Pomicultura em Lages: É Viável?

Pomicultura em Lages: É Viável?

Escrevo este artigo movido por uma inquietação simples que me acompanha há tempos: por que Lages, cidade que já teve pomares de dezenas de hectares e que está localizada a pouco mais de 80 quilômetros de São Joaquim — hoje reconhecida por lei federal como a Capital Nacional da Maçã —, não ocupa um lugar de maior destaque nesse mercado bilionário?

Esta reflexão complementa estudos que venho publicando sob os títulos “O Futuro de Lages Pode Ter Cheiro de Maçã” e “Potencialidade de Lages na Produção de Maçã”. Ao longo deste texto, apresento minha visão baseada em dados técnicos, informações estatísticas, bibliografia especializada e, sobretudo, em depoimentos de produtores que viveram na pele os altos e baixos dessa atividade na região.

A microrregião dos Campos de Lages, da qual o próprio município é referência geográfica, já responde por parte relevante da produção catarinense de maçã. O corredor da BR-282, que atravessa Lages rumo à serra e ao litoral, é a espinha dorsal logística de todo esse sistema produtivo. Se o mercado nacional absorve entre 85% e 90% de tudo o que se produz em polos consolidados como São Joaquim e Fraiburgo, e o excedente exportado já conquistou paladares na Europa, na Rússia e no Oriente Médio, não vejo por que Lages deveria ficar à margem dessa cadeia de valor.

Sobretudo quando considero que compartilha com seus vizinhos serranos o mesmo ativo natural mais precioso: o frio. Este é, na minha leitura, o verdadeiro “capital natural” da região: um ativo climático que nenhuma tecnologia substitui em regiões mais quentes do país.

Ao longo deste artigo, apresento minha análise sobre os fatores que explicam tanto o potencial quanto os tropeços do passado, para, ao final, defender minha opinião sobre o que ainda pode ser feito. Acredito que Lages tem, hoje, uma segunda chance de se somar a São Joaquim e Fraiburgo nesse mercado que já vale bilhões de reais e que ainda tem apetite crescente lá fora.


1. AS RAÍZES DA FRUTICULTURA NA SERRA CATARINENSE

A história da pomicultura na Região Serrana e no Meio-Oeste de Santa Catarina une cooperativismo, pioneirismo técnico, condições climáticas únicas e investimentos robustos que transformaram o Brasil de importador a potência produtora mundial.

Fonte:

  • BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.

 

1.1 São Joaquim: a Capital Nacional da Maçã

A fruticultura de alta qualidade começou a ganhar escala na década de 1970. As cooperativas e empresas pioneiras transformaram São Joaquim na Capital Nacional da Maçã, especialmente ao consolidar o cultivo das variedades Gala e Fuji.

Entre os protagonistas dessa história, destaco:

  • Família Hiragami:Em 1974, Fumio Hiragami e um grupo de famílias de imigrantes japoneses vindos de São Paulo chegaram a São Joaquim. A Hiragami foi uma das primeiras a introduzir o plantio em larga escala. No dia do seu aniversário, relembro as palavras do Sr. Fumio Hiragami sobre a importância de participar da Festa Nacional da Maçã desde a sua primeira edição. Pioneiro na produção da maçã Fuji na região, ele sempre acreditou na qualidade do seu trabalho. Esse compromisso foi reconhecido com a conquista do prêmio de Melhor Maçã Fuji da festa, fortalecendo ainda mais a história do Grupo Hiragami e da fruticultura da Serra Catarinense. Que seu legado continue inspirando as próximas gerações!
  • Rogério Campos:Produtor pioneiro, trouxe a primeira máquina de classificação de frutas e ajudou a organizar os primeiros pomares antes da fundação de cooperativas na região.
  • Cooperativas:A Cooperserra foi fundada em 1977 e foi a primeira cooperativa de maçã da Serra Catarinense. A Sanjo Cooperativa Agrícola foi criada em 1993 por 34 fruticultores. Mais tarde, em 1998, foi fundada a cooperativa Frutas de Ouro.

