30 abr PREFEITOS DE LAGES: Histórias, Feitos e Legados de quem Governou a Princesa da Serra
Introdução
Nasci em Urubici, fui registrado na Bocaina do Sul e cresci em Lages. Desde cedo, ouvi histórias sobre quem governou esta cidade que os catarinenses chamam com carinho de Princesa da Serra — e, ao longo dos anos, essa curiosidade de infância foi se tornando algo maior: uma vontade de entender como uma cidade se transforma gestão a gestão, mandato a mandato.
Contribuiu para isso o fato de ter acompanhado, entre os 10 e 18 anos, o debate político que fervia no comércio do meu pai — sobre políticas públicas, candidaturas e disputas nos poderes executivo e legislativo, em nível municipal, estadual e federal. Ali, entre clientes e conversas, aprendi que a política não é abstrata: ela chega à vida das pessoas pelo asfalto que falta, pela escola que não tem sala, pelo emprego que some quando uma fábrica fecha. Mais tarde, já adulto, acompanhei diretamente as administrações que se sucederam de Juarez Rogério Furtado a Renato Nunes de Oliveira.
Escrevo este trabalho sem paixão partidária nem preferência por este ou aquele político. Meu olhar se concentra nas realizações dos nossos gestores públicos — os prefeitos eleitos majoritariamente pelos eleitores da terra de Antônio Correia Pinto de Macedo, o primeiro administrador desse lindo rincão serrano.
A história administrativa de Lages começa muito antes do cargo de prefeito existir. Ela tem raízes no período colonial, nos capitães-mores que fundaram a vila e abriram as primeiras estradas até o litoral, e atravessa o Império até chegar à República — quando as câmaras municipais foram dissolvidas e substituídas por intendentes, e a política local começou a tomar a forma que reconhecemos hoje.
Nesse percurso, alguns nomes se destacam pela longevidade ou pela marca que deixaram: Antônio Correia Pinto de Macedo, que fundou Lages em 22 de novembro de 1766 e a governou por quase duas décadas como Capitão-Mor; Bento do Amaral Gurgel Annes, o administrador mais longevo do período colonial, à frente da vila por 27 anos; e João de Castro Nunes, considerado o primeiro superintendente republicano, que assumiu em 1º de março de 1892. Já no século XX, destacam-se Vidal Ramos — que consolidou a influência de sua família na região após a Revolução Federalista — e Otacílio Costa, que representou a chegada da ala liberal ao poder municipal.
Mas o que me moveu a escrever este trabalho não foi apenas o passado distante. Foram também os prefeitos que ouvi falar com admiração desde criança — e que, ao pesquisar, se revelaram ainda maiores do que a memória popular sugeria.
Ouvi falar do prefeito que surpreendeu o Brasil ao vencer a ditadura nas urnas. Do arquiteto que trouxe a democracia para dentro dos bairros, criou um modelo de construcao habitacional sui generis, Hortas Comunitárias e Núcleos Agrícolas, e colocou em prática projetos de Piscicultura, Silvicultura, Apicultura e Fruticultura, entre outros. Dos médicos-prefeitos que calçaram os bairros com lajotas em mutirão com os próprios munícipes, com a missão de pavimentar mais de 500 ruas, e os que colocaram em pratica o Orçamento Participativo e o programa Bairros que Trabalham, voltado ao auxílio dos pequenos empreendedores. Do que substituiu as escolas de madeira por construções de alvenaria. Do que saneou a dívida municipal e colocou em dia os salários dos servidores. Do que criou a Festa do Pinhão e depois a transformou na Festa Nacional do Pinhão. Do que lançou o Turismo Rural e fez de Lages o berço dessa modalidade no Brasil. Do que asfaltou as ruas da cidade. Do que virou governador sem esquecer de onde veio — e, do alto desse cargo, trouxe indústrias, criou condições para a revitalização do centro da cidade, melhorou os acessos à cidade, asfaltou mais de trinta quilômetros na Coxilha Rica viabilizando o plantio de soja e o turismo rural, e equipou os estabelecimentos de ensino com laboratórios.
Cada um ao seu modo deixou uma marca. E foi justamente ao tentar entender essas marcas que percebi que não estava apenas organizando dados biográficos: estava tentando compreender como uma cidade se transforma. Cada prefeito é, de certa forma, um retrato do seu tempo — dos desafios que enfrentou, das escolhas que fez, das obras que ficaram e dos projetos que não vieram. Lages não é a mesma cidade de 1973, quando Juarez Furtado tomou posse como 23º prefeito. E é justamente essa diferença — construída ao longo de décadas — que quero explorar nestas páginas.
Este trabalho não pretende ser uma celebração sem crítica. Pretende ser uma leitura honesta e acessível de governos que tiveram acertos e limitações, inovações e recuos. Cada capítulo começa com uma frase de um pensador reconhecido da administração pública — não como enfeite, mas como convite à reflexão sobre o que significa governar bem.
Uma advertência final: em razão das limitações inerentes à condição humana, este trabalho pode conter omissões, atribuições imprecisas de realizações e políticas públicas, ou falhas na narrativa do histórico político dos prefeitos aqui relatados. Não é má-fé — é a honestidade de quem sabe que a memória, mesmo quando cuidadosa, tem lacunas.
Porque, no fim das contas, governar bem é a pergunta que todos os prefeitos precisam responder — e registrá-lo com fidelidade é o desafio de quem escreve sobre eles.
Capítulo 1
O Fim de uma Era: a Virada Eleitoral de 1972
“Uma eleição é também um indicador do espírito público, um revelador da opinião pública e de seus movimentos.”
— René Rémond, Por uma História Política (2003)
Para entender os prefeitos que governaram Lages de 1973, a 2012, é preciso entender o que havia antes. Durante décadas, a cidade foi o reduto político mais sólido de uma poderosa família: os Ramos. Presidente da República, Governadores, senadores, deputados e prefeitos carregavam o mesmo sobrenome ou deviam ao sobrenome dos Ramos seus cargos e sua influência. Era uma estrutura de poder enraizada na propriedade da terra.
Essa estrutura começou a rachar quando a própria cidade mudou. O ciclo da madeira, nas décadas de 1950 e 1960, trouxe trabalhadores, criou bairros e transformou uma cidade predominantemente rural em uma cidade em acelerada urbanização. A população rural, que era 67% do total em 1960, caiu para apenas 30% em 1970. Esses novos moradores urbanos tinham demandas diferentes — pavimentação, saúde, escola — e não se deixavam convencer tão facilmente pelo compadrio dos velhos coronéis.
Em novembro de 1972, em plena ditadura militar, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) venceu as eleições municipais de Lages elegendo Juarez Furtado prefeito. Era a primeira derrota dos grupos ligados à família Ramos em décadas. A historiadora Elizabeth Farias da Silva identificou três razões para essa virada: a dissidência interna na ARENA (que retirou de campo a sublegenda dos Ramos), o apoio discreto de Emília Ramos — viúva do ex-prefeito Vidalzinho — ao candidato do MDB, e o surgimento de jovens inconformados com o regime. Francisco Küster, um desses jovens, resumiu bem: ‘era coisa de jovem, o inconformismo político’.
