04 jul Lages e a Maçã: do Potencial à Viabilidade
Escrevo este ensaio movido por uma inquietação simples que me acompanha há tempos: por que Lages — cidade que já teve pomares de dezenas de hectares e que está localizada a pouco mais de 80 quilômetros de São Joaquim, hoje reconhecida por lei federal como a Capital Nacional da Maçã — não ocupa um lugar de maior destaque nesse mercado bilionário? Essa mesma inquietação já havia me levado a publicar os estudos “O Futuro de Lages Pode Ter Cheiro de Maçã” e “Potencialidade de Lages na Produção de Maçã”, e foi justamente a repercussão desses dois artigos que me estimulou a aprofundar ainda mais o tema nas páginas do presente texto.
A microrregião dos Campos de Lages, da qual o próprio município é referência geográfica, já responde por parte relevante da produção catarinense de maçã. O corredor da BR-282, que atravessa Lages rumo à serra e ao litoral, é a espinha dorsal logística de todo esse sistema produtivo. Se o mercado nacional absorve entre 85% e 90% de tudo o que se produz em polos consolidados como São Joaquim e Fraiburgo, e o excedente exportado já conquistou paladares na Europa, na Rússia e no Oriente Médio, não vejo por que Lages deveria ficar à margem dessa cadeia de valor — sobretudo quando considero que o município compartilha com seus vizinhos serranos o mesmo ativo natural mais precioso: o frio. Este é, na minha leitura, o verdadeiro “capital natural” da região, um ativo climático que nenhuma tecnologia substitui em regiões mais quentes do país.
Ao longo deste artigo, apresento minha análise sobre os fatores que explicam tanto o potencial quanto os tropeços do passado, apoiada em dados técnicos, informações estatísticas, bibliografia especializada e, sobretudo, em depoimentos de produtores que viveram na pele os altos e baixos dessa atividade na região. Ao final, defendo minha opinião sobre o que ainda pode ser feito: compreendo que Lages tem, hoje, uma segunda chance de se somar a São Joaquim e Fraiburgo nesse mercado que já vale bilhões de reais e que ainda tem apetite crescente lá fora.
1. Origem, Conceito e Consolidação da Pomicultura na Serra Catarinense
1.1 Origem
A pomicultura brasileira teve origem no município de Fraiburgo, em Santa Catarina, entre 1963 e 1964, com a importação de mudas de macieira pela Sociedade Agrícola Fraiburgo — empresa de capital nacional e franco-argelino. A companhia implantou um pomar experimental de 50 hectares, reunindo diversas espécies frutíferas de clima temperado com potencial comercial, com o objetivo de observar sua adaptação e selecionar aquelas com viabilidade para exploração econômica na região.
1.2 Conceito de Pomicultura
A pomicultura é o ramo da fruticultura dedicado ao cultivo de plantas frutíferas de caroço e de pomo — como macieiras, pereiras, pessegueiros e ameixeiras —, abrangendo desde a escolha de cultivares e o manejo do solo até as técnicas de poda, adubação, controle fitossanitário e colheita. No contexto brasileiro, o termo é frequentemente associado, de forma mais restrita, à cultura da macieira (Malus domestica), dada a relevância econômica que essa espécie assumiu na Região Sul do país a partir da segunda metade do século XX. É justamente essa vertente da pomicultura — a produção de maçã — que moldou a história econômica e social da Serra Catarinense.
1.3 Consolidação e Expansão da Pomicultura na Serra Catarinense
A história da pomicultura na Região Serrana e no Meio-Oeste (Fraiburgo) une cooperativismo, pioneirismo técnico, condições edafoclimáticas favoráveis e investimentos robustos, fatores que, combinados, transformaram o Brasil de importador em uma das potências mundiais na produção de maçã.
Seguindo o modelo de substituição de importações adotado a partir da Revolução de 1964, o governo brasileiro elegeu a cultura da macieira como prioridade, já que a fruta figurava como o segundo item mais expressivo na pauta de importações agrícolas do país. Diante disso, o governo solicitou apoio técnico internacional para avaliar as condições brasileiras de produção, e Estados Unidos e França enviaram especialistas para o estudo. Os técnicos americanos desaconselharam o cultivo da macieira em território brasileiro. Já o especialista francês — único responsável pela análise em nome de seu país — incluiu Fraiburgo em sua visita, município ao qual havia previamente fornecido mudas. Lá, encontrou plantas com quatro anos de idade já em plena produção, com frutos de boa qualidade, o que confirmou a existência de condições adequadas ao plantio na região.
