27 set Porteiras da Serra
As fazendas de Lages
Ao pesquisar a história das fazendas de Lages, percebi que não estava diante de simples propriedades rurais antigas. Encontrei uma história que começa antes mesmo da fundação de Lages, em 1766, e que foi construída pelos tropeiros, pela criação de gado e por famílias que ajudaram a formar a identidade da região.
Decidi reunir parte dessa trajetória neste artigo porque penso que conhecer as antigas fazendas é conhecer um pedaço importante da história do próprio município. As taipas de pedra, os casarões e os antigos caminhos das tropas são marcas de um tempo que ainda está presente na paisagem. E algumas dessas fazendas continuam em atividade até hoje.
O que mais chamou minha atenção foi a mudança que começou nos anos 1980, quando algumas fazendas abriram suas porteiras para o turismo. Lugares que eram só de criação de gado passaram a receber hóspedes e a cuidar da cultura do campo. A Fazenda Pedras Brancas, a Fazenda do Barreiro e o Boqueirão Hotel Fazenda são exemplos dessa virada. 3
Procuro contar essa história de maneira simples e agradável, sem abrir mão dos documentos. Convido você a uma viagem que sai dos campos ocupados pelos primeiros fazendeiros, passa pelas rotas dos tropeiros, chega às fazendas históricas da Coxilha Rica e termina nos hotéis-fazenda que hoje mantêm essa memória viva.
Palavrinhas do campo
Os tropeiros conduziam tropas de gado, mulas e cavalos do Sul do país até as feiras de São Paulo. Para que os animais não se dispersassem, construíam-se as taipas, muros de pedras empilhadas, sem cimento, que cercavam os caminhos e os campos. Elas cortam as coxilhas, colinas suaves e abertas, cobertas de campo, como as da Coxilha Rica, onde ficam muitas das fazendas históricas. Já as sesmarias eram grandes terrenos doados pela Coroa portuguesa a quem se comprometia a ocupá-los e fazê-los produzir.
Antes de Lages, já havia fazenda
Quando pensamos na história de Lages, lembramos logo de Antônio Correia Pinto de Macedo e da fundação da vila de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens, em 22 de novembro de 1766. Mas os campos lageanos já eram ocupados antes disso. Desde pelo menos a primeira metade do século XVIII, a região estava ligada à passagem do gado e ao surgimento das primeiras propriedades rurais. 1
Muito antes de existir uma vila organizada, esses campos faziam parte de uma rota usada por tropeiros, que levavam gado, mulas e cavalos do Rio Grande do Sul para os mercados do Sudeste. Os campos de altitude tinham pasto natural e ajudavam os animais a descansar e se recuperar da viagem. Foi assim que as primeiras fazendas de criação foram surgindo. 1,8
Essa época deixou marcas que ainda podemos ver. As mais conhecidas são as taipas. Segundo a Prefeitura de Lages, a Coxilha Rica conserva hoje mais de cem quilômetros desses muros, considerados patrimônio cultural, histórico e arquitetônico da região. 3
Os documentos permitem voltar ainda mais no tempo. Um dos registros mais antigos é o da Fazenda Sam Felippe, ligada ao sargento-mor Torquato Teixeira de Carvalho. Em 1744, a marca de gado da fazenda foi pedida à Câmara de Curitiba e registrada no mesmo ano. Também há referências às fazendas de Bento Soares e de Francisco de Carvalho, que um documento de 14 de março de 1767 cita como propriedades já existentes nos campos das Lages. 1
16 fazendas, 82 pessoas
Talvez nenhum documento seja tão revelador quanto o levantamento de 1766, feito poucas semanas antes da fundação oficial da vila. A lista, preparada pelo capitão Pedro da Silva Chaves e datada de 28 de outubro daquele ano, registrava 16 fazendas e 82 moradores nos campos das Lages. 1,10
Entre os proprietários aparece o próprio Antônio Correia Pinto, com uma fazenda de dez moradores. O detalhe é curioso: o homem que ficaria conhecido como fundador de Lages já era fazendeiro na região antes de fundar a vila.
Isso mostra que a criação de Lages não foi o começo da ocupação dos campos. Quando a vila nasceu oficialmente, já havia fazendas, gado, moradores e uma economia ligada às tropas.