A velha Lages havia se surpreendido. E os anos seguintes mostrariam que essa surpresa era o início de uma transformação muito mais profunda.
Capítulo 2
Juarez Rogério Furtado – Prefeito de Lages
“O verdadeiro líder não cria seguidores — cria novos líderes.”
— Tom Peters, In Search of Excellence (1982)
Quem foi Juarez Furtado
Juarez Rogério Furtado nasceu em 1° de abril de 1938, em Lages. Formou-se bacharel em Direito pela Universidade Católica do Paraná em 1964 e atuou como técnico em contabilidade e diretor da Secretaria da Câmara Municipal antes de entrar para a política. Foi vereador em dois mandatos consecutivos (1967–1973), eleito deputado estadual pelo MDB em 1971 e renunciou ao mandato estadual para concorrer à prefeitura. Tomou posse como 23.º prefeito de Lages em janeiro de 1973 e, por fim, foi eleito deputado federal (1979–1983).
O que ele herdou
Juarez Furtado assumiu uma cidade que havia crescido mais rápido do que sua infraestrutura suportava. Bairros sem pavimentação, serviços de saúde concentrados no centro. Por cima disso tudo, o peso de governar como oposição sob ditadura militar — com orçamento controlado, imprensa vigiada e recursos escassos. Ganhar a eleição havia sido difícil. Governar seria ainda mais.
Mandato de 1º de fevereiro de 1973 a 31 de janeiro de 1977
Infraestrutura e urbanismo
A administração Furtado, que se aprofundou estudos em administração pública , criou a primeira área industrial distante do centro da cidade, investiu na abertura e pavimentação de ruas nos bairros periféricos, levando asfalto a quem havia votado nele e que nunca havia visto o poder público de perto. O jornalista Márcio Moreira Alves descreveu esse estilo como o de quem acreditava que ‘governar é abrir estradas’ — uma visão pragmática e direta, que priorizava obras visíveis e com impacto imediato na vida das pessoas.
Pioneirismo nos resíduos sólidos
Um dos feitos mais notáveis — e menos lembrados — de Juarez Furtado foi tornar Lages referência nacional no tratamento de resíduos sólidos. Em 2013, ele foi homenageado em Arapongas (PR) por esse pioneirismo. Entre 1974 e 1975, exerceu a vice-presidência da Associação Brasileira de Limpeza Pública e Resíduos Sólidos (ABLP), projetando o nome de Lages num campo que a maioria das cidades brasileiras ainda ignorava completamente.
Saúde e serviços públicos nos bairros
A expansão dos serviços de saúde e dos serviços públicos em geral para os bairros foi uma marca importante da gestão. A população periférica, que havia votado maciçamente no MDB, passou a ver chegar aos seus bairros serviços que antes estavam concentrados no centro. Essa descentralização, ainda tímida, antecipava a lógica que seria aprofundada por Dirceu Carneiro a partir de 1977.
Qualificação e reconhecimentos
Mesmo no exercício do mandato, Juarez buscou se aperfeiçoar: participou do ‘II Programa de Especialização em Administração Pública’ na Escuela de Alcalá de Henares, em Madri (1975) — atitude incomum entre os prefeitos brasileiros da época. Os prêmios vieram em seguida: Medalha de Ouro como ‘Prefeito n° 1 de Santa Catarina’ (1974), ‘Administrador do Ano’ pelo Grupo Coligadas de SC (1975), ‘Revelação Política do Ano’ pelo Serviço Nacional de Pesquisas (1976) e placa de prata da Assembleia Legislativa do Paraná, que elegeu Lages um dos 20 municípios de maior destaque do Sul do país (1976).
Legado
A administração de Juarez Furtado foi a prova concreta de que o MDB podia não apenas vencer em Lages, mas governar bem. Plantou as sementes do que seria a experiência participativa de Dirceu Carneiro e abriu uma trajetória política que ainda renderia muito: em 1979, foi eleito deputado federal com 38.898 votos; presidiu a Assembleia Legislativa de Santa Catarina — sendo o primeiro lageano a ocupar o cargo —; e criou, em 1980, a Frente Parlamentar Municipalista no Congresso Nacional, reunindo mais de 160 parlamentares em defesa da autonomia dos municípios brasileiros.
Capítulo 3
Dirceu José Carneiro – Prefeito de Lages
“A democracia não é apenas um sistema de governo — é uma forma de vida que exige participação ativa dos cidadãos.”
— John Dewey, The Public and Its Problems (1927)
Quem foi Dirceu Carneiro
Nasceu em 23 de março de 1945 em Caçador, no Meio-Oeste de Santa Catarina, filho de Salomão Batista Carneiro e Universina Ribeiro Carneiro. Cresceu em ambiente interiorano, mas cedo encontrou na vida pública o seu caminho: ainda estudante, presidiu a União Lageana de Estudantes e, anos depois, o Centro Acadêmico da Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre — onde se formou em 1971.
De volta a Lages com o diploma de arquiteto, entrou na política pela porta da confiança: foi vice-prefeito de Juarez Furtado entre 1973 e 1977, aprendendo o ofício de governar ao lado de quem já governava. Em 1976, candidatou-se à prefeitura pelo MDB e venceu com folga — assumindo o cargo em fevereiro de 1977 como o 24º prefeito da cidade.
Dirceu Carneiro propôs para Lages algo que poucos ousavam nomear em voz alta: a democracia participativa. Essa experiência em Lages foi o alicerce de tudo que veio depois: o mandato como Deputado Federal (1983–1987), o Senado (1987–1995), a participação na Constituinte de 1988, a relatoria do Código de Defesa do Consumidor — e o momento em que, como Primeiro-Secretário do Senado, caminhou até Fernando Collor para entregar o documento de seu afastamento e depois empossou Itamar Franco. O arquiteto de Lages ajudou a construir, tijolo a tijolo, a democracia brasileira.
Mandato de 1º de fevereiro de 1977 a 14 de maio de 1982
Uma gestão que o Brasil inteiro olhou
O governo Carneiro foi documentado pelo jornalista Márcio Moreira Alves no livro A Força do Povo (1988) e atraiu a atenção de pesquisadores, governos e organismos internacionais. Lages estava fazendo algo inédito no Brasil: criando diretórios comunitários de bairro, mecanismos de consulta à população e formas embrionárias de orçamento participativo.
Agricultura, campo e produção comunitária
Na área rural, a administração foi ainda mais ousada. A patrulha mecanizada foi amplamente expandida — mais de 50 tratores agrícolas e dois tratores de esteira ficaram à disposição das comunidades rurais. Foram criadas hortas comunitárias, um horto florestal com distribuição gratuita de mudas e sementes de Pinus e Eucalipto, e um horto de mudas de hortaliças e árvores frutíferas. Projetos de piscicultura, silvicultura, cuneicultura, ovinocultura e suinocultura foram implantados, diversificando a produção e a renda no campo.