Fontes:

  • BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.

 

1.2 Fraiburgo: a Terra da Maçã

Conhecida como a Terra da Maçã, Fraiburgo foi onde começou o plantio comercial em grande escala no Brasil.

  • Irmãos Frey:René e Arnoldo Frey foram os fundadores do município (1925) e grandes incentivadores da agricultura na região.
  • Roger Biau:Engenheiro agrônomo francês responsável por trazer os primeiros estudos e técnicas essenciais para viabilizar o cultivo massivo de maçãs na cidade nos anos 1960.

Fontes:

  • BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.

 

1.3 A Criação da Sanjo e o Legado de Glauco Olinger

A Sanjo Cooperativa Agrícola foi fundada em 1993 por um grupo de 34 fruticultores em São Joaquim que buscavam padronizar a classificação, armazenagem e comercialização para ganhar força no mercado nacional.

Nesse processo revolucionário, a figura do agrônomo Glauco Olinger foi essencial. Como um dos maiores nomes da extensão rural do país e fundador da antiga Acaresc (hoje Epagri), Olinger enxergou o potencial do clima frio serrano. Ele foi o responsável político e técnico por liderar as pesquisas nos anos 1960 e 1970, estruturar as primeiras estações experimentais e convencer os agricultores e governantes de que a Região Serrana poderia produzir frutas de clima temperado de altíssima qualidade.

Foi a agência de fomento do Japão que trouxe a variedade Fuji para a estação de pesquisa que hoje é a Epagri, e foi a cooperação técnica alemã (GTZ) que enviou especialistas em fruticultura para a estação de Caçador. Foi também nesse período que imigrantes franco-argelinos, expulsos da Argélia durante a guerra civil, se instalaram em Fraiburgo pela mão da família Frey e trouxeram consigo a variedade Gala, originária da Nova Zelândia. Todo esse arranjo técnico e humano é, na minha leitura, prova de que a fruticultura catarinense nasceu de cooperação internacional bem articulada, e não por acaso, um mesmo nome aparece como fio condutor de boa parte desses acordos: o do Dr. Glauco Olinger.

Fontes:

  • BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.

2. O CICLO DA MACIEIRA: PACIÊNCIA E PLANEJAMENTO

Fonte:

  • Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.

 

2.1 O Início da Produção

“Aquele que planta uma árvore sabe que não colherá sua sombra, mas trabalha para quem virá depois.” (adaptação de pensamento atribuído a Marco Túlio Cícero)

Um pomar de macieiras não é um investimento de retorno imediato, e isso, a meu ver, separa o verdadeiro fruticultor do simples especulador de terras. As primeiras floradas comerciais costumam aparecer entre o terceiro e o quinto ano após o plantio das mudas, mas a produção plena, aquela que justifica economicamente todo o investimento em preparo de solo, tutoramento e sistemas de irrigação, só se consolida a partir do sétimo ou oitavo ano, quando a copa da árvore atinge maturidade estrutural.

Esse intervalo de maturação é, na minha visão, o principal motivo pelo qual poucos investidores de curto prazo se aventuram nessa cultura: é preciso paciência para esperar a árvore “aprender” a produzir com regularidade.

Fonte:

  • Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.

 

2.2 Vida Útil do Pomar

“O melhor momento para plantar uma árvore foi há vinte anos. O segundo melhor momento é agora.” (provérbio chinês)

Um pomar bem manejado, com podas de renovação, controle fitossanitário e reposição de nutrientes, pode manter produtividade comercial por vinte a vinte e cinco anos. É exatamente esse horizonte de longo prazo que, penso eu, deveria orientar qualquer política pública ou linha de crédito voltada à fruticultura em Lages.

A cultura da macieira depende de pelo menos 900 horas de frio anual abaixo de 7°C para florescer e frutificar com qualidade, uma exigência que a Serra Catarinense, incluindo o entorno de Lages, cumpre com folga.

Fonte:

  • Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.