Em decorrência do êxito observado em Fraiburgo e posteriormente em São Joaquim, o Governo Federal agilizou a criação, em 1969, de incentivos fiscais. Em Santa Catarina, instituiu-se o Programa de Fruticultura de Clima Temperado (Profit), voltado a médios e pequenos produtores. O modelo catarinense viria posteriormente a servir de referência para o Paraná e o Rio Grande do Sul, Estados que também reuniam condições favoráveis à produção de maçã e passaram a incentivar o plantio da cultura
Impulsionados pelo Governo Federal por meio de linhas especiais de crédito bancário e de incentivos fiscais, os primeiros pomares foram implantados majoritariamente com variedades tradicionalmente cultivadas no Hemisfério Norte e na Argentina — como Golden Delicious, Red Delicious e Starkrimson —, em sistemas de baixa densidade de plantio.
A cultura da macieira expandiu-se rapidamente após sua implantação, com incrementos consideráveis de produção e produtividade, acompanhados de sucessivas atualizações tecnológicas no manejo dos pomares. Entre 1984 e 1991, o volume de colheitas praticamente dobrou em Santa Catarina e no Paraná, e triplicou no Rio Grande do Sul.
As variedades modernas Gala e Fuji, introduzidas no país a partir de meados da década de 1970, respondem atualmente por mais de 80% da fruta produzida no Brasil. Do ponto de vista tecnológico, a pomicultura nacional atingiu níveis bastante avançados, acompanhando a tendência mundial de cultivo em alta densidade, o que permite antecipar a primeira colheita dos novos pomares.
A área cultivada com macieiras cresceu de forma expressiva até meados da década de 1980, apresentando, desde então, variações pouco significativas. Esse comportamento decorre do equilíbrio entre a implantação de novos pomares e a erradicação daqueles que se tornam inviáveis do ponto de vista econômico ou tecnológico.
1.4 São Joaquim: a Capital Nacional da Maçã
A fruticultura de alta qualidade começou a ganhar escala na década de 1970. As cooperativas e empresas pioneiras transformaram São Joaquim na Capital Nacional da Maçã, especialmente ao consolidar o cultivo das variedades Gala e Fuji. Entre os protagonistas dessa história, destaco:
Família Hiragami: em 1974, Fumio Hiragami e um grupo de famílias de imigrantes japoneses vindos de São Paulo chegaram a São Joaquim. A Hiragami foi uma das primeiras a introduzir o plantio em larga escala e pioneira na produção da maçã Fuji na região. Relembro as palavras do Sr. Fumio Hiragami sobre a importância de participar da Festa Nacional da Maçã desde sua primeira edição — ele sempre acreditou na qualidade do seu trabalho, compromisso reconhecido com o prêmio de Melhor Maçã Fuji da festa, o que fortaleceu ainda mais a história do Grupo Hiragami e da fruticultura da Serra Catarinense. Que seu legado continue inspirando as próximas gerações.
Rogério Campos: produtor pioneiro, trouxe a primeira máquina de classificação de frutas e ajudou a organizar os primeiros pomares antes da fundação de cooperativas na região.
Cooperativas: a Cooperserra foi fundada em 1977 e foi a primeira cooperativa de maçã da Serra Catarinense. A Sanjo Cooperativa Agrícola foi criada em 1993 por 34 fruticultores. Mais tarde, em 1998, foi fundada a cooperativa Frutas de Ouro.
1.5 Fraiburgo: a Terra da Maçã
Conhecida como a Terra da Maçã, Fraiburgo foi onde começou o plantio comercial em grande escala no Brasil.
Irmãos Frey: René e Arnoldo Frey foram os fundadores do município (1925) e grandes incentivadores da agricultura na região.
Roger Biau: engenheiro agrônomo francês responsável por trazer os primeiros estudos e técnicas essenciais para viabilizar o cultivo massivo de maçãs na cidade nos anos 1960.