Mutirão habitacional e participação popular
A gestão também promoveu um mutirão habitacional, permitindo que famílias de baixa renda construíssem suas casas com apoio técnico e material da prefeitura. Era a lógica participativa aplicada à habitação: recursos públicos combinados com força de trabalho comunitária, com resultado concreto para quem mais precisava.
A construção do Terminal Urbano de Passageiros
Trata-se esse Terminal Rodoviário, de um dos marcos mais simbólicos da reorganização urbana de Lages durante a administração do prefeito Dirceu Carneiro.
Arquiteto e urbanista por formação, Dirceu Carneiro trouxe para a gestão pública uma visão moderna de cidade, na qual a mobilidade urbana deixava de ser apenas funcional para se tornar elemento estruturador do desenvolvimento. Foi nesse contexto que surgiu a proposta de implantação de um terminal urbano de passageiros no coração da cidade, integrando linhas de transporte coletivo e facilitando o deslocamento da população.
A escolha da Praça Vidal Ramos Júnior não foi casual. Como ponto central de Lages — espaço de convivência, comércio e circulação intensa — a praça reunia as condições ideais para concentrar o sistema de transporte, permitindo maior eficiência logística e melhor acesso para os cidadãos, especialmente aqueles vindos dos bairros mais afastados.
Mais do que uma obra física, o terminal urbano simbolizou uma mudança de paradigma: a cidade passava a ser pensada de forma integrada, com planejamento técnico e preocupação social. A iniciativa dialogava com outras ações da gestão, voltadas à descentralização dos serviços e à valorização dos espaços públicos.
Com o passar dos anos, o terminal e seu entorno sofreram transformações, acompanhando o crescimento urbano e as novas demandas da população. Ainda assim, permanece como referência histórica de um período em que Lages deu passos importantes rumo à modernização.
O paradoxo da inovação
A experiência de Dirceu Carneiro foi, paradoxalmente, também o limite de sua própria continuidade. A cultura política clientelista, enraizada por décadas, não se dissolve por decreto. Quando o mandato terminou e o contexto político mudou, parte das estruturas participativas perdeu fôlego. Era a prova de que inovações na gestão pública precisam ser institucionalizadas para sobreviver além das gestões que as criaram.
Capítulo 4
Paulo Alberto Duarte – Prefeito de Lages
“A primeira responsabilidade de um líder é definir a realidade. A última é agradecer. Entre uma e outra, o líder é um servidor.”
— Max De Pree, Leadership is an Art (1987)
Quem foi Paulo Duarte
Paulo Alberto Duarte nasceu em Lages em 25 de setembro de 1941. Filho de Galdino João Duarte e Maria Antonieta Nerbass Duarte, formou-se em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1968 e, em 1972, assumiu a direção do Hospital e Maternidade Teresa Ramos em sua cidade natal — cargo que ocupou por uma década, até 1982.
O percurso de médico a prefeito não foi direto. Estreou na política em 1975 como presidente do diretório municipal da Arena, o partido de apoio ao regime militar. Em 1976 disputou a prefeitura de Lages pela primeira vez, sendo derrotado por Dirceu Carneiro, candidato do MDB. A derrota não o afastou. Seis anos depois, candidatou-se novamente pelo Partido Democrático Social e se elegeu, tomando posse em 31 de janeiro de 1983.
O contexto que herdou era árido. Paulo Duarte assumiu a prefeitura logo após o baque das emancipações de Correia Pinto e Otacílio Costa, que levaram consigo duas fábricas de papel e 45% do retorno de impostos ao município. Lages estava, nas palavras dos que viveram o período, no fundo do poço. Era preciso, antes de qualquer coisa, encontrar um caminho para sair de lá.
Mandato de 1º de fevereiro de 1983 a 31 de dezembro de 1988
O Município que precisava de uma nova vocação.
Lages estava posicionada de forma privilegiada no entroncamento das BRs 116 e 282, recebendo diariamente um expressivo fluxo rodoviário. Boa parte desse fluxo era de ônibus com destino às serras gaúchas — Gramado e Canela —, e Lages estava equidistante desses dois pontos. Os turistas usavam o município apenas como parada para um café ou refeição e seguiam viagem.
A cidade estava sendo ignorada por quem passava por ela. O que fazer com isso?
O grupo que reunia empresários do setor hoteleiro, representantes do poder público e guias de turismo se encontrava na Biblioteca Pública de Lages para discutir exatamente essa questão: como transformar Lages de um ponto de passagem em um destino consolidado. A resposta que surgiu dessas reuniões era ao mesmo tempo simples e audaciosa. O objetivo era identificar o que Lages tinha de mais valioso para oferecer — as paisagens, o frio, o ar puro, as araucárias, a hospitalidade e a cultura campeira. Tudo isso podia se tornar experiência, vivência e troca.
O primeiro hotel fazenda do Brasil
A ideia tomou forma concreta em 1984, numa propriedade a cerca de 15 quilômetros do centro da cidade, pela SC-114. Essa análise resultou na criação do primeiro evento-modelo: um “Dia na Fazenda” realizado na Fazenda Pedras Brancas, com atividades como ordenha, cavalgadas e vivência dos costumes locais.
A casa original da Fazenda Pedras Brancas foi construída em 1868 e fez parte do ciclo tropeirista de Lages. A partir de 1983, funcionou recebendo hóspedes que queriam vivenciar o turismo rural, tornando-se o primeiro hotel fazenda do Brasil.
A ideia que alguns chamaram de ridícula funcionou. E funcionou de um jeito que ninguém havia previsto: as fazendas centenárias da região, cercadas por taipas de pedra, campos de coxilhas e araucárias, começaram a receber visitantes e transformaram Lages em uma das primeiras cidades do Brasil a investir nessa modalidade. O que havia começado como um experimento de uma gestão municipal deu origem a um movimento que se espalharia pelo país inteiro.
Hoje, décadas depois, o legado permanece: Lages é considerada “Capital Nacional do Turismo Rural” pelo pioneirismo em oferecer essa modalidade diferenciada de turismo, que busca integrar os visitantes com as tradições locais e proporcionar maior contato com a natureza.
A Festa do Pinhão: de evento local a festa nacional
O turismo rural não foi a única aposta cultural da gestão. Paulo Duarte também foi decisivo no resgate e na projeção nacional da Festa do Pinhão — um evento que havia sido criado em 1973, mas que precisava de impulso para se consolidar.
