Wolny Della Rocca: Uma Vida de Serviço a Lages

Wolny Della Rocca: Uma Vida de Serviço a Lages

Algumas pessoas deixam marcas pelo poder que exerceram; outras, pela forma como trataram as pessoas. Wolny Della Rocca conseguiu reunir essas duas qualidades. Tive a felicidade e o privilégio de conhecê-lo em diversas oportunidades, quando, pela manhã, ele tomava café no comércio de meu pai antes de seguir para o trabalho na Companhia Catarinense de Águas e Saneamento S/A – CASAN, sediada no Bairro São Cristóvão, em Lages. Nossas conversas eram sempre agradáveis  e permeadas por seu característico bom humor. Era uma figura encantadora, sempre estimada, que marcou época em Lages por uma administração ao mesmo tempo dinâmica e profundamente humana.

Ao recordar sua trajetória, não pretendo apenas enumerar cargos, datas ou obras realizadas. Desejo, sobretudo, resgatar a memória de um homem cuja presença irradiava serenidade e confiança; de um gestor que compreendia que administrar uma cidade significava, antes de tudo, cuidar das pessoas. Era impossível não perceber sua simplicidade, sua cordialidade e o profundo carinho que nutria por Lages.

Cada obra executada, cada decisão tomada e cada responsabilidade assumida fizeram parte de uma visão de futuro construída com competência técnica, espírito público e sensibilidade humana. É com esse misto de saudade e admiração que registro, a seguir, os principais capítulos de sua vida — da herança empresarial da família Della Rocca à gestão que preparou Lages para o seu Bicentenário.


Resumo da Trajetória

Nascido em uma tradicional família empreendedora da Serra Catarinense, Wolny Della Rocca formou-se engenheiro químico e exerceu o cargo de prefeito de Lages entre janeiro de 1961 e janeiro de 1966, por indicação do PSD, sucedendo Osny Régis e Vidal Ramos Júnior. Sua administração, lembrada como enérgica e progressista, deixou obras concretas na cidade e coincidiu com um dos momentos mais delicados da história recente do Brasil: a mudança na condução do governo federal, ocorrida em 1964.

Encerrado o mandato — cumprido por opção pessoal em apenas um período —, dedicou-se à criação da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), instituição para a qual contribuiu decisivamente com seu conhecimento técnico. Além disso, teve participação ativa no esporte, assumindo a presidência do Internacional e apoiando a renomeação do Estádio Ponte Grande para Estádio Municipal Vidal Ramos Júnior (Tio Vida).

Faleceu em 16 de julho de 2019, deixando um legado reconhecido oficialmente pela Prefeitura de Lages e eternizado com a denominação de uma rua em sua homenagem. Sua memória permanece viva tanto na história administrativa de Lages quanto no reconhecimento oficial que lhe foi prestado pela comunidade.


Origem Familiar: O Berço de uma Vocação Empreendedora

Toda grande trajetória começa muito antes da vida pública. Ela nasce nos valores cultivados pela família.

Em Lages, o nome Della Rocca está diretamente ligado à história do desenvolvimento urbano e empresarial da cidade. Pedro Della Rocca, patriarca da família, destacou-se como um empresário visionário, responsável pela construção de diversos empreendimentos e imóveis que ajudaram a moldar o centro da cidade.

Entre suas realizações está o Hotel MAP, erguido por Pedro Della Rocca em sociedade com mais dois sócios, e batizado com as iniciais dos três nomes: Manoel, Ari e Pedro. Bem em frente ao hotel, na esquina, funcionava a Corema — Companhia Revendedora de Motores e Automóveis —, concessionária de veículos e caminhões da qual Pedro era sócio-proprietário e que teve grande relevância comercial em Lages ao longo da década de 1960.

A atuação empresarial da família também se estendeu ao setor de transportes. Entre as décadas de 1940 e 1970, um imóvel de propriedade de Pedro Della Rocca, localizado na Rua Manoel Thiago de Castro, abrigou a primeira rodoviária intermunicipal de Lages. Situado em uma área central e de fácil acesso para a época, foi ali que se organizaram as primeiras linhas oficiais de ônibus, conectando Lages a outras cidades e regiões de Santa Catarina — um fator determinante para o fortalecimento do comércio local e a circulação de pessoas.