A fazenda que atravessou os séculos
A Fazenda Grande ajuda a entender essa continuidade. Sua história começa com o capitão português Joaquim José Pereira, que tomou posse das terras em 1764. Dois anos depois, em 1766, a fazenda já aparecia na lista de moradores dos campos de Lages. 2
Até hoje a propriedade segue ligada à criação de gado e também à preservação do Boi Crioulo Lageano. É um exemplo raro de fazenda do século XVIII que mantém a mesma vocação: quase três séculos de distância, mas a mesma paisagem e a mesma atividade. 2
Coxilha Rica: a história a céu aberto
Depois da fundação da vila, novas propriedades continuaram surgindo. As sesmarias, grandes terrenos concedidos pela Coroa portuguesa, ajudaram a distribuir as terras durante o período colonial. 9
A Coxilha Rica se tornou uma das áreas mais importantes dessa história. Ali estão fazendas históricas, corredores de taipa, igrejas, cemitérios e antigos caminhos das tropas.
A Prefeitura de Lages lista, entre as fazendas históricas, a São João, a Cajuru, a São José da Boa Vista, a Tijolinho e a Estrela. 3
Mas a importância dessas propriedades vai além da idade das construções. Elas guardam a memória de um modo de vida ligado ao gado, aos tropeiros e à ocupação dos campos. Algumas seguem na lida rural, e outras também passaram a receber visitantes. 3
Fazendas que resistiram ao tempo
A Fazenda São João foi construída em 1800. Seu casarão, os muros de taipa e as peças originais de madeira foram preservados, e a propriedade pertence à mesma família, os Bianchini, desde 1937. 3,8
A Fazenda Cajuru tem origem em 1865 e também faz parte desse conjunto histórico, com trechos de taipa ligados à propriedade. 3
A Fazenda Pedras Brancas entrou para a história do turismo rural brasileiro. A Prefeitura de Lages informa que a fazenda surgiu em 1897, ligada à família Gamborgi. Uma reportagem sobre o turismo rural fala em uma casa construída em 1868, e por isso as fontes divergem sobre a data de origem. Já em 1983 a casa recebia visitantes para refeições, e em 1985 nasceu ali o Hotel Fazenda Pedras Brancas. 3,8
A Fazenda do Barreiro, na divisa entre Painel e Urupema, também guarda uma história longa. Segundo a Prefeitura, foi fundada em 1763, ou seja, é anterior à própria vila de Lages. Hoje tem mais de 260 anos, com construções de pedra e taipa, uma antiga cozinha de chão e museus que mostram como era a vida nas fazendas da Serra. 3
Nem tudo, porém, resistiu. Um casarão com mais de 200 anos, ligado à antiga Fazenda Cadete, na Coxilha Rica, foi demolido. A Fazenda Cadete servia de apoio às tropas de mulas que chegavam do Rio Grande do Sul, e sua perda mostra que o patrimônio rural só sobrevive se for cuidado o tempo todo. 7
Quando a porteira se abriu
Por muito tempo, as fazendas de Lages viveram quase só da pecuária. A mudança ganhou força nos anos 1980, quando fazendeiros, empresários, técnicos da prefeitura e gente do turismo começaram a conversar sobre como transformar a vida do campo em experiência para visitantes. 3
O guia Matias Liz dos Santos lembra que as primeiras reuniões aconteceram na Biblioteca Pública de Lages. A ideia era fazer o turista ficar mais tempo na cidade e conhecer as paisagens, a cultura campeira, a hospitalidade e o modo de vida do campo, em vez de apenas passar por ela, como faziam os tropeiros. 5
Dessas conversas nasceu o “Dia na Fazenda”, realizado na Fazenda Pedras Brancas, com ordenha, cavalgada, chimarrão e fogo de chão. O que era rotina para o homem do campo virou experiência para quem vinha da cidade. 3,5
Em 1985, Sônia Gamborgi e sua família criaram o Hotel Fazenda Pedras Brancas, que a Prefeitura de Lages identifica como o primeiro hotel-fazenda do Brasil. Ali o visitante passou a encontrar hospedagem, cavalgadas, trilhas, pesca, contato com os animais, roda de chimarrão, apresentações culturais e comida típica. 3
A Fazenda do Barreiro também foi pioneira: começou a servir refeições em 1985 e a receber hóspedes em 1986. 3