1.6 A Criação da Sanjo e o Legado de Glauco Olinger
A Sanjo Cooperativa Agrícola foi fundada em 1993 por um grupo de 34 fruticultores em São Joaquim que buscavam padronizar a classificação, armazenagem e comercialização para ganhar força no mercado nacional.
Nesse processo revolucionário, a figura do agrônomo Glauco Olinger foi essencial. Como um dos maiores nomes da extensão rural do país e fundador da antiga Acaresc (hoje Epagri), Olinger enxergou o potencial do clima frio serrano. Ele foi o responsável político e técnico por liderar as pesquisas nos anos 1960 e 1970, estruturar as primeiras estações experimentais e convencer agricultores e governantes de que a Região Serrana poderia produzir frutas de clima temperado de altíssima qualidade.
Foi a agência de fomento do Japão que trouxe a variedade Fuji para a estação de pesquisa que hoje é a Epagri, e foi a cooperação técnica alemã (GTZ) que enviou especialistas em fruticultura para a estação de Caçador. Foi também nesse período que imigrantes franco-argelinos, expulsos da Argélia durante a guerra civil, se instalaram em Fraiburgo pela mão da família Frey e trouxeram consigo a variedade Gala, originária da Nova Zelândia. Todo esse arranjo técnico e humano é, na minha leitura, prova de que a fruticultura catarinense nasceu de cooperação internacional bem articulada — e não por acaso, um mesmo nome aparece como fio condutor de boa parte desses acordos: o do Dr. Glauco Olinger
Fontes
BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
FETT, M. S. Análise econômica de sistema de macieiras no município de Vacaria/RS. 2000. 145 f. Dissertação de Mestrado — Programa de Pós-Graduação em Economia Rural, Faculdade de Ciências Econômicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2000.
Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local
2. O CICLO DA MACIEIRA: PACIÊNCIA E PLANEJAMENTO
2.1 O Início da Produção
“Aquele que planta uma árvore sabe que não colherá sua sombra, mas trabalha para quem virá depois.” (adaptação de pensamento atribuído a Marco Túlio Cícero)
Um pomar de macieiras não é um investimento de retorno imediato, e isso, a meu ver, separa o verdadeiro fruticultor do simples especulador de terras. As primeiras floradas comerciais costumam aparecer entre o terceiro e o quinto ano após o plantio das mudas, mas a produção plena, aquela que justifica economicamente todo o investimento em preparo de solo, tutoramento e sistemas de irrigação, só se consolida a partir do sétimo ou oitavo ano, quando a copa da árvore atinge maturidade estrutural.
Esse intervalo de maturação é, na minha visão, o principal motivo pelo qual poucos investidores de curto prazo se aventuram nessa cultura: é preciso paciência para esperar a árvore “aprender” a produzir com regularidade.
Fonte:
Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.
2.2 Vida Útil do Pomar
“O melhor momento para plantar uma árvore foi há vinte anos. O segundo melhor momento é agora.” (provérbio chinês)
Um pomar bem manejado, com podas de renovação, controle fitossanitário e reposição de nutrientes, pode manter produtividade comercial por vinte a vinte e cinco anos. É exatamente esse horizonte de longo prazo que, penso eu, deveria orientar qualquer política pública ou linha de crédito voltada à fruticultura em Lages.
A cultura da macieira depende de pelo menos 900 horas de frio anual abaixo de 7°C para florescer e frutificar com qualidade, uma exigência que a Serra Catarinense, incluindo o entorno de Lages, cumpre com folga.
Fonte:
Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.
2.3 Mecanização e Trabalho Humano
“Se eu tivesse perguntado às pessoas o que queriam, elas teriam dito cavalos mais rápidos.” (Henry Ford)
Tenho a convicção de que a mecanização é o próximo grande salto de produtividade para a fruticultura da região, mas ela avança de forma desigual conforme o relevo. Estudos sobre a cadeia catarinense da maçã já registraram que regiões de relevo mais suave, como Fraiburgo, oferecem condições mais propícias à mecanização do que áreas de maior declividade, como as encontradas em parte da Serra Catarinense.
Isso significa que, em Lages, a mecanização plena dos tratos culturais (roçadas, pulverização, poda mecânica assistida) é viável em boa parte das áreas mais planas, possuimos muitas, mas a colheita da fruta fresca de mesa continua exigindo, em grande medida, mão de obra humana, já que a maçã se machuca com facilidade e sua aparência é decisiva para o preço no mercado consumidor. Já a etapa de classificação e embalagem, feita em galpões com esteiras óticas e câmaras frias, essa sim já é altamente mecanizada e automatizada em toda a região produtora.
