Alma Bugrina, Coração Guarani

Alma Bugrina, Coração Guarani

“Futebol não se explica. Se sente.”

(Pensador)


Eu não escrevo sobre um clube.
Escrevo sobre um lugar da memória onde o coração aprendeu a bater no ritmo da bola.

Quando digo Grêmio Atlético Guarani, digo também o meu nome, o nome dos meus amigos e o nome da cidade que aprendi amar. O Bugre Lageano nunca foi apenas um time: foi casa, foi abraço coletivo, foi espelho de uma gente que se reconhecia nas cores, nos cantos e nas arquibancadas. Minhas lembranças não começaram nos livros, mas no eco dos estádios, no cheiro da grama molhada, no som das chuteiras rasgando o silêncio dos domingos.

Nasceram também no balcão do bar do meu pai, onde torcedores, de fala forte e olhos marejados, defendiam com paixão a velha Dupla da Casa — a inesquecível Dupla Guanal. Ali, aprendi que futebol também é herança, é afeto passado de geração em geração.


Time de 1960

 

Em pé: Adílio, Lázaro. Audibert, Demerval, Cardeal, Vicente, Zé Otávio, Marciano, Farias e Orli. Agachados: Zílvio, Negrinho Carbonera, Johann, Pilila, Narbal, Motorizinho e Chaves.


 

Time de 1963

Em pé: Zé Otávio, Audibert, Vicente, Dante, Demerval e Orly.

Agachados: Pilila, Valdir, Johan, Zílvio e Narbal.


 

Desfile Cívico de 07 de setembro de 1964

Na foto, a Esquadra Bugrina e sua Diretoria desfilam pela Praça João Costa, exibindo à plateia os troféus do clube, que representam suas conquistas, principalmente o bicampeonato da Liga Serrana de Futebol, nos anos de 1961 e 1962, simbolizando suas gloriosas conquistas no futebol  serrano.

 


Time de 1968

Em pé: Adeli, Arvin,  Arli, Souza, Ariovaldo e Nilson. Agachados: Vieira, Orlando, Manoel, Zé Carlos e Rui.


O que escrevo vem do chão, da poeira, do suor, das conversas à beira do campo e dos vestiários improvisados. Não falo apenas como pesquisador ou cronista: falo como alguém que viu o futebol lageano pulsar como um coração aberto, marcando o tempo da cidade e dos seus sonhos.

Nos clássicos locais, regionais e estaduais, não busco apenas resultados ou datas. Busco sentidos. Busco entender como o futebol costurou destinos, uniu gerações e ensinou o povo barriga-verde a acreditar que, por noventa minutos, tudo é possível.

E quando o árbitro apita, a bola gira e o estádio prende a respiração, sinto que não estou apenas assistindo a um jogo.Estou revivendo a minha própria história.

Nos tempos do Bugre, quando o árbitro apitava o início de uma contenda, eu sentia uma sensação indescritível, sem igual: era pura adrenalina. Hoje, ao recordar esses tempos, ainda me arrepio.

Ééééé gol! É do Bugre! 


Um símbolo que nasceu com farda e virou paixão

Fundado em 21 de setembro de 1952, pelo Major Olavo Pereira Estrela, o Guarani nasceu dentro do 2º Batalhão Rodoviário, cercado de disciplina e organização.
Mas logo rompeu os muros do quartel e ganhou a cidade.

Com a saída do Major, o clube passou a ser mantido por torcedores beneméritos, doações, rifas e sorteios — como o famoso anúncio de 16/05/1964, no Correio Lageano, que sorteava rádios e até um Volkswagen.


      Major Estrela

 

Dirigentes bugrinos (1952–1971)

Entre os que eu recordo: Major Olavo Pereira Estrela, Batista Luzardo Muniz, Theodoro Rovatti,James Berlim, Aloísio Sens, Vicente Ampessam, Eloi Ampessan e Ubaldo Dacol (Dico).

