22 jul Páginas que Atravessaram o Atlântico
A Extraordinária História da Biblioteca Nacional do Brasil
Há histórias que atravessam oceanos, sobrevivem a terremotos, incêndios e à queda de impérios — e ainda assim chegam até nós intactas, prontas para serem contadas. Foi exatamente isso que encontrei quando decidi investigar as origens da Biblioteca Nacional do Brasil: não a história de um prédio ou de um acervo, mas a trajetória de um patrimônio que atravessou o Atlântico dentro de caixotes de madeira e, mais de duzentos anos depois, se tornou um dos maiores símbolos culturais do meu país.
Convido você a acompanhar essa jornada comigo. Vou apresentar, em ordem cronológica, como uma coleção de livros reunida pelos reis de Portugal se transformou na maior biblioteca da América Latina — e por que essa história diz muito sobre a forma como escolhemos preservar, ou não, a nossa própria memória.
As origens da Biblioteca Real em Portugal
Antes de atravessar o Atlântico e tornar-se um dos maiores patrimônios culturais do Brasil, a Biblioteca Real já guardava séculos da memória, da ciência e da cultura do Reino de Portugal.
A história da Biblioteca Nacional do Brasil começa muito antes da chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro. Suas raízes remontam aos primeiros séculos da monarquia lusitana, quando os soberanos compreenderam que preservar livros, manuscritos e documentos significava conservar a própria memória do Estado e da civilização portuguesa.
A formação da Biblioteca Real teve início durante o reinado de D. João I (1385–1433), conhecido como “o da Boa Memória”. Ao longo dos séculos, sucessivos monarcas ampliaram o acervo por meio da aquisição de livros, mapas, manuscritos, obras científicas e documentos administrativos, transformando-o em um dos mais valiosos patrimônios culturais da Europa.
Entretanto, em 1º de novembro de 1755, Lisboa foi atingida por um dos mais devastadores terremotos da história. O abalo sísmico, seguido por um gigantesco maremoto e por incêndios que consumiram a cidade durante vários dias, destruiu palácios, igrejas, repartições públicas e praticamente todo o acervo da antiga Biblioteca Real. A perda representou um duro golpe para a cultura portuguesa, apagando séculos de conhecimento acumulado.
A reconstrução da biblioteca tornou-se uma prioridade para a Coroa. Durante a segunda metade do século XVIII, iniciou-se um intenso trabalho de recomposição do acervo por meio da compra de coleções particulares, doações de nobres e religiosos, incorporações de bibliotecas privadas e da aquisição de obras raras em diversos países europeus. Em poucas décadas, a Biblioteca Real recuperou seu prestígio e voltou a figurar entre as mais importantes instituições culturais do continente.
No início do século XIX, o acervo já reunia cerca de 70 mil peças, entre manuscritos, incunábulos, livros, gravuras, mapas, moedas, medalhas e documentos de inestimável valor histórico. Não era apenas uma coleção de livros, mas um verdadeiro repositório da memória política, científica, artística e literária do Reino de Portugal.
Esse extraordinário patrimônio seria colocado à prova em 1807. Diante da invasão das tropas napoleônicas comandadas pelo general Junot, a Família Real decidiu abandonar Lisboa e transferir a sede do Reino para o Brasil. Entre os bens considerados indispensáveis para a sobrevivência da monarquia estavam os documentos da administração do Estado, o tesouro real e a preciosa Biblioteca dos Reis.
Ninguém imaginava, porém, que essa decisão mudaria para sempre a história cultural do Brasil. Ao cruzar o Atlântico, a Biblioteca Real não transportava apenas milhares de livros e manuscritos: levava consigo séculos de conhecimento acumulado, que encontrariam em terras brasileiras um novo destino e dariam origem à maior biblioteca da América Latina.
Às vezes, os maiores tesouros de uma nação não são feitos de ouro ou pedras preciosas, mas de páginas capazes de atravessar os séculos e preservar a memória de um povo.
A viagem da Biblioteca para o Brasil
Na mesma viagem que salvou a monarquia portuguesa, atravessou o Atlântico um tesouro muito mais duradouro que ouro ou joias: o conhecimento.
Em fins de 1807, Portugal vivia um dos momentos mais dramáticos de sua história. As tropas de Napoleão Bonaparte avançavam sobre a Península Ibérica com o objetivo de obrigar o reino português a aderir ao Bloqueio Continental contra a Inglaterra. Diante da iminente invasão francesa e contando com o apoio da Marinha Britânica, o príncipe regente D. João tomou uma decisão sem precedentes: transferir a sede da monarquia portuguesa para o Brasil.
