01 jun Um artigo sobre a vida, o pensamento e o legado de Glauco Olinger
Confesso que, ao me debruçar sobre a trajetória de Glauco Olinger, sinto algo que vai além da admiração acadêmica ou do respeito protocolar: sinto a reverência que se reserva aos seres verdadeiramente raros. Nasci e cresci numa época em que o nome Glauco Olinger era pronunciado nos círculos da agricultura catarinense com a mesma naturalidade com que se fala de uma lei da natureza — inevitável, fundamental, incontornável. E quanto mais pesquiso sobre sua vida, mais me convenço de que poucos brasileiros construíram, com tão pouco alarde e tanta substância, uma obra tão duradoura.
Este artigo não é uma biografia, tampouco um elogio vazio. É, antes de tudo, uma reflexão que me propus a fazer sobre o que significa dedicar mais de um século de existência — e uma vida profissional de mais de seis décadas — à causa do agricultor brasileiro. É também uma homenagem que considero urgente, porque vivemos um tempo em que a memória se fragmenta com a velocidade dos algoritmos, e homens como Glauco Olinger correm o risco de ser esquecidos antes de serem plenamente compreendidos.
A Semente Lageana: Origem, Família e Formação
Glauco Olinger nasceu em 17 de setembro de 1922, nos Campos de Lages — mais precisamente na região da Coxilha Rica, no planalto catarinense —, uma terra marcada pelos campos abertos, pelo vento sul e pela cultura dos tropeiros que cruzavam o Brasil de ponta a ponta.
Foi nesse ambiente de lida com o campo, de gado, de cavalos e de céu largo, que se formaram os alicerces do homem que dedicaria a vida inteira à revolução agropecuária e à extensão rural em Santa Catarina. Seu pai, Olímpio Olinger, era descendente de imigrantes alemães que vieram plantar raízes no sul do Brasil. Seu sobrenome, Olinger, de clara origem germânica, ancora-se numa linhagem de trabalhadores e agricultores que trocaram o Velho Mundo pela promessa da terra nova. Sua mãe, Laura Vieira, era professora primária — mulher de livros e de letras, que ensinou o filho não apenas a ler, mas a contemplar o mundo com os olhos da inteligência curiosa.
Cresceu entre velhos tropeiros, gado bovino, cabras angorás e cavalos de raça. O cheiro de terra molhada e de fumaça de fogão a lenha foi seu primeiro laboratório. E foi exatamente essa infância enraizada no campo que o empurrou, mais tarde, para a agronomia — não como fuga, mas como vocação. A sugestão de um amigo mais velho que ingressara no curso de agronomia um ano antes foi suficiente para que Glauco não conseguisse enxergar outro caminho.
Em sua vida pessoal, construiu uma família igualmente sólida. Casou-se com Maria Auxiliadora, por quem nutriu profunda e reconhecida paixão — ela que partiu antes dele, deixando uma saudade que Glauco jamais escondeu. Tiveram duas filhas: Claudia Maria, também já falecida, e Glaucia Maria, que leva o nome do pai como herança e orgulho. Da família que se ramificou vieram duas netas e quatro bisnetos.
O Agrônomo e o Cientista: Formação Técnica de Excelência
Glauco Olinger cursou Agronomia na Universidade Rural de Viçosa, em Minas Gerais, formando-se em 1946. Mas não se contentou com o diploma. Seguiu acumulando títulos com uma energia que desafiava a lógica da época: tornou-se Economista Rural pelo Instituto Superior de Economia Rural e Organização, Especialista em Engenharia Rural pela Universidade Rural do CNPq (1948) e Especialista em Extensão Rural pelo Centro de Treinamento de Ipanema (1956).
Essa base multidisciplinar — agronomia, economia, extensão — explica muito do que Glauco conseguiu fazer no campo. Ele não era apenas um técnico: era um estrategista do desenvolvimento rural, alguém capaz de enxergar o grão de trigo e a política pública como partes de um mesmo sistema. Na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, constatou que ensino, pesquisa e extensão rural ocupavam a mesma sala, sob o manto da universidade. Voltou ao Brasil com essa visão integrada e nunca mais a abandonou.
O Construtor de Instituições: Da Acaresc à Embrater
“As grandes realizações são possíveis quando damos importância às pequenas coisas.” — Samuel Smiles
Se há uma frase que Glauco Olinger pronuncia com os pulmões cheios de orgulho, é esta: ‘Fui fundador da extensão rural em Santa Catarina.’ E ele tem todo o direito. Em 1957, tornou-se Secretário Executivo da Acaresc — Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina —, cargo que exerceu por quase duas décadas, até 1975. A Acaresc não era apenas uma instituição: era uma filosofia. Levava ao agricultor não só técnica, mas crédito supervisionado, organização, dignidade.