 

2.3 Mecanização e Trabalho Humano

“Se eu tivesse perguntado às pessoas o que queriam, elas teriam dito cavalos mais rápidos.” (Henry Ford)

Tenho a convicção de que a mecanização é o próximo grande salto de produtividade para a fruticultura da região, mas ela avança de forma desigual conforme o relevo. Estudos sobre a cadeia catarinense da maçã já registraram que regiões de relevo mais suave, como Fraiburgo, oferecem condições mais propícias à mecanização do que áreas de maior declividade, como as encontradas em parte da Serra Catarinense.

Isso significa que, em Lages, a mecanização plena dos tratos culturais (roçadas, pulverização, poda mecânica assistida) é viável em boa parte das áreas mais planas, mas a colheita da fruta fresca de mesa continua exigindo, em grande medida, mão de obra humana, já que a maçã se machuca com facilidade e sua aparência é decisiva para o preço no mercado consumidor. Já a etapa de classificação e embalagem, feita em galpões com esteiras óticas e câmaras frias, essa sim já é altamente mecanizada e automatizada em toda a região produtora.

Ainda assim, mesmo com o avanço da mecanização em diversas etapas do cultivo, é preciso reconhecer, como ouvi de produtores da região, que operações como poda, raleio e colheita continuam dependendo fortemente do trabalho humano. Na minha avaliação, esse é hoje um dos principais gargalos para a expansão da fruticultura em Lages: não basta ter máquina disponível se falta gente disposta a realizar o trabalho de campo, cada vez mais escasso mesmo em regiões tradicionalmente agrícolas.

Fonte:

  • BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.

3. FONTES DE RECURSOS E FINANCIAMENTO

Antes de detalhar as linhas de crédito, considero importante esclarecer um ponto que costuma gerar dúvidas: no Brasil, o crédito rural não segue o ano civil tradicional (de janeiro a dezembro), mas sim o calendário das safras. É por isso que as taxas de juros que menciono a seguir referem-se ao ano agrícola de 2026/2027, com vigência oficial de 1º de julho de 2026 a 30 de junho de 2027. O Governo Federal define essas condições anualmente por meio do lançamento do Plano Safra, adaptando-as às conjunturas econômicas do país. Portanto, sempre que um produtor for buscar financiamento, precisa verificar a edição do Plano Safra vigente naquele momento — mas, de toda forma, as taxas históricas mostram que o subsídio é expressivo e duradouro.

Através da Epagri, oferecem-se financiamentos e subsídios: o produtor conta com o Programa de Incentivo à Cobertura de Pomares, que oferece linhas de crédito subvencionadas (como juros de até 2,5% ao ano) para proteger as frutas contra intempéries, a exemplo do granizo.

Feita essa ressalva, vejamos as linhas específicas para a pomicultura, operadas pelo BNDES em conjunto com o Plano Safra e bancos parceiros. Os juros são considerados muito viáveis e subsidiados, o que, na minha opinião, representa uma oportunidade única para quem deseja investir nessa cultura.

Fonte:

  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.

 

3.1 Pequenos Produtores (Agricultura Familiar)

Enquadram-se no Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Podem financiar custeio, implantação ou modernização do pomar. As taxas de juros para custeio de frutas variam de 1,0% a 5,5% ao ano; para investimentos (como compra de equipamentos, preparo do solo e aquisição de mudas), as taxas ficam entre 1,5% e 5,0% ao ano.

Fonte:

  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.

 

3.2 Médios Produtores

Acessam o Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural), que possui limites de crédito mais altos para investimentos e custeio de lavouras permanentes. As taxas de juros ficam em torno de 8% ao ano.

Fonte:

  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.

 

3.3 Grandes Produtores

Operam através de linhas de Crédito Empresarial Rural e programas focados em inovação, sustentabilidade e irrigação. Para investimentos em geral, as taxas costumam variar entre 10,5% e 12% ao ano, dependendo da finalidade e das fontes de recursos.

Fonte:

  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.