Em 1989 o evento foi relançado pela prefeitura, e em 1990, na segunda edição da festa após o relançamento, foi obtida sua nacionalização, sendo nomeada Festa Nacional do Pinhão. A iniciativa de transformar uma celebração local em evento de abrangência nacional foi um gesto político e cultural de primeira grandeza: posicionou Lages no mapa turístico do Brasil com uma identidade própria, inconfundível, enraizada na araucária e na cultura serrana.
O ex-prefeito estimulou ainda a Primeira-Dama Mara Lucia Duarte na criação e condução da Festa do Pinhão, construindo ao redor do evento um sentido comunitário que foi além da política: era a cidade se reencontrando com o que tinha de mais genuíno.
Obras, avenidas e a cidade que cresceu
Paulo Duarte modernizou a cidade e construiu avenidas importantes, como a segunda pista da Avenida Belizário Ramos. A expansão viária foi parte de um projeto de reconfiguração urbana que acompanhou o crescimento da cidade e preparou Lages para o fluxo turístico que começava a chegar.
Mas talvez a obra mais singular de sua gestão tenha sido invisível do ponto de vista físico: a recuperação da autoestima da população. Duarte resgatou a autoestima da população e incentivou a cultura tradicionalista. Numa cidade que havia perdido parte significativa de sua base econômica com as emancipações, esse trabalho de reconectar os lageanos com o orgulho de sua própria terra foi tão importante quanto qualquer calçamento ou avenida.
A Escola Itinerante: educação que vai ao aluno
Entre as inovações de sua gestão, a criação da Escola Itinerante merece destaque especial. O modelo foi concebido para atender crianças e adolescentes das zonas rurais mais distantes — aqueles que, pela dispersão geográfica da Serra Catarinense, dificilmente chegariam a uma escola convencional. A escola foi até eles.
A iniciativa sobreviveu à gestão e às décadas subsequentes. Ainda hoje alunos da Escola Itinerante, como os da localidade Fazenda do Baú na Coxilha Rica, estudam num modelo que nasceu sob a gestão Duarte — uma prova de que certas escolhas educacionais têm vida mais longa do que os mandatos que as criaram.
As Comunidades Rurais Organizadas
Paulo Duarte criou as CROs — Comunidades Rurais Organizadas, um projeto voltado a fortalecer o associativismo e a organização coletiva nas áreas rurais do município. As CROs funcionavam como núcleos de articulação comunitária no campo, estimulando a cooperação entre pequenos produtores e a participação ativa das comunidades na vida pública municipal.
A iniciativa dialogava diretamente com a vocação agrária de Lages e antecipava, de certo modo, a lógica que o turismo rural viria a consolidar: a de que o campo não era apenas um espaço de produção, mas também de cultura, identidade e vida coletiva.
O político que fez o seus sucessor
Ao final de seus seis anos de mandato, Paulo Duarte saiu da prefeitura com capital político suficiente para construir carreiras alheias. Duarte fez o sucessor, Raimundo Colombo, com folga, e depois se elegeu deputado federal também com folga.
Nas eleições de 1990, pelo PFL, foi eleito Deputado Federal por Santa Catarina com 47.591 votos, tomando posse na 49ª Legislatura (1991–1995). Era a continuidade natural de uma trajetória ascendente.
Mas o retorno a Lages se mostrou mais difícil. Em 1992, pelo PFL, voltou a concorrer ao cargo de prefeito, conquistou 34.476 votos e ficou na segunda colocação — derrotado justamente por Fernando Coruja, o candidato do PDT que ocuparia o capítulo seguinte desta história. A ironia é que Coruja, ao vencer Paulo Duarte nas urnas, deu continuidade a muitas das iniciativas que Duarte havia plantado — especialmente na área do turismo rural.
O legado
Paulo Alberto Duarte chegou à prefeitura de Lages numa hora difícil, com orçamento reduzido e uma cidade que havia perdido parte de sua base econômica. Saiu seis anos depois deixando algo que nenhuma emancipação poderia levar: uma identidade turística nova, uma festa nacional, uma escola que chegava até quem não conseguia chegar à escola, e a consciência coletiva de que Lages tinha muito mais a oferecer do que um ponto de parada entre duas serras.
No final de seu mandato, muita gente desafiava: “você pode dar uma volta na cidade sem sair de cima das obras de Paulo Duarte.” Era hipérbole, mas era também um retrato de uma gestão que encarou a adversidade com criatividade e deixou marcas físicas e simbólicas que resistiram ao tempo.
O médico que veio da direção de um hospital para a direção de uma cidade tratou Lages como trataria um paciente grave: com diagnóstico honesto, prescrição corajosa e paciência para acompanhar a recuperação. E Lages se recuperou.
Capítulo 5
João Raimundo Colombo –Prefeito de Lages
“Governar é uma questão de experiência acumulada, planejamento honesto e coragem de fazer o que é necessário, mesmo quando não é popular.”
— Woodrow Wilson, The State (1889)
Quem foi Raimundo Colombo
João Raimundo Colombo nasceu em Lages em 28 de fevereiro de 1955, filho de Casemiro Colombo e Tereza Fontana Colombo. Empresário, entrou na vida pública com apenas 26 anos pela liderança de grupos de jovens na Igreja Católica. Antes de ser prefeito, foi supervisor do governo estadual no Planalto Serrano, secretário de Estado, diretor da TELESC e deputado estadual constituinte. Governou Lages por três mandatos, foi presidente da CELESC e da CASAN, deputado federal, senador — com mais de 1,7 milhão de votos — e governador de Santa Catarina por dois mandatos consecutivos, ambos vencidos em primeiro turno.
Primeiro mandato: 1º de janeiro de 1989 a 30 de novembro de 1992
Ordenar para crescer
Com a promulgação da Constituição de 1988, Lages entrou em uma nova era sob o comando de Raimundo Colombo. Como primeiro prefeito eleito sob o novo ordenamento jurídico, Colombo teve o desafio de adequar a legislação municipal às normas constitucionais. No campo tributário, isso significou a implementação de impostos agora de competência municipal, como o ITBI — Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis Inter Vivos, regulamentado pela Lei Municipal nº 1.449/1989 —, e o IVVC — Imposto sobre Combustíveis Líquidos e Gasosos, regulamentado pela Lei Municipal nº 1.448/1989 —, garantindo assim os recursos necessários para o crescimento da cidade.
A primeira gestão teve foco na organização urbana. A Lei nº 1.522/1989 definiu o perímetro urbano do município, estabelecendo as bases legais para o crescimento ordenado da cidade. Foi também nesse período que se iniciou a política de cooperação com a iniciativa privada para manutenção de praças e jardins — empresas adotavam espaços públicos em troca de visibilidade publicitária, reduzindo os custos de zeladoria da prefeitura. Uma ideia simples, prática e eficiente.