Com apenas 29 anos, já administrava a Colônia Agrícola General Osório. Em 1952, foi cofundador da cidade paranaense de Francisco Beltrão. Mais tarde, presidiu a Embrater — Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural —, levando ao nível nacional o modelo que havia construído em Santa Catarina. Foi também Membro Fundador da Junta Governativa da Abcar. Implantou a extensão rural em Angola e Cabo Verde. Representou o Brasil em múltiplos encontros da FAO. O que para outros seria uma carreira inteira, para Glauco era apenas um capítulo.
Na UFSC, foi idealizador e primeiro diretor do Centro de Ciências Agrárias, professor do curso de Agronomia, contribuiu para a Estação Experimental de Aquicultura no Itacorubi e para a criação do Sistema de Avaliação do Ensino, Pesquisa e Extensão. Foi Pró-Reitor de Planejamento. E ainda assim, dizia com humildade: ‘O maior título que recebi foi o de professor.’
O Planejador do Futuro: PLAMEG e o Governo Celso Ramos
“Planejar é trazer o futuro para o presente, para que você possa fazer algo sobre ele agora.”— Alan Lakein
Na virada para a década de 1960, Santa Catarina era um Estado isolado, cortado por imensas distâncias, carente de estradas, de escolas, de infraestrutura básica. Foi nesse contexto que o governador Celso Ramos reuniu ao seu redor uma equipe extraordinária de jovens talentosos. Entre eles, Glauco Olinger, ao lado do brilhante advogado e economista Alcides Abreu, do engenheiro Annes Gualberto e do empresário Fernando Marcondes de Mattos.
Juntos, esse grupo concebeu e executou o PLAMEG — Plano de Metas do Governo do Estado —, um documento de planejamento que, pela primeira vez, diagnosticou com rigor as carências catarinenses e apontou soluções concretas. Alcides Abreu foi o cérebro técnico e ideológico; Glauco Olinger, a inteligência agrária que deu substância ao setor produtivo. Criaram o Crédito Educativo Supervisionado, com juros baixos e prazos longos, cujo pagamento era feito com o resultado da produção — e a inadimplência era inferior a 1%. Uma engenharia social notável para a época.
Glauco integrou o chamado ‘grupo da Sorbonne’, que apoiava a candidatura do próprio Alcides Abreu para o governo seguinte. Mesmo assim, foi convidado a ser Secretário da Agricultura do governador Ivo Silveira — o adversário —, e aceitou, porque, para ele, o que importava era servir à causa da agricultura, não à conveniência da política. Ficou no cargo por quatro anos. Continuou no governo de Colombo Salles, quando assumiu também a Secretaria da Educação. Essa trajetória atravessou ainda os governos federais de Castelo Branco, Costa e Silva, Médici e Geisel.
O Homem Íntegro: Ética, Moderação e Longevidade
“A integridade é fazer a coisa certa, mesmo quando ninguém está olhando.”
C.S. Lewis
Quase foi nomeado governador de Santa Catarina. Nunca pediu um cargo público a ninguém. Nunca teve filiação partidária, mas serviu a governantes dos mais variados matizes políticos — sempre convocado pela competência, jamais pela militância. Esse perfil raro, de técnico acima das disputas, é talvez a sua característica mais difícil de encontrar na vida pública brasileira contemporânea.
Sua filosofia de vida cabe numa frase que ele mesmo repete: ‘O maior segredo é ser moderado em tudo.’ Praticou o que pregou: jogou xadrez a vida toda, nadou, praticou caça submarina, jogou futebol de salão até os 89 anos e foi corredor de 100 metros rasos. Frequentou o Iate Clube Veleiros da Ilha por décadas, tendo a pescaria como lazer preferido. Aos 103 anos, ainda fazia ginástica no apartamento, ainda escrevia livros, ainda tinha planos para o próximo. Autor de mais de trinta obras, entregou pessoalmente à Epagri seu livro mais recente — ‘Histórias mal contadas e correções’ — aos 103 anos.
Sua memória, relatam todos que o conheceram, era prodigiosa até os anos mais avançados. Lembrava com facilidade de nomes de pessoas com quem havia convivido há mais de sete décadas, reproduzia máximas do pai, citava os autores prediletos da mãe, narrava os bastidores da política catarinense com riqueza de detalhes que envergonharia qualquer historiador profissional.