Do gado ao hotel-fazenda
O turismo rural de Lages cresceu a partir dessas primeiras experiências. O Boqueirão Hotel Fazenda pertence a uma família dona de fazenda centenária, fundada em 1896. Tudo começou no fim dos anos 1980, quando a família convidou amigos de Florianópolis para passar um fim de semana na fazenda. Segundo a Prefeitura, a partir daí ela passou a abrir suas porteiras a amigos, turistas e visitantes. 3,6
Hoje a Prefeitura reconhece um conjunto de empreendimentos ligados ao turismo rural, entre eles o Hotel Fazenda Pedras Brancas, o Boqueirão Hotel Fazenda, a Pousada Rural do Sesc e várias propriedades da Coxilha Rica que recebem visitantes. Entre os nomes citados estão as fazendas Rio Bonito, São João, Rancho Amigo, São José da Boa Vista e Tijolinho. 3
Em 2025, a Prefeitura destacou que o turismo rural da Coxilha Rica já reunia hospedagem em fazendas e hotéis, além de cavalgadas, trekking, trilhas de veículos 4×4, cicloturismo e enoturismo. 3
A Coxilha Rica também é Capão Alto
Um detalhe importante: a Coxilha Rica não pertence só a Lages. Boa parte dela fica no município de Capão Alto, onde também há paisagens, fazendas históricas e trechos do antigo Caminho das Tropas. 4
Entre os atrativos de Capão Alto estão o Hotel Fazenda Cerro Azul e as fazendas Lua Cheia e Estrela. 4
Para o visitante, os limites entre os municípios importam pouco. O que ele procura é o conjunto: campos, taipas, fazendas, caminhos históricos e vida rural.
O que o visitante procura?
O turismo rural oferece algo cada vez mais valorizado: a chance de viver, por alguns dias, um ritmo diferente do das grandes cidades. Na Coxilha Rica, essa experiência mistura campos, araucárias, fazendas históricas, animais, cavalgadas, trilhas, comida serrana e a cultura tropeira. 3
Por isso, o hotel-fazenda deixa de ser só um lugar para dormir. Ele oferece uma experiência: conhecer o campo, olhar uma paisagem histórica, provar comida típica, andar a cavalo, tomar chimarrão e ouvir histórias de quem vive ali.
Fazendas que contam histórias
Uma fazenda histórica não é só uma construção antiga. O casarão, a taipa, os utensílios, os caminhos e os galpões mostram como viveram e trabalharam gerações de pessoas. Preservar uma fazenda é preservar a memória da pecuária, do tropeirismo e da cultura rural de Lages e da Serra Catarinense. 3
Quando uma propriedade histórica recebe visitantes, essa memória sai dos documentos e chega às novas gerações e a gente de todo o Brasil.
O passado tem futuro
Lages tem um patrimônio que não precisa ser inventado. A história está nas fazendas, nos caminhos das tropas, nas taipas, nos casarões e nas tradições que sobreviveram ao tempo. 3
A Prefeitura trabalha para ampliar o turismo na Coxilha Rica, com obras de infraestrutura, roteiros e ações de valorização do patrimônio. Em 2026, com o Sebrae, a Secretaria Municipal do Turismo realizou a primeira oficina do Roteiro Agroturístico da Coxilha Rica, a Rota Caminho dos Tropeiros, que busca valorizar as fazendas históricas, a cultura tropeira, as experiências rurais e a gastronomia regional. 3
O desafio, portanto, não é só guardar o passado, mas achar formas responsáveis de mantê-lo vivo, conhecido pelos mais jovens e útil para a economia local.
Uma viagem de quase 300 anos
Quem hoje se hospeda em um hotel-fazenda ou visita uma fazenda histórica de Lages talvez não perceba que está entrando numa história iniciada muito antes da cidade. Os registros da década de 1740 e o levantamento de 1766 mostram que a vida rural veio antes da vila. 1
Por esses campos passaram tropeiros, criadores, trabalhadores do campo e famílias inteiras. Eles construíram casas, taipas e caminhos. Algumas fazendas desapareceram, outras foram divididas ou mudaram de cara, e algumas atravessaram gerações. Há ainda as que encontraram no turismo um novo jeito de preservar e contar sua história.