No setor de transportes, o antigo terminal rodoviário intermunicipal deu lugar à atual Rodoviária Municipal Dom Honorato Piazera, modernizando o atendimento aos viajantes. A mobilidade urbana deu um salto com o asfaltamento de eixos vitais da cidade, entre eles a Avenida Luiz de Camões, que recebeu pavimentação asfáltica e melhorias estruturais significativas, tornando-se um dos principais acessos da cidade; a Avenida Marechal Floriano, cuja pavimentação foi consolidada como via comercial de fluxo intenso; e a Avenida Dom Pedro II, que passou por asfaltamento e revitalização, transformando-se em um dos maiores corredores urbanos de Lages.
Ao final do mandato, Colombo deixou o cargo para assumir a presidência da CELESC (1993–1994) e depois da CASAN (1995), sendo substituído pelo vice-prefeito Renato Nunes de Oliveira.
Segundo mandato: 1º de janeiro de 2001 a 31 de dezembro de 2004
Formalizar e modernizar
No retorno à prefeitura, o destaque foi para a modernização administrativa e o apoio à produção local. A Lei nº 2.781/2001 criou o Serviço de Inspeção Municipal — o SIM —, que regulamentou a comercialização de produtos artesanais de origem animal e vegetal, abrindo mercados para pequenas agroindústrias que antes operavam na informalidade. A Lei Complementar nº 148/2001 organizou o processo administrativo tributário e criou o Conselho Municipal de Contribuintes. O transporte Casa-Escola para crianças com deficiência foi outro avanço concreto dessa gestão.
O grande marco de infraestrutura do período foi a construção do Ginásio Jones Minosso. Com ordem de serviço assinada em 23 de janeiro de 2002, o ginásio foi inaugurado no mesmo ano para sediar os Jogos Abertos de Santa Catarina — o JASC. A obra tornou-se um símbolo da modernização da cidade, consolidando Lages como polo regional capaz de integrar desenvolvimento urbano e bem-estar social.
Terceiro mandato: 1º de janeiro de 2001 a 31 de dezembro de 2004
Digitalizar e incluir
Curto, mas produtivo. A Lei nº 3.336/2006 instituiu o sistema eletrônico do ISSQN, modernizando a arrecadação municipal. Foram fortalecidos o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, e sancionadas leis de apoio a entidades de caráter social. Em março de 2006, Colombo renunciou ao cargo para disputar o Senado.
Os números que dizem tudo
Em 2008, foi eleito senador com mais de 1,7 milhão de votos. No Senado, foi recordista em apresentação de projetos em 2009, com 80% deles considerados de alta relevância pelo Portal da Transparência. Em 2009, publicou o livro Povo tem Nome, Rosto e Endereço — sua declaração de princípios sobre o que é, afinal, governar para as pessoas.
Capítulo 6
Renato Nunes de Oliveira – Prefeito de Lages
“A continuidade administrativa não é falta de ambição — é respeito ao que foi construído e responsabilidade com o que ainda precisa ser entregue.”
— Chester Barnard, The Functions of the Executive (1938)
Quem foi o Renatinho
Renato Nunes de Oliveira nasceu em 1947, na cidade de Lages. Homem de família, era casado e pai de seis filhos, mantendo uma vida pessoal pautada em valores tradicionais como responsabilidade, dedicação e proximidade com seus entes queridos.
Buscando crescimento e qualificação, formou-se em Direito, consolidando-se como advogado — profissão que lhe proporcionou não apenas estabilidade, mas também uma visão mais ampla das demandas sociais e institucionais. Nos últimos anos de vida, Renato enfrentou um grande desafio pessoal: o diagnóstico de mieloma múltiplo, um tipo de câncer que afeta a medula óssea.
Após anos de luta contra a doença, faleceu em 26 de agosto de 2015, em Lages, aos 68 anos.Sua partida gerou forte comoção na comunidade lageana, reflexo da relação de proximidade que construiu ao longo de sua vida.
Renato Nunes de Oliveira atuava politicamente desde 1980, quando passou a exercer funções partidárias, entre as quais secretário e presidente do diretório municipal do então PDS — hoje Partido Progressista. Advogado de formação, veio de uma origem muito humilde e fez um esforço enorme para estudar e se formar em direito — uma trajetória que marcaria seu estilo de governar: próximo das pessoas, sem distância entre o cargo e a rua.
Antes de ser vice-prefeito, foi assessor jurídico da Câmara de Vereadores de Lages por 15 anos, de fevereiro de 1985 a dezembro de 2000. Conhecia o município por dentro — suas leis, suas lacunas, seus procedimentos. Quando chegou ao Executivo pela primeira vez, sabia exatamente onde apertar.
Primeiro mandato: 1º de janeiro de 2006 a 31 de março de 2006
Em 2006, quando Raimundo Colombo renunciou para disputar — e vencer — o Senado, Renatinho passou a ocupar o cargo de prefeito. Chegou à chefia do Executivo pela porta da lealdade, não pela da disputa. E governou como quem sempre soube que chegaria lá. Renatinho assumiu a Prefeitura de Lages pela primeira vez em caráter interino, quando Raimundo Colombo deixou o cargo de prefeito para assumir a presidência da CELESC. Seu perfil era o de um gestor técnico e discreto, comprometido com a estabilidade institucional e a continuidade das políticas em andamento.
Segundo mandato: 1º de abril de 2006 a 31 de dezembro de 2008
Para o prefeito Renatinho, assumir a prefeitura por um mandato inteiro foi um desafio de equilíbrio — manter o que funcionava e imprimir identidade própria sem ruptura. Fez isso com naturalidade.
Compilação de Legislações Específicas do Código Tributário e Guia Prático do Contencioso Administrativo Tributário
Uma das primeiras iniciativas de sua gestão foi de natureza técnica, mas de alcance amplo. Em 2007, a prefeitura sob comando de Renatinho e Walter Manfroi (Secretario de Finanças), Walmor Tadeu Schweitzer (Julgador de Processos Fiscais), organizou e publicou um livro reunindo a Compilação de Legislações Específicas do Código Tributário Municipal e o Guia Prático do Contencioso Administrativo Tributário. A obra foi elaborada em atendimento a uma solicitação direta do Sindicato dos Contabilistas de Lages e fundamentada na Lei nº 721/1983 — o Código Tributário Municipal — e suas alterações posteriores, bem como na Lei Complementar nº 148/2001, que disciplina o Contencioso Tributário.
O resultado foi um documento ao mesmo tempo técnico e acessível. Reuniu em um único volume normas até então dispersas: as regras do ISQN, as normas de retenção e substituição tributária, os incentivos fiscais e as isenções tributárias, além de um organograma completo do fluxo de tramitação dos processos do Contencioso Administrativo Tributário. Para contribuintes, contadores e gestores públicos, foi como ganhar um mapa num labirinto.
A impressão gráfica e a distribuição de mil exemplares foram patrocinadas pelo Conselho Regional de Contabilidade de Santa Catarina — o CRC/SC —, o que permitiu que a obra chegasse gratuitamente a quem mais precisava dela. O livro cumpriu um duplo propósito: facilitar a pesquisa da legislação tributária municipal e atender a uma antiga reivindicação da classe contábil lageana, que há muito aguardava um instrumento de consulta organizado, completo e de fácil acesso.