Batista L. Muniz

 

 

 


 

Craques que vestiram a camisa do Bugre

Goleiros: Dorli, Adílio, Orli, Henrique, Pop, João Batista e Nilson.
Defensores: Lázaro,Vicente, Gozzo, Dante, Ariovaldo, Nadi, Zé Otávio, Arvin, Arli, Audibert, Souza e Cadunga
Meio-campo: Lázaro, Cardeal, Fárias, Orival, Valdir, Zilvio, Demerval, Koeche, Bucrinho, Almirante, Chiquinho
Atacantes: Motorzinho, Chaves, Negrinho Carbonera, Narbal, Johann, Pílula, Aécio, Neco, Pedrão, Japona, Vieira, Orlando, Manoel, Zé Carlos, Rui, Luiz Carlos Ghizoni (Carlinho), Derli, Adeli

*Orli era cabo, Aldibert e Johann eram sargentos.


Principais treinadores

Hercílio Farias Velho e Hélio Oliveira


Conquistas e campanhas

Participantes: (Olinkraft – Igaras; Nevada – São Joaquim; Flamengo – Curitibanos; Cruzeiro, Pinheiros, Arco-Íris e Internacional – Lages.  Oito participações na 1ª Divisão do Campeonato Catarinense. 

Cerimônia de comemoração da Conquista do Bicampeonato da

Liga Serrana de Futebol – LSF

Melhor campanha: 3º lugar em 1967 na 1ª Divisão do Campeonato Catarinense.   Na fase decisiva, disputada em quadrangular final, o Guarani escreveu uma das páginas mais marcantes de sua trajetória. No Estádio Estádio Vidal Ramos Júnior, o tradicional “Tio Vida”, o time bugrino, superou o Esporte Clube Metropol por 1 a 0, em partida memorável diante de sua torcida.

No confronto de volta, realizado no Estádio Estádio Euvaldo Lodi, em Criciúma, o Metropol conseguiu reverter a vantagem, vencendo por 2 a 0. Apesar da eliminação, a campanha consolidou-se como a melhor da história do clube na elite do futebol catarinense, marcando 1967 como um ano inesquecível para o futebol lageano.

Retorno em 2001: disputa da 2ª Divisão, com nova paralisação no mesmo ano.                                                                                                                                                                                                                                                                                  


 Palcos

  • Estádio Vidal Ramos Júnior — Tio Vida
  • Estádio Vermelho de Copacabana
  • Campo do 2º Batalhão Rodoviário
  • Campo da Olaria Melegari

 


As cores e a identidade

 

As cores azul e amarelo, idênticas às do Boca Juniors, traduziam força, raça e paixão.

 

 


Clássicos Guanais: rivalidade e festa

Quando havia Guarani x Internacional de Lages, a cidade parava.
As arquibancadas se dividiam em cores, cantos e provocações.
No fim, vinham os debates acalorados — sem violência, sem tragédias.
Era rivalidade, não ódio. Era festa popular.

“É gol! E que espetáculo!”.  “Quando a bola rola, o coração do povo dispara.”

(inspirado em Jorge Curi)

Eu falo como quem viveu: das arquibancadas ao pó da terra batida, da grama molhada ao eco dos narradores.

Ah, os clássicos Guanais no Tio Vida e no Vermelhão de Copacabana não eram jogos — eram rituais coletivos.


Memórias de uma paixão bugrina 

As lembranças são muitas — e todas carregadas de emoção, como é próprio da arte do futebol. Cada recordação guarda um pedaço da história vivida dentro e fora dos campos, marcada pela paixão que move jogadores, torcedores e todos aqueles que se identificam com as cores e os valores de um clube.

Em razão de um comentário inédito realizado no espaço reservado aos comentários deste artigo, pelo amigo Waldemar da Silva Madureira, bugrino nato e testemunha de importantes momentos da história esportiva lageana, o autor decidiu registrar e incorporar seu relato ao texto, reconhecendo o valor de sua contribuição para a preservação da memória da história que envolve o nome Guarani.

Conforme recorda Madureira, foi no ano de 1972 que teve a alegria de iniciar sua trajetória esportiva no futebol de salão, defendendo as cores do imortal Clube Atlético Guarani. Ainda jovem, viveu a emoção de integrar a equipe que representou o clube no Campeonato Estadual daquele ano, disputado em Florianópolis. Na ocasião, o Guarani conquistou um honroso quarto lugar — resultado que, mais do que uma posição na tabela, permanece guardado na memória como uma das experiências mais marcantes e felizes de sua vida esportiva.