Ao reunir essas histórias, percebo que uma das maiores riquezas de Lages é poder caminhar pelo presente encontrando pistas concretas de um passado com quase três séculos. Quando uma fazenda histórica abre a porteira para receber alguém, ela oferece mais do que hospedagem ou lazer: oferece a chance de conhecer um pedaço da história de Lages e da Serra Catarinense.
Ao concluir esta pesquisa, fiquei convencido de que a história das fazendas de Lages, principalmente as da Coxilha Rica, merece ser conhecida e preservada. Ela não começa com a fundação da vila, em 1766: remonta pelo menos à década de 1740, quando já havia fazendas e criação de gado nos campos das Lages. O levantamento de 1766, com 16 fazendas e 82 moradores, mostra que a ocupação rural veio antes da cidade.
Aprendi também que essas fazendas não são apenas construções antigas. Elas guardam histórias de famílias, de trabalho, de tropeiros e de uma forma de vida que ajudou a formar a identidade de Lages. Para mim, as taipas, os casarões, os caminhos e os objetos preservados são documentos vivos de uma época que precisa ser passada adiante.
Considero especialmente significativa a transformação de parte desse patrimônio em turismo rural. Quando uma fazenda histórica recebe visitantes, ela oferece a possibilidade de conhecer uma história no lugar exato onde ela aconteceu. Pedras Brancas, Barreiro, Boqueirão e outras propriedades mostram que o turismo pode aproximar as pessoas da paisagem, da cultura campeira e da memória da região. 3
Penso que Lages tem nesse patrimônio uma riqueza que precisa de planejamento, cuidado e divulgação. Não precisamos criar uma história para mostrar aos visitantes, porque ela já existe: está nas fazendas centenárias, nas taipas da Coxilha Rica, nos caminhos dos tropeiros, nos costumes campeiros e nas famílias que continuam ligadas à terra.
Por isso, termino com uma ideia que considero essencial: preservar uma fazenda histórica é preservar uma parte da própria história de Lages, e o turismo rural pode ajudar a manter esse patrimônio vivo, gerando conhecimento, trabalho e renda sem perder a autenticidade. As fazendas da Coxilha Rica não são lembranças de um passado distante; são patrimônio vivo. Cabe a nós conhecê-las, preservá-las e garantir que as próximas gerações também possam abrir essas porteiras e encontrar ali a história de onde viemos.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@lgmail.com
Fontes
[1] PREFEITURA DO MUNICIPIO DE LAGES. Lages histórica: bem antes de Antonio Correia Pinto. Texto de Iran Rosa de Moraes, 22 nov. 2022. Disponível em: lages.sc.gov.br.
[2] FAZENDA GRANDE. História da Fazenda Grande. Disponível em: fazendagrande.net.
[3] PREFEITURA DO MUNICIPIO DE LAGES: Páginas e notícias oficiais sobre a Coxilha Rica, as fazendas históricas e o turismo rural (2025–2026). Disponível em: lages.sc.gov.br. [inserir endereço e data de cada página consultada]
[4] PREFEITURA MUNICIPAL DE CAPÃO ALTO. Informações sobre a Coxilha Rica e seus atrativos turísticos, 24 fev. 2026. [inserir endereço da página]
[5] NSC TOTAL. Historiador que ajudou a criar turismo rural em Lages vira personagem de documentário. Disponível em: nsctotal.com.br.
[6] CATRACA LIVRE. Boqueirão mantém viva a origem do turismo rural em Lages (SC). Disponível em: catracalivre.com.br.
[7] SERRA SC. Casarão, de mais de 200 anos, é demolido na Coxilha Rica. Disponível em: serrasc.com.br.
[8] ND MAIS. Como uma aposta pioneira nos anos 1980 transformou a Serra catarinense e criou o turismo rural no Brasil. Disponível em: ndmais.com.br.
[9] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE GENEALOGIA (ASBRAP). Antigos proprietários rurais de Lages. Revista da ASBRAP, nº 6. Disponível em: asbrap.org.br.
[10] KOTCHERGENKO, Tânia Arruda. Lista de fazendas e moradores dos campos das Lages em 1766. Blog Lages Histórica, 9 abr. 2009. Disponível em: lageshistorica.blogspot.com.br.




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