Terceiro mandato: 1º de janeiro de 2009 a 31 de dezembro 2012
Em 2008, candidatou-se à eleição como cabeça de chapa e venceu com 42.634 votos, ou 46,89% da preferência dos eleitores da maior cidade da Serra Catarinense. O resultado era um voto de confiança depositado novamente pela população.
Renato Nunes de Oliveira é o tipo de gestor que a história política tende a esquecer, mas que as cidades precisam. Organizar, consolidar e entregar — sem protagonismo, mas com plena consciência de que sua contribuição é insubstituível.
Saneamento básico
Na infraestrutura urbana, a gestão avançou no saneamento básico: concluiu a rede de esgoto nos bairros São Cristóvão e Sagrado Coração de Jesus, e a Estação de Tratamento de Esgoto — a ETE — no bairro Caça e Tiro. São obras que não aparecem em manchetes, mas chegam às casas das pessoas como dignidade concreta — a dignidade de ter esgoto tratado.As obras de saneamento chegaram a regiões que esperavam por infraestrutura básica havia décadas
Construção de Centros de Educação Infantil e de Academias ao Ar Livre
A gestão Renatinho ficou marcada, sobretudo, por obras que chegaram onde as obras raramente chegam. A gestão foi marcada por diversas realizações no município: a construção de três mil casas populares, reformas de escolas, construção de centros de educação infantil e de academias ao ar livre.
As academias ao ar livre, distribuídas pelos bairros, levaram saúde e convivência a quem não tinha acesso a espaços de lazer. Os centros de educação infantil ampliaram a rede de atendimento às crianças pequenas — e às mães e pais que podiam trabalhar com mais tranquilidade.
Edificação de Casas Populares
Três mil casas populares não é um número qualquer. É o equivalente a uma cidade inteira dentro de uma cidade — famílias que saíram de situações precárias para um endereço fixo, uma porta com chave, um chão de cimento. Em qualquer gestão municipal, esse seria o feito central. Na gestão Renatinho, foi apenas um dos capítulos.
Marginais da BR-282 e Revitalização de Ruas e Avenidas
Uma das apostas mais ambiciosas da gestão Renatinho na área de infraestrutura urbana foi a obra das vias marginais da BR-282. O projeto previa a construção das marginais entre o acesso do aeroporto e a rótula do bairro São Francisco, com o objetivo de ampliar a capacidade da travessia urbana da cidade — incluindo um túnel ao lado do Hospital Infantil Seara do Bem, passando por baixo da Avenida Luiz de Camões, e um viaduto na Avenida Duque de Caxias para garantir acesso livre ao centro. A obra exigiu articulação direta com o DNIT — o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes — e representou um esforço de integração entre os governos municipal e federal para resolver um dos principais gargalos de mobilidade da cidade.
Paralelamente, a gestão promoveu o asfaltamento e a revitalização de vias estruturantes da malha urbana. A Avenida Duque de Caxias e a região da Ponte Grande receberam pavimentação e melhorias que beneficiaram diretamente o fluxo de veículos e a qualidade de vida dos moradores do entorno. Essas intervenções não foram obras isoladas: faziam parte de um esforço contínuo de completar e consolidar a malha viária que gestões anteriores haviam iniciado, chegando a bairros e corredores que ainda aguardavam sua vez no cronograma da cidade.
Asfalto não é apenas conforto. É acesso a emprego, a escola, a saúde. Cada quilômetro pavimentado encurta distâncias que, para quem depende do transporte público ou de bicicleta, fazem diferença concreta no dia a dia. A gestão Renatinho entendeu isso — e fez da infraestrutura viária uma das prioridades de seus mandatos.
O homem por trás do prefeito
O apelido “Alma Lageana” diz tudo sobre como a cidade o guardou na memória. Não como o prefeito das grandes obras — embora as obras tenham sido grandes. Mas como o homem que governou com o coração voltado para a cidade onde nasceu, estudou, trabalhou e construiu uma vida inteira de serviço público.
Em 2018, a Câmara de Vereadores de Lages batizou sua nova biblioteca com o nome de Renato Nunes de Oliveira — uma homenagem singela e precisa. Um homem que passou 15 anos assessorando o Legislativo, que estudou direito com esforço e sacrifício, que governou uma cidade com humildade e deixou três mil famílias com casa própria merecia, no mínimo, ter seu nome numa biblioteca.
O legado
Renato Nunes de Oliveira não chegou à prefeitura pelo caminho mais vistoso. Chegou pelo caminho mais longo — 15 anos de assessoria jurídica, legislação tributária sistematizada, esgoto tratado onde não havia, dois mandatos de vice-prefeito e uma renúncia do titular que o alçou ao cargo que ocuparia por dois mandatos consecutivos. É o retrato de uma carreira construída tijolo a tijolo, sem atalhos.
O que fez com o cargo foi direto ao ponto: habitação popular, educação infantil, saúde nos bairros, saneamento onde faltava e asfalto onde a cidade ainda era de terra batida. Não foi a gestão dos grandes anúncios. Foi a gestão das grandes entregas.
Lages o chamou de Alma Lageana. Poucos títulos são mais merecidos.
Capítulo 7
Carlos Fernando Agustini – o “Coruja” – Prefeito de Lages —
“O governo mais eficiente é o que mais se aproxima da realidade das pessoas — não apenas em discurso, mas em presença.”
— Robert K. Greenleaf, Servant Leadership (1977)
Quem foi o Coruja
Carlos Fernando Agustini nasceu em Lages em 4 de dezembro de 1954. Filho da cidade que governaria décadas depois, construiu sua trajetória política a partir de baixo: foi vereador na 11ª Legislatura (1989–1992) pelo PFL e, em 1992, elegeu-se prefeito pelo PDT, derrotando candidatos com mais recursos e mais estrutura partidária. A vitória já dizia algo sobre seu estilo: o Coruja nunca foi o candidato do poder estabelecido. Era o candidato do povo.
Depois do mandato à frente da Prefeitura, construiu uma longa carreira no plano federal, exercendo três legislaturas consecutivas como deputado federal (1999–2011). Em 2017, assumiu uma cadeira efetiva na Assembleia Legislativa de Santa Catarina — completando uma trajetória de quase três décadas de mandatos ininterruptos.
O apelido “Coruja” acompanhou toda essa trajetória. E não é difícil entender por quê: a imagem do pássaro que enxerga no escuro, que está atento quando os outros dormem, traduz bem a postura de um político que ficou conhecido por estar presente onde e quando ninguém esperava — especialmente nos bairros mais distantes e nas horas mais difíceis.
Mandato de 1º de janeiro de 1993 a 31 de dezembro de 1996
O legislador que protegeu os idosos
Antes de examinar o que o Coruja fez em Lages como prefeito, vale registrar o que ele fez pelo Brasil como deputado federal — porque poucos lageanos sabem que seu nome está ligado a uma das legislações sociais mais importantes do país.
