentenário do Senado Federal. Condecorações que atestam o respeito conquistado ao longo de décadas de vida pública.
O Jurista e o Servidor Público
Após o período de redemocratização, Laerte retornou ao Estado para continuar servindo no campo do Direito e da administração pública. Foi Consultor-Geral do Estado de Santa Catarina (1980–1983) e Procurador-Geral da Fazenda junto ao Tribunal de Contas (1983–1984), demonstrando que sua capacidade de contribuição não se esgotava no mandato parlamentar.
Participou ainda da histórica Comissão Afonso Arinos de Estudos Constitucionais (1986), que preparou os alicerces da Constituição de 1988 — a “Constituição Cidadã”. Foi também membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados — considerada a mais importante comissão permanente da Casa — e da Comissão de Economia, Indústria e Comércio. Advogou junto aos Tribunais Superiores de Brasília (1968/1973 e 1979), consolidando uma carreira jurídica de prestígio.
O Gentleman do Senadinho da Figueira
Há uma imagem que considero especialmente tocante e reveladora do caráter de Laerte Ramos Vieira: já aposentado, frequentava habitualmente o chamado “Senadinho da Figueira”, na Praça XV de Novembro, e outros pontos de encontro do centro de Florianópolis. Ali, cercado de pessoas de diferentes origens e histórias, conversava atentamente com todos, sem distinção. Um gentleman que jamais se isolou em torres de marfim ou em círculos exclusivos — e que mantinha a escuta ativa, a curiosidade intelectual e a empatia humana que o distinguiram ao longo de toda a vida.
Conclusão
Ao revisitar a trajetória de Laerte Ramos Vieira, confirmo minha convicção de que estamos diante de uma das figuras mais completas que a política catarinense produziu no século XX. Homem de formação sólida, palavra eloquente, convicção democrática inabalável e rara habilidade para construir relações humanas e políticas duradouras, Laerte soube honrar suas origens serranas sem jamais se limitar a elas.
Sua trajetória — que vai da vereança em Lages à representação do Brasil nas Nações Unidas, passando pela relatoria do TCE-SC, pela liderança da oposição nos anos de chumbo e pela construção da Constituição Cidadã — é um exemplo luminoso de como a política, quando exercida com seriedade e vocação, pode transformar vidas e construir um país melhor.
Entendo que figuras como Laerte Ramos Vieira precisam ser lembradas, estudadas e celebradas. Não por nostalgia, mas porque sua história nos ensina que é possível fazer política com grandeza, integridade e humanidade. Para mim, essa convicção começou a se formar numa noite qualquer, diante do rádio Semp do meu pai — e jamais me abandonou.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fontes:
BRASIL. Câmara dos Deputados. Laerte Ramos Vieira — Ficha Parlamentar e Comissões. Disponível em: https://www.camara.leg.br. Acesso em: abr. 2026.
CABRAL, Oswaldo Rodrigues. História de Santa Catarina. 4. ed. Florianópolis: Lunardelli, 1994.
DICIONÁRIO HISTÓRICO-BIOGRÁFICO BRASILEIRO. Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, 2001. (Verbete: Laerte Ramos Vieira).
MEMÓRIA POLÍTICA DE SANTA CATARINA. Biografia Laerte Vieira. Disponível em: https://memoriapolitica.alesc.sc.gov.br. Acesso em: abr. 2026.
SCHNEIDER, Ismênia Ribeiro. Relações entre as Famílias Ramos, Souza, Vieira e Ribeiro. Documento de pesquisa genealógica. Florianópolis, s.d.
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