Mesmo com toda a mecanização que já chegou nas diferentes etapas do cultivo, dá pra perceber — e ouvi isso de vários produtores da região — que poda e colheita ainda dependem muito de mão de obra humana. Na minha visão, esse é hoje um dos maiores gargalos para a fruticultura crescer em Lages: de nada adianta ter máquina se falta gente disposta a colocar a mão na massa no campo, algo cada vez mais raro até em regiões que sempre foram agrícolas.
Uma saída para esse problema pode estar em olhar para o que já funciona em cidades vizinhas, como Sao Joaquim, Fraiburgo e Vacaria. Em Braço do Norte, por exemplo, os empresários resolveram buscar mão de obra lá no Nordeste, e todo ano recebem uma leva de nordestinos que vêm trabalhar de forma sazonal também na agropecuária. É o tipo de solução que mostra como trazer gente de fora pode ajudar a tapar esse buraco de mão de obra — e talvez seja um caminho que valha a pena pensar pra fruticultura de Lages também.
Fontes:
BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a fruticultura local.
3. FONTES DE RECURSOS E FINANCIAMENTO
Antes de detalhar as linhas de crédito, considero importante esclarecer um ponto que costuma gerar dúvidas: no Brasil, o crédito rural não segue o ano civil tradicional (de janeiro a dezembro), mas sim o calendário das safras. É por isso que as taxas de juros que menciono a seguir referem-se ao ano agrícola de 2026/2027, com vigência oficial de 1º de julho de 2026 a 30 de junho de 2027. O Governo Federal define essas condições anualmente por meio do lançamento do Plano Safra, adaptando-as às conjunturas econômicas do país. Portanto, sempre que um produtor for buscar financiamento, precisa verificar a edição do Plano Safra vigente naquele momento — mas, de toda forma, as taxas históricas mostram que o subsídio é expressivo e duradouro.
Através da Epagri, oferecem-se financiamentos e subsídios: o produtor conta com o Programa de Incentivo à Cobertura de Pomares, que oferece linhas de crédito subvencionadas (como juros de até 2,5% ao ano) para proteger as frutas contra intempéries, a exemplo do granizo.
Feita essa ressalva, vejamos as linhas específicas para a pomicultura, operadas pelo BNDES em conjunto com o Plano Safra e bancos parceiros. Os juros são considerados muito viáveis e subsidiados, o que, na minha opinião, representa uma oportunidade única para quem deseja investir nessa cultura.
Fonte:
EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
3.1 Pequenos Produtores (Agricultura Familiar)
Enquadram-se no Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Podem financiar custeio, implantação ou modernização do pomar. As taxas de juros para custeio de frutas variam de 1,0% a 5,5% ao ano; para investimentos (como compra de equipamentos, preparo do solo e aquisição de mudas), as taxas ficam entre 1,5% e 5,0% ao ano.
Fonte:
EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
3.2 Médios Produtores
Acessam o Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural), que possui limites de crédito mais altos para investimentos e custeio de lavouras permanentes. As taxas de juros ficam em torno de 8% ao ano.
Fonte:
EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
3.3 Grandes Produtores
Operam através de linhas de Crédito Empresarial Rural e programas focados em inovação, sustentabilidade e irrigação. Para investimentos em geral, as taxas costumam variar entre 10,5% e 12% ao ano, dependendo da finalidade e das fontes de recursos.
Fonte:
EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
3.4 Programas Estaduais e BNDES
Além dessas, há os programas de estímulo estaduais, com subsídios da Secretaria de Estado da Agricultura de Santa Catarina para instalação de coberturas de telas antigranizo e sistemas de irrigação artificial, e as linhas do BNDES voltadas à modernização e estocagem em câmaras frias de atmosfera controlada. Na minha avaliação, o acesso a essas linhas de crédito, com condições tão favoráveis — ainda que renovadas anualmente —, é um dos fatores que podem viabilizar a retomada da fruticultura em Lages, desde que os produtores estejam organizados e bem assessorados tecnicamente.