Foi nesse contexto de empreendedorismo, planejamento e visão de futuro que Wolny Della Rocca, filho de Pedro, construiu sua formação pessoal e profissional. Observando de perto a trajetória do pai, absorveu valores como responsabilidade, capacidade de planejamento e comprometimento com resultados duradouros. Essa vivência foi essencial para formar um administrador que soube unir conhecimento técnico, iniciativa e compromisso com o interesse coletivo.

Anos depois, na década de 1960, Wolny Della Rocca daria continuidade a esse legado ao assumir a prefeitura de Lages, conduzindo o município por um período de intensas transformações urbanas e consolidando seu nome na história política de Santa Catarina.


Formação Profissional: A Técnica Colocada a Serviço das Pessoas

Antes de ser prefeito, Wolny foi engenheiro.

Sua formação em Engenharia Química lhe proporcionou uma visão racional, organizada e planejadora da administração pública. Ao longo da vida, uniu o rigor técnico de sua formação à sensibilidade de um gestor atento às necessidades concretas da população. Contudo, o conhecimento técnico jamais obscureceu sua sensibilidade humana.

Sabia que números, projetos e cálculos somente têm sentido quando resultam em benefícios concretos para a população. Essa combinação entre conhecimento científico e sensibilidade social tornou-se uma das marcas de sua atuação pública, sendo decisiva não apenas durante seu mandato à frente da Prefeitura de Lages, mas também, décadas depois, em sua contribuição para a estruturação do saneamento básico catarinense.

Mais tarde, essa sólida preparação seria fundamental para sua participação na criação da Casan, onde aplicaria sua experiência em favor do saneamento básico do estado.


Prefeito de Lages (1961–1966): Administrar Olhando para o Futuro

Ao assumir a Prefeitura de Lages, encontrou uma cidade que ainda carecia de infraestrutura básica. Eleito pelo PSD, Della Rocca governou Lages entre janeiro de 1961 e janeiro de 1966, sucedendo os prefeitos Osny Régis e Vidal Ramos Júnior. Por opção pessoal, cumpriu apenas um mandato.

As ruas, exceto as principais do centro da cidade e dos bairros Coral e Copacabana, eram predominantemente de chão batido; os recursos financeiros eram escassos e as necessidades da população cresciam rapidamente. Em relato posterior, recordou aquele período com franqueza: era uma época em que a cidade carecia de infraestrutura básica — sem calçamento e com poucos recursos —, o que, segundo ele, tornava mais simples agradar a população, já que “tudo o que se fizesse era bem aceito”. Ainda assim, reconhecia que a cobrança da sociedade lageana era mais branda do que a de hoje, refletindo um tempo de expectativas mais modestas quanto ao poder público.

Mesmo diante dessas limitações, Wolny Della Rocca demonstrou capacidade administrativa, espírito realizador e serenidade para enfrentar os desafios. Anos depois, recordava aquele período com sua característica simplicidade, afirmando que “qualquer melhoria era recebida com entusiasmo pela população”. Essa observação revela muito mais do que uma comparação entre épocas; revela uma cidade em transformação e um prefeito que soube compreender as prioridades de seu tempo.

Sua gestão caracterizou-se por decisões práticas, obras consistentes e permanente preocupação com o desenvolvimento urbano.


Obras que Transformaram Lages

As administrações públicas passam; as boas obras permanecem.

Foi durante sua gestão que importantes intervenções urbanas modificaram definitivamente a paisagem de Lages, muitas das quais permanecem visíveis até hoje.

O asfaltamento de uma das vias da Avenida Presidente Vargas foi realizado em seu período, representando um avanço extraordinário para a mobilidade urbana, contando com o apoio do 2º Batalhão Rodoviário do Exército — a mesma tropa responsável pela construção da atual BR-116, então conhecida como BR-2.

Também sob sua administração foram concluídas a Avenida Duque de Caxias e o Cemitério da Penha. Outra realização marcante foi a pavimentação em concreto da Praça da Catedral. Antes disso, o local transformava-se em barro nos dias de chuva, dificultando o acesso dos fiéis. A obra deu dignidade a um dos espaços mais simbólicos da cidade.

O abastecimento de água ao Bairro Coral representou outro importante passo na melhoria das condições de vida da população, entre outros empreendimentos que classificava, com orgulho contido, como “importantíssimos para Lages”.

Cada uma dessas realizações demonstrava uma administração preocupada não apenas com o presente, mas com o futuro de Lages.


Um Prefeito em Tempos de Profundas Transformações Nacionais

Poucos administradores tiveram de governar em um período de tamanha instabilidade política.