Ao longo de sua história, o Guarani protagonizou memoráveis confrontos que mobilizaram torcedores de toda a região serrana, participando de diversas competições no futebol profissional e amador, tanto no cenário local, regional, quanto estadual.

Porque, para quem é bugrino de coração, o Guarani não é apenas um clube de futebol — é uma história vivida com paixão e preservada na memória de sua gente. 


 

O Guarani, com seu índio de cocar e suas cores azul e amarela, foi mais que um clube: foi identidade, orgulho e resistência.E como em um grande teatro, a cada jogo abria-se a cortina para o embate das cenas do futebol; ao apito final, fechava-se o pano, e a memória preservava cada capítulo.

Jogadores, árbitros, bandeirinhas, radialistas e torcedores foram os verdadeiros atores desses palcos do futebol barriga-verde.

O futebol é  mais do que uma disputa: é um amor que pulsa, um grito que ecoa no peito, uma emoção que atravessa o tempo. É estratégia com alma, é técnica com coração. É suor que vira esperança, é silêncio que explode em festa.

Se escrevo, é porque penso que a história não morre enquanto houver quem a carregue no peito. Escrevo para eternizar o futebol serrano, para preservar a alma bugrina e o coração guarani como se fossem brasões de uma gente inteira. A memória é o último apito contra o esquecimento — o chamado final que nos lembra de quem somos. E enquanto houver uma voz que conte, um olhar que se emocione e um coração que bata por essas cores, o Bugre jamais será passado: será sempre raiz, destino e eternidade.

Se todas as batalhas dos homens se dessem apenas nos campos de futebol, quão belas seriam as guerras.”
(Augusto Branco)

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contatos:walmor1953@gmail.com


Fontes e Referências

COSTA, Otacílio. História de Lages.

DAMATTA, Roberto. Universo do Futebol.

RODRIGUES, Nelson. A Pátria em Chuteiras.

Jornal Correio Lageano (1952–1971).

Federação Catarinense de Futebol – FCF.

Memória oral do autor, de ex-atletas e de apaixonados pelo futebol lageano.


Créditos das Imagens

Fotos históricas em preto e branco dos times do Grêmio Atlético Guarani, de desfiles cívicos e das comemorações dos títulos da Liga Serrana de Futebol de 1961 e 1962.
Imagens restauradas e colorizadas pelo autor deste artigo, a partir de registros fotográficos de Lauremir “Láli” Savedra e do Jornal Correio Lageano, utilizados neste trabalho com a devida referência.


 

2 Comentários
  • Waldemar da Silva Madureira
    Postado em 09:11h, 07 fevereiro Responder

    As lembranças são muitas e todas regadas com muita paixão como é a arte do futebol. Além de ser bugrino nato, tive a felicidade de iniciar minha trajetória no futebol de salão em 1972 defendendo as cores do imortal Clube Atlético Guarani onde nos consagramos 4 lugar no estadual disputado em Florianópolis. Lembranças eternas.

  • Pio - Walmor
    Postado em 21:32h, 05 março Responder

    Ao longo do tempo, muitos registros da nossa história acabam se perdendo. Alguns desaparecem por nunca terem sido registrados no papel; outros permanecem apenas na memória das pessoas, sendo transmitidos de geração em geração pela tradição oral. Essa forma de preservar o passado é valiosa, mas também frágil, pois a passagem do tempo, inevitavelmente, leva consigo lembranças, detalhes e personagens que ajudaram a construir a identidade de uma comunidade.
    Por isso, o resgate da memória histórica possui um valor imensurável. Registrar histórias, relembrar acontecimentos e dar voz àqueles que foram testemunhas de uma época é uma maneira de manter viva a trajetória de pessoas, clubes e movimentos que marcaram seu tempo.
    Nesse sentido, é justo registrar um agradecimento especial a Madureira, pelo cuidado e dedicação em resgatar parte dessa história — especialmente da trajetória brugrina e também do futebol de salão. Como testemunha ocular de muitos desses acontecimentos, sua contribuição ajuda a preservar lembranças que fazem parte da construção da nossa memória esportiva e cultural.
    Graças a iniciativas como essa, histórias que poderiam se perder no silêncio do tempo permanecem vivas, inspirando novas gerações a conhecer, valorizar e continuar escrevendo os capítulos da nossa própria história

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