O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) é frequentemente associado ao nome de Paulo Paim, o parlamentar que liderou o processo de sua aprovação. Mas o texto final da lei foi resultado da unificação de múltiplas propostas, e uma delas veio justamente de Fernando Coruja. Em 1999, logo no início de seu primeiro mandato como deputado federal, Coruja apresentou o Projeto de Lei nº 183/1999, que dispunha especificamente sobre a criação de um Estatuto do Idoso.
Sua proposta tinha características que a tornavam relevante e inovadora. Inspirada no modelo do Estatuto da Criança e do Adolescente, ela buscava estender à pessoa idosa o conceito de proteção integral — ou seja, a garantia de direitos fundamentais e sociais com mecanismos concretos de fiscalização e enforcement. Um dos pontos mais debatidos de seu projeto era a criação de Conselhos Tutelares específicos para idosos, replicando a estrutura que havia dado certo na proteção à infância. Coruja também atuou, anos depois, com o Projeto de Lei nº 1.855/2007, voltado a corrigir lacunas do Estatuto aprovado para garantir a gratuidade no transporte intermunicipal dentro de um mesmo estado.
O PL 183/1999 foi formalmente declarado prejudicado após a sanção do Estatuto do Idoso — o que é o desfecho natural de uma proposta cujas ideias são absorvidas por um texto mais amplo. Mais do que o crédito formal, o que importa registrar é que o deputado lageano foi um dos arquitetos do debate que resultou nessa lei, e que suas contribuições estão, de alguma forma, embutidas em cada artigo que protege os mais velhos deste país.
O prefeito que estava nos bairros
Mas voltemos a 1993. O traço mais marcante da gestão Agustini foi algo difícil de quantificar em obras ou decretos: a presença. Essa proximidade com a população não era estratégia de campanha — era uma forma de governar. As demandas chegavam a ele diretamente, e as respostas precisavam ser igualmente diretas.
Essa postura de “servidor-líder” — para usar o conceito de Greenleaf, autor da citação que abre este capítulo — marcou cada uma das iniciativas da gestão. Não por acaso, as políticas mais importantes do período têm em comum a participação ativa da comunidade. O governo do Coruja não fazia para as pessoas: fazia com as pessoas.
Orçamento Participativo: a comunidade decide
Colocou em prática o Orçamento Participativo. Foi talvez, o ato mais significativa da gestão — e uma das mais avançadas de Santa Catarina naquele momento. O mecanismo era simples em seu conceito, mas revolucionário em sua consequência: nas reuniões de bairro, os moradores debatiam e votavam onde o dinheiro público deveria ser investido.
Era democracia direta aplicada à gestão municipal. Num período em que o Brasil ainda assimilava a redemocratização e a nova Constituição tinha apenas cinco anos de vigência, abrir o orçamento à deliberação popular era um gesto político de grande significado. O Orçamento Participativo aproximou o poder público da população, fortaleceu o senso de cidadania e criou um canal real — não retórico — entre o governo e os governados.
Mutirão de Lajotas: calçamento com a mão do povo
Se o Orçamento Participativo foi a inovação institucional, o Projeto Mutirão de Calçamento das Ruas de Bairros foi a inovação operacional da gestão. O modelo era engenhoso na sua simplicidade: a prefeitura produzia e fornecia as lajotas; os moradores entravam com o cimento, a areia e, principalmente, a mão de obra. Juntos, construíam as ruas.
O resultado foi a expansão da pavimentação em dezenas de bairros a um custo muito inferior ao de obras convencionais. Mas o ganho maior era intangível: as comunidades que construíram suas próprias ruas desenvolveram um senso de pertencimento que nenhuma empreiteira poderia entregar. Rua calçada por vizinhos é rua que a vizinhança cuida.
Retificação do Rio Carahá: proteção contra as enchentes
Entre as obras de infraestrutura, a retificação do Rio Carahá foi uma das intervenções mais relevantes. As enchentes que afetavam sistematicamente as áreas mais baixas e vulneráveis da cidade eram um problema recorrente, que atingia sempre os mesmos bairros e sempre as mesmas famílias — as que tinham menos recursos para se recuperar. A retificação do Carahá foi uma resposta técnica a um problema social: exigiu articulação, vontade política e capacidade de execução, e a gestão Agustini a realizou.
LagesPrevi: previdência para quem serve
A criação do LagesPrevi — instituto de previdência dos servidores municipais — foi um avanço estrutural que ultrapassa o período da gestão em seus efeitos. Garantir que os funcionários públicos tivessem um sistema previdenciário próprio, organizado e sustentável era mais do que uma medida administrativa: era um compromisso de longo prazo com as pessoas que dedicam suas carreiras ao serviço público.
A iniciativa representou um passo concreto na modernização financeira da Prefeitura, e seus reflexos se fazem sentir até hoje na estrutura previdenciária do município.
O legado
Carlos Fernando Agustini, o Coruja, deixou uma marca que vai além das obras elencadas. Sua gestão foi a afirmação prática de uma ideia simples, mas frequentemente esquecida pelos governantes: o município existe para servir às pessoas — não o contrário.
Orçamento participativo, mutirão com a comunidade, presença nos bairros, proteção aos servidores e infraestrutura para os mais vulneráveis. Cada política da sua gestão apontava na mesma direção. E foi essa consistência — entre discurso e prática, entre proposta e execução — que transformou um vereador do PFL em um prefeito do PDT querido por Lages, e esse prefeito em um deputado que ajudou a escrever uma lei que protege os idosos de todo o Brasil.
Capítulo 8
Décio Ribeiro – Prefeito de Lages
“A boa administração pública não é aquela que controla as pessoas — é aquela que cria as condições para que elas se desenvolvam.”
— Mary Parker Follett, Creative Experience (1924)
Quem foi Décio Ribeiro
Décio Ribeiro da Fonseca nasceu em Lages em 19 de julho de 1952. Médico formado pela PUC-RS, com pós-graduação em Dermatologia e Medicina do Trabalho, foi Secretário Municipal de Saúde de Lages entre 1983 e 1988, Conselheiro Estadual de Saúde e, em 1994, eleito deputado estadual pelo PDT com 12.380 votos. Em 3 de outubro de 1996, venceu as eleições municipais derrotando Raimundo Colombo, e assumiu o mandato em 1° de janeiro de 1997. Presidiu ainda a Associação dos Produtores de Leite de Lages e a Associação Médica da Serra.
O médico que governou como médico
Décio Ribeiro, de formação médica, moldou sua visão de gestão: olhar para os problemas da cidade com cuidado diagnóstico, buscando as causas antes de tratar os sintomas. Isso se traduziu em uma administração orientada à organização dos sistemas, ao acesso da população aos serviços e à transparência dos processos.