O ano de 1964 colocou Della Rocca diante de uma decisão delicada. Com os acontecimentos de 31 de março que resultaram na mudança do governo federal, relatou ter recebido a visita de um oficial do Exército interessado em saber “de que lado” ele estava. Optou por se alinhar ao novo governo, ainda que — em suas próprias palavras — “meio a contragosto”.

Em depoimentos posteriores, relatou com serenidade aquele momento delicado. Seu relato demonstra equilíbrio e honestidade intelectual ao distinguir o período inicial do governo do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, que descreveu como relativamente calmo, das dificuldades que se intensificariam após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), quando as restrições às liberdades democráticas se tornaram mais severas.

Sua postura revela o desafio enfrentado por inúmeros gestores municipais que precisaram administrar suas cidades em meio às turbulências políticas nacionais daquele período. Na época, o clima político apresentava-se tenso, conforme evidenciado por registros em jornais de Lages.


Preparando Lages para o Bicentenário

Poucos prefeitos têm a oportunidade — e a visão — de preparar sua cidade, com dois anos de antecedência, para uma celebração histórica de tamanha importância. Della Rocca foi um deles, e essa antecipação, a meu ver, diz muito sobre o tipo de administrador que ele foi: alguém capaz de enxergar além do calendário imediato de obras e cobranças, e de investir tempo político em algo tão intangível quanto a memória de uma cidade.

Fundada em 1766, Lages se preparava, durante o mandato de Della Rocca, para celebrar seu Bicentenário em 1966, em homenagem ao desbravador Antônio Correia Pinto de Macedo. O jornal Correio Lageano acompanhou de perto esse período histórico, registrando os preparativos que mobilizavam a cidade.

Antes do término de seu mandato, Dr. Wolny Della Rocca sancionou a Lei nº 213/1964, que criou comissões organizadoras para o planejamento das celebrações do Bicentenário. Considero esse gesto mais significativo do que costuma parecer à primeira vista: não se tratava de um ato meramente protocolar, mas de uma decisão deliberada de transformar uma data em projeto coletivo. As festividades previstas na referida lei envolveram toda a comunidade por meio de comissões responsáveis pela coordenação geral, divulgação, esportes, indústria, urbanismo e recepção — um arranjo que, ao reunir áreas tão distintas, revela a compreensão de que celebrar Lages exigia mobilizar a cidade em sua totalidade, e não apenas o poder público.

Della Rocca compreendeu que o Bicentenário deveria fortalecer a identidade lageana, valorizando sua história, sua cultura e seu sentimento de pertencimento. A própria administração municipal organizou grandes festividades para marcar a data, consolidando o legado de uma gestão que soube unir obras estruturais a um forte senso de identidade e memória local. É esse equilíbrio, entre o concreto e o simbólico, que me parece ser um dos traços mais admiráveis de sua passagem pela prefeitura: poucos gestores conseguem, ao mesmo tempo, calçar ruas e cultivar memória. Ao antecipar-se ao marco de 1966, Della Rocca deixou claro que celebrar uma cidade não é apenas lembrar seu passado, mas prepará-la, com organização e cuidado, para recebê-lo à altura. As celebrações consolidaram uma cidade que olhava para o futuro sem perder o respeito por suas raízes.


Depois da Prefeitura: A Missão de Construir Saúde Pública

Concluído o mandato, poderia ter encerrado sua vida pública. Escolheu, porém, continuar servindo à sociedade. Nesta foto, ainda à frente da CASAN, em Florianópolis, Wolny é registrado em despacho com o então governador Esperidião Amin.

 

Transferiu-se para Florianópolis, onde colocou sua formação técnica a serviço do estado. Participou ativamente da formulação da Casan, processo concluído entre o final do governo de Ivo Silveira e o início da gestão de Colombo Machado Salles.

Ali, colocou seu conhecimento técnico a serviço de um dos maiores desafios da administração pública: ampliar o acesso à água tratada e ao saneamento básico. Figura carismática e respeitada entre os colegas, foi eleito pelos próprios funcionários da companhia como representante no Conselho Deliberativo da Casan — reconhecimento direto de sua liderança técnica e humana, demonstração inequívoca da confiança conquistada por sua competência, ética e capacidade de diálogo.


O Reconhecimento de uma Cidade Agradecida

O tempo costuma ser o mais justo dos juízes.