A Revolução Silenciosa: Extensão Rural, Fruticultura e Soberania Alimentar
“Dá um peixe a um homem e alimenta-o por um dia. Ensina-o a pescar e alimenta-o para sempre.” Provérbio chinês
A filosofia que guiou Glauco Olinger ao longo de toda a carreira pode ser resumida numa expressão que ele mesmo usava: ‘ensinar a usar’. Quando a assistência técnica e a extensão rural começaram a ser implantadas em Santa Catarina, em 1956, usou como referência o conceito norte-americano de ensino extraescolar. Os agricultores não precisavam sair para estudar: os extensionistas iam até a casa deles. E o governo deixou de ser paternalista — de dar sementes, adubos e ferramentas — para fornecer informação, ensino intelectual e orientação técnica. Uma revolução silenciosa, mas de efeitos duradouros.
Um dos frutos mais concretos desse modelo foi o projeto da fruticultura catarinense. Glauco foi o criador do bem-sucedido programa que tornou Santa Catarina uma das referências nacionais na produção de maçã. Quando apresentou a fruta aos agentes públicos da época, ninguém acreditava que era produzida no Estado — achavam que vinha da Califórnia ou da Argentina. A abertura da linha de financiamento que se seguiu transformou completamente o setor: hoje, Santa Catarina responde por mais de 50% da safra nacional de maçãs e exporta mais do que importa.
No plano da soberania alimentar, Glauco foi sempre enfático: o Brasil não pode aceitar o papel de celeiro do mundo às custas de sua própria população. Em suas palavras: ‘Nossa responsabilidade é garantir a produção de alimentos suficientes e de qualidade para a própria população brasileira.’ Criticava com veemência o modelo exportador de commodities sem valor agregado — exportar grãos, carne com osso e animais vivos quando o correto seria processar, industrializar, colocar o produto acabado na mesa das donas de casa do exterior. Santa Catarina, dizia ele com orgulho, é uma exceção nesse cenário, pois seus suínos e frangos são desdobrados e exportados com valor agregado.
Sobre a estrutura agrária brasileira, defendia o caminho do meio — confuciano por convicção: nem o latifúndio mecanizado em excesso, que compacta o solo e reduz sua vida, nem o minifúndio sem escala. As médias propriedades, na sua visão, eram o equilíbrio ideal. Lembrava que o Brasil possui entre 70 e 80 milhões de hectares cultivados, mas outros 300 milhões podem ser explorados sem risco de degradação ambiental, segundo a Embrapa — além de 140 milhões de hectares degradados que aguardam revitalização.
O Pensador do Futuro: Agrotóxicos, Clima e Agricultura Urbana
“A Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra.”
Chefe Seattle
Mesmo ao avançar nos anos, Glauco Olinger nunca perdeu o interesse pelos grandes debates do presente. Sobre os agrotóxicos, tema que tomou conta do debate público, foi preciso e corajoso: ‘Na questão dos agrotóxicos, o debate tem mais ideologia do que conhecimento científico. E onde entra a ideologia, a ciência sai pela porta dos fundos.’ Distinguia com clareza o defensivo agrícola necessário do veneno proibido mal fiscalizado, e criticava o Estado por ‘juntar tudo num saco só’ — produto, dizia, da falta de informação.
Quanto ao futuro do planeta, não era nem catastrofista nem negacionista: reconhecia que o homem intervém danosamente no clima ao destruir florestas — que têm o papel fundamental de reter umidade e garantir a evaporação —, mas ponderava que há transformações que decorrem de abalos sísmicos, movimentos da crosta terrestre e erupções vulcânicas, fenômenos independentes da ação humana. Apontava a agricultura urbana como um dos caminhos promissores, ainda de pequena escala mas em crescimento acelerado nas principais metrópoles do mundo.
Sua visão sobre a China e a geopolítica alimentar era igualmente afiada: com quase 1,5 bilhão de habitantes e apenas 15% do território aproveitável para agricultura, o gigante asiático depende crescentemente de alimentos externos. A devastação de mais de 30% da suinocultura chinesa pela peste suína, alertava ele, cria condições excepcionais para Santa Catarina — que já produz carne processada pronta para o consumidor final, exatamente o que a China precisa.
A Receita de uma Vida Longa: Saúde, Disciplina e Propósito
“Cuida do teu corpo. É o único lugar que tens para viver.”
Jim Rohn
Não seria justo falar de Glauco Olinger sem registrar o que ele próprio chamava de sua receita para uma vida longa e saudável — não por vaidade, mas pelo exemplo genuíno que representa. Abandonou o cigarro de palha e o cachimbo quando descobriu os males que causavam, numa época em que poucos tinham essa consciência. Aprendeu a parar de comer antes de se sentir farto. Eliminou o açúcar e o sal da dieta. Passou a consumir muitas frutas e legumes — os mesmos que ajudou a produzir em larga escala em Santa Catarina.
