Terras raras: riqueza e poder

Terras raras: riqueza e poder

O desafio brasileiro não é só extrair minerais estratégicos, mas transformá-los em conhecimento, empregos e desenvolvimento dentro do país.

O Brasil guarda uma riqueza que pode ganhar peso decisivo nas próximas décadas: as terras raras e outros minerais críticos, indispensáveis a motores elétricos, turbinas eólicas, satélites, eletrônicos e sistemas de defesa.     

 

Na disputa entre Estados Unidos, China e União Europeia por matérias-primas estratégicas, esses recursos deixaram de ser apenas tema de mineração. Passaram a integrar a agenda de segurança econômica, inovação e soberania nacional.

A oportunidade é histórica, mas ter reservas não faz de ninguém uma potência tecnológica. A abundância de recursos só vira desenvolvimento duradouro quando acompanhada de conhecimento, industrialização e políticas públicas consistentes.


O que são e por que importam

As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos com propriedades essenciais para a tecnologia moderna. O nome engana: a dificuldade não está na escassez, mas em encontrar concentrações economicamente viáveis e dominar os processos de separação e refino. Elas são especialmente relevantes para ímãs permanentes de alto desempenho. Não se confundem, porém, com todos os minerais críticos, como lítio, grafita, níquel e cobre, nem são o principal insumo dos chips, que dependem sobretudo do silício.


Um mercado concentrado

Segundo a Agência Internacional de Energia, a China respondeu em 2024 por cerca de 60% da produção mundial de terras raras usadas em ímãs, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados. Essa concentração torna vulneráveis as cadeias dos setores automotivo, energético, eletrônico e de defesa.

Estados Unidos e União Europeia buscam diversificar fornecedores. Para o Brasil, isso abre portas a investimentos e parcerias, desde que negocie com inteligência e não aceite o papel de simples exportador de matéria-prima.


O que o Brasil tem, e o que ainda não sabemos

O Brasil está entre os países com maiores reservas do mundo. O Sumário Mineral Brasileiro 2025, da Agência Nacional de Mineração, aponta 11,4 milhões de toneladas de reservas, cerca de 13,9% do total mundial estimado. Esse número difere da estimativa de 21 milhões de toneladas, muito citada em 2025 e 2026, o que mostra a importância de informar ano, metodologia e categoria sempre que se divulgam dados.

Há ocorrências em Minas Gerais (Araxá, Poços de Caldas, Tapira), Goiás (Catalão, Minaçu), São Paulo (Jacupiranga), Amazonas (Pitinga) e outros estados. Ocorrência, porém, não é reserva comprovada nem garantia de viabilidade econômica. Não existe hoje uma tabela nacional que permita atribuir volumes certificados a cada estado.


Caçapava do Sul: potencial, não promessa

Em agosto de 2025, pesquisas da Universidade Federal de Santa Maria, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade Federal do Pampa identificaram em Caçapava do Sul rochas carbonatíticas com concentrações expressivas de terras raras, em Passo Feio e Picada dos Tocos. Há interesse também em nióbio e tântalo. Os estudos, porém, ainda estão em fase de caracterização.

Caçapava deve ser vista como oportunidade de desenvolvimento regional, não como riqueza imediata. O caminho passa por ampliar a pesquisa, formar profissionais, atrair investimento responsável e avaliar a instalação de etapas de beneficiamento no próprio estado. Assim, os ganhos alcançam trabalhadores, universidades, fornecedores e comunidades, e não apenas as mineradoras.


Da extração ao valor

Adam Smith, em A Riqueza das Nações, mostrou que a produtividade nasce da especialização e da divisão do trabalho. Aplicada à mineração, a lição é direta: extrair é apenas a primeira etapa de uma cadeia que inclui separação química, refino, produção de ligas e fabricação de ímãs. Cada etapa exige tecnologia, energia, capital e mão de obra qualificada. Se o Brasil parar nas primeiras fases, outros países ficarão com o conhecimento, os empregos e o valor dos produtos finais.