 

3.4 Programas Estaduais e BNDES

Além dessas, há os programas de estímulo estaduais, com subsídios da Secretaria de Estado da Agricultura de Santa Catarina para instalação de coberturas de telas antigranizo e sistemas de irrigação artificial, e as linhas do BNDES voltadas à modernização e estocagem em câmaras frias de atmosfera controlada. Na minha avaliação, o acesso a essas linhas de crédito, com condições tão favoráveis — ainda que renovadas anualmente —, é um dos fatores que podem viabilizar a retomada da fruticultura em Lages, desde que os produtores estejam organizados e bem assessorados tecnicamente.

Fonte:

  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.

4. O QUE A EPAGRI OFERECE AO POMICULTOR CATARINENSE

A Epagri oferece ao produtor de maçã mudas de qualidade comprovada e livres de vírus, desenvolvimento de variedades exclusivas e tolerantes a doenças (como Luiza, Venice e Isadora), além de assistência técnica e capacitação gratuita com cursos sobre todas as etapas do pomar.

A instituição disponibiliza um leque amplo de suporte para o cultivo na região de Lages:

  • Novas Cultivares:Acesso a variedades desenvolvidas pela própria Epagri (muitas delas comercializadas internacionalmente sob a marca Sambóa), que demandam menor uso de defensivos agrícolas.
  • Capacitação e Extensão:Os escritórios locais da Epagri e a Estação Experimental de Lages realizam capacitações frequentes que abordam desde a análise de solo até o monitoramento de pragas e a poda.
  • Pesquisa de Insumos:Pesquisas na área de Lages auxiliam os produtores até na destinação e uso comercial de subprodutos, como o uso do bagaço da maçã para alimentação de gado de corte.

Fonte:

  • Disponível em: epagri.sc.gov.br.
  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.

5. DO POMAR AO MERCADO: INFRAESTRUTURA E LOGÍSTICA

“Uma nação vive tanto quanto suas estradas a conectam.” (pensamento popularizado a partir de discursos sobre infraestrutura, atribuído a diversos gestores públicos brasileiros do século XX)

Lages ocupa, na minha opinião, uma posição geográfica privilegiada que ainda é subaproveitada: é o ponto de passagem obrigatório da BR-282 entre a Serra Catarinense e o litoral, rota pela qual escoa boa parte da produção rumo aos portos de Itajaí e Navegantes, de onde partem os embarques para a Europa, a Rússia e o Oriente Médio.

A liberação da certificação fitossanitária em postos alfandegados na própria origem, sem necessidade de deslocar a carga até o porto para inspeção, deu agilidade real ao setor exportador catarinense. Some-se a isso a importância das câmaras frias de atmosfera controlada, capazes de conservar a fruta por até doze meses, permitindo que ela chegue fresca aos grandes CEASAs de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre mesmo fora da época de colheita. Sem essa combinação de rodovia, porto e armazenagem, todo o potencial produtivo da região perderia competitividade diante de outros polos nacionais.

Foi justamente a falta dessa estrutura de armazenamento que, décadas atrás, condenou boa parte dos pomares da região, como abordarei mais adiante. A evolução tecnológica das últimas décadas mudou de forma decisiva essa equação, garantindo melhor qualidade, redução de perdas e, principalmente, a possibilidade de comercializar a produção nos períodos mais favoráveis ao mercado, e não apenas no momento da colheita.

Fonte:

  • Governo do Estado de Santa Catarina. Dados sobre acesso rodoviário via BR-282 e SC-390 aos polos produtores da Serra Catarinense.

6. O TAMANHO DO MERCADO

“A oportunidade é perdida na maioria das vezes porque está vestida de macacão e parece trabalho.” (pensamento popularmente atribuído a Thomas Edison)

Quando observo os números do setor, entendo por que tantos produtores da região apostaram, e ainda apostam, na macieira. O valor bruto da produção catarinense de maçã já superou a casa dos R$ 870 milhões em safras recentes, com produtividade média acima de 30 mil quilos por hectare nas áreas mais tecnificadas.

