Lições do Lageano Laerte Ramos Vieira para o Brasil de hoje -JORNAL

Lições do Lageano Laerte Ramos Vieira para o Brasil de hoje -JORNAL

Um tribuno serrano que fez história na política brasileira

Há momentos em que revisitar certas trajetórias não é apenas um gesto de memória, mas um ato de lucidez. A vida pública de Laerte Ramos Vieira, serrano de Lages, é uma dessas referências que ultrapassam o tempo e nos interpelam diretamente: o que esperamos, afinal, de um homem público?

Laerte pertenceu a uma geração que compreendia a política como dever — e não como palco. Sua formação sólida em Direito e Economia não era ornamento, mas fundamento. Pensava o país com método, falava com clareza e agia com coerência. Qualidades que, somadas, lhe conferiram uma autoridade rara: a de convencer pelo conteúdo, e não pelo ruído.

Minha lembrança de sua figura remonta aos tempos em que o rádio ainda era a grande janela para o Brasil. Era por meio dele que sua voz, firme e articulada, atravessava distâncias e chegava às casas, inclusive à minha. Não eram discursos para impressionar — eram intervenções para esclarecer, questionar e, sobretudo, defender princípios.

E foi justamente quando esses princípios estavam sob maior pressão que Laerte se mostrou maior. Durante a ditadura militar, optou pelo caminho mais difícil: o da oposição consciente. No MDB, integrou a ala que não se curvava à conveniência do silêncio. Defendia que a divergência era parte essencial da democracia — uma convicção que, naquele contexto, exigia não apenas inteligência, mas coragem moral.

Não se limitou, porém, à tribuna. Sua contribuição institucional foi profunda e consistente. Participou da construção e do aperfeiçoamento de leis, integrou comissões estratégicas e ajudou a preparar o terreno para a Constituição de 1988 — marco da redemocratização brasileira. Era, nesse sentido, um político completo: capaz de unir pensamento, palavra e ação.

Há, contudo, um aspecto menos visível e talvez mais revelador. Mesmo após deixar os grandes cargos, Laerte manteve-se próximo das pessoas. Nos espaços públicos de Florianópolis, conversava sem formalidades, ouvia com atenção, trocava ideias. Não cultivava a distância que o poder costuma impor. Permanecia humano — e isso, por si só, já o distingue.

Em tempos em que a política frequentemente se perde entre extremos, superficialidades e imediatismos, revisitar figuras como Laerte Ramos Vieira é quase um exercício de reencontro com o essencial. Ele nos lembra que a vida pública exige preparo, responsabilidade e, acima de tudo, compromisso com valores que não podem ser negociados.

Não se trata de saudosismo. Trata-se de referência. Porque, quando a política se afasta de sua finalidade maior, são exemplos como o de Laerte que nos ajudam a recalibrar o olhar — e, quem sabe, o caminho.

Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com

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