Décadas após sua administração, Lages reconheceu oficialmente a importância de sua contribuição. Em 2020, a Câmara Municipal de Lages aprovou o Projeto de Lei nº 0025/2020, denominando “Rua Wolny Della Rocca” a via localizada no Bairro Boqueirão, com início na Avenida Papa João XXIII e término na Rua 8.570. A placa indicativa, conforme determina a lei, traz os dizeres: “Rua Wolny Della Rocca — Ex-Prefeito Lageano”.

A denominação da via pública representa mais do que uma homenagem administrativa. É um símbolo da gratidão de uma cidade que soube reconhecer aquele que trabalhou para melhorar sua infraestrutura, fortalecer seus serviços públicos e preparar seu desenvolvimento futuro. Até hoje, seu nome segue sendo lembrado com carinho pela gestão que desenvolveu à frente do maior município do Planalto Serrano.

Enquanto existir essa rua, seu nome continuará fazendo parte da memória cotidiana dos lageanos.


A Despedida de um Grande Cidadão

No dia 16 de julho de 2019, Lages despediu-se de um de seus ex-prefeitos mais respeitados.

Wolny Della Rocca faleceu na terça-feira, dia 16 de julho de 2019, aos 90 anos de idade, após enfrentar um câncer. O velório ocorreu na Capela São Benedito, seguido de cerimônia de cremação na quarta-feira seguinte. Por meio do Decreto nº 17.647, a Prefeitura de Lages decretou luto oficial no município em sua memória.

 

Entretanto, as maiores homenagens não se encontram apenas nos decretos ou nas cerimônias oficiais. Elas permanecem na lembrança daqueles que conviveram com ele, dos servidores públicos que aprenderam com seu exemplo e dos cidadãos que ainda hoje usufruem das obras realizadas durante sua administração.

 

 


Conclusão

Ao encerrar este registro sobre a trajetória do Dr. Wolny Della Rocca, faço-o com a certeza de estar prestando uma singela homenagem a alguém que tive a sorte de conhecer pessoalmente. Guardo dele a lembrança de um homem alegre, acessível e genuinamente dedicado ao bem público — qualidades que se refletiram tanto nas obras que deixou como prefeito quanto na contribuição técnica que ofereceu à Casan em benefício de todo o estado.

Nunca buscou projeção pessoal. Preferia que suas realizações falassem por si. Exercia a liderança com naturalidade, cultivando o diálogo, a simplicidade e a cordialidade. Sua educação refinada jamais o afastou das pessoas; ao contrário, aproximava-o delas.

Como prefeito, realizou obras que contribuíram para modernizar Lages. Como engenheiro, ajudou a construir uma instituição fundamental para Santa Catarina. Como ser humano, deixou um patrimônio ainda mais valioso: o exemplo de que a verdadeira grandeza está em servir.

Os homens passam; as cidades permanecem. Contudo, algumas pessoas conseguem permanecer também na memória coletiva, porque transformam o lugar onde viveram e enriquecem a vida daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-las.

Assim foi Wolny Della Rocca. Sua história confirma que a boa administração não se mede apenas por decretos e inaugurações, mas pela forma humana e generosa com que se conduz o serviço à coletividade. Foi assim que Wolny viveu — e é assim que continuará sendo lembrado por Lages.

Seu nome pertence, com justiça, ao patrimônio histórico e afetivo de Lages, permanecendo como referência de uma administração séria, eficiente, profundamente humana e inspirada pelo sincero desejo de servir à sua comunidade.

Autor: Walmor Tadeu Schweitzer

Contato: walmor1953@gmail.com


Fontes

Para conferir credibilidade acadêmica e histórica ao artigo, recomenda-se indicar as seguintes fontes consultadas:

  • Arquivo Histórico Municipal de Lages
  • Acervo do Jornal Correio Lageano, especialmente edições referentes ao período de 1961 a 1966 e às comemorações do Bicentenário de Lages
  • Entrevistas concedidas por Wolny Della Rocca à imprensa lageana
  • Arquivo da Prefeitura de Lages
  • Lei Municipal nº 4.471/2020 (denominação da Rua Wolny Della Rocca)
  • Decreto Municipal nº 17.647/2019 (luto oficial pelo falecimento de Wolny Della Rocca)
  • Acervo da Câmara de Vereadores de Lages
  • Acervo institucional da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan)
  • Depoimentos e memórias de contemporâneos, familiares e amigos
  • Pesquisa e organização do autor

 

Essa relação demonstra que o trabalho se apoia em documentos oficiais, fontes jornalísticas, registros institucionais e testemunhos históricos, conferindo maior consistência e valor documental ao artigo.

 

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