O selo de Indicação Geográfica conquistado pela Fuji da região agrega valor comercial ao produto e abre portas em mercados mais exigentes. Na minha avaliação, esse é o tipo de mercado que recompensa quem consegue aliar escala, qualidade e regularidade de fornecimento, e é justamente aí que vejo espaço para Lages se posicionar como fornecedora complementar aos polos já consolidados, aproveitando terras ainda disponíveis e a proximidade com a infraestrutura logística existente.

Fonte:

  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Produção Agrícola Municipal (PAM), edições recentes.

7. AS CICATRIZES DO PASSADO: LIÇÕES QUE NÃO PODEM SER IGNORADAS

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” (pensamento associado à teoria da adaptação de Charles Darwin)

Não posso, neste artigo, esconder o lado mais duro dessa história, porque acredito que aprender com o insucesso é tão importante quanto celebrar o sucesso dos vizinhos.

Ouvi de um produtor da região um relato que considero emblemático: ele chegou a manter o maior pomar de maçã da região, com 75 hectares, em um momento em que a fruticultura de clima temperado ganhava força no Brasil. Mas depois de vinte e cinco anos de cultivo, o granizo — “deu pedra e estragou tudo”, nas palavras dele — inviabilizou a continuidade da lavoura, e o custo de instalar coberturas de tela antigranizo era proibitivo para o produtor médio da época.

Sem crédito subsidiado suficiente, sem telas acessíveis e sem seguro agrícola consolidado, muitos pomares simplesmente não resistiram ao clima que, paradoxalmente, é o mesmo que torna a região tão propícia à macieira. Acredito que esse é o ponto central: o frio que garante a qualidade da fruta vem acompanhado do risco de geada tardia e de granizo, e onde não houve investimento em proteção, o pomar pagou caro por essa vulnerabilidade.

Outro depoimento igualmente marcante revela outra face do mesmo problema:

“Já tivemos pomar de maçã nos anos 80 e 90. Naquela época faltava estrutura de armazenamento. Quando chegava a colheita, muitas vezes não havia preço que remunerasse o produtor. Sem câmaras frias e sem condições de esperar o melhor momento para vender, acabamos removendo o pomar. Hoje a tecnologia ajuda muito. O principal problema de qualquer atividade é a falta de mão de obra. O povo não quer mais trabalhar.”

Esse relato traduz uma realidade vivida por inúmeros fruticultores catarinenses. A ausência de câmaras frias obrigava a venda imediata da produção, justamente no período em que havia excesso de oferta e, consequentemente, queda nos preços. O produtor ficava sem poder de negociação, tornando inviável um investimento que levava anos para começar a dar retorno.

Na minha leitura, os dois insucessos relatados — o do pomar de 75 hectares perdido para o granizo e o do pomar removido pela falta de armazenamento — são, na verdade, faces da mesma moeda: a ausência de estrutura de apoio à produção, seja ela climática, seja ela comercial.

Fontes:

  • Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.
  • BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007 (histórico da chegada da família Frey e da variedade Gala a Fraiburgo).

8. O PODER DO COOPERATIVISMO

“Sozinhos podemos ir mais rápido; juntos podemos ir mais longe.” (provérbio africano)

Se existe uma ferramenta capaz de transformar o potencial da produção de maçã em desenvolvimento econômico duradouro, essa ferramenta chama-se cooperativismo. A experiência dos grandes polos produtores demonstra que a união entre os agricultores reduz custos, aumenta a competitividade e fortalece toda a cadeia produtiva.