Defendo, por isso, uma política industrial que estimule o processamento nacional, sem ingenuidade. Não basta decretar que o minério seja beneficiado aqui. É preciso criar condições de competitividade, com infraestrutura, pesquisa, crédito, segurança jurídica e energia confiável. Parcerias estrangeiras são bem-vindas se formarem profissionais e transferirem conhecimento.


A lição do petróleo

O Brasil tem refinarias e produz diesel, mas em 2025 exportou cerca de 765 mil barris diários de petróleo bruto e importou cerca de 115 mil barris diários de diesel, segundo a Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras). São médias anuais, que não significam que metade do pré-sal seja exportada, mas ilustram uma verdade: ser produtor de uma matéria-prima não garante autossuficiência nos produtos derivados.

Com as terras raras, o risco é semelhante. O objetivo não deve ser autossuficiência absoluta a qualquer custo, e sim reduzir vulnerabilidades. O que não faz sentido é descobrir uma riqueza estratégica, exportá-la sem planejamento e depois importar, a preço maior, produtos que poderíamos fabricar em condições competitivas.

Quem está construindo essa estratégia no Brasil

O país não parte do zero. Há um conjunto de governos, cientistas, escolas técnicas e empresas trabalhando no planejamento e no desenvolvimento tecnológico dessa riqueza. O problema é que esses esforços ainda precisam ser melhor articulados.

Governo e Congresso Nacional. Em 16 de setembro de 2026, o presidente da República sancionou a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei prevê um Fundo Garantidor da Atividade Mineral com aporte de R$ 2 bilhões da União, e um decreto criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável por coordenar, planejar e acompanhar a política. O Senado aprovou o projeto em 2 de setembro, e o texto integrava as prioridades legislativas do governo para 2026. O relator na Câmara dos Deputados, deputado Arnaldo Jardim, defendeu que o objetivo seja desenvolver uma cadeia industrial interna de produtos com valor agregado, e não apenas extrair recursos. Durante o debate, o governo também defendeu a criação da Terrabras, empresa pública voltada à gestão e à exploração de minerais estratégicos. Na produção de conhecimento geológico, atuam a Agência Nacional de Mineração e o Serviço Geológico do Brasil, cujas informações embasam o mapeamento dos principais depósitos do país.

Ministérios e programas de fomento. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação reúne unidades de pesquisa como o Centro de Tecnologia Mineral, e um estudo prospectivo do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos já apontava, em 2012, a existência de capacidade científica avançada no país. O projeto MagBras, aprovado no programa federal Mobilidade Verde e Inovação, recebeu R$ 73,3 milhões para estruturar uma cadeia produtiva completa de terras raras.

Cientistas, universidades e centros de pesquisa.   

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Terras Raras foi proposto em 2014 e reuniu pesquisadores da Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras, do Centro de Tecnologia Mineral, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, da Universidade Federal de Santa Catarina, da Universidade de São Paulo e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. Uma nota técnica recente da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais cita ainda a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade Federal de Minas Gerais, e afirma que a ciência brasileira já domina as rotas para produzir ímãs permanentes. O que falta, segundo o documento, são plantas-piloto e infraestrutura industrial. O Centro de Tecnologia Mineral e outros grupos pesquisam também a chamada mineração urbana, que recupera terras raras de ímãs, baterias e lâmpadas já descartados e reduz o impacto ambiental. No Rio Grande do Sul, as universidades federais de Santa Maria, do Rio Grande do Sul e do Pampa lideram os estudos em Caçapava do Sul.