Fonte:
EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
4. O QUE A EPAGRI OFERECE AO POMICULTOR CATARINENSE
A Epagri oferece ao produtor de maçã mudas de qualidade comprovada e livres de vírus, desenvolvimento de variedades exclusivas e tolerantes a doenças (como Luiza, Venice e Isadora), além de assistência técnica e capacitação gratuita com cursos sobre todas as etapas do pomar.
A instituição disponibiliza um leque amplo de suporte para o cultivo na região de Lages:
Novas Cultivares:Acesso a variedades desenvolvidas pela própria Epagri (muitas delas comercializadas internacionalmente sob a marca Sambóa), que demandam menor uso de defensivos agrícolas.
Capacitação e Extensão:Os escritórios locais da Epagri e a Estação Experimental de Lages realizam capacitações frequentes que abordam desde a análise de solo até o monitoramento de pragas e a poda.
Pesquisa de Insumos:Pesquisas na área de Lages auxiliam os produtores até na destinação e uso comercial de subprodutos, como o uso do bagaço da maçã para alimentação de gado de corte.
Fontes:
Disponível em: epagri.sc.gov.br.
EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
5. DO POMAR AO MERCADO: INFRAESTRUTURA E LOGÍSTICA
“Uma nação vive tanto quanto suas estradas a conectam.” (pensamento popularizado a partir de discursos sobre infraestrutura, atribuído a diversos gestores públicos brasileiros do século XX)
Lages ocupa uma posição geográfica privilegiada que ainda é subaproveitada: é o ponto de passagem obrigatório da BR-282 entre a Serra Catarinense e o litoral, rota pela qual escoa boa parte da produção rumo aos portos de Itajaí e Navegantes, de onde partem os embarques para a Europa, a Rússia e o Oriente Médio.
A liberação da certificação fitossanitária em postos alfandegados na própria origem, sem necessidade de deslocar a carga até o porto para inspeção, deu agilidade real ao setor exportador catarinense. Some-se a isso a importância das câmaras frias de atmosfera controlada, capazes de conservar a fruta por até doze meses, permitindo que ela chegue fresca aos grandes CEASAs de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre mesmo fora da época de colheita. Sem essa combinação de rodovia, porto e armazenagem, todo o potencial produtivo da região perderia competitividade diante de outros polos nacionais.
Foi justamente a falta dessa estrutura de armazenamento que, décadas atrás, condenou boa parte dos pomares da região, como abordarei mais adiante. A evolução tecnológica das últimas décadas mudou de forma decisiva essa equação, garantindo melhor qualidade, redução de perdas e, principalmente, a possibilidade de comercializar a produção nos períodos mais favoráveis ao mercado, e não apenas no momento da colheita.
Fonte:
Governo do Estado de Santa Catarina. Dados sobre acesso rodoviário via BR-282 e SC-390 aos polos produtores da Serra Catarinense.
6. O TAMANHO DO MERCADO
“A oportunidade é perdida na maioria das vezes porque está vestida de macacão e parece trabalho.” (pensamento popularmente atribuído a Thomas Edison)
Quando observo os números do setor, entendo por que tantos produtores da região apostaram, e ainda apostam, na macieira. O valor bruto da produção catarinense de maçã já superou a casa dos R$ 870 milhões em safras recentes, com produtividade média acima de 30 mil quilos por hectare nas áreas mais tecnificadas.
O selo de Indicação Geográfica conquistado pela Fuji da região agrega valor comercial ao produto e abre portas em mercados mais exigentes. Na minha avaliação, esse é o tipo de mercado que recompensa quem consegue aliar escala, qualidade e regularidade de fornecimento, e é justamente aí que vejo espaço para Lages se posicionar como fornecedora complementar aos polos já consolidados, aproveitando terras ainda disponíveis e a proximidade com a infraestrutura logística existente.
Fonte:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Produção Agrícola Municipal (PAM), edições recentes.
7. O Passado Explica, Mas Não Condena o Futuro
“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” (pensamento associado à teoria da adaptação de Charles Darwin)
Ao conversar com pessoas vinculadas ao agronegócio sobre a viabilidade da produção de maçã em Lages, notei nelas um tom de certo pessimismo, herdado da frustração vivida por essa atividade no passado. Muitas, porém, esquecem que esse revés ocorreu há 36 anos — e parecem não perceber o quanto o cenário mudou desde então.
