Que empresas podemos criar em Lages?

Que empresas podemos criar em Lages?

A força do talento lageano em prática

Confesso: até pouco tempo, eu não conhecia toda a dimensão do trabalho realizado pelo Orion Parque Tecnológico. Sabia que ele existia e reconhecia sua importância. Mas foi ao conhecer sua história, seus programas, suas startups e sua conexão com o ecossistema de inovação de Santa Catarina que passei a enxergá-lo de outra maneira.

Não se trata apenas de um prédio moderno, nem de um espaço para jovens empreendedores. O Orion é a base de um novo ciclo econômico para Lages e para a Serra Catarinense. Para entender por quê, vale começar por uma pergunta incômoda: quantos jovens talentosos a cidade já perdeu porque não encontrou aqui o ambiente para desenvolver o que sonhava fazer?

Não considero errado sair. Estudar fora e conhecer outros lugares faz parte da vida. O que precisamos questionar é por que não criamos condições para que parte desses talentos possa permanecer, empreender e prosperar aqui.


Uma história que começou antes do prédio

A ideia surgiu em 2007, por iniciativa de empresários que queriam trazer à Serra um centro voltado à inovação. No ano seguinte, nasceu o Núcleo de Tecnologia da Informação da ACIL, com a participação da UDESC, da UNIPLAC e do IFSC. Em 2011, o projeto passou a integrar a então Rede Catarinense de Polos de Inovação. As obras começaram em 2013, e o Orion foi inaugurado em 24 de junho de 2016.

Foram cerca de nove anos entre a ideia e a inauguração. Grandes projetos não nascem prontos: exigem visão, persistência e, sobretudo, continuidade. Neste ano, o Orion completa dez anos de funcionamento.


O que um parque tecnológico faz de verdade

Uma startup pode começar com algo simples: alguém que identifica um problema e imagina outra maneira de resolvê-lo. A dificuldade está em transformar a ideia em negócio. Alguém precisa dessa solução? Alguém pagaria por ela? É possível crescer?

É aí que entram incubadoras, mentorias, investidores, universidades e parques tecnológicos. Imagine um jovem de Lages com uma boa ideia, mas sem plano de negócio, sem investidores e sem saber como abrir uma empresa. Sozinho, talvez desista. Num ambiente com mentores, empresas e outros empreendedores, a história pode ser outra. A incubadora não garante o sucesso, mas cria as condições para a ideia ser testada e chegar ao mercado.


Os resultados já aparecem

Em outubro de 2017, o Orion tinha quatro empresas residentes; no ano seguinte, eram 26. Hoje são 49 empresas vinculadas, entre residentes e virtuais. Em 2023, elas faturaram R$ 209 milhões e recolheram R$ 5,5 milhões em ISS.

Há casos de projeção nacional. A NDD detém 52,7% do mercado de parques de impressão monitorados no Brasil. A ATPlus, de telecomunicações, tem mais de 4 mil clientes. A Scienco produz insumos estratégicos para pesquisas em saúde. Na incubadora Épsilon, YouDeserve e Connect Carbon foram aprovadas na MIDITEC, uma das melhores incubadoras do mundo.


O que Florianópolis e Joinville ensinam

Esses resultados não surgiram do acaso, e outras cidades catarinenses já percorreram esse caminho. Em 1986, Florianópolis abriu a primeira incubadora de base tecnológica do país, com apenas sete empresas. Percebeu que as universidades produziam conhecimento e talento e criou um caminho para transformá-los em empresas e empregos. Não aconteceu em quatro nem em oito anos: foi resultado de continuidade.

Joinville, cidade fortemente industrial, mostrou que tecnologia e indústria podem caminhar juntas, com o Ágora Tech Park e a aproximação entre estudantes, universidades e empresas. Santa Catarina, por sua vez, construiu uma rede estadual de Centros de Inovação, da qual Lages faz parte.


A nova economia e o ponto central

Durante muito tempo, desenvolvimento significava grandes indústrias, a ativação da ferrovia Tronco Sul, o porto seco, o aeroporto regional, obras públicas e empresas que chegam de fora. Tudo isso continua sendo importante.

Mas há hoje uma economia em crescimento: a do conhecimento. Nela, o que mais gera valor não são prédios nem máquinas, e sim ideias, talento e capacidade de inovar. Uma empresa pode nascer com poucos funcionários e vender para o Brasil e o mundo. O que antes exigia grandes instalações e muito dinheiro pode começar com uma boa ideia e uma conexão à internet.