Na madrugada de 29 de novembro de 1807, uma esquadra composta por dezenas de embarcações deixou o porto de Lisboa levando a Família Real, ministros, magistrados, militares, funcionários da administração pública e centenas de membros da nobreza. Com eles seguiam documentos do Estado, arquivos administrativos, obras de arte, objetos litúrgicos, joias da Coroa e outros bens considerados essenciais para garantir a continuidade do governo português em terras americanas.
Entre esses bens encontrava-se o mais valioso patrimônio intelectual do Reino: a Biblioteca Real. Entretanto, em meio à pressa da partida e ao clima de grande confusão que tomou conta do cais de Lisboa, ocorreu um fato pouco conhecido pela maioria dos brasileiros. Os caixões que continham a biblioteca, já preparados para o embarque, acabaram ficando para trás. A prioridade era colocar a Corte em segurança antes da chegada das tropas francesas, e o transporte do acervo teve de ser adiado.
Enquanto a Família Real chegava ao Brasil em janeiro de 1808, primeiro em Salvador e, posteriormente, no Rio de Janeiro, a preciosa coleção permanecia em Portugal. Somente em 1810 começaram a chegar ao Rio de Janeiro os primeiros caixões contendo livros, manuscritos, mapas, gravuras, moedas e medalhas. Novas remessas desembarcaram ao longo de 1811, completando a transferência de um patrimônio que reunia aproximadamente 60 mil peças, uma das maiores coleções bibliográficas existentes fora das grandes capitais europeias.
A chegada desse acervo representou um acontecimento extraordinário para uma colônia que, até poucos anos antes, sequer possuía tipografias autorizadas a funcionar. Pela primeira vez, o Brasil recebia uma coleção de dimensão e qualidade comparáveis às grandes bibliotecas do Velho Mundo, reunindo obras de história, filosofia, direito, religião, ciências naturais, cartografia, literatura clássica e documentos administrativos fundamentais para o funcionamento do Estado português.
Inicialmente, os volumes foram instalados no pavimento superior do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, localizado na antiga Rua Direita, atual Rua Primeiro de Março, no centro do Rio de Janeiro. Logo se percebeu, porém, que o espaço era insuficiente e inadequado para preservar um acervo de tamanha importância. Em consequência, por determinação de D. João, a coleção foi transferida para dependências mais amplas do Convento do Carmo, onde permaneceu em melhores condições de conservação.
Foi nesse contexto que, em 29 de outubro de 1810, D. João assinou o decreto que instituiu oficialmente a Real Biblioteca, marco considerado o nascimento da atual Biblioteca Nacional do Brasil. Nos primeiros anos, seu acesso era reservado a estudiosos, pesquisadores e autoridades previamente autorizados pelo príncipe regente. Somente em 1814, a biblioteca foi aberta ao público, tornando-se um dos primeiros espaços permanentes de consulta e difusão do conhecimento existentes no país.
A transferência da Biblioteca Real representou muito mais do que o deslocamento físico de milhares de livros através do oceano. Ela simbolizou a própria transferência do centro político e cultural do Império Português para o Brasil. Pela primeira vez, uma colônia americana passava a abrigar um dos maiores acervos bibliográficos do mundo, criando as condições para o florescimento da vida intelectual, científica e administrativa que marcaria profundamente a formação da nação brasileira.
Quando os caixões da Biblioteca Real desembarcaram no Rio de Janeiro, não chegaram apenas livros. Desembarcaram séculos de conhecimento que transformariam para sempre a história cultural do Brasil.
O nascimento da Real Biblioteca
Grandes nações não se constroem apenas com exércitos, palácios ou riquezas. Elas se consolidam quando fazem do conhecimento um patrimônio de Estado.
A chegada da Biblioteca Real ao Rio de Janeiro representou um dos mais importantes acontecimentos culturais da história do Brasil. Pela primeira vez, uma instituição destinada à preservação e à difusão do conhecimento era organizada nos moldes das grandes bibliotecas europeias. Percebendo a importância daquele extraordinário acervo para a administração do Reino e para o desenvolvimento intelectual da colônia, o príncipe regente D. João decidiu dar-lhe existência oficial.