Antes de dormir, praticava exercícios de memória para manter os neurônios ocupados. Caminhava regularmente pelas ruas próximas ao seu apartamento na Avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis. Fazia ginástica diária mesmo depois dos 100 anos. Aos 103 anos, ainda escrevia livros, ainda entregava pessoalmente suas obras aos editores, ainda tinha ideias para o próximo título. Há uma lição profunda nessa trajetória: a longevidade de Glauco não é um acidente genético — é o resultado coerente de uma vida vivida com moderação, propósito e entrega.
A Estratégia da Maçã: Coragem, Visão e um Fruto no Bolso do Paletó
“A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as demais.” — Aristóteles
Há episódios na história que valem por si sós — que resumem, numa cena, décadas de trabalho e convicção. O de Glauco Olinger com o ministro Delfim Netto é um desses. Na década de 1970, o Brasil importava quase toda a maçã que consumia da Argentina, do Chile ou dos Estados Unidos. O cultivo em Santa Catarina engatinhava, sem apoio financeiro e sem visibilidade nacional. O governo federal sequer sabia que era possível produzir maçãs de alta qualidade em solo brasileiro.
Glauco viajou a Brasília com uma caixa de maçãs colhidas em Santa Catarina. Entrou no gabinete do então ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto, tirou uma maçã do bolso do paletó e a ofereceu. O ministro comeu, elogiou o sabor e tentou adivinhar a origem — apostou na Califórnia ou na Argentina. Quando Olinger revelou que a fruta era catarinense, o impacto foi imediato. Convencido ali mesmo, Delfim Netto ordenou a abertura urgente de uma linha de crédito federal específica para a fruticultura de clima temperado.
Com esse financiamento, dezenas de produtores e imigrantes nas regiões de São Joaquim e Fraiburgo conseguiram comprar mudas, investir em tecnologia e expandir os pomares. Santa Catarina tornou-se o maior produtor nacional de maçãs, respondendo hoje por mais de 50% da safra do país. O que antes era importado passou a ser exportado. Uma maçã no bolso do paletó mudou a história econômica de um estado.
Esse episódio não foi um golpe de sorte: foi o resultado de anos de construção institucional. Glauco Olinger foi o fundador da Acaresc em 1956 — hoje Epagri —, e através dessa instituição garantiu que os produtores de maçã recebessem assistência técnica contínua e gratuita, com extensionistas ensinando o manejo correto das plantas diretamente nas propriedades. Foi também consultor da FAO — Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura —, levando ao plano internacional a mesma visão que aplicou em Santa Catarina. Fundou o Centro de Ciências Agrárias da UFSC, da qual é Professor Emérito. Foi condecorado por diversas instituições e conquistou premiações relevantes na área de pesquisa e extensão rural. E escreveu — ao longo de mais de seis décadas — mais de trinta livros, que são hoje referência obrigatória para quem estuda o desenvolvimento agrário brasileiro.
Conclusão
Chego ao fim desta reflexão com a convicção de que Glauco Olinger não é apenas um personagem da história de Santa Catarina: ele é uma categoria. Uma categoria de ser humano que, sem renunciar à alegria de viver, entregou o melhor de si à construção de algo maior — a agricultura familiar, a extensão rural, a universidade, o planejamento público, a soberania alimentar do Brasil. Não foi um político que virou técnico, nem um técnico que virou político: foi, sempre, um servidor — no sentido mais nobre e menos burocrático da palavra.
Fico me perguntando quantos Glauco Olingers o Brasil desperdiçou por falta de instituições que os acolhessem, que os financiassem, que os ouvissem. E me pergunto, igualmente, o que aconteceria se o espírito do PLAMEG — aquele espírito de diagnóstico rigoroso, escuta das regiões e planejamento de longo prazo — voltasse a habitar os gabinetes do poder público brasileiro. Acredito que a resposta estaria nas próprias palavras de Glauco: ‘Não existe nação que se desenvolveu sem investir na pesquisa básica e aplicada.’
Este lageano de alma tropeira e mente científica nos ensinou, acima de tudo, que a grandeza não precisa de holofotes. Ela precisa, apenas, de raízes fundas — como as de uma araucária no alto da Serra Catarinense. E as raízes de Glauco Olinger já estão tão fincadas nesta terra que nenhum vento de esquecimento será capaz de arrancá-las.
“Um povo que não conhece seus construtores está condenado a reinventar o que já foi construído — e a perder o tempo precioso que poderia dedicar a construir o que ainda falta.”(João Guimarães Rosa)
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Servidor Publico Aposentado

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