Hoje, as pesquisas já produzem clones de maçã adaptados às condições locais de altitude e clima. Existem fontes de financiamento, fornecimento regular de mudas e assistência técnica qualificada nos tratos culturais, além de linhas de crédito para câmaras frigoríficas e redes de proteção contra intempéries. Some-se a isso uma cadeia produtiva já consolidada na região: mercados compradores em potencial, grande extensão territorial, terrenos mais planos do que os de outras localidades — o que facilita a mecanização no combate a pragas —, defensivos mais eficazes do que antigamente e técnicas de raleio mais simples, que reduzem custos. Cooperativas de crédito, produção e comercialização completam essa estrutura de apoio. Diante de tantos avanços, chama atenção que ainda existam pessoas que ignorem esse potencial, seja por desconhecimento dessas inovações, seja por puro pessimismo.
Não posso, porém, esconder o lado mais duro dessa história, porque aprender com o insucesso é tão importante quanto celebrar o sucesso dos vizinhos.
Ouvi de um produtor da região um relato que considero emblemático. Ele chegou a manter o maior pomar de maçã da região, com 75 hectares, em um momento em que a fruticultura de clima temperado ganhava força no Brasil. Mas, depois de vinte e cinco anos de cultivo, o granizo — “deu pedra e estragou tudo”, nas palavras dele — inviabilizou a continuidade da lavoura. Instalar coberturas de tela antigranizo tinha um custo proibitivo para o produtor médio da época, e, sem crédito subsidiado suficiente nem seguro agrícola consolidado, muitos pomares simplesmente não resistiram ao clima que, paradoxalmente, é o mesmo que torna a região tão propícia à macieira. Esse é, a meu ver, o ponto central: o frio que garante a qualidade da fruta vem acompanhado do risco de geada tardia e de granizo — e onde não houve investimento em proteção, o pomar pagou caro por essa vulnerabilidade.
Outro depoimento revela a segunda face do mesmo problema:
“Já tivemos pomar de maçã nos anos 80 e 90. Naquela época faltava estrutura de armazenamento. Quando chegava a colheita, muitas vezes não havia preço que remunerasse o produtor. Sem câmaras frias e sem condições de esperar o melhor momento para vender, acabamos removendo o pomar. Hoje a tecnologia ajuda muito. O principal problema de qualquer atividade é a falta de mão de obra. O povo não quer mais trabalhar.”
Há ainda outro caso digno de nota: o de um produtor que chegou a plantar 30 mil mudas de macieiras, entre elas as variedades Fuji, Gala e Golden. Esse produtor recebia orientação direta de um professor especialista em fruticultura do CAV/UDESC-Lages. Conheci seu proprietário no departamento agropecuário da prefeitura de Lages, onde trabalhei entre 1976 e 1979. Ele costumava ir com frequência conversar com o diretor do departamento, o engenheiro Mario Sell Duarte, sobre suas atividades como fruticultor.
Depoimentos como esses não são exceção — muitos outros produtores relatam histórias semelhantes. Isso demonstra que, se a atividade de cultivo da maçã tivesse se consolidado e recebido o devido apoio ao longo do tempo no município de Lages, certamente estaríamos hoje entre os maiores produtores dessa fruta do país.
Esse relato traduz uma realidade vivida no passado por inúmeros fruticultores lageanos: sem estrutura para armazenar a fruta, o produtor era obrigado a vender tudo de uma vez, justamente no período de maior oferta — e, portanto, de preços mais baixos. Sem poder de negociação, o investimento, que levava anos para dar retorno, tornava-se inviável.
Na minha leitura, os insucessos relatados — o pomar de 75 hectares perdido para o granizo, o pomar removido pela falta de estrutura de armazenamento entre os anos 80 e 90, e o pomar de 30 mil mudas plantado com orientação técnica especializada — são faces da mesma moeda: a ausência de estrutura de apoio à produção, seja ela climática, seja ela comercial. Mesmo quando havia know-how técnico e disposição para investir, faltava o suporte estrutural — câmaras frias, proteção antigranizo, crédito e seguro agrícola — capaz de sustentar o negócio a longo prazo.
Fontes:
Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.
BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007 (histórico da chegada da família Frey e da variedade Gala a Fraiburgo).