Assim, em 29 de outubro de 1810, foi assinado o decreto que criou a Real Biblioteca, considerada a origem da atual Biblioteca Nacional do Brasil. Muito mais do que um simples ato administrativo, esse decreto simbolizou a decisão de transformar o Rio de Janeiro em um centro político, cultural e científico à altura da nova capital do Império Português.
O acervo inicial reunia cerca de 60 mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, gravuras, moedas, medalhas e documentos raros, formando uma coleção de valor inestimável. Seu conteúdo abrangia praticamente todas as áreas do conhecimento da época: história, filosofia, direito, teologia, literatura, ciências naturais, medicina, cartografia, matemática, navegação e administração pública.
A instalação da Biblioteca ocorreu, inicialmente, no pavimento superior do Hospital da Ordem Terceira do Carmo. Contudo, as limitações do espaço logo se tornaram evidentes. Para garantir melhores condições de preservação e organização do acervo, D. João determinou sua transferência para dependências mais amplas do Convento do Carmo, onde a coleção pôde ser instalada com maior segurança.
Nos primeiros anos, a consulta às obras era privilégio de um número restrito de estudiosos, religiosos, magistrados e funcionários da administração régia, todos previamente autorizados pelo príncipe regente. Em 1814, porém, D. João tomou uma decisão que ampliaria enormemente o alcance cultural da instituição: a Biblioteca foi aberta ao público, tornando-se um dos primeiros espaços permanentes de acesso ao conhecimento existentes no Brasil.
Essa abertura marcou uma mudança significativa na vida intelectual da colônia. Pesquisadores, juristas, professores, religiosos e homens de letras passaram a dispor de uma coleção sem equivalente em toda a América Portuguesa. O acesso a livros e documentos de elevado valor científico favoreceu o desenvolvimento dos estudos, da administração pública e da produção intelectual brasileira.
A influência da Real Biblioteca também se estendeu ao nascente mercado editorial do país. Pouco tempo depois de sua criação, a Impressão Régia, instalada por D. João em 1808, passou a desempenhar papel fundamental na difusão da cultura escrita. Em 1812, publicou o primeiro livro impresso oficialmente no Brasil: Marília de Dirceu, obra-prima do poeta luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga, que, como todas as publicações da época, precisou ser submetida à censura da Coroa antes de chegar aos leitores.
A preocupação do príncipe regente com a disseminação do conhecimento tornou-se ainda mais evidente em 1818, quando determinou que todos os exemplares em duplicidade existentes na Real Biblioteca fossem enviados à Biblioteca Pública de Salvador, desde que ainda não integrassem seu catálogo. A medida fortaleceu outra importante instituição cultural do país e demonstrou que a política de D. João não se limitava à preservação dos livros, mas buscava ampliar o acesso ao saber em diferentes regiões do Brasil.
Paralelamente, o acervo continuou crescendo de forma constante. Importantes coleções particulares passaram a integrar a Biblioteca, destacando-se a valiosa coleção de botânica de Frei José Mariano da Conceição Veloso, incorporada em 1811; a biblioteca do jurista Manuel Inácio da Silva Alvarenga, adquirida em 1815; a coleção do arquiteto José da Costa e Silva, em 1818; e, no ano seguinte, a do influente Conde da Barca, D. Antônio de Araújo e Azevedo, um dos maiores incentivadores das ciências e das artes no período joanino.
Em poucos anos, a Real Biblioteca deixou de ser apenas o repositório da memória da monarquia portuguesa para transformar-se em um dos principais centros de cultura da América.
Ao fundar a Real Biblioteca, D. João VI não apenas reuniu livros em um edifício; lançou os alicerces de uma instituição que preservaria, para sempre, a memória, a cultura e a inteligência da nação brasileira.
A Biblioteca do Império
A Independência separou dois países, mas preservou para o Brasil um patrimônio intelectual que continuaria formando gerações e escrevendo a história da nova nação.
O retorno da Família Real a Portugal, em 1821, marcou o fim do período joanino no Brasil, mas não interrompeu a trajetória da Real Biblioteca. Ao embarcar de volta para Lisboa, D. João VI levou consigo parte significativa dos manuscritos e documentos pertencentes ao acervo original. Ainda assim, a maior parte da coleção permaneceu no Rio de Janeiro, assegurando a continuidade daquela que já se consolidava como a principal instituição cultural do país.
No ano seguinte, a Independência do Brasil, proclamada por D. Pedro I em 7 de setembro de 1822, redefiniu o destino da Biblioteca. De patrimônio da Coroa Portuguesa, ela passou a integrar oficialmente os bens do recém-criado Império do Brasil.