Escolas técnicas e indústria. O Centro de Inovação e Tecnologia para Ímãs de Terras Raras, em Lagoa Santa (Minas Gerais), é mantido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Já produz, em caráter experimental, ímãs de neodímio-ferro-boro, com capacidade para até cem toneladas por ano. É descrito como o primeiro laboratório de ligas e ímãs de terras raras do Hemisfério Sul, e o tema também é debatido no Conselho Temático de Mineração da Confederação Nacional da Indústria. O centro recebeu o primeiro lote de carbonato de terras raras produzido a partir de material extraído no território brasileiro. O projeto MagBras é coordenado pelo engenheiro Luís Gonzaga Trabasso.

Empresas privadas. A mina Serra Verde, em Goiás, era, em maio de 2026, a única mina de terras raras em operação no país. A empresa australiana St George Mining, do Projeto Araxá, enviou amostras de óxidos de terras raras ao centro de Lagoa Santa para testes. Esse dado também revela uma fragilidade: segundo o Observatório da Mineração, os projetos relevantes de terras raras no Brasil têm controle no exterior.

A conclusão é que existem pesquisadores, laboratórios, escolas técnicas, empresas e, agora, uma lei. Mas o país ainda é exportador primário de concentrados e importador de produtos acabados. Falta ligar a mina ao laboratório, e o laboratório à fábrica.


O que a nova lei muda e o que ainda falta

 

A sanção da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos é um passo importante, mas uma lei não é uma indústria. O desafio agora é a execução, em quatro frentes.

Primeiro, ampliar o conhecimento geológico e manter dados transparentes, com uma Agência Nacional de Mineração fortalecida. O aumento de 485,4% nas autorizações de pesquisa entre 2021 e 2025, divulgado pela agência, mostra que o tema ganha espaço.

Segundo, integrar mineração e política industrial: pesquisa aplicada, formação de engenheiros e técnicos, plantas-piloto de separação e refino e tecnologias nacionais.

Terceiro, negociar sem submissão. Estados Unidos, China e União Europeia podem ser mercados e parceiros, mas o Brasil deve evitar compromissos que limitem o desenvolvimento de sua indústria, diversificando parceiros e analisando os contratos com rigor.

Por fim, nenhuma estratégia séria ignora o meio ambiente. A atividade gera rejeitos, consome água e energia e usa substâncias químicas. Licenciamento transparente, fiscalização efetiva, recuperação de áreas e diálogo com as comunidades devem estar no planejamento desde o início, inclusive em Caçapava do Sul, onde o patrimônio geológico merece proteção.


Conclusão

A pergunta decisiva não é quanto minério existe no subsolo brasileiro, mas quanto conhecimento, tecnologia e desenvolvimento seremos capazes de construir a partir dele. Para isso, precisamos de governos responsáveis, instituições sólidas, empresas inovadoras e uma sociedade atenta às decisões sobre seu patrimônio natural.

O Brasil não deve se contentar em ser fornecedor das potências tecnológicas. Deve se tornar um país capaz de processar esses minerais, desenvolver tecnologia e produzir os bens que moverão a economia do futuro.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1955@gmail.com


 

 

Fontes

  • Agência Internacional de Energia. Rare Earth Elements: Pathways to Secure and Diversified Supply Chains, 2026.
  • Agência Nacional de Mineração. Sumário Mineral Brasileiro 2025 (seção terras raras) e notícia de 14/10/2026 sobre o aumento das autorizações de pesquisa.
  • Universidade Federal de Santa Maria. Pesquisa sobre rochas com terras raras em Caçapava do Sul (08/08/2025).
  • Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Estudo sobre minerais estratégicos na transição energética (08/04/2026).
  • Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras). Dados de produção e comercialização.
  • Agência Brasil. Sanção da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (17/09/2026).
  • Congresso em Foco. Aprovação da política pelo Senado (02/09/2026).
  • Revista Pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Reportagens sobre o ciclo produtivo de terras raras e a mineração urbana.
  • Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais. Nota técnica sobre terras raras (dezembro de 2025).
  • Observatório da Mineração. Ficha informativa sobre terras raras no Brasil (2026).

 

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