8. O PODER DO COOPERATIVISMO
“Sozinhos podemos ir mais rápido; juntos podemos ir mais longe.” (provérbio africano)
Se existe uma ferramenta capaz de transformar o potencial da produção de maçã em desenvolvimento econômico duradouro, essa ferramenta chama-se cooperativismo. A experiência dos grandes polos produtores demonstra que a união entre os agricultores reduz custos, aumenta a competitividade e fortalece toda a cadeia produtiva.
Uma cooperativa de produtores pode oferecer, entre outros, os seguintes benefícios:
- Negociação conjunta da produção, aumentando o poder de barganha diante dos compradores
- Formação de lotes maiores e padronizados, capazes de atender grandes redes de supermercados e o mercado externo
- Maior estabilidade na formação dos preços, reduzindo os efeitos das oscilações provocadas pelo excesso de oferta durante a safra
- Compartilhamento de estruturas de alto custo, como câmaras frias, centrais de classificação, embalagem e logística
- Assistência técnica permanente em manejo, poda, irrigação, controle fitossanitário e inovação tecnológica
- Compra coletiva de insumos, reduzindo significativamente os custos de produção
- Acesso facilitado ao crédito rural, financiamentos e programas governamentais
- Fortalecimento da marca regional, agregando valor à fruta produzida na Serra Catarinense
- Abertura de novos mercados nacionais e internacionais por meio de estratégias conjuntas de comercialização e exportação
Além dos ganhos econômicos, o cooperativismo fortalece o espírito de colaboração entre os produtores, permitindo a troca constante de experiências, tecnologias e soluções para problemas comuns, como granizo, geadas, escassez de mão de obra e mudanças climáticas — exatamente os fatores que, como mostrei nas seções anteriores, já derrubaram pomares em Lages no passado.
Na minha avaliação, caso Lages decida retomar de forma consistente a produção de maçãs, dificilmente esse novo ciclo ocorrerá de maneira sustentável sem uma organização coletiva dos produtores. O futuro da fruticultura regional passa não apenas pela tecnologia, mas também pela união, pelo planejamento e pela cooperação entre aqueles que produzem.
A história demonstra que as regiões que prosperaram na fruticultura foram justamente aquelas que compreenderam que competir individualmente é possível, mas crescer coletivamente é muito mais eficiente. Talvez essa seja uma das principais lições deixadas pelas últimas quatro décadas da cultura da maçã em Santa Catarina.
Fonte:
Depoimentos e prática cooperativista observada nos principais polos catarinenses de fruticultura (Fraiburgo e São Joaquim).
Concluo o presente artigo com a convicção de que Lages não carece de vocação natural para a maçã. Carece, isto sim, de continuidade de investimento, de proteção contra o risco climático e de organização coletiva entre seus produtores.
Tenho para mim que os instrumentos hoje disponíveis — do crédito rural oficial do Plano Safra às linhas do BNDES para câmaras frias, passando pelos subsídios estaduais para telas antigranizo e irrigação — são exatamente o que faltou às gerações anteriores de fruticultores da região. E, como detalhei na seção de financiamentos, as taxas de juros subsidiadas e as linhas específicas por porte de produtor tornam esse cenário ainda mais favorável, lembrando sempre que essas condições são redefinidas anualmente pelo Plano Safra, conforme a realidade econômica de cada período.
Se a lição do pomar de 75 hectares perdido para o granizo e a do pomar removido pela falta de armazenamento nos ensinam algo, é que investir em pomar sem investir, ao mesmo tempo, em proteção climática, em capacidade de armazenagem e em cooperação entre produtores é reeditar o mesmo erro.
Penso que Lages tem, hoje, uma segunda chance de se somar a São Joaquim e Fraiburgo nesse mercado que já vale bilhões de reais e que ainda tem apetite crescente lá fora, desde que a cidade aprenda, de fato, com sua própria história, e escolha caminhar de forma coletiva.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
FONTES – GERAL
- BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
- BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
- EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
- Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.
- INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Produção Agrícola Municipal (PAM), edições recentes.
- Governo do Estado de Santa Catarina. Dados sobre acesso rodoviário via BR-282 e SC-390 aos polos produtores da Serra Catarinense.
- Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.
- Observatório Agro Catarinense. Boletins sobre safra de maçã na microrregião dos Campos de Lages.
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