Também em 1822, ocorreu um episódio que representou uma importante perda para o acervo. O padre Joaquim Dâmaso, primeiro diretor da Real Biblioteca, decidiu regressar a Portugal por não aceitar a separação política entre os dois países. Ao partir, levou consigo mais de cinco mil códices, dos cerca de seis mil que haviam sido trazidos ao Brasil com a Corte. Embora essa retirada tenha reduzido parte da coleção original, não comprometeu a importância da instituição, que continuou crescendo por meio de novas incorporações e aquisições.
Nesse mesmo ano, o governo imperial adotou uma medida de enorme alcance cultural: determinou que a Biblioteca passasse a receber um exemplar de todas as obras impressas pela Tipografia Nacional. Essa decisão lançou as bases do atual Depósito Legal, mecanismo que garante a preservação da produção bibliográfica brasileira até hoje.
Com a consolidação da Independência, tornou-se necessário resolver a delicada questão da propriedade da antiga Biblioteca Real. As negociações entre Brasil e Portugal culminaram, em 1825, na assinatura da Convenção Adicional ao Tratado de Paz e Amizade, pela qual o governo brasileiro adquiriu oficialmente o acervo mediante o pagamento de 800 contos de réis, quantia considerada extraordinariamente elevada para a época.
A partir desse momento, a instituição passou a ser conhecida como Biblioteca Imperial e Pública, denominação que refletia sua dupla missão: preservar a memória do Estado brasileiro e ampliar o acesso da sociedade ao conhecimento. Seu acervo tornou-se referência para juristas, administradores, cientistas, professores, religiosos, escritores e pesquisadores, acompanhando a construção das instituições políticas e culturais do novo Império.
Ao longo das décadas seguintes, a Biblioteca continuou a crescer por meio da incorporação de bibliotecas particulares, da compra de obras raras e da doação de importantes coleções, transformando-se em um centro permanente de produção, organização e preservação do conhecimento.
O Império do Brasil herdou muitos desafios, mas poucos patrimônios foram tão valiosos quanto a Biblioteca Nacional, guardiã da memória de um povo e símbolo de que a independência também se constrói pela preservação do conhecimento.
O crescimento de um patrimônio nacional
O verdadeiro valor de uma biblioteca não se mede pelo número de livros que abriga, mas pela capacidade de preservar a memória de um povo e inspirar as gerações futuras.
Ao longo do século XIX, a Biblioteca Imperial e Pública consolidou-se como uma das mais importantes instituições culturais do Brasil. Seu acervo crescia continuamente graças à aquisição de coleções particulares, doações de intelectuais, incorporações de documentos oficiais e à entrada permanente de novas publicações.
Com o passar das décadas, o acervo ultrapassou em muito a capacidade das instalações originais. Tornava-se evidente a necessidade de uma sede definitiva, capaz de acomodar o constante enriquecimento da coleção e oferecer melhores condições para sua conservação e consulta.
Essa necessidade foi atendida durante o governo do presidente Rodrigues Alves. Em meio às grandes obras de modernização da então Capital Federal, foi construída uma nova sede para a Biblioteca Nacional. O edifício, inaugurado em 29 de outubro de 1910, exatamente cem anos após o decreto que criou a Real Biblioteca, tornou-se um dos mais belos monumentos da arquitetura brasileira.
Localizado na Avenida Rio Branco, na histórica Praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, o prédio foi concebido em estilo eclético, harmonizando elementos da arquitetura neoclássica com influências da art nouveau. Integrando, ao lado do Teatro Municipal e do Museu Nacional de Belas Artes, um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos e culturais do país, a nova sede passou a oferecer instalações adequadas para a guarda de obras raras, manuscritos, mapas, periódicos, gravuras, partituras e inúmeros outros documentos de valor histórico.
Durante o século XX, a Biblioteca Nacional ampliou significativamente suas atribuições. Além da preservação do acervo, fortaleceu atividades de catalogação, restauração, conservação, pesquisa e intercâmbio cultural, tornando-se referência para bibliotecas e centros de documentação em todo o Brasil. O sistema de Depósito Legal garantiu que praticamente toda a produção editorial brasileira passasse a integrar suas coleções.