Mandato de 1º de janeiro de 1997 a 31 de dezembro de 2000
Mutirão de Calçamento: obra comunitária
Décio manteve e fortaleceu o modelo do Mutirão de Calçamento de Bairros. A lógica era a mesma desenvolvida na gestão anterior: prefeitura produz as lajotas, comunidade entra com cimento e areia. O resultado foi a expansão contínua da pavimentação urbana em um município com orçamento limitado, com o benefício adicional de engajar os moradores na manutenção de suas próprias ruas.
Bairros que Trabalham (BQT): empreendedorismo popular
Um dos projetos mais inovadores de sua gestão foi o ‘Bairros que Trabalham’ (BQT). A iniciativa identificava empreendedores nos bairros, oferecia capacitação profissional e facilitava o acesso ao crédito, com o apoio do SEBRAE e da ACIL. Em suas fases iniciais, o BQT foi considerado um sucesso e antecipou, em nível local, políticas que mais tarde se tornariam estratégias nacionais de apoio às micro e pequenas empresas. O projeto era, em essência, uma aposta de que o desenvolvimento econômico começa pelos próprios bairros.
Manual do Contribuinte e Balcão Tributário
A gestão Décio Ribeiro avançou de forma expressiva na modernização do relacionamento entre o poder público e o contribuinte — numa época em que a burocracia tributária era, para a maioria dos cidadãos, um labirinto sem mapa.
O Manual do Contribuinte foi uma das iniciativas mais práticas desse esforço. Reuniu, de forma clara e acessível, todas as informações necessárias para que o cidadão entendesse seus direitos e obrigações fiscais: documentação exigida por tipo de solicitação, prazos, taxas, formulários padronizados, legislação tributária comentada, calendário anual de obrigações e indicadores econômicos do município. Mil exemplares foram impressos e distribuídos gratuitamente a empresários, contadores e advogados — os profissionais que mais diariamente precisavam dessa clareza para orientar seus clientes e cumprir suas obrigações.
O Balcão Tributário complementou essa iniciativa no plano do atendimento presencial. Centralizou em um único ponto de contato todos os serviços que antes obrigavam o contribuinte a percorrer diferentes setores da prefeitura: consulta de débitos, emissão de certidões e guias, protocolização de recursos, orientação sobre parcelamentos e apresentação de defesas administrativas. Tudo com linguagem acessível e sem a dispersão burocrática que tornava o atendimento tributário uma experiência desgastante.
Em um tempo anterior às plataformas digitais, esse tipo de atendimento integrado era uma inovação real e de impacto concreto. Simplificar o acesso à informação fiscal não é um detalhe administrativo — é um ato de respeito ao cidadão que paga seus impostos e merece saber exatamente o que deve, como pagar e quais são seus direitos quando discorda.
Plano Diretor de Informática
A gestão implementou ainda o Plano Diretor de Informática, com foco na modernização dos sistemas administrativos, na integração de dados entre setores e na preparação da prefeitura para processos mais ágeis e informatizados. Era um investimento no futuro — preparar a máquina pública para uma realidade que ainda estava por vir.
O legado
Décio Ribeiro é o tipo de prefeito que governa mais para a instituição do que para o espetáculo. Seu legado não está em obras monumentais, mas na organização cuidadosa que permite que uma prefeitura funcione melhor — e que o cidadão seja tratado com respeito, clareza e eficiência. O Mutirão de Calçamento, o Bairros que Trabalham, o Manual do Contribuinte e o Balcão Tributário são instrumentos que, juntos, fortaleceram a relação entre o poder público e a população lageana de forma duradoura.
Conclusão
Ao percorrer as administrações que conduziram Lages da virada eleitoral de 1972 até o final do século XX, chego a uma convicção simples e, ao mesmo tempo, profunda: cada prefeito foi, antes de tudo, um filho do seu tempo. Juarez Furtado respondeu ao inconformismo de uma cidade que não queria mais ser governada pelo coronelismo. Dirceu Carneiro respondeu ao desejo de participação de uma população que havia descoberto que tinha voz. Paulo Duarte respondeu à crise fiscal com pragmatismo e obras concretas. Raimundo Colombo respondeu à complexidade crescente da gestão urbana com planejamento e continuidade. Renato Nunes de Oliveira respondeu ao momento de transição com organização e responsabilidade. O Coruja respondeu à demanda por proximidade e democracia participativa. Décio Ribeiro respondeu à necessidade de modernização administrativa e desenvolvimento econômico local.
Nenhum deles foi perfeito — e afirmar o contrário seria desonesto. Governar é fazer escolhas difíceis, muitas vezes entre alternativas igualmente imperfeitas. Mas o que se pode dizer com segurança é que cada um desses gestores, ao seu modo, tentou servir ao interesse público acima do interesse próprio. E que Lages, ao longo dessas décadas, teve a capacidade de escolher governantes que — nas suas diferenças de estilo, de partido e de visão — contribuíram para que a cidade fosse crescendo, se organizando e se tornando mais capaz de atender às necessidades de sua gente.
A Princesa da Serra não foi construída por reis. Foi construída, tijolo a tijolo e lajota a lajota, por sua própria gente — e pelos homens e mulheres que tiveram a honra e a responsabilidade de governá-la. Que este artigo sirva para lembrar quem foram esses gestores e o que deixaram para os que vieram depois.
Autor: Walmor Tadeu Schweitzer
Contato: walmor1953@gmail.com
Fonte:
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- BARNARD, Chester I. The Functions of the Executive. Cambridge: Harvard University Press, 1938.
- CARREIRÃO, Yan de Souza. Eleições e Sistema Partidário em Santa Catarina: 1945–1979. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1990.
- COLOMBO, João Raimundo. Povo tem Nome, Rosto e Endereço. Florianópolis: Edições Dédalo, 2009.
- DE PREE, Max. Leadership is an Art. New York: Doubleday, 1987.
- DEWEY, John. The Public and Its Problems. New York: Henry Holt, 1927.
- FOLLETT, Mary Parker. Creative Experience. New York: Longmans, Green and Co., 1924.
- GREENLEAF, Robert K. Servant Leadership: A Journey into the Nature of Legitimate Power and Greatness. New York: Paulist Press, 1977.
- LENZI, Carlos Alberto Silveira. Partidos e Políticos de Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1983.
- MEMÓRIA POLÍTICA DE SANTA CATARINA — ALESC. Biografias: Juarez Furtado, Carlos Fernando Agustini. Disponível em: memoriapolitica.alesc.sc.gov.br. Acesso em: abr. 2026.
- RÉMOND, René (Org.). Por uma História Política. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2003.
- SILVA, Elizabeth Farias da. O fracasso da oposição no poder — Lages: 1972–1982. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1994.
- THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
- WILSON, Woodrow. The State: Elements of Historical and Practical Politics. Boston: D.C. Heath and Company, 1889.
- MEMORIAS DO AUTOR.
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