Uma cooperativa de produtores pode oferecer, entre outros, os seguintes benefícios:

  • Negociação conjunta da produção, aumentando o poder de barganha diante dos compradores
  • Formação de lotes maiores e padronizados, capazes de atender grandes redes de supermercados e o mercado externo
  • Maior estabilidade na formação dos preços, reduzindo os efeitos das oscilações provocadas pelo excesso de oferta durante a safra
  • Compartilhamento de estruturas de alto custo, como câmaras frias, centrais de classificação, embalagem e logística
  • Assistência técnica permanente em manejo, poda, irrigação, controle fitossanitário e inovação tecnológica
  • Compra coletiva de insumos, reduzindo significativamente os custos de produção
  • Acesso facilitado ao crédito rural, financiamentos e programas governamentais
  • Fortalecimento da marca regional, agregando valor à fruta produzida na Serra Catarinense
  • Abertura de novos mercados nacionais e internacionais por meio de estratégias conjuntas de comercialização e exportação

Além dos ganhos econômicos, o cooperativismo fortalece o espírito de colaboração entre os produtores, permitindo a troca constante de experiências, tecnologias e soluções para problemas comuns, como granizo, geadas, escassez de mão de obra e mudanças climáticas — exatamente os fatores que, como mostrei nas seções anteriores, já derrubaram pomares em Lages no passado.

Na minha avaliação, caso Lages decida retomar de forma consistente a produção de maçãs, dificilmente esse novo ciclo ocorrerá de maneira sustentável sem uma organização coletiva dos produtores. O futuro da fruticultura regional passa não apenas pela tecnologia, mas também pela união, pelo planejamento e pela cooperação entre aqueles que produzem.

A história demonstra que as regiões que prosperaram na fruticultura foram justamente aquelas que compreenderam que competir individualmente é possível, mas crescer coletivamente é muito mais eficiente. Talvez essa seja uma das principais lições deixadas pelas últimas quatro décadas da cultura da maçã em Santa Catarina.

Fonte:

  • Depoimentos e prática cooperativista observada nos principais polos catarinenses de fruticultura (Fraiburgo e São Joaquim).

Concluo o presente artigo com a convicção de que Lages não carece de vocação natural para a maçã. Carece, isto sim, de continuidade de investimento, de proteção contra o risco climático e de organização coletiva entre seus produtores.

Tenho para mim que os instrumentos hoje disponíveis — do crédito rural oficial do Plano Safra às linhas do BNDES para câmaras frias, passando pelos subsídios estaduais para telas antigranizo e irrigação — são exatamente o que faltou às gerações anteriores de fruticultores da região. E, como detalhei na seção de financiamentos, as taxas de juros subsidiadas e as linhas específicas por porte de produtor tornam esse cenário ainda mais favorável, lembrando sempre que essas condições são redefinidas anualmente pelo Plano Safra, conforme a realidade econômica de cada período.

Se a lição do pomar de 75 hectares perdido para o granizo e a do pomar removido pela falta de armazenamento nos ensinam algo, é que investir em pomar sem investir, ao mesmo tempo, em proteção climática, em capacidade de armazenagem e em cooperação entre produtores é reeditar o mesmo erro.

Penso que Lages tem, hoje, uma segunda chance de se somar a São Joaquim e Fraiburgo nesse mercado que já vale bilhões de reais e que ainda tem apetite crescente lá fora, desde que a cidade aprenda, de fato, com sua própria história, e escolha caminhar de forma coletiva.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com


FONTES – GERAL

  • BRANDT, Suzane Aparecida. Evolução da produção de maçã em Santa Catarina: novas estratégias competitivas. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • BRANDT, Suzane Aparecida. A construção social do mercado de maçã em Fraiburgo/SC. Anais do I Encontro de Economia Catarinense (EEC), 2007.
  • EPAGRI/CEPA — Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola. Boletim Agropecuário. Florianópolis: Epagri, edições mensais.
  • Zoneamento agroclimático e exigência de frio hibernal para a cultura da macieira. Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina.
  • INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Produção Agrícola Municipal (PAM), edições recentes.
  • Governo do Estado de Santa Catarina. Dados sobre acesso rodoviário via BR-282 e SC-390 aos polos produtores da Serra Catarinense.
  • Depoimentos orais de produtores rurais da região de Lages e Serra Catarinense, colhidos em pesquisa de campo sobre a história da fruticultura local.
  • Observatório Agro Catarinense. Boletins sobre safra de maçã na microrregião dos Campos de Lages.

 

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