A chegada do século XXI trouxe novos desafios e novas oportunidades. Em 2006, foi criada a Biblioteca Nacional Digital, iniciativa que representou um marco na democratização do acesso ao conhecimento. Por meio da digitalização de livros, jornais, manuscritos, mapas, fotografias, gravuras, partituras e documentos raros, milhões de páginas passaram a estar disponíveis para consulta pela internet, permitindo que pesquisadores, estudantes e leitores de qualquer parte do mundo tivessem acesso a um patrimônio antes restrito às salas de pesquisa da instituição.
Ao completar dois séculos de existência, a instituição já não representava apenas um legado do período joanino. Transformara-se em um dos maiores centros de documentação da América Latina, reunindo milhões de obras que registram a trajetória política, econômica, científica, artística e literária do Brasil.
Os edifícios podem atravessar os séculos, mas são as ideias neles preservadas que tornam uma nação verdadeiramente imortal. A Biblioteca Nacional é a prova viva de que o conhecimento continua sendo o mais valioso patrimônio do Brasil.
Da coleção real ao patrimônio mundial
Poucas instituições no mundo podem afirmar que atravessaram impérios, monarquias, repúblicas e revoluções preservando, em silêncio, a memória de uma nação. A Biblioteca Nacional do Brasil é uma delas.
O acervo que chegou ao Rio de Janeiro no início do século XIX, composto por cerca de 60 mil peças trazidas da antiga Biblioteca Real portuguesa, tornou-se apenas o núcleo inicial de uma instituição destinada a crescer continuamente. Ao longo de mais de dois séculos, novas aquisições, doações, incorporações de coleções particulares e o sistema de Depósito Legal transformaram aquela coleção em um dos maiores patrimônios documentais do mundo.
Hoje, a Biblioteca Nacional reúne aproximadamente nove milhões de itens, entre livros, manuscritos, periódicos, jornais, mapas, cartas náuticas, gravuras, fotografias, partituras, desenhos, moedas, medalhas e documentos históricos que testemunham a evolução política, científica, artística e cultural do Brasil e de diversas nações.
Seu acervo constitui um verdadeiro repositório da memória nacional, preservando documentos fundamentais para o estudo da colonização portuguesa, do período joanino, da Independência, do Império, da República e da formação da sociedade brasileira. Pesquisadores de diferentes países encontram na Biblioteca Nacional fontes indispensáveis para compreender não apenas a história do Brasil, mas também as relações entre Portugal, América, África e Europa ao longo dos séculos.
A importância desse patrimônio foi amplamente destacada na exposição “D. João VI: um legado em papel”, realizada em 2008, no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro. Posteriormente disponibilizada também em ambiente virtual, a mostra reuniu manuscritos, mapas, livros raros, documentos administrativos e gravuras do período joanino.
Embora o retorno da Família Real a Portugal, em 1821, tenha significado a retirada de parte dos manuscritos e documentos originais, esse episódio não diminuiu a grandeza da obra construída em território brasileiro. Ao contrário, a instituição continuou ampliando suas coleções, tornando-se referência internacional na preservação documental e na pesquisa histórica.
Nas primeiras décadas do século XXI, a criação da Biblioteca Nacional Digital representou uma nova etapa dessa trajetória, democratizando o acesso ao conhecimento e permitindo que pesquisadores de qualquer parte do mundo consultassem documentos antes acessíveis apenas presencialmente.
O reconhecimento internacional desse trabalho veio por meio de importantes instituições culturais: a UNESCO considera a Biblioteca Nacional do Brasil a maior biblioteca da América Latina e uma das dez maiores bibliotecas nacionais do mundo, posição alcançada não apenas pela dimensão de seu acervo, mas também pela relevância histórica, científica e cultural das coleções que preserva.
A Biblioteca Nacional nasceu como patrimônio de uma monarquia, consolidou-se como patrimônio do Brasil e tornou-se patrimônio da humanidade. Em suas estantes repousa não apenas a história de um país, mas a memória de uma civilização que escolheu vencer o tempo por meio do conhecimento.
O legado permanente de D. João VI
Os grandes governantes não são lembrados apenas pelas guerras que venceram ou pelos palácios que construíram, mas pelas instituições que sobreviveram ao tempo. Entre todas as realizações de D. João VI, poucas foram tão duradouras quanto a Biblioteca Nacional.
Quando a Corte Portuguesa desembarcou no Brasil, em 1808, poucos poderiam imaginar que, entre os inúmeros acontecimentos daquele período, um deles atravessaria os séculos com vigor cada vez maior. A criação da Real Biblioteca não foi apenas uma medida administrativa destinada a preservar um precioso acervo trazido de Portugal. Foi uma decisão de extraordinária visão de futuro, que transformou definitivamente o panorama cultural e intelectual do Brasil.