E aqui está o ponto central: o desenvolvimento de Lages já não depende exclusivamente de empresas de fora fazerem grandes investimentos. As empresas já instaladas aqui têm capacidade de expandir seus negócios com as tecnologias e soluções desenvolvidas no Orion. Isso é uma verdadeira revolução.


Lages não precisa ser outra cidade

Não penso que Lages deva tentar ser uma nova Florianópolis, Blumenau, Chapecó ou Joinville. Seu caminho parte do que já existe: agronegócio, madeira, indústria, alimentos, turismo, saúde, educação, universidades e um vasto território rural. Cada setor enfrenta desafios, e são eles que podem virar oportunidades de inovação.

Vejo potencial na tecnologia para o agronegócio da Serra, nos processos da indústria e da cadeia da madeira e no uso da inteligência artificial dentro das empresas. No campo, as soluções podem alcançar a pecuária e a agricultura: produção e comercialização de gado e de peixes, venda de sêmen, produção de matrizes de ovinos, suínos e bovinos e cultivo de soja e milho.

A cadeia da carne e do leite também tem espaço para crescer. Podemos valorizar os frigoríficos que processam a carne de sabor marcante, fruto do pasto da Coxilha Rica, modernizar os laticínios e impulsionar a bacia leiteira. Um passo simbólico seria reativar a antiga Lactoplasa, marca conhecida dos lageanos. Com gestão profissional e produtos de maior valor agregado, ela pode voltar a ser viável e lucrativa, absorvendo o leite da região e gerando empregos aqui.

O turismo rural pode crescer com o mesmo apoio. Fazendas, pousadas, roteiros no campo e eventos como a Festa Nacional do Pinhão podem ganhar plataformas de divulgação e reservas que levem a cultura da Serra a visitantes de todo o país.


Uma nova pergunta para Lages

Muito se pergunta: “Que empresa podemos trazer para Lages?” Talvez seja hora de acrescentar outra: “Que empresas podemos criar em Lages?”

Não é abandonar o que já fazemos. Podemos continuar produzindo madeira e alimentos, recebendo turistas e formando profissionais, mas também desenvolvendo a tecnologia que torna tudo isso mais eficiente e valioso. A inovação não precisa substituir o que Lages já faz. Pode ajudar a fazer melhor e a agregar valor.


O maior patrimônio de Lages

Nosso maior patrimônio não está apenas na terra, nas empresas ou nas florestas. Está nas pessoas: no estudante que gosta de tecnologia, na jovem que criou uma solução e não sabe como transformá-la em negócio, no professor que pesquisa, no empresário que precisa resolver um problema, no investidor que procura oportunidades. É desse encontro que nasce um ecossistema, e o Orion é uma das principais pontes para que ele aconteça aqui.


O futuro pode nascer aqui

Eu sei que Lages tem talento. Sei que muitos dos nossos filhos que partiram poderiam ter encontrado aqui oportunidades que, no passado, simplesmente não existiam. Compreendi que o Orion pode ajudar a mudar essa história. Não será de um dia para o outro: Florianópolis levou décadas, e Joinville também construiu sua trajetória com o tempo. Mas toda grande transformação começa com uma ideia e avança com persistência, trabalho e pessoas.

Por isso, tenho convicção de que Lages está diante de uma grande oportunidade, e de que o Orion é o motor de um novo ciclo econômico para a cidade e para a região. O desafio não é apenas trazer o futuro para Lages, mas criar condições para que ele nasça aqui. E se algumas das grandes soluções que procuramos estiverem sendo imaginadas agora por jovens que vivem entre nós?

O futuro está mais perto do que imaginamos. Ele já começou, e está sendo formado dentro do Orion, das nossas universidades, das nossas escolas e, principalmente, na cabeça dos nossos jovens.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor 1953@gmail.com


Fontes

  • Orion Parque Tecnológico: história, programas, incubação e resultados das empresas.
  • Fundação CERTI/CELTA: história da primeira incubadora de base tecnológica do Brasil, em Florianópolis.
  • Ágora Tech Park: ecossistema de inovação de Joinville.
  • Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC): Rede Catarinense de Centros de Inovação.
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