Ao instituir oficialmente a Real Biblioteca em 1810, D. João VI lançou as bases da primeira grande instituição brasileira dedicada à preservação do conhecimento. Em uma época em que a colônia ainda carecia de universidades, centros de pesquisa e tipografias consolidadas, a existência de uma biblioteca daquele porte representava um avanço notável.
A importância desse legado ultrapassa a dimensão material dos livros, manuscritos e documentos preservados. A Biblioteca Nacional tornou-se um símbolo da continuidade histórica do Brasil, registrando os acontecimentos que moldaram a formação do país ao longo de mais de dois séculos.
Poucas instituições nacionais conseguiram atravessar tantas transformações políticas mantendo-se fiéis à sua missão. A Biblioteca sobreviveu à transferência da Corte, à Independência, ao fim do Império, à Proclamação da República, às sucessivas mudanças de governo e às profundas transformações tecnológicas dos séculos XX e XXI.
Seu legado também se revela na contribuição permanente para a educação, a ciência e a cultura. Milhões de pesquisadores, professores, escritores, estudantes e cidadãos encontraram em seu acervo as fontes necessárias para produzir conhecimento, compreender o passado e interpretar o presente.
Ao analisar o conjunto das realizações de D. João VI no Brasil — a abertura dos portos, a criação do Banco do Brasil, da Imprensa Régia, da Academia Real Militar, da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, do Jardim Botânico, do Museu Real e de tantas outras instituições — percebe-se que a Biblioteca Nacional ocupa um lugar singular. Ela não apenas nasceu naquele período, mas continuou crescendo continuamente, tornando-se um dos mais importantes símbolos da cultura brasileira.
A trajetória da Biblioteca Nacional demonstra que as decisões tomadas por D. João VI durante sua permanência no Brasil produziram efeitos que ultrapassaram em muito as circunstâncias de seu tempo. O soberano que chegou fugindo das tropas napoleônicas acabou deixando ao país um dos mais valiosos instrumentos de preservação da memória nacional.
Os palácios podem envelhecer, os governos podem mudar e os impérios podem desaparecer. Mas enquanto houver uma biblioteca preservando a memória de um povo, sua história continuará viva. Esse é o legado mais duradouro de D. João VI: fazer do conhecimento um patrimônio permanente do Brasil.
Conclusão
Terminei de reconstituir essa trajetória e ainda me impressiono com o que descobri: uma biblioteca que sobreviveu a um terremoto, atravessou um oceano em plena fuga de guerra, foi comprada por um país recém-independente e, duzentos anos depois, segue de portas abertas no coração do Rio de Janeiro. Não conheço muitos patrimônios que tenham resistido a tanto sem perder sua função original — a de guardar, e compartilhar, aquilo que uma nação sabe sobre si mesma.
Ao escrever este texto, percebi que a história da Biblioteca Nacional não é apenas sobre livros antigos guardados em estantes. É sobre a decisão, repetida por diferentes governantes ao longo de dois séculos, de que vale a pena investir na memória. Se hoje posso consultar manuscritos do século XVI ou a primeira edição de Os Lusíadas a poucos passos da Cinelândia, é porque alguém, em 1810, achou que isso importava.
Termino esta pesquisa com uma certeza: enquanto essa biblioteca continuar de pé, uma parte essencial da história do Brasil — e de Portugal — também continuará viva.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: Walmor1953@gmail.com
Fonte
SCHWARCZ, Lilia Moritz; AZEVEDO, Paulo Cesar de; COSTA, Angela Marques da. A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Sobre a BN. Disponível em: https://www.bn.gov.br/sobre-bn. Acesso em: 22 jul. 2026.
WIKIPÉDIA. Biblioteca Nacional do Brasil. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Biblioteca_Nacional_do_Brasil. Acesso em: 22 jul. 2026.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Biblioteca Nacional (BN). Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/instituicoes/70141-biblioteca-nacional-bn. Acesso em: 22 jul. 2026.
AGÊNCIA BRASIL. Brasil tem a maior biblioteca da América Latina. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-05/brasil-tem-maior-biblioteca-da-america-latina. Acesso em: 22 jul. 2026.
INFOESCOLA. Biblioteca Nacional – história, localização, acervo, fotos. Disponível em: https://www.infoescola.com/brasil/biblioteca-nacional/. Acesso em: 22 jul. 2026.

Nenhum comentário